Lettres de Paris #61 a #64


Ma maison me manque

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ou não sei o que é. Depois da visita da Sílvia e do Guilherme, das celebrações dos 50 anos de ambas e de três dias com eles, fiquei hoje a modos que ‘em baixo’. Ou não sei o que é. Não é que esteja farta de Paris. Ninguém no seu perfeito juízo poderá, objetivamente, ficar farto de Paris (bom… sou capaz de pensar em duas ou três situações em que isso pudesse acontecer), é evidente. Mas começo, talvez, a sentir falta da minha casa, do meu gabinete, das minhas coisas, das rotinas diárias. Essas coisas. Ou não sei o que é. A verdade é que ultimamente, desde há 4 ou 5 dias, o tempo tem estado muito cinzento e chuvoso. Não aquela chuva desempoeirada, que cai com abundância. Mas uma chuvinha chata, poucochinha mas continuada, que enche tudo de uma espécie de viscosidade que aborrece. Isso e a poluição. Tenho tosse há dois ou três dias e chateia-me tossir. Também me doi o polegar da mão esquerda. E isso também me chateia. Enfim, estou lamurienta, queixinhas e ‘em baixo’ e portanto deduzo que tenho saudades de casa, sendo casa tudo o que a mesma significa, como é evidente.
 
Na verdade estou quase a ir-me embora e por isso devia estar mens queixinhas e aproveitar as duas últimas semanas(ou quase isso) por aqui. Vou aproveitar, penso, mas logo a seguir já não me apetece aproveitar. Só me apetece estar em casa. Hoje não há nada a fazer. Escrevo outra carta que são muitas, cartas por atacado, também por isso. Porque nem me apetece escrever, apesar de haver coisas a contar, sobretudo dos últimos dias em que celebrei com a minha irmã-praticamente-gêmea os nossos 100 anos de existência. Não creio que ter feito 50 anos me tenha afetado particularmente (bom, esta dor no polegar se calhar é uma artrose, e as artroses são coisas que se agravam com a idade… portanto, talvez os 50 anos me tenham afetado, afinal, logo assim, para começar). Nunca me importei de fazer anos. Será sempre bom sinal e toda a gente sabe que fazer anos é melhor que não os fazer. Ninguém pode ficar parado nos 20 anos e, sinceramente, tirando a questão dos ossos, eu também não quereria ter 20 anos agora. Nem 30, nem 40, nem 10, nem 5. Quero ter estes 50 anos que tenho. Com o que a vida me deu (menos as dores nos ossos). E quero a minha casa. Pronto.
 

Os últimos três dias passaram-se bem, passeámos, comemos, rimos, conversámos. Eles aproveitaram melhor as manhãs, como sempre, indo a exposições que eu já tinha visto. Voltámos à Torre Eiffel, como em 2014 na passagem para os 47. Recebi deles duas prendas belíssimas. Bilhetes para a peça ‘Letter to a Man’* com Baryshnikov com base nos diários de Nijinsky, de Robert Wilson, belíssima, comovente, maravilhosa, no Théâtre de la Ville (no bonito Espace Pierre Cardin, nos Champs Elysées). E o livro da exposição que fui ver há tempos no Musée de l’Orangerie – A pintura americana dos anos 30. Encontrámos-nos com os meus primos, Lena e Paulo, de passagem por Paris. Bebemos kyr como manda a nossa tradição, while in Paris para o nosso aniversário. Gostei de os ter cá e foi como se um bocadinho de casa tivesse vindo ter comigo e se calhar foi por isso que fiquei assim queixosa, lamurienta e com saudades do meu chão habitual.
 
De maneira que desde ontem à noite me tenho sentido assim. Não farta de Paris, mas com vontade de ir para casa. Rentrer a ma maison. Rentrer a ma vie. Acho que três meses longe de casa são muito tempo, para uma pessoa que – gostando de viajar como se sabe – gosta das suas rotinas de todos os dias. Ao mesmo tempo, ainda há muitos sítios onde quero ir em Paris, sabendo que provavelmente não irei a bastantes. Mas Paris tem essa vantagem: é perto de casa. Esses sítios podem ficar para outro dia. É verdade que encontrei rotinas em Paris. Mas são rotinas perfeitamente temporárias. Não são suficientes para me fazer sentir em casa. Três meses não são suficientes para se conhecer bem um lugar desta dimensão, desta diversidade. Talvez por isso, tirando a curtíssima ida a Bruxelas, não saí de Paris. Paris basta-se e basta-me. Há sempre tanta coisa a acontecer, tanta coisa que ver, tanta bairro e tanta a rua a percorrer. Das outras duas vezes em que vivi por três meses em lugares – Wageningen e Florença – também criei rotinas temporárias, mas a verdade é que esses lugares não me bastaram, comoParis me basta. Em Wageningen não me lembro de ter passado lá um fim de semana. Visitei museus e cidades em toda a parte da Holanda, ainda por cima um país pequeno, com comboios tão frequentes. EM Florença a cidade também não me bastou. Fiz trabalho de campo em duas regiões de Itália – Toscânia e Campânia – durante algumas semanas e, além disso, visitei muitas cidades próximas, aos fins de semana. Mas de Paris, a não ser por essa ida a Bruxelas em trabalho – não saí. Acho que isso quererá dizer alguma coisa. A respeito de Paris, principalmente. Mas talvez também seja por isso que tenho saudades de casa. Ou não sei o que é.
 
* o teaser de A Letter to a Man aqui

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