Lettres de Paris #66


C’est Paris

Há uns dias, num café perto do Marché des Enfants Rouges, falei com a minha prima Lena acerca do livro de Julien Green (‘Paris’, Tinta da China, 1ª edição de 2008). Reli o livro, que comprei em 2012, no avião. E falámos dele a propósito da flânerie, palavra que literalmente poderia ser traduzida como ‘vadiagem’, mas que está longe de ser apenas isso. Flâner é basicamente passear pelas ruas e praças e observar e absorver. Com tempo. Ociosamente até. Gosto de pensar em mim como flâneuse, embora na maior parte das vezes que viajo não tenha o tempo necessário para o ser verdadeiramente.
Diz Julien Green no texto ‘uma cidade secreta’ que «Paris é uma cidade de que se poderia falar no plural (…) porque há muitas parises e a do estrangeiro só superficialmente tem algo em comum com a Paris dos parisienses». E eu sou estrangeira, irremediavelmente, para ter tempo para conhecer o que é possível (mesmo a um parisiense) de uma cidade tão diversa – já o reconheci numa carta anterior – como esta. Mas a verdade é que passear em toda a parte, subir a sítios altos e descer de sítios altos, sentar-me nos cafés, fumar nas esplanadas e observar ociosa, mas atentamente o que vai acontecendo à minha volta é uma das coisas que mais gosto de fazer, em Paris como noutro sítio qualquer. Assim mesmo, sempre estrangeira, estou certa que não conheço nenhum lugar bem, tal como, estou igualmente certa, não conheço nenhuma pessoa bem – nem a mim mesma. As cidades, escrevi também isto num postal de Bucareste, há muito tempo, precisam de tempo, como as pessoas. E as cidades tão múltiplas como Paris precisarão ainda de mais tempo. E, assim, mesmo nunca será suficiente. Ao contrário do que diz Green, no mesmo texto que mencionei, nem mesmo com tempo poderemos afirmar conhecer bem uma cidade (ou uma pessoa). Isto é bom e mau, como quase tudo, sendo que entre estes dois extremos existe toda uma série de possibilidades. Bom porque seremos sempre surpreendidos. Mau porque seremos sempre surpreendidos. Não é contraditório. Absolutamente.

De maneira que dois meses e um pouco mais de meio passados sobre a minha chegada a Paris para esta estadia mais prolongada, tenho a certeza que não conheço Paris de todo. Posso ter a ilusão de conhecer o meu bairro – o Quartier Latin – e o bairro que atravesso todos os dias para ir trabalhar – o bairro da Sorbonne. Apesar de ter entre um e outro, o meu supermercado, a minha lavandaria, os meus cafés, os meus restaurantes, as minhas padarias, as minhas livrarias e os meus cinemas… é apenas uma ilusão afirmar que os conheço bem. Passei tempo suficiente a calcorrear as suas ruas, passei tempo suficiente sentada nas esplanadas, passei tempo suficiente a escolher queijos e outras iguarias, passei tempo suficiente a folhear livros, passei tempo sufiencte em salas de cinema… mas nada sei destes bairros além da superfície. Tenho a experiência material das ruas, das esplanadas, das prateleiras, das salas, das diferenças entre o pão da Pradier e o pão do Paul, mas sei que tudo isso não é suficiente, nunca o será, para poder afrmar que sou daqui. Paris é, e isso está bem patente nos textos de Julien Green, um sentimento (ou um conjunto de sentimentos) mais do que uma experiência material e concreta. É verdade que sei que autocarro apanhar para ir daqui ao Marais. Ou que linhas de metro devo tomar para ir até à Place de l’Étoile. Mas isso, uma vez mais, não é suficiente. Pode bem dominar-se uma cidade, pelo conhecimento concreto e material, por assim dizer, dos seus lugares, mas faltará sempre o que é mais relevante, aquilo que não se domina, o que se experimenta com o coração, se assim quisermos. Para isso é preciso não ser estrangeiro. Sobretudo é preciso não ser temporário. Ter tempo. E paciência. E gostar de vadiar, perdão, de praticar a flânerie. Embora estrangeiros e temporários também tenham coração, evidentemente. Mas é um coração diferente. E será sempre.
Porque Paris é sobretudo isto, já o disse, o sentimento. Qualquer coisa que não se pode traduzir materialmente, nem descrever decentemente, nem fotografar convenientemente. Um sentimento. Gostava de poder dizer mais que isto, mas não tenho a habilidade necessária. Lembro-me apenas quando, no dia 22 de outubro, subi (com a ajuda simpática de um trabalhador do RER) os degraus da estação do metro e encarei com a Fontaine Saint-Michel, rodeada pela praça com o mesmo nome, o meu coração se acelerou um bocadinho. Subir os degraus, mesmo com a ajuda, carregada de malas, pode ter ajudado, claro, mas o que aconteceu foi essa familiaridade, essa alegria de reconhecer um sentimento, mais que um lugar. Tudo isto se acentuou quando atravessei a Place Saint-Michel e entrei na pequeníssima Place Saint-André-des-Arts. Podia dizer que é a praça de que mais gosto em Paris, e estaria a dizer a verdade inteira. Uns gostam da Place de Vosges, cor-de-rosa, imaculada, simétrica, com o seu belo jardim no meio e as suas árvores cortadas geometricamente. Outros gostam da Place Vendôme, igualmente simétrica, com o seu obelisco imponente a furar as nuvens, e as suas lojas excessivamente caras. Outros adoram a Place de la Concorde, com o seu também imponente e afiado obelisco, a sua abertura aos Champs Elysées e às Tuileries, as suas estátuas, as suas duas fontes (a dos rios e a dos mares), a sua vista sobre a Tour Eiffel e o Arc du Triomphe e o seu tamanho monumental. Eu gosto da Place de Saint-André-des-Arts. Desde que a vi pela primeira vez há muitos anos que sinto isto por ela. Nela se concentra tout Paris. É Paris. E não sei dizer muito mais que isto.
Ali estão as janelas altas e os vasos de flores. Ali estão as janelas de sotão e os tubinhos múltiplos das chaminés. Ali está a entrada para o metro. Ali estão os cafés e as suas esplanadas em anfiteatro e as suas cadeiras de palhinha e as suas mesinhas pequenas e redondas sobre as quais se pousam cinzeiros e chávenas de café e chocolat chaud e copos de vinho tinto, elegantes. Ali estão os empregados de grandes aventais e pano dobrado no braço. Ali está o jovem de bicicleta e cachecol ao vento acompanhando a velocidade. Ali estão as raparigas, bonitas, de baton vermelho, que riem muito alto. Ali está a senhora que atravessa a praça de baguette debaixo do braço e o senhor que lhe dá o outro braço e carrega um saco de legumes e de fruta. Ali está a tabacaria, ali está a loja de souvenirs com os seus chapéus e boinas e os seus sacos a dizer ‘Paris je t’aime’ em que o A tem a forma da Tour Eiffel. Ali está a senhora velhota que atravessa as passadeiras da praça, de um lado para o outro, continuamente, talvez um pouco louca, ou apenas desocupada, a matar o tempo antes que o tempo se acabe. Ali está a sem-abrigo que leva a noite a rir-se sabe-se lá de quê, se calhar de tudo isto, enrolada no seu saco cama sob a proteção de uma grande porta. Ali estou eu, estrangeira, irremediavelmente, a observar tudo isto como quem respira. E a respirar tudo isto como quem não quer fazer mais nada senão observar esta pequena praça para que nunca dela se esqueça, ou para que nunca se esqueça, antes que o tempo acabe, do que é Paris.
(as fotografias, de muito má qualidade, tiradas com o telemóvel, são do mapa que ocupa a ‘segunda capa’ do livro Paris, de Julien Green, na edição da Tinta da China)

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