Lettres de Paris #68


Y aura-t-il de la neige à Paris?*

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eis a pergunta que toda a gente coloca por aqui, incluindo eu mesma, que todos os dias vejo se está prevista neve para Paris. Às vezes está, mas nunca chega a acontecer. Cairam uns flocozinhos de nada, minúsculos, creio que na véspera de ano novo. Foi só. Por vezes vejo gelo junto às fontes. E é só. Acho que me vou embora sem ver nevar em Paris. E sem ver – felizmente – a destestável e perigosíssima ‘pluie verglaçante’, que é como quem diz uma chuva que ao cair no chão, tal é o frio, transforma-o numa superfície vidrada, gelada, extraordinariamente perigosa para qualquer pessoa e, obviamente, sobretudo para mim. Há muitos anos, talvez 22 ou 23, senti na pele os efeitos desta ‘pluie verglaçante’. Estava em Arlon, na Bélgica, em janeiro, e ao sair, já noite, de uma aula mal pus o pé fora de porta escorreguei imediatamente sem apelo nem agravo. Não estava à espera daquilo, nem preparada para aquilo. Portanto, no que diz respeito à chuva que se transforma em gelo mal atinge o chão, espero bem que a não venha a sentir nos poucos dias que tenho ainda em Paris. Quanto à neve, confesso que gostava de a ver cair um bocadinho. Deve ser bonita, Paris, sob a neve. Há uns dias, contei-vos, estava sentada no quentinho do meu pequeníssimo estúdio, a esta mesma secretária, quando ouvi uns rapazes na rua gritar ‘il neige, il neige’. Fui ver, era mentira. Ha uns dias também, entrando na minha sala do Ladyss, disse ao Jean, que era o único que lá estava, que tinha muito frio. Olhou para mim com a sua cara bonacheirona e simpática e sentenciou que ia nevar em Paris nesse mesmo dia. Mentira. Nem um floco caiu. De maneira que é isto. Na televisão anunciam neve e ela não vem, pelo menos em Paris. Anunciam um ‘grand froid’ e bom, apesar de estar bastante frio, ainda estou à espera que o mesmo traga os flocos fofos e silenciosos.

Não vi nevar muitas vezes, em Arlon dessa vez, em Brunico no norte de Itália, muitas vezes, grandes nevões, em Florença um enorme nevão que paralizou tudo. Acho que foi só. Talvez veja nevar em fevereiro, na Letónia, em Riga, onde irei estar (espero) alguns (muito poucos) dias e onde as temperaturas frequentemente atingem os -12 ou menos. Não que gostasse de viver, acho, num país onde nevasse com frequência, mas a neve é maravilhosa quando cai. Não se ouve. É silenciosa e transforma o mundo num lugar a preto e branco, de que, espaçadamente, gosto. Hoje acordei esperançosa que estivesse tudo branco na Rue Suger. Acordei muito tarde, abri a janela, e nada. A rua estava um bocado molhada, da chuva que já não caía e nada mais. Fiquei a preguiçar mais um bocado, estariam uns 2 ou 3 graus na rua e dentro de casa estava quentinho. Quando resolvi sair de casa, esperavam-me já apenas umas duas horas, duas horas e meia de luz do dia. Fui pela Rue Suger até à Rue de L’Éperon e desta até ao Boulevard Saint-Germain onde, como faço com frequência, virei à direita e entrei na Place Henri Mondor ou, como é mais conhecida, na Place de l’Odéon. Bebi o café no Starbucks que tem a esplanada sobre a praça. Realizei que era já muito tarde para o meu plano incial (que se não chover muito farei amanhã) e resolvi então ir a uma praça onde tinha apenas passado de autocarro há uns tempos, e que tinha achado muito bonita. Assim, quando acabei de beber o meu café, fui pela esquerda até ao Carrefour de l’Odéon. Passei a Rue des Quatre-Vents e virei à direita para a Rue Saint-Sulpice. Andei meses a dizer Suplice. Mas é Sulpice e nada tem, enfim em termos, a ver com suplícios… mas com o piedoso santo, exatamente, Sulpice, que dá o nome a esta rua e à encantadora praça para onde me encaminho.
A rue Saint-Sulpice é bonita, com as suas lojinhas simpáticas. Desemboca na praça que queria ver e que, como já disse, tem o mesmo nome. Antes de entrar na praça, viro à esquerda na Rue Garancière, que fica nas traseiras da imponente igreja de Saint-Sulpice e depois novamente à direita para a Rue Palatine e depois de passar uma encantadora antecâmara da praça maior, viro na Rue Henry de Jouvenel que entronca quase logo a seguir na Rue Férou que, além de ser encantadoramente parisiense, tem um muro do lado direito de quem sobe onde se inscreve o poema La Bateau Ivre** de Rimbaud. O muro é impressionante, devo dizer. Começa-se a ler o poema pela direita à medida que se vai subindo ligeiramente a rua. Porquê? Está explicado igualmente no muro. Rimbaud declamou este poema, aos 17 anos, pela primeira vez, do outro lado da Place Saint-Sulpice. Na imaginação dos que fizeram este muro, o vento sopra da praça para a direita em direção à Rue Férou.
Quando acabo de ler o muro, volto para trás e reentro na Place Saint-Sulpice com a sua magnífica Igreja e a sua deslumbrante fonte, embora sem água. A Mairie do 6éme fica no outro lado da praça em frente à igreja. A Direção Geral das Finanças Públicas, do lado esquerdo da praça, se estivermos de costas voltadas para a igreja. A praça é imponente, ou não será imponente, porque, apesar da imponência dos edifícios, da igreja e da fonte, tem uma escala absolutamente humana. Está quase vazia. Há uns miúdos que jogam à bola, pessoas que passam com sacos de compras, dois ou três turistas como eu e pombos, centenas de pombos que pousam nos ramos das árvores como se fossem os seus frutos e que se empoleiram no alto das estátuas da fonte a contemplar as pedras. Bonita praça, sem dúvida nenhuma. Ainda bem que não me fiquei pela vista da janela do autocarro. Fotografo abundantemente estátuas, igreja, fonte, pombos e começa a anoitecer devagarinho. Saio da praça pelo lado oposto em que entrei e viro à direita para a Rue Bonaparte. Está cheia de gente, ao contrário da Place Saint-Sulpice, gente que faz compras nos saldos. Olho para algumas montras. Continua tudo caro e por isso sigo caminho. Quando dou por mim estou, um bocadinho surpreendida, há sítios que ainda não domino, na Place du Quebec, onde está a Fontaine de l’Êmbacle, onde já passei algumas vezes. A fonte parece emergir onde se partiu o chão. É uma obra bonita do artista canadense Charles Daudelin e pretende simbolizar o momento em que o gelo do inverno se derrete e as águas dos rios, antes impedidas de sair, jorram livres finalmente.
Em frente estão o Le Deux Magots e o Café de Flore e do outro lado a igreja de Saint-Germain-des-Prés e claro a Place Sartre-Beauvoir. Atravesso o Boulevard Saint-Germain e entro na praça dos meus ídolos parisienses. Atravesso-a e entro na Rue de la Abbaye. Viro à esquerda na Rue de Furstenberg, atraída pelos enormes abat jours que tombam do céu, ou é como se tombassem do céu. A rua está toda enfeitada, tal como a bonita Place de Furstenberg e uma parte da Rue Jacob. No fim da Rue Jacob viro à esquerda e entro na Rue de Seine. Estou bem. Não me doeu ainda o calo que tenho num pé e me tem chateado um bocado. Graças aos céus e a um penso-rápido estratégicamente colocado hoje deu ainda pouco sinal da sua existência. De maneira que ando pela Rue de Seine até ao fim, até chegar ao Quai de Conti e alcançar, isso mesmo, la Seine, brilhando na escuridão que já tomou conta de tudo em Paris. Vejo o belíssimo edifício do Institut de France e da Academie des Beaux Arts, brilhando também ele, como uma jóia na noite. Atravesso a estrada para o outro lado e resparo na grande quantidade de polícias. A Pont des Arts está encerrada também por fitas vermelhas e brancas e polícias. Passo-a e continuo a andar pelo Quai de Conti em direção a Saint-Michel. Estou a aproximar-me da Pont-Neuf e oiço umas vozes fortes que gritam qualquer coisa que não percebo. Olho para baixo, para as margens do Sena e vejo uma bandeira gigante, luzes tipo very lights (como se eu soubesse o que é tal coisa… mas já vi na televisão, pronto) vermelhas e brancas. Os gritos continuam. Percebo que dizem qualquer coisa como ‘Paris est Patrie’ e ‘Paris a nous’ e começo a suspeitar de que tipo de manifestação se trata. Viro-lhes as costas e já muito perto da Pont-Neuf paro para olhar para aquilo. Para um senhor a meu lado e eu pergunto se sabe do que se trata. Diz que é uma manifestação de nacionalistas. Da Front National. Voilá. Exatamente o que suspeitei eu ainda há pouco. Faço uma cara inequívoca e o senhor olha para mim e encolhe os ombros e diz ‘c’est triste’. Um pouco mais à frente um casal britânico faz-me a mesma pergunta que eu fiz ao senhor. Respondo-lhe. O rapaz diz, depois da minha explicação, ‘it is so sad’.
Na verdade depois disto, o tempo arrefeceu bastante mais. Mas continua sem nevar. Começaram já há um bocado a chover pingas grossas. E eu sinto-me desolada com o cenário. Por baixo de mim, no passeio ao pé do Sena, a manifestação avança e os gritos parecem-se mais com bárbaros urros. A única coisa que me consola, no meio daquela tristeza, é que os manifestantes dificilmente dariam para encher um bateau mouche daqueles maiores. Apesar deste consolo, lembro-me que Marine le Pen está à frente nas sondagens para a presidência. O mais surreal é que os funcionários públicos (excetuando, justiça lhes seja feita, os professores e investigadores) parecem estar entre os seus maiores apoiantes. Ouvi na televisão, num dia qualquer em que também anunciaram neve que nunca chegou a cair. Desejo que Marine Le Pen seja exatamente como esta neve que nunca chega a cair. E desejei ao ver os manifestantes rodeados de fumo vermelho, que todos caissem às águas, seguramente geladas, do Sena e mudassem de rumo. Eram quase todos jovens e isso é ainda mais desolador. Meto o carapuço da doudoune na cabeça, a chuva cai com mais força e continuo a andar até à Place Saint-Michel. Dali vou ao Monoprix no Boulevard Saint-Michel. Volto para casa, com as compras, pela Rue Serpente. Entro em casa, vejo os emails e percebo que morreu a aventadora Fernanda Leitão. Fico triste. Apesar de a não conhecer pessoalmente, lia com muito gosto os seus Bilhetes do Canadá no Aventar. Quando estive em Toronto, no verão passado, mandou-me o seu número de telefone para ‘se precisasse de alguma coisa’. Não precisei e não lhe liguei. Devia tê-lo feito, percebo agora. Teria tido oportunidade de conhecer uma grande pessoa que, entre outras coisas extraordinárias lutou contra a ditadura em Portugal. A Fernanda não haveria de ter gostado de ver a manifestação que encontrei há pouco. Mas tenho ideia de que gostava de neve.
*título descaradamente roubado a um belíssimo filme de Sandrine Veyssett que vi em Lisboa há muitos anos – ‘Y aura-t-il de la neige à nöel?’. No filme, um pouco triste mas esperançoso, houve. O trailer pode ser visto aqui
**o poema integral pode ser lido aqui

Comments

  1. miguel says:

    Que notícia importante: Não houve neve em Paris, nem uns flocozinhos cairam, que pena!

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