A Fatwa sobre Polanski ou as saudades que eu tenho do «Nobody Expects the Spanish Inquisition!»


Ana Cristina Pereira Leonardo

No meio da avalanche de notícias que têm tido Trump como hors d’oeuvre, entrée, main course e dessert – deixando de lado o chumbo doméstico da TSU e as bebidas – passou relativamente despercebida a renúncia de Roman Polanski a presidir à cerimónia de entrega dos César, o correspondente francês dos óscares de Hollywood. O cineasta havia sido escolhido pelos organizadores da cerimónia, que terá lugar em final de Fevereiro, mas o vendaval de indignados – e sobretudo, ao que parece, de indignadas – com a escolha teve como consequência que o mesmo acabasse por recusar o convite.

Polanski tem hoje 83 anos e quando tinha 43, em 1977, foi acusado de violar uma jovem modelo de 13, Samantha Geimer, então Samantha Gailey, crime pelo qual esteve 43 dias detido, saindo sob caução, após o que fugiu dos EUA onde tem até hoje a Justiça à perna e a cabeça a prémio, mesmo se Samantha Geimer há muito desistiu do processo (acordaria uma indemnização de 225 mil dólares com o cineasta, que acabou por reconhecer que não existira sexo consentido, e publica em 2013 o livro de memórias, The Girl: A Life in the Shadow of Roman Polanski, no qual não se coíbe de criticar a exploração do seu caso pelos meios de comunicação, juízes e advogados; na altura do lançamento queixou-se ao LA Times: «Não deviam poder tornar o que me aconteceu ainda pior, só porque é mais interessante. Fazem com que nos sintamos mal e sejamos uma vítima, de modo a poderem usar-nos como bem lhes aprouver»).

QUARENTA ANOS depois do sucedido e não se lhe conhecendo carreira próspera como violador, o realizador de Chinatown  (falo de Chinatown por ser, na minha modesta e leiga opinião, a sua obra-prima… ) continua a ser perseguido inquisitorialmente por um acto cujos protagonistas optaram por enterrar e ultrapassar.

Que nos dias de hoje existam mais de 60 mil criaturas que se dão ao trabalho de assinar um abaixo-assinado contra a sua nomeação para um júri de cinema e, sobretudo, que a gritaria dessas 60 mil tenha eco, seja levada a sério e leve o homem a declinar o convite, obriga-me a concluir que entre a misoginia do «Grab them by the pussy» de Trump e a histeria puritana vasos comunicantes é o que não falta.

Dantes, quando não havia conversa falava-se do tempo; hoje, quando não há conversa fala-se de moral e bons costumes. Pessoalmente, enquanto mulher e ser pensante, apoiaria sempre a escolha do cineasta Polanski. Ou seja, para deixar a coisa clara e parafraseando o inglês Samuel Johnson: o moralismo é o último refúgio dos canalhas.

Comments

  1. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Pois, pois é… Ai se as feministas a apanham, Ana Cristina! Ainda acaba pendurada no pelourinho.

  2. Margarida Vieira says:

    Completamente de acordo. é ridiculo estes moralismos que se aplicam a actos cometidos ha 40 anos, e em que a vida era absolutamente diferente do que é agora. Nalgumas coisas melhor, noutras, muitas falsas e parvas. Moralismo da treta.

  3. manuel says:

    Apologia da pedofilia?

  4. João says:

    Desculpem a comparação, talvez por alguns considerada exagerada, mas por esta ordem de ideias, por esta lógica, não deveriam também todos os que cometeram crimes na Alemanha Nazi serem perdoados depois que passassem os 40 anos?
    Quer dizer, que raio de justiça seria/é essa que não prescreve para uns e para os outros, todos os que têm a possibilidade de fugir porque têm dinhero, sim? Nesse caso porque não perdoar também aos Pinochets, aos Padres Fredericos, e outros?
    Gosto também muito do Polanski como realizador, mas aqui misturaram-se arroz e batatas na mesma panela.
    Já se a comunicação social não enterra o assunto é por duas razões bastante óbvias (basta ligar a televisão de manhã na SIC ou TVI e pensar um pouco):
    1. Continua a ser uma figura pública e admirado por muita gente logo artigos sobre ele vendem;
    2. Artigos sobre crimes (violações, homicídios, abuso de menores, etc) vendem, e envolvendo figuras públicas ainda mais.

    • “Desculpem a comparação, talvez por alguns considerada exagerada, mas por esta ordem de ideias, por esta lógica, não deveriam também todos os que cometeram crimes na Alemanha Nazi serem perdoados depois que passassem os 40 anos?”

      Exagerada?! Ora essa! Quem não vê que entre um guarda de Auschwitz e Polanski as afinidades são imensas, só pode ser cego.

      “Quer dizer, que raio de justiça seria/é essa que não prescreve para uns e para os outros, todos os que têm a possibilidade de fugir porque têm dinhero, sim? Nesse caso porque não perdoar também aos Pinochets, aos Padres Fredericos, e outros?”

      Há crimes que prescrevem e outros que não prescrevem. Está na Lei, visto que já há uns anos a Justiça deixou de cortar as mãos aos ladrões, as pilas aos violadores e a língua aos que dizem disparates.

      • João says:

        Ui “guarda de Auschwitz”! É isso mesmo, é mesmo ele. É mais ou menos como os livros da Lolita, ou como é? Ah, é da Anita, tipo aquele:
        A Anita apercebe-se de que afinal não prescreveu, porque está na Lei. 😉

  5. Alexandra Martins says:

    Peço desculpa, mas crimes de violação e ainda por cima sobre uma menor (de treze anos!), que constitui um crime de pedofilia, não deveria ser perdoada nem após 40 anos nem após 100 anos. Se fosse o Zé da esquina teria a mesma opinião ou é só por ser um cineasta que admira? Aquilo que ele fez não tem perdão. Não se trata de feminismo, se fosse um rapaz de 13 anos que Polanski tivesse violado eu teria a mesma opinião. Até pode ser que a comunicação social dê relevo a este caso porque vende, mas ele merece-o (ao contrário da vítima). Deveria ser perseguido para o resto da vida. A propósito, pegou na comparação feita num destes comentários entre Polanski e um guarda de Auschwitz, mas não se pronunciou sobre a comparação com o padre Frederico. E Marc Dutroux? Também o devemos perdoar ou esperamos antes que ele faça um filmezeco qualquer?

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