Isto sim, é futebol! O Napoli de Maurizio Sarri


Ultimamente tenho dado por mim a prestar mais atenção ao futebol das equipas de menos nomeada do futebol europeu. Excepção feita ao Napoli, uma das top teams da Série A, pelos brilhantes resultados que tem obtido nos últimos anos e pelo simbolismo histórico dos feitos gigantescos obtidos por Maradona e C&A na viragem dos oitentas para os noventas, nada me tem dado mais prazer ultimamente do que ver o futebol de clubes como o Everton ou o West Ham em Inglaterra, a Real Sociedad e o Villareal em Espanha ou do sensacional Leipzig na Alemanha, que, na sua temporada de estreia na Bundesliga, tem feito uma excepcional campanha, estando actualmente a 3 pontos do líder Bayern. Gosto especialmente das equipas que dão espectáculo e estas, incluíndo novamente o Napoli no lote, são as que tem dado melhores espectáculos no futebol europeu.

Contudo, hoje venho-vos escrever sobre a qualidade da turma napolitana, orientada pelo mestre Maurizio Sarri.


O trabalho de um treinador não se deve ser julgado apenas pelo que a equipa faz em campo. Apesar de ser correcto afirmar que o que a equipa faz em campo é uma amostra do que trabalho de bastidores que é feito pelo treinador, na medida em que o treinador pretende que o trabalho que desenvolveu ao longo da semana, nos microciclos anteriores ou nos macrociclos de início de temporada, também é correcto afirmar que o desempenho da equipa dentro de campo pode não corresponder aquilo que foi trabalhado pelo seu treinador devido a uma multiciplicidade de variáveis, designadamente, o adversário, a condição psicológica de um ou mais jogadores naquele momento, o seu índice de trabalho, a sua capacidade e predisposição mental na gestão estratégica do jogo, a condição física dos jogadores, o ambiente verificado no estádio e obviamente, o mais importante em alta competição, a pressão inerente ao facto de estes clubes estarem obrigados a vencer para manter as suas aspirações intactas nas tabelas classificativas.

Por outro lado, o trabalho de um treinador está longe de se resumir ao matchday. Existe todo um trabalho de bastidores que o treinador terá que preencher em checklist. A organização defensiva com especial incidência ao posicionamento, postura e actuação do quarteto defensivo, a existência fundamental do pressing a meio-campo ou do pressing alto (a ideia de defender numa defesa profunda está a cair em desuso no futebol moderno; portanto, o trinco à makelele que varre a zona da entrada da área está a ser paulatinamente abandonada, salvo a única excepção que ainda é actualmente praticada com relativo êxito que é a de Simeone no Atlético de Madrid) “do como se posicionar para se pressionar melhor ao quem pressionar, quando e como para impedir o quê” por parte do adversário. A transição de jogo: quem pega, quem oferece linha de passe, quem sai da marcação para pegar do jogo. Os processos de jogo. Todo o treinador tem que trabalhar vários para não tornar o jogo da equipa previsível e de fácil intelecção ao treinador adversário. A adequação dos processos de jogo ao sistema defensivo da equipa adversária para que a equipa possa explorar as suas deficiências posicionais. As trocas posicionais que baralham as marcações adversárias. O Roaming posicional. A possibilidade de jogar com um target man na frente ou com dois avançados sendo um mais fixo e outro um poacher que procura sistematicamente a bola para criar desequilíbrios. Dentro das quatro linhas, a multiciplidade de variáveis que o treinador tem que trabalhar diariamente é vasta.

Para além do trabalho táctico, o treinador é obrigado a trabalhar os jogadores na técnica, sendo a técnica mister do plano táctico que se pretende por em prática. Na inteligência. Na moral dos jogadores, adocicando-a para obter um melhor rendimento. Jogadores mais confiantes tornam equipas mais coesas. Na capacidade mental do jogador conseguir virar resultados negativos ou séries de resultados negativas ou continuar a ter prazer na vitória. No plano físico porque no futebol neste momento o plano físico é tão ou mais importante que os planos tácticos, técnicos e psicológico. Neste momento, equipa que não corra mais que as adversárias, muito dificilmente vencerá porque não ocupou espaços defensivos, não foi mais rápida na sua circulação de bola para surpreender a equipa adversária e assim obter espaços para construir o seu jogo, não pressionou e logo aí não condicionou a construção adversária. Na relação com os jogadores para não perder balneários. Na observação de adversários e na adequação da sua equipa aos sistemas e processos desses mesmos adversários. Na observação de novos jogadores para que as contratações sejam cirurgicas, ou seja, para que tenha a certeza que os jogadores contratados vão encaixar bem no sistema táctico, nos processos de jogo, no balneário e se vão adaptar à sua nova realidade competitiva e à cidade para a qual vão viver nos próximos tempos. Na relação com a direcção e com o restante staff. Na relação com a imprensa. Na relação com os adeptos.

Este Napoli de Maurizio Sarri, um dos múltiplos treinadores que teve que penar muito lá em baixo nas divisões secundárias de Itália até subir a uma equipa de topo, é um dos exemplos em que o treinador conta e conta muito porque Sarri é efectivamente um trabalhador nato. Em duas épocas, Sarri, técnico que já vinha de um excelente trabalho no Empoli, clube que subiu em 2014\2015 à série A e clube no qual valorizou uma data de jogadores como o lateral português Mário Rui (actualmente na Roma), o lateral direito albanês Elseid Hysaj, Lorenzo Tonelli, Mirko Valdifiori (que de resto levou consigo para o Napoli), Daniele Rugani (grande promessa do futebol italiano), Riccardo Saponara (um daqueles maestros de meio-campo que põe qualquer equipa a jogar), Piotr Zielinski, Matias Vecino (na Fiorentina), conseguiu o melhor de vários mundos: colocar uma equipa a ter resultados de destaque, a ser bastante competitiva, a praticar um futebol de encher o olho, cultivou uma relação de culto com os jogadores e com os adeptos e arrisca-se a ter uma equipa capaz de vencer a Série A na próxima temporada se a estrutura napolitana, liderada pelo milionário Aurélio Di Laurentis não decidir cometer o erro que cometeu este ano com a venda de Gonzalo Higuaín à Juventus por 90 milhões de euros. Se tivesse Higuaín, criticado muitas vezes por ser perdulário em demasia, e mesmo com a entrada do seu substituto, o polaco Arkadiuz Milik, este Napoli arriscava-se, na minha humilde opinião a ser campeão italiano já no final desta temporada.

Este Napoli de Sarri, cravejado de jogadores de combate na defesa e no meio-campo como o romeno Chiriches, Albiol, Ivan Strinic, Kalidou Koulibaly (defesa) e os pulmões Jorginho, Diawara e Allan (se bem que estes dois são médios centros que não só não se limitam a destruir mas que ajudam a construir o jogo da equipa com uma grande precisão no passe e com um apoio constante à linha da frente na construção ofensiva) que são dois jogadores que acrescentam muito musculo a um meio-campo que precisa de carborar imenso na recuperação de bola como se pode ver nos vídeos acima postados, pela intensidade que Sarri quer que os jogadores coloquem no pressing a meio-campo para que a equipa recupere a bola, e com um ataque cravejado de jogadores que tem tanto de tecnicistas como de dinâmicos como de eficazes, como são os casos de Lorenzo Insigne, Marek Hamsik, José Callejón, Arkadiuz Milik ou jovem médio ofensivo croata Marko Rog, é uma equipa muito bem trabalhada em várias vertentes pelo seu treinador. Quer na intensidade do pressing alto ou médio-alto que fazem muito bem no terreno, que não deixa os adversários construir e que permite à equipa ter sempre a bola nos seus pés. Quer numa construção de jogo muito cuidada, afirmativamente de posse constante do esférico, a rápida velocidade em passe curto, extremamente dinâmica em que os jogadores fazem swap de posição (necessário para deixar imóveis os adversários) e apoiam sempre o colega mais próximo, entrando Hamsik e Allan em movimentos de ruptura nas entrelinhas, ou seja, entre a linha média e a linha defensiva. Quer numa fantástica panóplia de processos de jogo em ataque organizado que incluem sempre o apoio frontal do avançado (saído da marcação) para tabelar, triangulações vistosas a meio-campo, movimentos de ruptura de Allan que nas entrelinhas consegue arranjar sempre um espaço para dar e receber no espaço vazio, a presença constante de Hamsik entre a linha média e a linha defensiva contrária e um nível de profundidade aceitável que os laterais da equipa (Hysaj e Maggio na direita\Strinic e Ghoulam na esquerda; exceptuando o croata, todos os restantes são laterais que cruzam muito bem para a área). Quer também nas rápidas transições em contra-ataque onde Insigne, Mertens e Callejón, pragmaticamente fornecidos por um meio-campo inteligente e expedito, são autênticas motas a conduzir contra-ataques que invariavelmente causam perigo na baliza adversária.

Apesar do Napoli possuir neste momento jogadores altamente inteligentes, tudo isto foi obviamente mecanizado por Sarri nos bastidores. Ou seja, o posicionamento, as rotinas de jogo, a distância de passe, os apoios, a finalização, as situações de pressing, o posicionamento defensivo que a equipa deve apresentar, os jogadores ideiais para trabalhar a sua identidade de jogo.

Pressão alta é isto, meus senhores!

O Napoli de Sarri fá-lo constantemente nos jogos grandes. É preciso ter uma coragem enorme para pressionar alto em casa de uma Juventus ou em casa de um Inter, sabendo que a passagem da bola pela teia que é tecida ou seja, a ruptura da linha média napolitana, usualmente resulta numa construção rapidíssima que habitualmente chega aos pés de jogadores que desequilibram muito bem no 1×1 como são os casos de Perisic, João Mário e Antonio Candreva no Inter ou Juan Cuadrado e Paolo Dybala na Juventus. A pressão alta implica conhecer o mecanismo de saída de jogo do adversário, treinar o posicionamento de todas as peças na mesma saída de jogo, ter uma equipa fisicamente muito bem preparada para ter que executar esta mesma pressão alta em vários momentos do jogo, cobrir todos os espaços possíveis para a equipa adversária não consiga furar o mecanismo de pressão de forma a criar ruptura e consequentemente superioridade numérica nas alas para efectivamente se poder recuperar a bola em terrenos que permitam o lançamento de um contra-ataque demolidor e ter laterais que se consigam aguentar bem num 1×1 ou num 1×2. Sarri obviamente que pretende com esta postura agressiva, tanto no pressing alto como no pressing a meio-campo jogar e capitalizar com o erro do adversário. Contudo, o risco de aplicar pressão alta é enorme. Primeiro porque maior parte das equipas (ocorre-me agora por exemplo as equipas de Marcelo Bielsa, treinador que gosta que as equipas pressionem alto durante os 90 minutos de todas as partidas) quebram fisicamente porque é muito difícil pressionar alto durante mais de 60 minutos. Depois porque passando a bola a linha média, o quarteto defensivo fica sempre muito exposto se a equipa contrária for rápida a chegar ao último terço. Criam-se portanto rapidamente situações de uma enorme superioridade numérica que obrigam os centrais a sair das suas posições para efectuar pressing, abrindo espaço para a desmarcação de um avançado ou de um jogador que jogue nos corredores (em diagonal).

Porém, a pressão alta também tem as suas vantagens. Esta é uma delas. Capitalizar os erros na saída de jogo de uma equipa, a Fiorentina, orientada pelo português Paulo Sousa, equipa que não tendo centrais que saibam sair a jogar a partir de trás, abusa da saída de jogo a partir destes nos lances em que o jogo é recomeçado com um pontapé de baliza.

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