A eutanásia vista por um adolescente de 15 anos


A eutanásia tem sido ultimamente mote para larga discussão em todo o mundo. Há os que a defendem, há os que a atacam, há enfim uma opinião bastante dividida sobre o assunto.
Por um lado, uma visão religiosa que não aceita que o Homem mate o que Deus criou. Por outro lado, uma visão talvez mais realista, que defende a eutanásia como a única forma de aliviar o sofrimento de muitos doentes já condenados.
A posição das organizações estatais de todo o mundo é clara: a eutanásia é proibida, ou melhor, não é sequer reconhecida. É conhecido o caso das enfermeiras austríacas que foram presas em virtude do seu «crime de compaixão»: ao verem doentes idosos sem salvação, agonizando nas camas do hospital, só à espera da morte lenta, resolveram dar um fim a essa agonia, terminando com a sua vida vegetativa e sem sentido. Viu-se o que lhes aconteceu…
Já passou, inclusivamente, uma série na RTP – a «Clínica da Floresta Negra» – que abordava o problema num dos episódios, mostrando dois idosos desesperados com o facto de os médicos lhes terem salvo a vida. Não passava de uma série, é certo, mas o que lá se passava é mais frequente do que podemos imaginar. O mesmo acontece com os recém-nascidos com deficiências profundas para toda a vida: eles não se pronunciam e nunca vão conseguir fazê-lo, porque nunca terão condições de vida minimamente dignas.
Esta carta aberta certamente que cairá em saco roto. Muito se tem falado, muita polémica já se levantou e nada se resolveu a nível mundial, não é esta carta que o vai fazer. Era bom, no entanto, que todos os agentes desta nossa sociedade reflectissem um pouco. Às vezes, é melhor morrer para não sofrer do que viver com dor. E há tantos casos no dia-a-dia, presenciados por mim próprio, que me pergunto cada vez mais o porquê de não ser possível a eutanásia no mundo.
Talvez um dia o seja… daqui a muito tempo, mas aí já muito sofrimento aconteceu em milhares de pessoas.
Talvez seja esta uma opinião muito contraditória – sei que sim – mas é a minha opinião pessoal. Gostava de poder resolver este problema, mas não posso. Nada me resta por isso senão esperar pacientemente por esse dia milagroso e, infelizmente, tão distante.
E enviar, uma vez que seja, uma carta aberta à sociedade.

Porto, Escola Secundária Garcia de Orta, 1987

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    É, de facto, um tema controverso.
    O ideal é que o pedido expresso pelo próprio fosse atendido. Contudo, sabemos que nem sempre o padecente se pode pronunciar.
    Por outro lado, também entendo algumas reticências de oponentes. Lembro-me das queixas expressas por muitos idosos relativos a um completo abandono por parte dos filhos e familiares, por serem um fardo. Infelizmente está a sociedade cheia de casos destes.
    O que quero dizer com isto é que nesta sociedade, a julgar por tudo que nos é dado a ver, há gente que seria capaz de pronunciar a eutanásia só para se ver livre de certos “fardos”.
    E penso que a polémica reside justamente nas leis que são feitas, muitas vezes com intuitos louváveis, mas que depois algumas pessoas exploram da forma mais negativa. Há casos destas leis na vida política, na vida laboral e claro, na vida social.
    Por isso, independentemente da “prece” justa e ponderada que li do articulista, quer-me parecer que o caso será empurrado mais um tempo, pois pelo mundo navegam “filhos de muitas mães”. E legislar num contexto destes, não é fácil.

  2. Rui Naldinho says:

    O debate sobre a eutanásia é uma daquelas situações em que depois de muito se ler e ouvir sobre os prós e contras deste acto clínico, o colocar termo à vida de um paciente em sofrimento já numa fase terminal, nós acabamos quase sempre tão divididos como no início.
    É difícil para a maioria das pessoas vislumbrar uma argumentação mais objectiva de um dos lados, que faça pender o plano a favor de um deles. Até porque estamos a falar da vida humana. E cada caso é um caso. E a lei por norma não contempla casos individualizados, apenas algumas especificidades, mas que se tendem a generalizar.
    O Prof. Rui Nunes considera esta matéria uma boa hipótese de se recorrer ao referendo.
    Não sei se mesmo assim, o resultado não seria muito próximo do empate, e com uma enorme abstenção.

  3. Claramente importa discernir aqui dois conceitos opostos: ortotanásia e distanásia.
    Em Portugal, dadas as contingências polémicas sobre o tema “eutanásia”, que continua a aziar as Comissões de Ética e Deontologia, entre outras, opta-se pela prática da ortotanásia – uma atenuante mais soft-, que é como quem diz: morte assistida, com dignidade. Todavia, compete à família decidir sobre a implementação de tal prática, já que o moribundo não tem essa possibilidade, a menos que o tenha expressado no Testamento Vital.

  4. Grande adolescente!

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