Detritus Minimus, o pequeno comentador


 

Cena I

“Sente-se”!- ordenou o Patrão ao Pequeno Comentador mal este assomou à porta do gabinete. Este hesitou. Não gostava de se sentar a conversar, sobretudo quando a cadeira tinha a altura da que o Patrão lhe apontava. Não chegava com os pés ao chão, enfim, sentia-se – por assim dizer – apoucado. “Estou bem de pé, ch-chefe”, titubeou o Comentador. Um olhar fulminante do Patrão levou-o a sentar-se sem mais demora. Este começou:

– Pagamos-lhe bem para que faça o serviço…

-Mas eu..

-Cale-se! – rosnou o Chefe – Como dizia – e digo bem – pagamos-lhe e explicamos o que queríamos: devia comentar a situação política mostrando alguma distância em relação ao nosso partido e aos nossos patrocinadores- chamemos-lhes assim – para adquirir alguma credibilidade junto do bom povo. Ocasionalmente, era-lhe permitido, se isso nos fosse conveniente, alguma tolerância para com o governo. Eram-lhe dadas informações confidenciais fornecidas pelas melhores fontes para você meter nojo à vontade e fazer o seu número de pitonisa. Devia, ainda, armadilhar o mais possível as relações do governo com os partidos que o apoiam no Parlamento, malditos sejam.

-Mas, Chefe, eu tenho feito tudo isso, e…

-Silêncio! Você está a amolecer. É preciso compreender os acontecimentos. Os resultados do governo e dos capangas são, contra todas as previsões, surpreendentemente bons. Os nossos amigos lá fora estão indignados. Você tem de fazer o seu papel, qualquer coisa. Olhe, aquela parvoíce da Caixa Geral de Depósitos está a render mais que o esperado. Os idiotas estão a engolir anzol e linha. Carregue aí. Não se importe de fazer figura de parvo, porque os seus amigos do Parlamento também a fazem todos os dias e nós temos que fazer valer o parco crédito por si acumulado nestes meses. Ataque. Diga que o Centeno tem de ser um homenzinho, que mentiu não sabe bem em quê, mas mentiu e isso uma tragédia equiparável ao terramoto de 1755…cale-se!- ordenou, já que o Comentador ia objectar, talvez pelo exagero da comparação. Não interessa o que é ou não é. Se uma telenovela tem audiência, insiste-se. Você vai fazer o mesmo. Centeno, Centeno, Centeno. Caixa, Caixa, Caixa. Abaixo a Caixa! Arriba Españ…perdão, a verdade acima de tudo!

-Sim, Patrão, vou fazer o meu melhor. Peço a demissão do ministro?

-Claro. E, na passada, vá dizendo que o primeiro ministro está comprometido com isto tudo e o seu próprio lugar está em causa.

-Mas – balbuciou o Pequeno C. – se resultar até esse ponto isto pode, no limite, dar eleições antecipadas e os nossos…

-Bom, bom, não deixa de ter alguma razão. Ia ser muito mau. Olhe: diga o que quiser, faça má língua, intrigue, faça aquilo que sabe fazer. Há sempre palermas que se excitam. Depois, a nossa rapaziada pelos outros canais faz o resto, incluindo umas caneladas ao Marcelo, que está mesmo a pedi-las.

-Sim Patrão.Tudo o que mandar, Patrão – assegurou o Pequeno Comentador.

E, apesar do pequeno amor próprio um bocado amachucado, lá foi, com pequenas vénias, abandonando a sala.

Cena II

Estúdio da SICnot.

“…O ministro Centeno devia portar-se como um homenzinho …” – declarava, categórico e exuberante, o Pequeno Comentador. E, enquanto assim falava, esticava-se tentando chegar com as pontas dos pés ao chão e os olhos à altura dos da entrevistadora. Sem conseguir. Enfim, pensou o Pequeno Comentador, temos de ganhar a vida.

Ganda nóia…

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Marques Mendes é um aprendiz de feiticeiro que nunca chegará a druida.
    Portanto, se o minorca está a pensar fazer na SIC aquilo que Marcelo fez na TVI, com o fim último de chegar à Presidência da República, vai ter de fazer muito melhor, nomeadamente, não se contradizer semana sim semana não.
    Tal como Marques Mendes, Marcelo Rebelo de Sousa sempre foi um manipulador das palavras e um intriguista nato. Mas não comparemos a inteligência, o percurso académico e profissional, e acima de tudo, a capacidade para a comunicação de massas de um e de outro.
    Marcelo foi jornalista desde 1973, com 25 anos de idade, portanto, ainda muito novo. Fez comentário na rádio e na televisão a vida toda. Foi diretor do Expresso e do Semanário. A comunicação social está para ele, como uma bola para os pés de Ronaldo.
    Mendes foi arrastado para a SIC por Balsemão com o intuído desta estação não perder completamente as audiências para a TVI aos fins de semana, o que mesmo assim não conseguiu.
    Na altura em que ambos tinham espaço de comentário nas televisões, Marcelo chegou a ter quase o dobro dos telespectadores de Mendes.
    Dificilmente uma História como a de Marcelo se repetirá de novo, tão cedo. Se bem que em Portugal tudo é possível, pois até “Cristo desceu à terra”!

  2. José Peralta says:

    Detritus Minimus ? Que susto ! Por momentos pensei que o José Gabriel estava a referir-se àquele puto, o leitão amaro…

    Porque se assim fosse…eu até ficava “ofendido” !

Deixar um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s