Crónicas do Rochedo XVII – É só uma canção?


salvador

Nem sei precisar o número de anos sem um simples “deitar o olho” a um festival de canção. Este ano foi diferente por um mero acaso: ter visto/ouvido a canção do Salvador Sobral nas redes sociais e a sua prestação nas meias finais. Ficou aquela sensação de: “será que uma música destas ganha o festival da canção?”. Ganhou para enorme surpresa minha. E depois foi o: “será que consegue o milagre de ganhar em Kiev?”.

Quem me segue no Aventar e nas redes sociais já se apercebeu da minha enorme paixão pela música. Aqui no Aventar cheguei a ter uma rubrica chamada “Sons do Aventar” e quando fui convidado para o colectivo Aventar tinha dois blogues e um deles, “A Hora do Sá”, era exclusivamente dedicado à música. Este gosto que tenho pela música (e o desgosto de não saber tocar nadinha e ter uma boa voz para arrastar móveis) fez-me evitar tecer grandes e definitivas críticas a determinados géneros musicais. Gosto de música alternativa como gosto de rock/pop, de country e música electrónica, sem esquecer o jazz ou a música clássica. Ou seja, independentemente de dentro dela ter um ou outro estilo de que gosto mais, tento não ser “duro de ouvido” para os diferentes géneros. Na família Sobral só conhecia a irmã e dela conhecia dois dos seus álbuns (The Cherry on my Cake e Luísa) e as suas afinidades vocais e de estilo com duas das minhas cantadoras preferidas: Regina Spektor e Laura Marling. Do irmão, o Salvador Sobral, nunca tinha ouvido falar. Até ao dia em que tropecei na sua “Amar pelos Dois” nas redes sociais.

Com toda a sinceridade, achei que este “Amar pelos Dois” na Eurovisão era “deitar pérolas a porcos”. Daquilo que me ficou dos tempos de infância do dito festival era um conjunto de músicos e músicas espalhafatosas, onde a pirotecnia, as coreografias e a apresentação do/a intérprete valiam mais do que a música propriamente dita. Tudo o oposto do Salvador Sobral. Depois, quando soube que a votação do público era fundamental, a minha convicção da derrota ficou mais cimentada. Quando vi que até a Espanha se apresentava com uma música em inglês fiquei com mais e mais certezas. Os espanhóis, tão senhores da sua língua cediam à moda do inglês. Estava tudo dito.

Não estava. E os sinais eram vários. A reacção da maioria dos jornalistas estrangeiros, do público que assistia aos ensaios, de alguma imprensa internacional e até de alguns conhecidos meus aqui por estas bandas de Espanha. Lido com alemães, ingleses, espanhóis e sempre que se fala de música portuguesa pouco mais sabem do que Fado e um ou outro fala dos Madredeus e dos Moonspell (neste último caso, os alemães). De resto, nada de nada. E estou a tirar desta equação as vezes que me falam, como se fossem portugueses, de Caetano Veloso, Chico Buarque ou Bossa Nova. A música brasileira até que conhecem mas a portuguesa só mesmo o Fado (mais o género). De repente ver que me faziam perguntas sobre “o miúdo que vai à Eurovisão” era já um sinal.

Ontem e hoje vejo os mais insuspeitos a dirigirem-se a mim para dar os parabéns pela vitória do Salvador Sobral. E no caso dos espanhóis “maiorquinos” então é como se a vitória fosse também deles – Salvador andou por estas bandas durante seis anos. No fundo, a grande conclusão que se pode tirar é que a boa música não tem pátria e por isso Salvador Sobral ganhou.

Quando alguns dizem que é só uma canção, eu prefiro responder: Não, é música.

Comments

  1. JgMenos says:

    Prefiro o fado a tão chorada canção…

    • José Peralta says:

      Pois, pois, ó menos !

      Pelos vistos a tua cultura musical dão mais para a “intelectualidade”…

  2. Paulo Marques says:

    São gostos.

  3. Rui Mateus says:

    Contra corrente, bastava só isso,mas cantada em português, é obra.

    • Rui Naldinho says:

      Salvador, um herói improvável.
      Quando ouço a voz dos Sobral, sozinho ou acompanhado pela irmã, cantando “amar pelos dois”, lembro-me logo daquela música cantada pela Elis Regina:

      “Os sonhos mais lindos sonhei
      De quimeras mil, um castelo ergui
      E no teu olhar, tonto de emoção,
      Com sofreguidão, mil venturas previ…”

      Daí achar que esta música ficará para a História, tal como muitas das músicas cantadas por Elis Regina, mas não só dela.
      Salvador Sobral afirmou já no fim do espetáculo, num flash interview, que a mensagem enviada por Caetano Veloso sobre a sua música, incentivando-o e dando-lhe os parabéns por tão bela canção, era para ele mais importante, que a estatueta atribuída pelo vencedor do Festival. Isso quer dizer muita coisa.
      Como muito bem refere o Fernando, a canção vale bem mais do que aquilo merece o festival, por vezes até piroso, onde se canta em inglês apenas se sacar uma boa classificação. Eu até sou capaz de admitir que uma parte das músicas possa ser cantada nessa língua, mas só e apenas uma parte.
      A nossa música foi de longe a melhor coisa que por ali passou. E já agora é bom lembrar que nunca houve uma diferença de pontos entre os jurados da primeira para a segunda classificada neste evento como agora.
      Agora já só falta o nosso ubiquado Santo Padroeiro, convocar o Salvador para lhe atribuir uma das muitas caricas que já atribuiu a futebolistas, atletas, escritores e políticos. Esperemos que S. Marcelo faça o seu já habitual jogo de amores pátrios, onde as selfies se misturam com os hinos “à vã glória de mandar”

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