O ódio e a ganância não têm religião


Jeremy Joseph Christian é um supremacista branco, presença assídua em comícios da extrema-direita norte-americana e assumidamente católico, que ontem esfaqueou três pessoas em Portland, sendo que duas delas acabariam por morrer. Se fosse muçulmano, independentemente das motivações por trás da barbárie, o foco estaria na sua religião. Como é católico, praticamente nenhum meio de comunicação faz menção à sua religião, optando por descrever o monstro como um neonazi racista e anti-semita.

É interessante, pelo menos para mim, assistir a esta dualidade de critérios que, posteriormente, se reflecte no tribunal das redes sociais. A forma como um crime destes é tratado quando o autor é (ou não) muçulmano. Quando é muçulmano, somos invadidos de opiniões que anunciam catástrofes bíblicas e um plano conspirativo que os une a todos para dominar o mundo. Não sendo muçulmano é apenas um tolinho ou, no limite, um grunho violento.

O problema não é nem nunca fui a religião A ou B. Não o foi durante a Inquisição, continua a não o ser na era do terrorismo com assinatura do radicalismo islâmico. O problema é, tão-somente, o mesmo que esta na raiz de qualquer guerra ou limpeza étnica: canalhas gananciosos, obcecados pelo poder absoluto, que usam todos os meios ao seu dispor para atingir os seus fins, sejam eles a ignorância humana, uma interpretação violenta, intolerante e radical de um qualquer credo ou a instigação de um medo fabricado. Jeremy Joseph Christian não é muito diferente de um bombista suicida que se faz explodir em Paris ou no Reino Unido. Apenas mais um fanático, cego de um ódio cirurgicamente alimentado por tipos que, nos EUA como nas montanhas do Afeganistão, nunca estarão na linha da frente da carnificina.

Foto: Doug Brown@The Portland Mercury

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    É óbvio que a religião funciona apenas como um instrumento, uma espécie de mecanismo de ignição, comparável a um rastilho ou a um detonador. E ainda por cima, barato.
    O verdadeira pólvora, o trotil (TNT), é a miséria, a ignorância, e a falta de horizontes para a maioria esmagadora desta gente, atirados para o limiar da sobrevivência, em sociedades extratificadas, onde se nasce pobre e dali nunca se sai.
    Para azar de muitos deles, até a escola, ensina mais o culto do islão, a sua religião, do que a matemática, as ciências ou física. A literatura não são clássicos, mas livros e livros sobre o Corão.
    Ainda não vi um islamita, rico, milionário, bem na vida, fazer-se explodir em nome do islão. Logo, por alguma razão o nosso crente se poupa a tal enfado.
    Emigram para a velha Europa, USA, Canadá, entre muitas outras economias industrializadas e com bons níveis de segurança social, e numa primeira fase, aquilo ainda vai “funcionando”, porque traumatizados com tanta miséria passada, acham que mesmo continuando pobres e dependentes dos apoios sociais, sempre estão melhor do que nos seus países de origem, quanto mais não seja por se livrarem da Guerra.
    Chegados à segunda e terceira geração, reparam que apesar de terem nascido Europeus, Norte Americanos, etc, continuam sem perspectivas de uma vida diferente da dos seus pais, e a ser olhados como “árabes”, “muçulmanos”, etc.
    Resta-lhes fumar umas ganzas, mas como não têm dinheiro para o ópio, “inalam” religião que é mais económico.

  2. Paulo Marques says:

    Além disso, o exército americano continua a matar mais inocentes do que os terroristas. Mas como são sub-humanos, não contam.

  3. JgMenos says:

    Vá-se lá saber oque esta cena tem a ver com algo tão institucional como a jihad!

  4. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Há uma GRANDE diferença. No caso dos terroristas muçulmanos, as mortes são inspiradas (bem ou mal, não se discute) pela religião, e as motivações são religiosas. Mo caso descrito acima, a religião católica que supostamente o alegado honicida professa não é tida nem achada para o caso.

    Vamos colocar as coisas no patamar devido, e não confundir a estrada da Beira com a beira da estrada.

    • Paulo Marques says:

      Qual é a diferença entre ser a religião, o capitalismo, a xenofobia, o nacionalismo ou outra porcaria qualquer?

  5. Não é que duvide ou tenha relevância, mas já agora, para nosso esclarecimento, onde é que este personagem se assume como católico?

  6. Lendo algumas coisas sobre o personagem, vê-se que se assume como pagão, é contra o monoteísmo, anti-racista, e pasme-se, foi apoiante de Bernie Sanders. Chegou a jurar que mataria Hillary ou Trump caso fossem eleitos. Vejam só. Querer associar este louco a alguma coisa que seja, ainda por cima católico, é absoluto disparate.
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