Isabel de Aragão


A minha cidade festeja agora Isabel de Aragão à qual concedeu a condição de padroeira com o título de Rainha Santa. Das coisas do céu e da santidade, nada tenho a dizer, senão que respeito os meus concidadãos que nelas crêem. Porém, queria aqui confessar, com a humildade de quem muito ignora, que nunca me entendi com esta necessidade de, para elevar uma personagem feminina, lhe atribuir dotes sobrenaturais. Como se fosse estranho que a história de uma grande mulher – que indiscutivelmente Isabel foi – só fosse compreensível – digo mesmo, suportável -elevando-a à santidade e nesta lhe subsumindo a humanidade.

Isabel de Aragão foi uma mulher de dotes invulgares. Invulgarmente culta para o tempo – pelo menos tanto como o seu ilustre marido – foi firme, inteligente e hábil na sua acção política, diplomática e social, tal como foi sagaz e competente na administração das suas inúmeras propriedades. Interveio sem tibiezas, sem meias-tintas, escolhendo causas, mesmo que isso implicasse tomar partido na luta entre D. Dinis e seu filho, o futuro Afonso IV, coisa que fez de modo muito mais assertivo do que contam as piedosas lendas da doce esposa e mãe que, num burrinho, se interpõe entre as hostes de pai e filho. Com ela, aprendemos que bondade não é tepidez, que a coragem tem muitos rostos.

E mesmo quando decidiu recolher-se ao convento de Santa Clara, não professou e manteve o controlo sobre os seus bens, o que lhe permitiu continuar a sua extensa obra social. Estamos em tempos medievais, e mesmo quem quer ser solidário e caridoso não pode ser ingénuo. Tivera o Rei Lear a mesma sabedoria e melhor sorte lhe caberia.

Isabel de Aragão: se para a honrar precisam de lhe chamar Santa, assim seja; mas que essa condição não oculte a evidência de que foi uma extraordinária mulher. E sim, uma Rainha, por direito e por decreto popular.

Comments

  1. Faz falta falar das personagens da nossa História que marcaram os tempos pelo seu exemplo.
    Bom texto.

  2. José Gabriel, como apreciei e felicito esta sua análise, eu, Isabel de meu nome. Minha madrinha pela intenção e devoção de meu Pai a esta Rainha mulher valorosa, generosa e sábia…e santa segundo a fé de cada um, venerada sobretudo em Coimbra terra aonde nasci. Quereria sim ter tido verdadeira consciência da Mulher extraordinária que ela foi e de a ter seguido como exemplo e incentivo. …hélas !

  3. Foi de facto uma extraordinária mulher. Como aliás era comum em muitas das mulheres medievais com cargos de poder. Tenho gosto pelas lendas e mitos populares mas nunca achei grande graça ao milagre das rosas, porque preferi sempre ver Isabel fazer frente a Diniz. Por alguma razão este a pôs com termo de residência em Alenquer. E nesse contexto gosto muito mais da lenda que conta ter ela mandado alumiar o caminho até Odivelas para que o marido se não perdesse no caminho, dando assim o nome de Lumiar ao local. Está mais ao jeito do que julgo que ela foi.

  4. Marco says:

    Se é que me é permitido, gostaria de deixar aqui a recomendação para o romance de ficção histórica “Isabel de Aragão”, de Isabel Stilwell.

    De especial relevo para esta posta, a maneira como Isabel, a escritora, contorna habilmente o milagre das rosas de Isabel, a Rainha. E mais não digo, para não estragar.

  5. José Gabriel
    Sou Isabel de Aragão, reencarnada, e se Deus em Portugal me proporcionou muitos atributos, nesta não os tenho, moro no Brasil e sou apenas uma diarista.
    Reencarnação é uma das Leis de Deus, que os homens precisam saber.
    Abraços
    Isabel, agora Verinha

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