Angola e as eleições gerais de 2017 (1)


[Mwangolé]

Validadas pela CNE, até ver, as eleições angolanas do passado dia 23 poderão ter sido livres e democráticas, mas dificilmente alguém as considerará justas. Para já o povo angolano deu uma lição de civismo aos políticos, exercendo o seu direito sem a confusão ou exaltação que muitos estariam à espera, é por isso e para já, o grande vencedor do pleito eleitoral. É importante que a paz tão duramente alcançada, não seja colocada em causa, pois dela todos beneficiamos.

Eleições livres no sentido que ninguém foi obrigado a votar ou impedido de se abster. Democráticas porque apesar de contestadas pela oposição, não vi até agora qualquer prova de falsificação de resultados. Quem tiver que rapidamente as apresente. E se aparecerem, que sejam rectificados os resultados anunciados, ou repetidas as eleições como irá acontecer agora no Quénia, um bom exemplo para todo o continente. Quanto à justiça a conversa é outra, em primeiro lugar porque existiu confusão desde o início do processo, ou seja desde o recenseamento, continuou com a certificação dos delegados de lista junto das mesas, com o método de apuramento dos resultados, ou seja, muito dificilmente alguém acreditará que a CNE esteja isenta de culpas quanto às acusações de parcialidade e também não se livrará de ser questionada quanto à sua competência e sucessivas trapalhadas em que se foi envolvendo. Fica a suspeita no ar e isso não é bom para quem se quer apresentar acima das disputas partidárias, representando o Estado. Imaginemos que numa partida de futebol, o árbitro vai ser nomeado e pago por uma das equipas. Por muito idónea que a pessoa seja…

Mas ainda pior estiveram os meios de comunicação social, com as principais responsabilidades para a TPA e RNA, sem isentar de culpas os restantes. Diariamente, a cada bloco noticioso, o Estado foi confundido com o partido e vice-versa. E isso não foi acidente, nem incompetência, foi mesmo intencional. Podem ter cumprido os tempos de antena e ter noticiado as actividades dos partidos da oposição durante o período de campanha eleitoral, mas sempre que entrevistavam alguém da oposição, imediatamente no estúdio havia um especialista para comentar e contestar qualquer tomada de posição, proposta ou acusação. Os dirigentes do partido no poder multiplicavam-se em deslocações pelas províncias, acumulando inaugurações oficiais com acções de campanha. De manhã inauguravam um hospital, escola ou fábrica, à tarde passeavam pelo meio da população oferecendo rádios, sacos de farinha, óleo, tudo amplamente coberto pelos repórteres e apresentado no principal noticiário em horário nobre. Também eram encenadas cerimónias quase diariamente, onde dezenas, por vezes centenas de pessoas abandonavam as fileiras dos partidos da oposição para ingressarem no MPLA. O contrário nunca aconteceu. No final como sabemos o partido do governo acabou a perder 10% do eleitorado, comparando o resultado agora obtido com a eleição de 2012. Veremos o que acontece em 2022 e principalmente se durante a próxima legislatura, serão finalmente realizadas as prometidas eleições locais, ou se o exercício do poder de Cabinda ao Cunene, resultante de eleição ou nomeação, continuará a ser um exclusivo do partido dos camaradas.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Na Venezuela a oposição ganhou umas eleições, e chamam àquilo uma ditadura. Em Angola, a Oposição nunca conseguiu colocar pelo menos, o Partido do Poder em maioria não qualificada, uma espécie de maioria relativa, e chamam aquilo uma democracia. Isto após em vinte anos de paz. Portanto, já nem recuo ao período pós colonial, em guerra civil.
    Aliás, acho piada, que enquanto Angola esteve umbilicalmente ligado ao regime soviético e a Cuba, sem dar um tostão aos interesses portugueses que posteriormente se vieram a instalar em Angola, após a pacificação do país, aquilo sempre foi uma ditadura do MPLA. A partir do momento em que passou a dar abonos de família a alguns grupos económicos Tugas, transformou-se numa democracia. Irónico, sem duvida.
    É óbvio que cada um vê os regimes políticos conforme lhe dá jeito. A mim, como nenhum deles me faz o favor de me pagar as contas ao fim do mês, vou continuar a pensar que Angola é apesar de tudo, pior que a Venezuela. Com tanta fome e miséria que dá dó. Só que na Venezuela fazem reportagens. Em Angola nem lá entram.
    Em Angola, jovens reuniram-se para ler uns livros numa tertúlia, e foram presos sem acusação formada, para serem libertados alguns meses depois de muita pressão internacional. Na Venezuela a oposição até anda armada e abate gente do regime. Apesar de viverem num regime presidencialista até se acharam no direito de o destituir o presidente. Irónico estes democratas.
    Sim, estamos a falar de dois países onde a democracia não passa de uma miragem. Mas se a Venezuela não é uma democracia, e eu assino, Angola ainda o é bem menos.
    Agora, façam o favor de não fazerem de nós parvos.

  2. carlota says:

    E o sucessor é.… João Lourenço, santificado por Eduardo dos Santos. João Lourenço, tem como referência Deng Xiaoping.
    “Eduardo dos Santos, entregou as obras de construção do Pólo Industrial de Fútila, em Cabinda, à empresa Benfin, SA, cujo accionista de referência é José Filomeno dos Santos (Zenú), o ex-presidente colocou o controlo económico estratégico desta província nas mãos do seu filho e dos amigos deste. Essa medida surge na sequência de duas outras através das quais o ex-presidente entregou a construção e a concessão do porto de águas profundas de Caio e de parte do sector de electricidade em Cabinda ao seu filho e amigos”.
    Como vai combater a corrupção?
    0_0
    Aiuê, os compadres vão zangar.

  3. A.Silva says:

    Mais um treaccionário que quer pôr em causa as eleições angolanas.
    Depois de tecer loas à forma exemplar como decorreu as eleições, como se isso não fosse resultado do ambiente de abertura que existe em Angola, este reaccionário de trazer por casa, lança suspeitas sem qualquer fundamento sobre o processo eleitoral, tudo meras suposições, nenhum facto concreto.

    Por fim, o raccionariozinho, descobre que as eleições não foram democráticas porque a comunicação social foi parcial… mas como é que se pode ser tão cínico, querer lançar tanta areia para os olhos das pessoas.

    Ó reacionariozinho, se a parcialidade da imprensa dominante, no caso de Portugal toda, fosse determinante para qualificar como pouco democráticas umas eleições, bem podiamos dizer que em Portugal nunca houve eleições democráticas.

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