O CETA é TABU


Foto: Paula Moreno

Suponho que quem lê o Aventar também se informará através dos meios de comunicação social mais lidos, vistos ou ouvidos em Portugal. Pois pergunto-lhe: quantas vezes, nos últimos anos ou meses, ouviu falar ou leu algo sobre o CETA, o Acordo de “livre comércio” entre a União Europeia e o Canadá?

SE viu ou leu, terá sido uma excepção, e quiçá estará a confundir com algum dos numerosos posts que escrevi aqui no blogue, por exemplo este.

Tendo em mente que o CETA vai expressamente enviesar ainda mais o centro de gravitação dos países em volta do grande capital global por meio da passagem de soberania dos mesmos para o dito, aquilo que ouviu ou leu sobre o CETA nos mídia portugueses é uma gota de água, e as mais das vezes, turva.

Pouquíssimos portugueses terão noção do grau de bloqueamento a que o CETA foi e continua a ser sujeito na comunicação social em Portugal.E não por falta de esforço de um pequeno grupo de cidadãos informados: desde uma petição que foi discutida na Assembleia da República pedindo um amplo debate nacional, passando por repetidos apelos a que escrevessem sobre o CETA dirigidos a centenas de figuras públicas da nossa praça, comentadores, académicos e jornalistas, bem como pela apresentação de queixas aos provedores de vários órgãos de comunicação pela falta de informação sobre o CETA e por dezenas de comunicados de imprensa, tudo foi tentado ao longo dos últimos quase três anos. Resultado? Um atordoamento profundo, de tanta cabeçada dada no muro de silêncio. Uma consciência substancial da astenia do serviço público prestado pelos meios de comunicação portugueses. Os jornalistas? Respondem que o tema é difícil, que não tem interesse, não há história. E isto é dito por jornalistas conhecidos pelas suas posições críticas, não conformistas. Salvo raríssimas e honrosas excepções, respostas de similar teor são dadas por políticos comentadores de esquerda, que supostamente apoiam o protesto contra o CETA.

Por ocasião do debate que antecedeu a aprovação do CETA na AR, no passado dia 18 de Setembro, teve lugar um evento significativo, se tivermos em conta a pobreza da articulação cívica em Portugal: ao longo de seis horas preenchidas com intervenções de representantes de 11 organizações da sociedade civil, de seis partidos que rejeitam o CETA, de três docentes universitários, duas bandas musicais e duas performances estiveram presentes, ao todo, cerca de duzentos cidadãos, manifestando o seu apoio a esta causa. Valia a pena noticiar nos mídia de alta audiência ? Não. A única notícia que viu a luz do dia foi a da LUSA/Diário de Notícias, que reduziu o evento a um momento inicial, pouco representativo. Mas valha-nos, noticiou. Todos os outros, berraram silêncio.

Para quem anda envolvido nesta luta, é dado adquirido que é TABU falar sobre o CETA e as suas pesadas consequências para os cidadãos, o planeta e os animais; sempre o foi e continua a ser depois de ter já sido aprovado, agora só a requerer a ratificação pelo Presidente da República.

Hoje realiza-se um debate sobre o “O CETA e a Comunicação Social”. Mais uma vez, foram convidadas várias dezenas de pessoas de referência nesta área. Entre elas, os provedores do ouvinte e do telespectador da RTP. Vão lá estar? Não vão. A sua presença no debate não se coaduna com o estatuto do Provedor.

Haverá outros temas silenciados pelos mídia em Portugal. Mas que este é um deles, não resta qualquer dúvida. Adivinhem porquê…

Comments

  1. A este respeito não posso deixar de acrescentar algumas observações:

    1- https://www.nao-ao-ttip.pt/ricardo-pais-mamede-economista/

    2- https://www.nao-ao-ttip.pt/luisa-schmidt-gabriela-canavilhas-e-antonio-araujo-no-programa-um-certo-olhar/

    3- No evento mencionado, entre o representantes dos 6 partidos encontraram-se 3 deputados (BE, PCP, PEV), e as associações representadas com relevância jornalística encontravam-se, entre outras, a CGTP, a Confederação Nacional da Agricultura, a Liga para a Protecção da Natureza, a Zero e a Animal (sim, os ambientalistas e defensores dos direitos dos animais do mesmo lado da barricada que os agricultores!), e no entanto a única associação mencionada na notícia foi a dos Precários Inflexíveis.

  2. Rui Naldinho says:

    O CETA é de facto um TABU.
    A começar logo pela ignorância da maioria dos cidadãos, sobre o assunto, eu incluído. Senão vejamos:
    Com excepção da Ana Moreno que tem aqui feito chegar um conjunto de questões sobre este assunto, Acordo designado por CETA, escuso-me a por os links, pois é fácil aceder a eles, pouca gente liga “à coisa”.
    Quem me despertou o interesse foi sem dúvida a Ana. Li em Fevereiro um artigo de Marisa Matias, sobre este assunto:
    http://www.esquerda.net/opiniao/o-que-e-o-ceta-e-o-que-e-que-se-esta-passar-enquanto-dormimos/47049
    E em Setembro deste ano, outro de João Camargo, na Sábado: http://www.sabado.pt/opiniao/convidados/joao-camargo/detalhe/ceta-um-acordo-politico-contra-a-democracia
    O resto da maltinha, pelo menos a que vai dando umas dicas sobre o CETA, embrulha aquilo num papel cor de rosa, dando a entender que as vantagens são mais que as desvantagens.
    https://www.dinheirovivo.pt/economia/ceta-sete-perguntas-e-respostas-sobre-acordo-de-comercio-ue-canada/
    É obvio que a Ana Moreno, a Marisa Matias, o João Camargo, Francisco Louçã e outros, alertam-nos para este potencial conflito de interesses, mas como ainda estamos perante o desconhecido, não temos exemplos concretos de como isto vai interferir nas nossas vidas, vamos ficando como o “tolo no meio da ponte”.
    Se meditarmos um pouco, já vimos isto antes. Lembram-se de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, e a desregulação do mercado capitais. O neoloiberalismo ia resolver tudo a bem de todos. Deu no que deu, com a falência do sistema financeiro. A maior parte dos bancos na Europa, não fosse a intervenção dos governos e do BCE e mais de dois terços tinha ido á vida. Quem pagou? O contribuinte.
    E este filme será mais um, dos muitos que o mundo neoliberal nos enfiará goela a dentro, como um maná que ajudará a crescer as economias, até ao dia em que alguns repararem que estão num beco sem saída. Entretendo os partidos Sociais-democratas Europeus na generalidade, vão fazendo aquilo que fizeram com o Tratado Orçamental. Depois digam que o eleitorado vos manda às malvas.

    O anterior comentador, já fez questão de deixar dois links, pelo que retiro parte do meu texto, para que não haja sobreposição.

  3. Ana Moreno says:

    Obrigada Rui, o CETA é de facto um assunto espinhoso porque não é fácil de entender que um “acordo comercial” contenha TUDO AQUILO que é enfiado nos “acordos comerciais de nova geração”, sendo o CETA o primeiro desta sorte para os cidadãos europeus – e daí a sua relevância. É bem compreensível que as pessoas fiquem como o “tolo no meio da ponte”. São ca. de 1.600 páginas (com os anexos) que abrangem tudo e mais alguma coisa para baixar padrões (pois só assim caem as “barreiras não tarifárias”) em quase todas as áreas da vida dos cidadãos. Não entro em pormenores pois realmente já foquei muitos dos diversos aspectos em causa. Mas o principal atentado destes acordos, tem duas faces:
    – a instituição de DIREITOS ESPECIAIS ÀS MULTINACIONAIS PARA PROCESSAREM OS ESTADOS POR LUCROS ESPERADOS e
    – a criação de comissões regulatórias, com a participação dos lobbies internacionais, que vão influenciar a legislação dos estados membros, ainda antes de estes legislarem;
    Seria óbvio para qualquer pessoa que isto é um ataque à soberania e à democracia dos estados. E é por isso que o Tribunal Europeu e o Tribunal Constitucional alemão estão a analisar a constitucionalidade do ICS que o CETA institui. Agora, isto não interessa fazer saber, pois não? É simples, na verdade.
    Aconselho ainda a leitura do artigo: http://www.jornaleconomico.sapo.pt/noticias/ceta-ttip-ou-a-regulacao-da-desregulacao-211181
    que coloca também aspectos referidos no seu comentário.
    Não se quer que as pessoas saibam, porque se soubessem, seriam contra. Sigmar Gabriel (SPD) impôs o CETA ao seu partido, numa longa história. E declarou depois, que a importância do CETA não residia nas suas vantagens económicas, que são residuais. Mas sim no seu carácter de modelo. Está tudo dito.

  4. Ana Moreno says:

    Está tudo dito mas como a hipocrisia não tem limites, a maioria dos artigos que pinta o CETA de dourado alega que isto é a “regulação da globalização” e portanto muito bom. Pois sim, dourem-nos a pílula. E nem queiram saber o papel que a UE anda a desempenhar nas negociações do Tratado da ONU sobre Direitos Humanos e Corporações. É apenas outra face da mesma medalha: o poder está bem é nas mãos das multinacionais. Fica para outro post 🙂

  5. Ó Ana… Só tu para me fazeres alegrar o dia!

    A tua persistente Ilusão – naquilo que já falamos – é absolutamente divertida!

    Com que então acreditas tu que é com “… uma petição que foi discutida na Assembleia da República pedindo um amplo debate nacional, passando por repetidos apelos a que escrevessem sobre o CETA dirigidos a centenas de figuras públicas da nossa praça, comentadores, académicos e jornalistas, bem como pela apresentação de queixas aos provedores de vários órgãos de comunicação pela falta de informação sobre o CETA e por dezenas de comunicados de imprensa, tudo foi tentado ao longo dos últimos quase três anos.” 🙄

    Deixo-te aqui um pequeno presente (já com alguma idade, é de 2014!) para que também tu te possas 😆 😆

  6. Ana Moreno says:

    Pois isso a mim em vez de vontade de rir, entristece-me. Cada um a seu modo. Pode esperar por mais posts meus para se rir, está prometido.

  7. Ana Moreno says:

    Pois, dependendo da perspectiva, já que contribuo para o seu riso cínico, às tantas estarei a ser cínica. Paciência…

  8. Enviámos por ex esta solicitação a estas personalidades :

    danieloliveira.lx@gmail.com;
    carvalho.silva@netcabo.pt;flouc@iseg.utl.pt;jppereira@gmail.com;GERAL@PRODUCOESFICTICIAS.PT;

    “Caros concidadãos com responsabilidades de desempenho em espaços de opinião nos meios de comunicação social

    O alheamento e falta de informação da população em geral em relação aos impactos e consequências do CETA é esmagador. Tanto os partidos como os órgãos de comunicação social têm responsabilidades nesta matéria, mas não só. Vários cidadãos com espaços permanentes de opinião na imprensa ou rádio e televisão têm oportunidade de lançar o debate público sobre uma questão estruturante com impactos de longo prazo, escapando ao imediatismo dos últimos “fait-divers”.

    A Plataforma Não ao Tratado Transatlântico tem feito um esforço de sensibilização de várias dezenas de comentadores nestas circunstâncias, até agora com um grau de sucesso muito reduzido.

    Apelamos portanto a um conjunto de pessoas com espaço na comunicação social, para que ajudem a romper a “muralha de silêncio” que rodeia este tema, e contribuam para que os cidadãos deixem de estar alheados em relação a uma questão tão importante.”
    ***********
    …quantos responderam ? que enviei tb pessoalmente e posso garanti-lo : NENHUMA resposta de cada um deles !
    Foi unicamente de Pedro Mexia a quem nos dirigimos pela sua condição de proximidade ao Presidente Marcelo que recebemos resposta educadamente de cidadania participativa porém
    sem garantias de actuação concreta neste tema devidamente justificadas.
    …e dos Provedores da Com. Social ? apenas uma resposta formal de um deles, a despachar o assunto sem continuidade de uma respectiva actuação concreta a comunicar-nos como seria espectável.

    …e finalmente do Presidente da República de quem se esperaria a Não ratificação possível do CETA :
    mas há alguma dúvida de que este abraço solidário ele não no-lo dará NUNCA, a recompensar- nos de uma luta por uma causa justa que a eles políticos competiria acautelar ?

    ….mas seremos nós que estamos errados, sendo eles a maioria com responsabilidades de toda a ordem a assumirem-se como os sensatos da boa governação ?
    …. tanta malfeitoria com consequências nefastas que vai sobrar para nós todos num futuro bem próximo !

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