Postcards from Greece #1 & #2 (Athens)


No more waiting, no more silence…

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estou na Grécia há já uns dias. Não é a primeira vez que visito a Grécia, ou melhor, alguns lugares deste país, já que seria preciso muito tempo para visitá-los todos. Mas estive em Atenas, em Santorini e em Creta em 2011. Dessa altura lembro-me, porque tive a experiência concreta em inúmeras ocasiões, da enorme simpatia e generosidade dos gregos. Lembro-me particularmente de um dia muito quente, em Atenas, em que me faltava em moedas o que me sobrava em sede. Em dois cafés onde tentei pagar a água com uma nota de cinco (ou dez, já não me lembro bem) euros, ofereceram-me garrafas de água de meio litro, porque não tinham troco. Podiam ter-me recusado a água, mas não hesitaram em oferecer-ma. Nunca me esqueci disso, porque na altura pensei que em Portugal provavelmente ter-me-iam mandado bugiar ou trocar dinheiro, o que seria o mesmo.

Talvez seja disso que mais gosto na Grécia que conheço (e que é ainda tão pouca): essa constante generosidade e disponibilidade, seja de quem for, para ajudar o próximo. Talvez eu tenha tido sorte, pelo menos até agora, mas nunca me cruzei com um grego que não fosse extraordinariamente simpático, prestável e generoso. Parece que assim continua a ser.
Atenas estava na mesma como me recordava dela. Talvez um pouco mais suja, mais inundada de grafitis do que da última vez. O hotel ficava na Metropoleos, mesmo à beira da praça Sintagma onde agora alguns, poucos, refugiados, substittuem os indignados de 2011, nos protestos. Não protestam pela mesma coisa.Ou se calhar sim. Trata-se afinal do direito a uma vida digna, do direito à esperança e à felicidade. Em Atenas, em frente ao parlamento, ao cimo da praça Sintagma, algumas dezenas de pessoas estão acampadas em greve de fome. Exigem a reunião com as suas famílias e escrevem em faixas que não querem esperar mais. Nem querem mais silêncio. No acampamento improvisado, diante dos soldados com sapatinhos de pompons que fazem uma estranha dança de hora a hora em homenagem ao soldado desconhecido que repousa para sempre, homens, mulheres e crianças exigem a felicidade agora. Não sei se as crianças sabem exatamente porque estão ali, mas saltam à corda e jogam ‘à apanhada’ e sobretudo riem com uns dentinhos muito brancos que sobressaem nas suas caras muito morenas.
Ali perto, descendo os degraus, a fonte desfaz-se em repuxos de água. Pessoas fumam sentadas em bancos de jardim, outras correm para apanhar autocarros que, provavelmente as levarão para junto das suas famílias, sem terem de exigir nada, nem fazer greve de fome, para que isso aconteça. Ou talvez não seja exatamente assim, já que a crise empurrou muitos gregos para fora da Grécia e sabemos lá quantas destas pessoas que correm para os autocarros ou fumam tranquilamente diante da fonte, esperam reunir-se com familiares dispersos em vários pontos do mundo!
Antes da praça Sintagma, visitei de novo a Acrópole. Em 2011, estava de passagem em Atenas e disse a mim mesma que, ao menos uma vez na vida, e já que ali estava, devia ver esta maravilha. Estava calor, fui com o Manolo e a Elena, ambos também de passagem. Todos à espera de nos reunirmos com os nossos, em Portugal, em Espanha e no México. O mundo é pequeno e as pessoas são muito parecidas e há gente que espera reunir-se com outra gente em toda a parte. Mas a reunião, para nós, era, ao contrário daqueles que protestam na praça sintagma, certa. E com essa certeza, talvez não muito consciente, visitámos então os três a Acrópole num dia demasiado quente de Agosto. Desta vez não estava quente. Nem frio. Choveu torrencialmente e trovejou abundantemente estava eu já lá em cima a contemplar embasbacada, como da primeira vez, aquilo tudo mais a vista assombrosa sobre a densa e confusa Atenas. A chuva tornou mais difícil a descida. Não sei quem raio se lembrou de pavimentar a mármore liso o caminho até ao Partenon. Apenas por milagre dos deuses todos não parti uma perna.
Depois da Acrópole, no autocarro turístico, lá fui de novo até Piraeus ao encontro do mar. Deixou de chover e a paisagem era bela e muito azul. A mesma maravilha embasbacada, como da primeira vez, diante de Atenas, no outro lado da baía. Confusa e densa, rodeada de montanhas onde as nuvens pousam devagar, como quem chega a casa, para reencontrar os seus e, naturalmente, os reencontra. Sem ter de esperar.
À noite, ao cimo da praça Sintagma, os refugiados esperam ainda, no seu acampamento improvisado, que a manhã acabe com o silênco e com a saudade, embalados pelo múrmurio da água e pela promessa que os olhos generosos dos gregos que passam parecem conter. Eu bebo um café rodeada de pessoas que parecem não ter ninguém no mundo. Nem saudades. Só o silêncio e o fumo de algum cigarro por companhia.
Kalinychta!

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