Stop


Foi centro comercial nos anos 80, com cinema, lojas, restaurantes. Depois começou a perder fôlego para a múltipla concorrência e decaiu. Foram encerrando-se lojas, houve algum episódio de violência, o local tornou-se indesejável. Esteve fechado, a apodrecer lentamente aos olhos de quem passava, uma ruína mais numa cidade que acumulou demasiadas. Mas há poucos anos, ganhou uma nova vida quando os músicos da cidade começaram a alugar as antigas lojas e a convertê-las em salas de ensaio. A porta da rua reabriu-se, voltou a ver-se gente por ali, um segurança, um café à entrada –  sintomas de vida num corpo que estivera inerte.

A vida deste local, a sua experiência distinta de todos os outros grandes espaços comerciais da cidade, tornou-o um lugar especialmente interessante. Desde logo, essa nova vida não se fez acompanhar de uma renovação estética. O Stop continua a parecer um local abandonado. Há paredes grafitadas, zonas mal iluminadas, beatas no chão, lojas que ainda exibem os seus antigos cartazes, agora arruinados, montras que deixam ver salas vazias, janelas tapadas, algum caixote abandonado pelos últimos inquilinos, uma lista telefónica manchada de humidade, um calendário de um ano longínquo. Os estúdios dos músicos, tapados dos olhares de quem passa, não se distinguem das salas para alugar. Os elevadores funcionam, mas as escadas rolantes estão paradas. As casas de banho, de paredes cobertas de rabiscos, estão reduzidas ao mínimo. Aí não há espelhos, não há sabonete e é quase com espanto que confirmamos que há retretes e água corrente.

Ao longo das escadas que conduzem ao terceiro e último andar, apenas uma loja está aberta ao público. Vende máquinas registadoras, talvez tinteiros de impressora, nem sei bem. Não parece real, a loja, nem real parece o homem que está sempre sentado atrás da secretária, à espera. Nunca lá vi um cliente. Ocorre-me sempre que ela não pode ser real mas tão só uma encenação do que poderia ser uma loja. E o homem, apesar de parecer vivo como eu, é apenas um reflexo do homem que aí passou os dias, noutros tempos. Escadas acima, vou espreitando, pelas frinchas, para dentro das lojas vazias, o tempo suficiente para que os olhos se acostumem à escuridão, numa vaga expectativa de maravilhar-me ou morrer de medo, porque tudo parece possível num lugar assim.

Se os centros comerciais são o paraíso do consumo, aquietadores de angústias com a sua promessa de saciedade, o Stop transformou-se numa espécie de pesadelo, um negativo onírico dessa imagem perfeita. Aqui, o consumismo faliu, a sua promessa falhou, e tudo são destroços. Ao virar de uma esquina, ouve-se de súbito a música de uma banda de heavy metal. Guitarras, baterias, um ruído que parece irromper das entranhas do local, como se fosse a sua genuína voz, o seu grito. Não há luzes, nem escaparates, nem promoções, saldos, campanhas, não há compras nem montras para ver. Há a solidão dos corredores na penumbra, o silêncio que só a música quebra, e uma estranha sensação de que estamos nos bastidores de um palco, que a peça acabou e restamos nós.

Esta ruína resgatada pelos artistas é talvez um futuro possível. E dessa ruína nasce alguma coisa nova e transformadora. A um canto, empilhadas com paciência, estão embalagens de ovos, que hão-de vir a forrar paredes. Isolamento acústico improvisado. Dois rapazes carregam um sofá desconjuntado para uma das salas. À hora em que há mais gente a ensaiar, a cada dez metros de corredor ouve-se um estilo distinto: jazz, blues, heavy, rock.

Muita gente passeia o desespero silencioso pelos corredores dos centros comerciais. Aqui, a fealdade do que está à mostra convida a que se olhe para dentro, mais fundo. Também de nós.

Fotografia: Stop, Outubro 2017 (CR)
Sobre Carla Romualdo

aviadorirlandes(at)gmail.com
aventar.eu / pestreita.wordpress.com

Comments

  1. É Carla as cidades transformam-se. O que vale deixa de valer.
    Conheci o Stop desses tempos. Teve a sua chance. Agora as comodidades estão noutros lugares.

  2. O STOP é a verdadeira Casa da Música do Porto:

    • Bem lembrado!

      • Este documentário ficou-me na cabeça, e sempre que se falar do STOP vou lembrá-lo, pela forma positiva como pegaram no tema, lembrando, por exemplo, que o Centro Comercial STOP é a maior sala de ensaios da Europa. E faz sentido e compreendo que lhe chamem a verdadeira casa da música do Porto, pois foi graças aquelas salas que muitas bandas do Porto e arredores, tiveram oportunidade de alugar um espaço e poderem ensaiar a troco de um aluguer acessível.

        • Ana Moreno says:

          Que gente boa, que gente rica daquilo que vale mesmo, que bom documentário. “Aqui, a fealdade do que está à mostra convida a que se olhe para dentro, mais fundo. Também de nós.” E a que se encontre o que é belo a sério. Essa senhora costureira, só por ela, merecia um documentário bem longo.

  3. Ana Moreno says:

    🙂 quando der, é certo que irei. Parece ter muito daquilo que “aquece o coração” 🙂

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