Postcards from Greece #6 (Thessaloniki)


‘As you are Portuguese, we have to take good care of you’…

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foi o que disse a rapariga grega trazendo um vinho do Porto à mesa da esplanada onde eu comia a melhor tarde de chocolate do mundo, acompanhada de um café cheio. A esplanada pertence ao Portogalo*, um wine bar na rua Komninon, mesmo à beira da Praça Liberdade (Plateia Eleftherias), numa das zonas mais bonitas e movimentadas da cidade. Tinha passado lá ontem à noite, debaixo de chuva, depois do jantar no Coquille e, naturalmente, achado graça ao bar/restaurante chamado Portugalo e que exibia vinhos portugueses na montra. O vinho do Porto foi oferecido. Assim, sem mais nem menos, depois de eu ter dito que era portuguesa. ‘Se é portuguesa, temos de cuidar de si’. O Porto foi oferecido com a mesma generosidade e simpatia que se encontra em praticamente qualquer grego, já o disse um destes dias. E o Porto soube bem e ficou a promessa de voltar lá para um jantar como deve ser, quando sentir saudades de Portugal.
 

Umas horas antes deste gesto generoso, caloroso e simpático da rapariga grega no Portogalo, tinha apanhado aqui em baixo da minha rua (a Evripidou), na Agios Dimitirios o autocarro 23 para subir a colina de Ano Poli. Ontem no passeio do autocarro 50 que faz a ‘rota cultural’ da cidade, tínhamos subido aqui e hoje, com sol e mais tempo, lá regressei. O 23 deixou-me no belo largo, onde é absolutamente outono, de Agion Anargiron. Bebi um café à sombra das árvores a contemplar a bonita igreja ortodoxa (como quase todas aqui na Grécia) exatamente chamada Agion Anargiron e as cores das folhas. A seguir, devagar, fui pela Klafthemonos, a embasbacar-me com a confusão colorida das casas e das tavernas. Virei na pequena Pelopida para encontrar de novo a muralha bizantina, rodeada de um belo jardim onde era, também absolutamente, outono. Segui à sombra da muralha até encontrar o arco para Akropoleos. Virei à direita para o mosteiro Vlatádon, um oásis perfeito feito de sossego e gatos. Há muitos gatos na Grécia, especialmente em Salónica. Tal como as pessoas, são igualmente gentis e generosos e deixam-se afagar enquanto ronronam felizes. Na minha rua já contei, em frente à varanda onde vou fumar, uns oito gatos. Uns pequenos e brincalhões, outros mais velhotes e rezingões. A vizinhança poe-lhes comida e água. Em troca podemos contemplá-los nos seus movimentos graciosos e suaves, nas suas brincadeiras de gato.
 
Do mosteiro Vlatádon, fui descendo a Akropoleos, apreciando as vistas fabulosas sobre a cidade baixa e o Egeu de prata pela luz do sol e as casas de Ano Poli, ora explodindo em cores diversas, ora encolhendo-se em ruínas, e cheguei dos Jardins Pasha. O meu destino, desde o princípio confesso, era a enorme e imponente igreja de São Paulo (Agiou Pávlos) que também ontem, do autocarro 50, entre as gotas de chuva, tinha vislumbrado. Os jardins são, novamente, um oásis refrescante, de tranquilidade e beleza. Cheiram, mais a mais, muito bem, a plantas e flores, ao contrário da cidade baixa, onde o lixo transborda dos caixotes em cascata. A vista é, outra vez, deslumbrante. Avistam-se grandes navios a entrar e a sair do porto de Salónica e o mundo parece, visto daqui, um lugar perfeito. Ao sair dos jardins, para os contornar, entro na Avenida Ochi (Oxi), ou seja, na Avenida do Não e a perfeição acaba. A confusão dos prédios altos, com as varandas cheias de tralha devolve-me a realidade da cidade. Os carros que passam de janelas abertas e música muito alta, acrescentam imperfeição ao cenário. Chego ao portão de Agiou Pávlos e é outra vez perfeito. A igreja é tão bonita com os seus desenhos delicados e coloridos. Tem varandas e delas se aprecia de novo a beleza do mar, ao longe. Está fechada a igreja. Um senhor aparece a uma porta e deixa-se estar para ali. Quando passo pergunto se a igreja está fechada. Diz que sim, que só abre para o serviço religioso mas que se quiser, deixa-me entrar. Quero, como não querer?
 
Lá dentro cheira a cera e a limpo. É um sítio muito calmo onde habita a fé em deuses seguramente também generosos e suaves. Gosto de igrejas, já se sabe. E não seria possível não gostar desta, dos jogos de sombras e de luz que se desenham nas paredes brancas. Do despojamento quase total. Da frescura. Digo obrigada ao senhor, em grego, e boa tarde. Também não sei dizer muito mais, mas muitas vezes parecem, estas duas palavras, ser as suficientes. Diz-me ‘god bless you’ e desfaz-se em despedidas e sorrisos. Acho que deus, ou os deuses, ou aquela calma fresca e limpa da igreja de São Paulo já me abençoaram para sempre e desfaço-me também eu em despedidas e agradecimentos. Apanho depois o autocarro 24 para perto da Praça Aristótles. A zona mais movimentada e elegante da cidade. Aqui as varandas não têm tralha nem são confusas. Os prédios são elegantes e muitos escaparam ao grande incêndio que em 1917 destruiu boa parte da cidade. Compro um pão estaladiço numa padaria simpática e vou até à praça da Liberdade, tristemente transformada em parque de estacionamento e terminal de autocarros. A praça tem uma história longa, mas é talvez mais conhecida por ter sido aqui que em julho de 1942 os alemães, sob o pretexto de um recenseamento, concentraram 9 mil judeus que, depois deportaram. No total, pereceram nos campos de concentração nazis, 50 000 judeus de Salónica. Disso mesmo nos lembra o memorial, ao fundo da praça, a olhar o mar, em que figuras humanas se entrelaçam numa espécie de ‘menorah’ que arde eternamente.
 
Depois de ver o por do sol anunciar-se no Egeu, riscando de amarelo e laranja o céu de Salónica, volto para trás e sento-me na esplanada do Portogalo onde a rapariga grega me oferece um Porto, porque sou portuguesa. Um Porto que me sabe a casa.
*https://www.facebook.com/portogalo.gr/?pnref=story

Comments

  1. Lu Pisarro says:

    Muito gratificante ler seu interessante texto.
    Do Brasil em pensamento me vi na Grécia a tomar um bom vinho do Porto.
    Como filha de papai português (do encantador Porto) que sou me identifiquei e gostei.
    Escreva mais… e um abraço !

  2. Pedro says:

    Há vinte anos estive em Atenas (Brindisi-Patras-Atenas e volta) e só não fui a Salónica porque entretanto fiquei sem dinheiro. Confirmo tudo sobre a simpatia dos gregos e digo que nunca fui tão bem recebido em restaurantes e cafés como na Grécia (que diferença para Itália, por exemplo…). Pedia um café e obviamente vinha um copo de água fresquinha a acompanhar, sempre com um sorriso.
    Atenas é uma cidade caótica e feia, sobretudo no urbanismo, mas pensava que Salónica seria diferente. É o problema de conhecer uma cidade apenas de sites turísticos, com as praças e ruas principais criteriosamente escolhidos. Já agora, os comboios já não têm bancos de madeira?
    Sobre o vinho do porto, entrei numa mercearia em Atenas, para comprar uma garrafinha de ouzo para trazer e a dona, uma velhinha simpática, descobrindo que eu era português, impingiu-me uma garrafa de vinho do porto… grego (olarilas).
    É sempre um prazer ler as suas crónicas de viagem, Elisabete.

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