Lobo


[Rita Matos Gomes]

Tinha 17 anos a primeira vez que encontrou um.

De início, nem sabia que aquele era um osso de lobo, foi seu pai quem depois lhe disse.

Lembrava-se bem desse dia. Tinha levado o rebanho para um sítio diferente, por detrás do outeiro grande, porque o Estio ia muito seco e o pasto rareava.

Depois de subir a ladeira, foi quando viu o fojo do lobo. Sentou-se na sua borda a descansar enquanto os seus olhos vagueavam pelo local. Não conseguiu evitar um arrepio, na imaginação da cena que tantas vezes aí se teria repetido.

Mas não queria pensar nisso. Desviou o olhar e este recaiu sobre um osso, muito claro, e de forma invulgar.

Pegou nele e seguiu caminho. Quando chegou a casa, quase à hora da janta, pousou-o na lareira agora apagada, esperando o inverno. Depois do pai lhe dizer que aquele era um osso de lobo, não se conseguiu separar mais dele, meteu-o no bolso do avental e depois levou-o de noite para o quarto e guardou-o na arca do enxoval. O pai tinha dito que segundo a lenda, quem conseguisse encontrar ossos de lobo e montar o esqueleto, transformava-se de noite num lobo vivo.

A partir daí não mais parou de procurar e recolher ossos de lobo.

Agora, a poucos dias de fazer 63 anos, recordava o passado e antecipava com excitação o que iria acontecer essa noite. Ia ser a quarta vez que o fazia, mas o nervosismo continuava igual ao da primeira vez.

Deitou um último olhar para a mesa. Aí, bem organizados, dispunham-se os ossos de um lobo. Tinha encontrado o último na passada semana, esperara por hoje, noite de lua cheia, e passara o dia a montá-los. Apenas tinha parado para fazer o almoço e dar de comer à criação.

Mas tinha valido a pena. Bem alinhadinhos, ali estavam eles, na posição certa, formando um esqueleto perfeito.

Abriu a porta da rua. Ainda bem que o Junho já ia adiantado e as noites não resfriavam. Saiu para a noite e confirmou o fecho da porta do galinheiro. Pegou no cão e foi fechá-lo na arrecadação, por trás da casa.

Entrou na cozinha e encostou a porta da rua, deixando-a aberta cerca de uma mão travessa.

Foi para o quarto e deitou-se, mesmo sabendo que essa noite o sono tardaria a chegar.

Já na cama, os seus sentidos não acalmavam, esperando que algum som lhe chegasse da cozinha.

Nem deu conta de adormecer, mas acordou em sobressalto pouco tempo depois. Não ouvia nada e num segundo de desalento receou que tudo estivesse tal como ela tinha deixado, apenas um monte de ossos velhos dispostos em cima de uma mesa.

Levantou-se devagar e avançou para a porta do quarto. Uma tábua rangeu sob os seus passos.

Com o coração acelerado, rodou a maçaneta da porta até que o trinco cedeu, num suspiro.

Lentamente, deixou que o seu olhar se habituasse ao escuro e dirigiu-se para a mesa. Em cima dela não estava nada, nada de nada, nem um só ossinho. A porta continuava aberta, mas não apenas um pouco como tinha deixado, estava mais de metade aberta.

Acercou-se dela e abriu o resto. Cá fora a madrugada começava a despontar em tons de rosa, do lado da aldeia. Foi ver o galinheiro, a tranqueta da porta continuava fechada. Através do vidro sujo espreitou a arrecadação e conseguiu ver a silhueta do cão dormindo sossegado.

Nada indicava que por ali tivesse estado um lobo.

Bem devagar, foi andando até perto do poço e sentou-se na borda sentindo as pernas bambas. Aí perto, onde tinha estado de dia a lavar as couves, bem marcadas na terra ainda húmida estavam pegadas de lobo. De lobo grande e bem vivo.

Olhando para o lado das bétulas adivinhou, mais do que viu, uma mancha cinzenta acastanhada que a fitava. Respirou fundo. Sorriu. Tinha conseguido mais um. Amanhã mesmo começaria de novo a procurar mais ossos de lobo.

Mais um. Pedia a Deus tempo de vida para conseguir mais um. Só mais um.

Comments

  1. Coca-bichinhos says:

    Nunca vi um frente a frente mas esse,não sei,tem olhos de carneiro mal-morto.

  2. Abel Barreto says:

    Lindo.

Deixar um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s