Federalismo, uma ameaça para levar a sério…

Martin Schulz foi derrotado nas eleições alemãs, que não me interessam rigorosamente para nada, mas pode vir a fazer parte do próximo governo em coligação com Angela Merkel ou quem sabe, caso a actual chanceler não consiga apresentar uma solução até podem vir a ser convocadas novas eleições e se os eleitores entenderem Schulz até pode acabar chanceler. Ora para consumo interno os alemães que decidam, mas sabemos o papel da Alemanha na U.E. e quanto esta se tem tornado uma entidade cada vez mais omnipotente e omnipresente na vida dos europeus.

Considero ridícula e preocupante a ideia defendida por Schulz de termos em 2025 os Estados Unidos da Europa. O projecto inicial de livre circulação de pessoas, mercadorias e capitais está a cada dia mais desvirtuado pela sanha regulatória de Bruxelas, mas a doutrina socialista reinante não para de aumentar a burocracia para empregar os seus. Ou pensam que apenas em Portugal existem boys para os jobs? E quando os jobs não são suficientes para alimentar os boys, criam-se mais uns regulamentos, directivas e normas, sendo naturalmente necessárias mais umas quantas agencias, comissões e institutos, tudo em nome do nosso bem estar. Que seria dos cidadãos sem uma mãezinha que os proteja e um paizinho que lhes indique o rumo a seguir?
O que a Europa precisa é tornar-se competitiva à escala mundial em lugar de ficar assistindo à sua decadência, que inexoravelmente virá caso persista nos europeus uma ideia de superioridade civilizacional que apenas existe nos livros de História e nas mentalidades fechadas sobre si próprias, incapazes de verem para lá do espaço Schengen. Schulz não está sozinho nem pode ser tomado por um excêntrico que defende coisas bizarras, muitos políticos querem controlar politicamente o Euro, saudosos do tempo em que desvalorizavam moeda, empobrecendo os tolos sem estes se aperceberem. Que jeito daria ao dr. Costa por exemplo um tal possibilidade, para atender a todas as reivindicações corporativas. Tal como as vozes dos que defendem o fim da concorrência fiscal entre Estados e regiões no interior da U.E., sem contudo avançarem com propostas concretas, explicando como fariam tal coisa. Suspeito que seria nivelando pelos locais onde o esbulho fiscal é mais elevado para continuar a financiar a bandalheira, mas isso não dizem, é mais popular acusar outros de concorrência desleal, quando têm ao dispor exactamente a mesma possibilidade. Em vez de ficar indignada com Portugal por ser procurado pelos reformados a Suécia pode promover uma reforma fiscal. Em vez de Costa & Centeno andarem por aí com lamúrias sobre Holanda, Irlanda ou Chipre, que desçam impostos, vão ver que muitos deixam de deslocalizar. Não é que esses lugares que referi sejam paraísos fiscais isentos de tributação, longe disso, apenas cobram um pouco menos e naturalmente são procurados por quem tem essa possibilidade. Exactamente a mesma lógica que levou no passado a geração dos meus pais a comprar caramelos ou chocolates em Badajoz ou aparelhos electrónicos em Andorra. E que hoje mantemos, se tiver possibilidade de viajar pelo mundo com alguma regularidade, sou bem capaz de comprar um objecto que desejo no local onde tenha que gastar menos dinheiro para receber exactamente o mesmo artigo. Só não percebe isto quem é incapaz de compreender o ser humano.

Comments

  1. “Só não percebe isto quem é incapaz de compreender o ser humano.”
    Pior mesmo é perceber isto mas não perceber (ou fingir não perceber) que é precisamente por as pessoas individualmente tenderem a olhar apenas para o seu benefício pessoal que é tão importante o colectivo organizar-se num Estado forte e regulador que evite a bandalheira e assegure que todos (e não apenas os mais fortes) tenham acesso a uma vida digna e a não serem explorados.

  2. ZE LOPES says:

    Em vez de Costa & Centeno andarem por aí com lamúrias sobre Holanda, Irlanda ou Chipre, que desçam impostos, vão ver que muitos deixam de deslocalizar”.

    Já ouvi esta cantiga mais de mil vezes. E as “deslocalizações” nunca pararam.

    Aliás, há três coisas que nunca vi na vida: um homem a parir, um defunto a ressuscitar e uma baixa de impostos que evitasse a deslocalização de capitais para paraísos fiscais ainda mais idílicos…

    • A República da Irlanda ou Holanda podem ser considerados paraísos fiscais? Por acaso considera esses países equivalentes às Ilhas Caimão?

      • ZE LOPES says:

        1ª questão: podem, e são! 2ª questão: em termos práticos, sim, serão equivalentes!

        Aqui há tempos, até aconteceu uma história curiosa: os U2, quase um símbolo nacional da Irlanda deslocalizaram-se…para a Holanda, o que deu em escândalo lá na terrinha…É onde dá essa treta da competitividade fiscal: acaba tudo a zeros de tributação – quando mesmo não é negativa, por via de terrenos, propteção física, económica e legal e outras benesses – para as empresas e quem arca com os custos são os cidadãos mais fragilizados, por falta de serviços públicos em condições.

        • Em França lançaram um imposto sobre as grandes fortunas e Depardieu mudou para a Rússia. Ao contrário do que alguns pensam o liberalismo defende os pobres, porque os ricos não precisam quem os defenda, andam por onde querem e mudam quando precisam. Os U2 são apenas um exemplo. E que direito têm os governos de confiscar o resultado do trabalho alheio? Quando vendem um CD ou bilhete para espectáculo o imposto já vai incluído, mas para o burocrata o esbulho nunca é suficiente, depois admiram-se…

          • Paulo Marques says:

            E, no entanto, depende dos acessos, da polícia e de outros serviços para os quais não pagam para fazer dinheiro. Taditos.

          • Por princípio abomino taxas e impostos, mas reconheço que é necessário pagar, porque não podemos defender a propriedade e esperar por exemplo que polícias ou juízes por exemplo trabalhem grátis. Do outro lado, qual é o limite? Qual consideram o valor máximo tributável? É que a partir de determinada taxa de tributação pouco fica, o que equivaleria a trabalhar para o Estado. Para me ficar num exemplo português, que direito possibilitaria tributar o Cristiano Ronaldo em 70 ou 80 por cento? E que incentivo teria ele em continuar a dar o seu máximo perante tamanho roubo ou confisco? Chame-lhe o que quiser, eu chamo-lhe socialismo, já foi experimentado e nada trouxe de bom. Porque razão desertavam muitos talentos da Europa de Leste mal punham os pés no ocidente? De Navratilova a Baryshnikov por exemplo, não seria por não os deixarem ficar com o fruto do seu trabalho?

          • ZE LOPES says:

            Desculpe lá, mas fez uma pergunta. Eu respondi. E o que aconteceu? Trangiversou! Desculpe lá! Deixe lá essa de o liberalismo fazer mais pelos pobres! Pergunte aos pobres, se gostam de não existirem serviços públicos em condições.

            Até porque é perigoso “afundar” os serviços sociais! E vou-lhe dar um pequeno exemplo: se se chegar a uma situação em que se tenha de escolher entre a existência de um serviço público de educação ou um exército, e o perguntarem aos cidadãos, qual vai ser a resposta?

            Tenho a impressão que adivinhou. Quanto a mim, pelo menos, não tenho dúvidas. Fechavam-se já as chafaricas na Amadora, em Mafra e em Tancos!

          • ZE LOPES says:

            “Por princípio abomino taxas e impostos, mas reconheço que é necessário pagar, porque não podemos defender a propriedade e esperar por exemplo que polícias ou juízes por exemplo trabalhem grátis”.

            Ah! Ah! Ah! Então o problema é exclusivamente…a propriedadezinha! E o facto de polícias e juízes…não serem grátis!Lindo!

            Por mim, entregava toda a minha propriedade- exceto a estritamente pessoal, é claro – ao Estado em troca de serviços públicos a funcionar para todos em perfeitas condições. Afinal, para que serve a riqueza e a propriedade?

            Fiquei também muito comovido com a sua preocupação com a motivação do Ronaldo. Realmente, se pagasse 80% do rendimento que tem teria de voltar para casa dos pais. E ficava desmotivado, coitadinho. Já o estou a ver a pensar quando a bola vem pelo ar “cabeceio? Ná! Depois vai tudo para os impostos! Se queres golos, vem cá tu cabecear ó Ministro das Finanças!”

          • São conceitos, pessoalmente não aceito trabalhar grátis, porque haveria então de querer aproveitar o dinheiro que outros ganham? E caso não tenha percebido, procure na História o quanto eram felizes os cidadãos a Leste, tão felizes que desertavam. Sem lucro ou rendimento, não diria que a humanidade ainda andava à procura da roda, mas seguramente não tinha muitas das coisas que hoje tem, incluindo medicamentos e hospitais…

          • ZE LOPES says:

            Sr. Almeida: já aqui disse a um tipo que debita primitivisses iguais às suas que, no dia em que, ele ou um seu familiar fosse atacado por uma doença oncológica iria descobrir rapidamente a razão porque tem de pagar impostos, mesmo elevados.

            O Sr. não está a ver uma coisa: pagar impostos não é trabalhar de borla. Sim, porque – e relembro a situação de doença grave – quando recebe cuidados médicos ou medicamentosos, ou proteção policial, por exemplo, estão-lhe a devolver o que pagou. Portanto, deve contabilizar isso, na sua contabilidadezinha como um rendimento. Percebeu? Não é um esbulho!

            Quanto à última afirmação, faço notar a V. Exa. que, se a indústria farmacêutica é estimulada a produzir novos medicamentos é porque os tais lucros e rendimentos são pagos pelos impostos dos cidadãos! Ah, sim! Se essas empresas estivessem á espera de vender só aos que podem pagar já tinham falido há muito tempo!

            Eu sei do que falo, Sr. Almeida. Ainda na semana passada estive á conversa com uma pessoa de família que tem uma função no IPO, a de tratar de problemas e necessidades dos doentes. E que me falou do facto de, todos os dias, receber gente que pagou seguros de saúde VIP e que, ao fim de quatro ou cinco sessões de quimioterapia, são mandados para casa, com a indicação que se dirijam ao Serviço nacional de Saúde.

            Agora, realmente há coisas discutíveis no emprego que o Estado faz dos impostos. Por exemplo, fico um bocado aborrecido pelo facto de as minhas contribuições sustentarem bancos, submarinos, a NATO e os Comandos na República Centro-Africana (apesar de tudo foi um avanço. Até há pouco tempo só serviam para fazer paradas no 25 de novembro…). Fico chateado, mas pronto, não se pode ter tudo…

          • Paulo Marques says:

            Porque não era socialismo. Pergunte às vítimas de Kissinger o que acham do “mercado “”livre”””.

            Ninguém reparou, mas os neoliberais perderam um aliado de peso. Viva o Brexit.

            https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/nov/27/white-paper-industrial-strategy-government-economy

  3. Paulo Marques says:

    “O que a Europa precisa é tornar-se competitiva à escala mundial”

    Desperdiçando 20% da sua capacidade produtiva em subemprego, com desejo de controlar as contas cortando ainda mais no consumo. Isto funciona como, tendo em conta que só funciona quando as pessoas aceitarem viver em popreza abjecta?

    “muitos políticos querem controlar politicamente o Euro”

    A subsidiodependência de tantas empresas é o quê? As pontes a ruir sobre o Rhine são um exemplo a seguir para a Europa?

    “E que hoje mantemos, se tiver possibilidade de viajar pelo mundo com alguma regularidade”

    É um se do caralho, só acessível a quem tem um umbigo do tamanho do mundo.

    • Paulo Marques says:

      Outra pergunta: quando as empresas afirmam que não investem por falta de procura, corta-se o imposto para o quê?

      • A empresa pode não aumentar o investimento por falta de procura que o justifique, mas caso esta desapareça acontece o quê? Que resta das empresas que produziam máquinas de escrever? Que resta da Kodak? Qual foi o resultado da Nokia não acreditar no sucesso dos smartphones? E como ficaram os trabalhadores dessas empresas? E quanto perderam os accionistas? Quer parar o progresso?

        • ZE LOPES says:

          A minha resposta é: não, não quero! Por isso defendo o fim de obsolescências como a dos Comandos da Amadora! A guerra hoje, é outra coisa! Muito mais linda, com drones e tal…

        • ZE LOPES says:

          Já agora: “coitadinhos dos acionistas”…

        • Paulo Marques says:

          Quem disse que era a Kodak? São as portuguesas quando perguntadas à uns anos e as americanas quando perguntadas o que iam fazer com o corte Trump.

  4. Fernando says:

    O primeiro parágrafo ainda se aproveita, no segundo o António descarrilou como é a norma.

    Martin Schulz não é socialista, é um neoliberal.
    Martin Schulz, tal como a Merkel, estão ao serviço da finança e indústria alemã.
    As elites alemãs usaram e usam a UE, e ainda mais o Euro, para poderem ser o império que não conseguiram ser há uns tempos.
    Mas ao contrário que o António diz, o desvirtuamento da UE partiu exactamente do capitalismo predatório que sente a necessidade de criar organizações e ferramentas para poder continuar a predação.

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