Postcards from Greece #32 (Thessaloniki)

Não sei onde vão os pássaros ao por do sol, em grandes bandos

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que avisto daqui da minha breve varanda em Salónica. Todos os fins de tarde em que estou em casa assisto à dança dos pássaros, centenas deles, voando em grupo ao por do sol, dirigindo-se não sei bem para onde. Nunca soube onde vão os pássaros, nesta azáfama ao por do sol, em parte alguma. É, no entanto, uma coisa digna de ser vista, sobretudo por cima da igreja de São Demétrio aqui em frente e, sobretudo, recortando-se contra o céu que se tinge de cor de laranja ao mesmo tempo que as antenas de televisão.

Gosto desta varanda, de onde se vê esta bela igreja. Faz-me sentir saudades da minha própria varanda, distante neste momento 3620 quilómetros, de onde também se vê uma igreja (a do Senhor das Barrocas) e ainda uma capelinha (a da Senhora da Alegria) que não sendo património mundial da humanidade, fazem parte da minha paisagem quotidiana e tão familiar. 3620 quilómetros não são nada, diz-me o Google Maps que os poderia fazer em 34 horas de carro, sem paragens ou em 3 dias e 5 horas se optasse por transportes públicos, entre Salónica e Sofia primeiro, entre Sofia e Budapeste depois e entre Budapeste e Munique a seguir. De Munique a Barcelona, de Barcelona a Madrid para, por fim, chegar a Lisboa e daí, num voo de pássaro, a Aveiro. De avião demora-se apenas 4h e 20 minutos, de Atenas. Daqui a Atenas é 1 hora de avião ou 5 horas de comboio, o que prefiro. Perde-se muito de avião, é verdade. Perde-se muito nas paisagens que não vemos e nas fronteiras que não cruzamos (embora as cruzemos). Não sei se os pássaros que partem rumo a sul, me parece, todos os dias ao por do sol já viajaram de uma só vez 3620 quilómetros. Suponho que não, mas desconheço também quantas horas de voo podem fazer os pássaros antes de se cansarem.

Mas gosto desta varanda, sobretudo quando está sol e me posso sentar numa cadeirinha, fumando um cigarro, a olhar para o céu que se põe cor de laranja devagar, a partir das 5 da tarde. Desta varanda vê-se o que há para ver do mundo, tal como na outra que está a 3620 quilómetros daqui. Gatos lá em baixo, a quem toda a gente deita comida. Não admira que sejam gordos como pequenas focas. Velhotes que se dirigem para casa, ao mesmo tempo que os pássaros para sul, muito devagar, em grupos de 2 ou 3, depois de terem estado a jogar às cartas no café do prédio ao lado, mulheres que passam depressa com sacos de compras, outras pessoas que estacionam carros de qualquer maneira, os empregados do restaurante em frente (que antes era um hammam (ou banho turco)) que entram e saem carregados de coisas diversas, mais gatos, um deles muito pequenino que aqui há uns dias miava aflito noite e dia mas que, pelo que se vê (e pelo que já não se ouve) aprendeu depressa a desenrascar-se sozinho, raparigas de mini saia e botas pelo joelho, rapazes de sapatilhas e calças de ganga, pessoas que falam ao telemóvel, e nas janelas enfeites de natal e luzes que piscam. Alguém colocou uma estrela grande, vermelha, numa varanda de um prédio ali em baixo na Agios Dimitrios. E os pássaros, bandos deles, numa intensa azáfama a procurar o sul. É nisto que reparo quando me sento ao fim da tarde, na varanda, a apanhar a última luz do dia e, com sorte, a ouvir os sinos da igreja a convidar para a dança que os cristãos ortodoxos fazem geralmente diante de deus. Como os pássaros, dirigindo-se não sei para onde.

 

A casa é pequenina. Tem um quarto, uma sala, uma kitchenette e uma casa de banho. E esta varanda que me permite assistir a tudo isto. A rapariga a quem pertence a casa pintou 3 paredes em sítios estratégicos de azulão e outras duas de castanho. As outras são brancas. Há posters antigos nas paredes. Um tem as letras e nomes de animais. Outro explica-nos o que é um átomo e outro parece dizer respeito a células e infecções. Há alguns quadros e um grande poster do Andy Warhol por cima do sofá, carregando uma televisão onde se vê a mira técnica (ou algo muito semelhante).Não há televisão. Há uma mesa cheia de livros design e arquitetura (é designer a rapariga) e, neste momento, girassóis e velas e alguns livros portugueses, que acrescentei. A minha coisa preferida na casa é o globo terrestre aparentemente anterior à II Guerra Mundial. Portugal (ou Portogalía) é um retângulo contínuo desde o Algarve até à Galiza, incluindo-a. Era do avô. tenho sempre medo de o partir confesso, ou que a Sotiria, que é um furacão a limpar a casa à segunda feira, o parta. É uma casa muito limpa, deve dizer-se e eu esforço-me para que ela assim se mantenha, é evidente, com a enorme ajuda da Sotiria, bem entendido. As minhas duas únicas experiências com o airbnb não foram boas (uma em Edimburgo, em 2015, e a outra – a pior – aqui mesmo em Salónica há 3 semanas) mas a Naya reconciliou-me com tal sistema. Ou a varanda da sua casa, perfeita, de onde se vêem os pássaros que não sei para onde vão, em bando, ao por do sol enquanto os sinos de São Demétrio tocam.

 

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