Shaolin, meu amor

Entre os meus escassos talentos conta-se o de fingir que falo mandarim na perfeição. É um talento apenas conhecido de um reduzido grupo de eleitos que têm aplaudido as minhas actuações com inexcedível simpatia, chegando mesmo a fingir um entusiasmo que eu reconheço não poder ser genuíno. Evidentemente, não falo uma palavra do autêntico e legítimo mandarim, excepto as que se podem aprender nos restaurantes chineses. Mas finjo que falo e o meu fingimento é credível. Na verdade, é mais uma performance multidisciplinar porque também gesticulo de forma lenta e cerimoniosa e uso uma panóplia de expressões faciais que me parecem muito adequadas.

Fingir que falo mandarim é uma habilidade que está ao meu alcance apenas porque vi, numa idade por assim dizer tenra, um número considerável de episódios de “Os jovens heróis de Shaolin”. Para quem não sabe, nessa série produzida em Hong Kong contavam-se as empolgantes aventuras de Hung Hei Goon, Fong Sai Yuk e Wu Wai Kin, e os seus árduos treinos no templo de Shaolin, na China do século XVIII, para virem a tornar-se mestres de Kung Fu. Estes três haveriam de converter-se em heróis, recordados durante séculos, na luta contra a Dinastia Ching, dos Manchu, que havia derrubado a Dinastia Ming, dos Han.  [Read more…]

Se houvesse ministro da Educação …

Santana Castilho

  • Em 25 de Agosto passado, muitos professores do quadro foram colocados a centenas de quilómetros da residência. A 6 de Setembro, outros menos graduados profissionalmente ficaram com os lugares dos primeiros. Seguiram-se acções em tribunal, declarações e manobras políticas e pronunciaram-se os importantes: Presidente da República, primeiro-ministro e provedor de Justiça. Foram sensibilizados todos os grupos parlamentares e fizeram-se eficazes manifestações de rua. Quase quatro meses volvidos, os ludibriados são apenas candidatos ao novo ludíbrio de um ilegítimo e inútil concurso extraordinário. Houvesse ministro da Educação e isto nunca teria acontecido.
  • Os professores do ensino artístico especializado foram sempre objecto de tratamento segregador em sede de contratação e carreiras. Em vez de lhes aplicar a legislação que regula o exercício profissional dos outros professores, a tutela considera-os como técnicos especializados.

Lendo o actual projecto de decreto-lei para regular a contratação dos professores do ensino artístico, parecem claras duas intenções: institucionalizar a desigualdade entre estes docentes e os das outras áreas e conferir aos directores das respectivas escolas um poder discricionário e não sindicável para decidirem quem contratam. Trata-se de retomar, em permanência, uma espécie de bolsa de contratação de escola, que legitime a falta de habilitação exigível para se ser professor. Houvesse ministro da Educação e não seria assim. [Read more…]

O fim da indignação no reino da indignidade

Um partido político é um instrumento de materialização de uma ideologia. Não é uma ideologia em si mesmo. Um partido político que seja uma ideologia em si mesmo já não é estritamente um partido, mas uma organização fascista. É nisso que o sistema partidário português se está a transformar – um sistema fascista dominado pela corrupção.

Uma sequência interminável de acontecimentos veio mais uma vez expor aos olhos de todos a promiscuidade das relações entre representantes dos poderes públicos e empresas ou instituições privadas. No caso das IPSS o assunto toma dimensões raras, levando essa promiscuidade a níveis que mesmo o mais céptico anarquista teria dificuldade em imaginar.

A verdade é que se houvesse em Portugal três jornalistas como a Ana Leal, da TVI, o país desapareceria, simplesmente. Deve desenganar-se quem pense que o caso da Raríssimas é uma excepção, pois o que realmente se verifica é que ele é a regra. E é desta regra que Portugal é feito e foi isto que o 25 de Abril construiu – um poço de miséria moral. E em face dessa miséria, da promiscuidade que campeia na política de alcova, em que um secretário de Estado se demite em directo depois de lhe mostrarem imagens de uma romântica praia brasileira, que faz o Governo? Segue a lógica inatacável da psicologia analítica de Carl Jung – “se te vires a afundar num pântano, não tentes sair, mergulha!” – e nomeia para o seu lugar a mulher de um deputado europeu militante do partido no poder. Isto é o fim da indignação no reino da indignidade. Fechem a porta e apaguem a luz à saída.

Terá João Lourenço encontrado o livro de Gene Sharp?

Fotografia: Manuel de Almeida/Lusa

Os dias passam e a sensação que fica é que algo está mesmo a mudar em Angola. Talvez esteja a ser ingénuo, a tentar ver revoluções onde o que realmente se passa é uma simples transição de poder, com generais a substituir generais, oligarcas a substituir oligarcas e tudo a ficar mais ou menos na mesma.

Mas o que chega cá, e ainda é alguma coisa, e que não passa uma semana, desde que foi eleito, em que não cai um bastião do velho regime, um amigo de um pedestal, um negócio lucrativo. Quem é este João Lourenço, de quem nunca se ouvia falar, que tomou o MPLA de assalto e deu início a uma limpeza no aparelho do poder, com implicações negativas nas castas que governam Angola? [Read more…]

Postcards from Greece #34 (Thessaloniki)

‘Thessaloniki: many stories, one heart’

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vi escrito ontem num camião que recolhia o lixo. Gostei da frase, porque é isso mesmo. Uma cidade múltipla, com mil histórias, ou 2300 anos de história(s), mas um só coração. Pesquisei e trata-se de um projeto (http://manystoriesoneheart.gr) desenvolvido por um habitante da cidade – Theodoros Ploumis – em 2016 para o concurso Apps4Thessaloniki – Tourism edition. A ideia era ser uma app de tourism, um guia, com informações úteis, às quais Theodoros resolveu juntar histórias dos habitantes e dos visitantes da cidade. Um projeto bonito, portanto, feito de histórias e coração.

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