Postcards from Greece #46 & #47 (Edessa, Aridaia, Nótia, Foústani, Perikleia, Archaggelos)

As cerejeiras de Archaggelos, dentro de uma nuvem e a verdadeira Macedónia

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Ontem ao princípio da tarde viajei com a S., uma muito jovem estudante de Agronomia, entre Salónica e Edessa. A viagem é curta (uma hora e meia) e a rapariga é uma excelente companhia, apesar de ter apenas 18 anos. Responsável, prestável e extraordinariamente simpática. A S. é filha do D., um antigo estudante de doutoramento da AUTH, com quem a M. me põe em contacto para encontrar pessoas que tenham regressado às aldeias desta parte da Grécia nos últimos anos. Como seguramente quase nenhuma destas pessoas falará inglês muito bem e o meu grego é inexistente, a S. ofereceu-se gentil e entusiasticamente para me ajudar a traduzir a conversa. Sinto-me um pouco estranha porque as entrevistas anteriores foram feitas em inglês e agora as pessoas falam e eu não percebo nada do que me dizem. Se não fosse a jovem estudante estaria completamente perdida. É de facto estranho. Embora tenha feito entrevistas noutras línguas na minha vida, incluindo, como disse ali atrás, aqui mesmo na Grécia, foi sempre em línguas que conhecia razoavelmente. Assim, vi-me naturalmente grega. Ou ter-me-ia visto se não fosse, uma vez mais, a jovem e entusiasmada S.

 
Quando chegámos, o D. estava à nossa espera. Deixou-me no hotel, por sinal muito simpático e acolhedor, com uma varanda de madeira com uma vista de tirar o fôlego, às cinco da tarde, com as montanhas cobertas de nuvens e com uma leve neblina sobre os campos verdes à minha frente. A calma e o silêncio são impressionantes, em Edessa, chamada a cidade das águas, amanhã hei-de saber melhor porquê. Às seis e meia um senhor veio para a entrevista e a seguir demos uma pequena volta pela cidade onde, como já disse, a calma e o silêncio reinavam entre os pingos de chuva. Jantei slouvaki e uma cerveja num restaurante pequeno e muito simpático. Bebi café grego depois no hotel e descansei. Hoje de manhã, pouco passava das 10 horas, depois do pequeno almoço e do cigarro fumado na varanda de madeira a olhar a paisagem agora sem neblinas nem nuvens a tapar as montanhas, apenas com a mesma chuvinha persistente de ontem à noite, o D. e a S. vieram buscar-me. Estamos na região de Pella, muito perto da Macedónia, perdão, da Escópia. Havemos de nos aproximar muito mais dessa fronteira, feita nesta região, de grandes montanhas (Voras, a segunda mais alta da Grécia a seguir, naturalmente, ao Monte Olimpos, e Tzena) que é necessário muita coragem para conseguir atravessar. O D. explica-me quando eu digo ‘república da Macedónia’ para me referir ao lado de lá das montanhas, o que a R. e outras pessoas já me haviam explicado. A Macedónia é aqui, na Grécia. Não é do outro lado das montanhas, mesmo que os que vivem desse lado, muitos deles primos e irmãos dos que habitam o lado de cá, queiram reivindicar para si esse nome. A Macedónia é aqui. Do lado de lá é a Escópia.
 
Chegamos a Aridaia, a nossa primeira paragem pelas 11 da manhã. Os meus entrevistados, três, todos muito diferentes entre si, estão já à nossa espera. A conversa flui, com a ajuda da S., claro, com cada um deles. As estórias das pessoas, da vida das pessoas são, como escrevi no último postal, sempre fascinantes, ora alegres, ora tristes, e as pessoas abrem-se aos poucos e chegam, por vezes, a emocionar-se contando isto ou aquilo. Às duas da tarde acabamos as entrevistas e almoçamos num restaurante da pequena cidade encostada às montanhas que separam os verdadeiros Macedónios dos outros (depende da perspetiva, obviamente, se estamos deste ou do outro lado da montanha, mas eu neste momento estou do lado de cá). Durante o almoço, diante de pratos simples e deliciosos, conversamos os três sobre os refugiados, a política, o mundo rural, a agricultura e as entrevistas que acabei (acabámos) de fazer. Pai e filha não estão de acordo sobre a questão dos refugiados, parece-me, mas creio que é normal, por assim dizer, que tenham opiniões diferentes. Basicamente para um deles, são bem vindas estas pessoas em busca de uma vida melhor, tal como no passado outros refugiados (os da Ásia Menor, já falei deles também noutro postal) chegaram e (re)construiram aqui a sua vida. Para o outro, embora compreenda o drama destas pessoas até chegarem aqui e mesmo depois de aqui estarem, é incompreensível que a União Europeia coloque mais este fardo, digamos assim, em cima de um país em crise. Falamos dos refugiados que quase não há em Portugal e de outras coisas, comparando os dois países.
 
Depois do almoço partimos em direção a Archagellos, passando pelas aldeias dos entrevistados da manhã, Thiriópetra, Foústani e Nótia, quase na fronteira, não fosse a cordilheira de montanhas, mais altas que muitas das nuvens esta tarde, com a Escópia. O D. abastece o carro de combustível num posto de gasolina de uma das aldeias. Quando regressa diz que o mesmo é de um primo seu em 4º grau. De repente uma carrinha amarela ultrapassa-nos e apita. É outro seu primo, este em primeiro grau. É natural, estamos perto da aldeia onde nasceu o próprio D. – Rizochori. Entra na aldeia por uns minutos com o carro para que eu possa ver as casas do seu pai e a escola onde estudou em pequeno, agora transformada em centro cívico, porque já não há crianças na aldeia, apenas as árvores a que trepava em pequeno. Depois seguimos caminho em direção a Périkleia, no sopé do monte Paiko e depois começamos a subir uma estrada estreita e sinuosa até à aldeia de Archaggelos. Continua a chover e a paisagem é absolutamente invernal. Parece que a chuva a qualquer momento se vai transformar em neve.
 
O D. explica-me, com a ajuda sempre preciosa da S., que Archaggelos é conhecida pela enorme quantidade de cerejeiras. É inverno e as cerejeiras, muitas confirmo, estão nuas e recortam os seus frágeis ramos contra a neblina que se vai instalando devagar, crescendo ao ritmo da altitude da montanha. À nossa espera está um grupo de pessoas, das quais entrevistarei dois homens, ainda novos, que regressaram à aldeia há poucos anos. Oferecem-nos café e baklava que é tão boa que podia comer uma inteira se não fossem as calorias e o facto de ter almoçado ainda nem há uma hora. No fim, ficamos a conversar todos, algumas das pessoas falam inglês suficiente para que nos entendamos e dizem piadas e rimos, como se fossemos todos velhos conhecidos, num entardecer de inverno, a beber café e a comer baklava e a fumar cigarros vagarosos. Já o disse de outras vezes, mas não há como não gostar da Grécia e do povo grego. Desta Grécia, quero dizer, esta que se esconde nas montanhas e que muitos desconhecem porque a Grécia para eles é apenas o mar e as ilhas cujo casario branco parece tombar no mar. A Grécia também é, seguramente essas ilhas carregadas de turistas e beleza, mesmo assim. Mas esta Grécia é muito mais genuína e amistosa. Há aqui muito mais filoxenía e generosidade e gratidão. Espanta-me sempre, ao fim de tantos e tantos anos, a falar com pessoas muito diferentes, que muitas delas, especialmente as das aldeias, me agradeçam no final, quando eu mesma lhes agradeço (como, obviamente, deve ser). Como se a minha presença ali, o tempo que passo com elas, aquilo de que falamos, fosse importante para elas, como é para mim. Acho que depois de amanhã já me esqueceram e está muito bem assim. Mas agradecem sempre como se tivesse sido uma coisa muitíssimo importante. E isso comove-me sempre.
 
Já caiu a noite há muito quando regressamos. O nevoeiro cerrado cobre tudo e não se vê um palmo à frente do carro, mesmo com os faróis de nevoeiro ligados. A certa altura a S. exclama que estamos dentro de uma nuvem. É verdade. Mas a poesia que isso contém desvanece-se diante da impossibilidade de prosseguirmos por uma estrada que o D. já não percorria há mais de 10 anos. Pega no telefone e liga a um dos jovens homens que entrevistei. Prontamente aparece com o carro e conduz-nos até à saída da nuvem, devagarinho, mas sãos e salvos. A poesia volta a reinar no universo. Aproveito o bom momento e pergunto ao D. e à S. o que pensam de Tsipras. Ambos gostam muito dele, porque está a tentar fazer o que os outros, antes, nunca conseguiram. Apesar das dificuldades em tomar medidas que sejam aprovadas por todos, dizem-me, acreditam que está a fazer o melhor que pode ser feito nas circunstâncias atuais. O D. diz que Tsipras é bem intencionado e quer de facto mudar a Grécia de uma forma positiva, mas as suas intenções, continua, são travadas por um sistema político, administrativo e de governação com raízes muito antigas, inundado de corrupção e difícil de desmontar de um dia para o outro.
 
Entre mais nevoeiro e conversa chegamos a Edessa. São 8 da noite quando me deixam em frente ao hotel. O D. sai do carro e vai à bagageira. Traz um saco com dois frascos enormes e uma garrafinha. Que é um presente das pessoas com quem estivemos em Archaggelos. Cerejas em calda, molho de tomate e Tsipouro. Para mim. Não é a primeira vez que pessoas a quem roubo tempo, nas aldeias, me oferecem coisas diversas. Assim mesmo, fico com o saco na mão a dizer-lhes adeus, entre os pingos da chuva, comovida.

Comments


  1. “Responsável, prestável e extraordinariamente simpática”. Julguei que este seria um epíteto reservado aos portugueses pelos estrangeiros que nos visitam; principalmente pelos espanhóis, que não são nada prestáveis (serviçais), tampouco simpáticos. Por isso até se costuma dizer dos mesmos que são arrogantes e altivos. Também era muito utilizado pelos patrícios romanos em relação aos seus escravos e servos gregos, aos quais ainda acrescentavam cultos. Assim também acontecia com os senhores proprietários do Sul dos Estados Unidos da América em relação a alguns dos seus escravos – principalmente os de dentro (de casa) e dos que cuidavam das suas meninas e dos seus meninos. Desta forma e maneira, fico sempre de pé-atrás quando alguém faz este tipo de afirmação em relação a alguém ou a um povo ou população – cheira-me a atribuição de estatuto de menoridade em relação a outrem, que é apreciado pela demonstração de subserviência na sua relação com o outro.
    Em casa de meu avô – já lá vão muitos e muitos anos “bué de tempo atrás” – havia dois burros. Um deles, o “Russo”, era alto, quase esquelético – apesar de comer por duas ou mais bestas – e um mau feitio a toda a prova. O outro, o “Castanho”, tamanho normal, cheinho – mas não gordo – e muito pacífico. Resultado: este, o “Castanho”, era escolhido para todo o tipo de serviço e trabalho, para além de ter de aturar com toda a criançada lá da casa – mal descansava e sofria todo o tipo de abusos; quanto ao outro, o “Russo”, que rica vida ele levava – ninguém o queria, e muitos poucos se aproximavam do bicho: distribuía coices com grande generosidade. Como eu gostava do “Russo” e que pena eu tinha do “Castanho”!
    Já crescidos, eu e os meus primos, quando algum de nós queria dizer a algum dos outros que não o tomassem por parvo, dizia: «Olha qu’eu não sou Castanho!»; ou, ainda: «Tás a tomar-me por Castanho ou quê?!


    • prestável para mim nada tem a ver com subserviência. Aliás, não foi nada disso que eu quis dizer com os adjetivos que usei para descrever a S. Mas evidentemente que cada um interpreta as palavras conforme a sua própria experiência nas relações com os outros e com o que os rodeia. Eu também sou muito prestável e não sou serviçal, nem subserviente para ninguém. Nem menor. Nem considero ninguém com estatuto menor ou maior, vá, do que eu. Nem ‘russo’ nem ‘castanho’


      • Sabe, Elisabete, como se costuma dizer: “Gato escaldado de água fria tem medo”. Contudo, sendo este aspecto importante – porque de solidariedade, com o outro ou com a situação do doutro, se trata; sem tomar em conta o seu estatuto ou genealogia -, na verdade, o aspecto que referi é o determinante nas características que nos são imputadas pelos outros, os de fora.
        Contudo, eu, para além deste aspecto, também salientaria a grandiosidade do “Russo” que a Macedónia já foi com o “Castanho” que há muito tempo é. Assim como quem diz: tal como com Portugal, que até na nossa língua querem mexer.

  2. Antonio Curado says:

    Escreveis muito bem e é sempre um gosto ler as vossas opiniões. OBRIGADO.

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