Postcards from Greece #60 (Ioannina)

The island without a name

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Dou um salto de 3 postais, porque em Salónica nada de relevante se passou. Fiz entrevistas, fui à AUTH e até houve uma defesa de tese através do Skype. Mas bom, repito, nada de relevante se passou no meu quotidiano. Tanto que nem dei pela manifestação da Aurora Dourada em que parece que houve distúrbios e um incêndio. Ainda bem que não dei por nada, é o que penso. Mas leio com tristeza estas notícias, especialmente por saber que, ao que parece, se tratou da maior das manifestações deste partido de extrema direita.
 
Além do salto de 3 postais, também vou atrasada dois dias. Ao todo deveria ter escrito 5 postais, desde o último. Tive um problema com o computador, antes de ontem. Tive de reinstalar todo o sistema. Coisas da vida. Agora parece normal, vamos ver se sim. Isto aconteceu já eu estava em Ioannina, ou Janina, onde cheguei dia 24 (o dia a que se refere este postal, portanto) às 3 da tarde, depois de uma viagem belíssima entre os montes cobertos de neve. A certa altura, já perto da cidade vê-se o lago inteiro e a pequena ilha – ou nisí , em grego – a que muitos sites se referem como a ‘ilha sem nome’, porque, de facto, não o tem. Gostei logo desta designação, é evidente. E depois de pousar a mala no muito simpático e confortável e com um pequeno almoço fabuloso, hotel Z, em frente ao lago Pamvotida, saí para a rua decidida a apanhar o barco das 16h. Tinha lido que os barcos que saem do pequeno porto para a ilha sem nome o faziam apenas de hora a hora, no inverno, pelo que esperava conseguir apanhar o das 16h. Mas o lago distraiu-me. Se já estiveram em Ioannina compreenderão, seguramente.
 

O grande lago, muito calmo, batido pelo sol neste dia magnífico e rodeado de montanhas cheias de neve no topo. Os patos que nadam suavemente, sem cuidados, embora de vez em quando pareçam andar sobre as águas quando, vindos num voo precipitado, aterram no lago. É difícil não nos deixarmos distrair pelos vários tons de azul que o lago toma, ora do sol, ora da sombra das montanhas, ora dos reflexos destas e dos patos. De maneira, que faço o meu caminho, rodeando as muralhas do castelo de Ioannina devagar a olhar embasbacada para aquela beleza toda. Podia ficar ali para sempre, a contemplar o lago, e talvez o faça. É capaz de haver planos de vida piores. Quando dou a segunda curva do meu caminho, com a mesquita Aslan empoleirada na fortaleza, a guardar-me os passos, um pouco mais à frente vejo o barco abandonar o embarcadouro. Penso que amanhã é outro dia e não me importo, afinal tenho os olhos cheios de toda a beleza que pode haver no universo. De qualquer modo aproximo-me do embarcadouro. Há uma casinha, onde não se encontra ninguém, que tem uns horários afixados. Há, teoricamente, outro barco para a ilha sem nome às 16h30. Fico na dúvida se aquele será o horário de verão ou o de inverno, mas resolvo esperar para ver, sentando-me numa pedra gelada. Vejo um barco cruzar-se com o primeiro, vem na minha direção. Passado um bocado ali está ele à minha frente. Pergunto ao homem a que horas sai. Quatro e meia. Portanto, fiz bem esperar. Nesta parte da Grécia, os dias são maiores do que em Salónica. Um bocadinho maiores, constatei eu, mais tarde, às seis, a ver o sol descer devagar deixando os corvos alvoroçados, às centenas, mas as águas do lago ainda mais tranquilas e com tonalidades maravilhosas. Mas isso foi depois de chegar à pequena ilha.
 
Do barco têm-se vistas maravilhosas do castelo, da mesquita de Aslan e de todo o lago. Para onde quer que me volte, e sou a esta hora a única passageira, é apenas beleza que vejo. O barco atraca no pequeno porto da ilha sem nome 10 minutos depois de ter deixado Ioannina. Saio e encontro ruas estreitas, casas pitorescas e não há um único carro. Se encontrei 4 pessoas durante o meu passeio de quase hora e meia pela ilha foi muito. Ao contrário, encontro muitos gatos. Um deles, quando entro na pequena praça da aldeia, vem generoso ao meu encontro e deixa-se afagar. Não tenho mapa, por isso caminho por instinto, por assim dizer. Entro numa rua estreira com uma bela igreja e o gato segue-me. Deita-se ao sol a rebolar contente, nas escadas da pitoresca torre, que vão dar aos sinos. A seguir continuo até outra praça, pequena e encantadora e vou andando até encontrar de novo o lago, o museu de Ali Pasha e o Mosteiro de Panteleimon. Há uma pequena estrada cheia de curvas que dá a volta a toda a ilha. Avanço por ela até à ponta da ilha mas depois volto para trás. Tenho medo de não ter tempo para apanhar o barco às 18h e ainda queria ir ver outros mosteiros e as ruelas da pequena ilha sem nome. Tomo uma rua diferente e é tudo realmente muito pitoresco. Chego ao Mosteiro de São Nicolau ou Philantropinon, tão bonito a olhar o mar. Entro no pátio do mosteiro, onde não há vivalma. Depois na igreja, cheia de cores e tão bonita que, mais uma vez, podia ficar ali a olhar para os ídolos pintados nas paredes, para sempre. Cá fora há um caminho de pedra, ladeado por muros, que vai dar a outro mosteiro – de Dili ou Strategopoulos. Este é maior e porventura mais bonito que os anteriores. Fico ali a olhar para as pedras do mosteiro, para o lago do outro lado, para os patos e a vegetação. Não há ninguém. Estou sozinha no mundo na ilha sem nome.
 
No meio desta solidão maravilhosa, desço o caminho muito íngreme até à beira do lago. Na ilha há sete mosteiros, e eu vejo apenas três. Os outros ficam mais para cima e, uma vez mais, tenho receio de perder o barco e depois, noite cerrada, na ilha sem nome, que vou eu fazer? A ilha sem nome foi primeiro povoada por monges, no século XIV, daí a profusão de mosteiros. Consta que Ali Pasha, o comandante desta região durante a ocupação otomana, foi assassinado no primeiro mosteiro que visitei, em 1822. É uma ilha sem nome, mas cheia de história. E encanto. Ainda assim, noite cerrada, sem ninguém nas ruas, não deve ser tão encantadora. Por isso, adiante.
 
Ainda tenho algum tempo, para admirar o sol que se põe devagar e os barcos de pesca e os gatos e, agora sim, as centenas de corvos que invadiram o céu e grasnam como se fossem morrer. Mas é apenas o dia que acaba. Encontro mais gatos, indiferentes ao por do sol e aos corvos, com a sua suavidade e elegância habituais. Quando chego ao porto já está ali o barco. Levantou-se um vento frio, na ilha sem nome e sabe bem entrar no quentinho. Desta vez há mais passageiros e os dez minutos de viagem são de novo de deslumbramento. As luzes que se acenderam em Ioannina, o seu brilho na água. Podia ficar ali para sempre, outra vez, a olhar para aquilo tudo. Saio no pequeno porto e faço o caminho até ao hotel pelo outro lado das muralhas. Ali está a torre e as portas do castelo. As ruas lá dentro estão escuras. Amanhã cá virei, se não me distrair com o lago.

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