Como tramar hipócritas, homofóbicos e palermas, por Adolfo Mesquita Nunes

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Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens@JN

À parte do mau estar que a revelação causou entre a ala salazarista e ultraconservadora do CDS-PP, para não falar nos seus aliados naturais como a Igreja Católica ou a Opus Dei, a saída do armário de Adolfo Mesquita Nunes, um dos mais promissores e competentes quadros dos democratas-cristãos, deixou uma série de conhecidos hipócritas, homofóbicos e palermas muito atrapalhados. E isso é sempre bonito de se ver.

Quem se lembra da entrevista da secretária de Estado Graça Fonseca, que em Agosto passado assumiu a sua homossexualidade numa entrevista ao Diário de Notícias? Lembram-se das reacções reaccionárias dos paladinos da moral, dos bons costumes e do conservadorismo labrego? Não? Pesquisem no Google, visitem os blogues e os pseudo-jornais da nossa alt-right ou procurem na sarjeta do neofascismo lusitano e rapidamente encontrarão a resposta.

Enquanto procuram e se preparam para contemplar a hipocrisia dos moralistas de ocasião, falemos sobre um belo texto de José Lemos Esteves (JLE), que surge na sequência da tal entrevista de Graça Fonseca, no tablóide Sol. Nele, JLE afirma que Graça Fonseca atentou contra a dignidade dos homossexuais, que a declaração de secretária de Estado não foi genuína mas antes um “arranjinho de Verão da central de propaganda do Governo de António Costa e da extrema-esquerda”, sugerindo ainda que tal arranjo contou com a conivência do DN (como se o Sol fosse algum exemplo de independência jornalística ou mesmo de jornalismo de qualidade), que a “intenção foi essencialmente política e estranha à defesa dos direitos dos cidadãos portugueses homossexuais”, com o objectivo oculto de criar um facto político para “permitir ao Governo geringonçado respirar”, e que se tratou também de um “miminho ao Bloco de Esquerda”, “útil e conveniente” num momento que antecedia a negociação do próximo Orçamento de Estado.

A cereja no topo do bolo do ridículo é o uso desta estratégia retórica para defender o escrito alcoviteiro do arquitecto Saraiva, militante homofóbico, como se escrever mexericos sobre a vida de pessoas que privaram com a personagem, algumas delas já falecidas, fosse a mesma coisa que uma pessoa assumir publicamente um aspecto específico da sua vida particular. É tão ridículo, tão patético e imbecil que não sei se sinto nojo ou vergonha alheia.

JLE afirma outras coisas mais, umas mais parvas que outras, mas a argumentação do soldado laranja pode resumir-se da seguinte forma: a entrevista de Graça Fonseca foi uma manipulação orquestrada pela cúpula do PS, para desviar atenções dos problemas que o governo atravessava, que desrespeita a luta LGBT, para concluir que “o PS utiliza os homossexuais como instrumentos ao serviço da sua agenda política imediatista”. Posto tudo isto, e recorrendo às questões lançadas por JLE, o que dirá agora este iluminado de direita? Se há meio ano as declarações de Graça Fonseca foram uma manipulação orquestrada ao mais alto nível no PS, que terá ele a dizer sobre a entrevista de Mesquita Nunes? Terá sido um arranjinho de Assunção Cristas, orquestrado ao nível da cúpula do CDS-PP, para maquilhar o facto de, apesar da propaganda, continuar a ser um partido eleitoralmente irrelevante? Será que JLE também defende que o dirigente centrista atentou contra a dignidade dos homossexuais? Que a sua entrevista foi conspirativamente articulada com o Expresso, um jornal detido por um tubarão da direita nacional? Que foi um facto político criado pelo partido para desviar atenções da incapacidade do CDS-PP se evidenciar? Que a motivação por trás da revelação de AMN foi meramente política? Que dirá o douto Lemos Esteves sobre a saída do armário de Adolfo Mesquita Nunes?

A ver vamos, que ondas de choque causará a declaração corajosa de AMN. E os elogios, merecidos, já começaram e ultrapassaram barreiras ideológicas. Será que o Blasfémias o considerará para os Prémios Arco-Iris Outono-Inverno 2018? Estou expectante para ver Vítor Cunha justificar o prémio de Adolfo Mesquita Nunes nos termos em que justificou aquele que atribuiu a Graça Fonseca:

porque é lésbica, andou a dizer que é lésbica, é socialista e nós precisávamos saber de ambas, para nos sentirmos melhor ou assim, apesar de não constituir qualquer “luta contra a discriminação em função de orientação sexual, da identidade de género e características sexuais” um gajo ter o azar de gostar de mulheres ou, pior, uma mulher gostar de homens.

Por hoje é tudo. Bem-hajam as Graças e os Adolfos desta vida, venham de que quadrante político vierem, que usam os holofotes mediáticos que sobre eles incidem para combater o preconceito e abrir caminho para uma sociedade mais inclusiva e tolerante. Que tenham coragem de se assumir, sem rodeios, e de mostrar o dedo do meio aos homofóbicos disfarçados de liberais e ao conservadorismo parolo que tanto poder tem neste país.

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Comments

  1. ganda nóia says:

    uma hipocrisia e dualidade de critérios quase ao nível do aventar quando fala de futebol.


    • Dualidade de critérios? LOL queres desenvolver? Ou és daqueles que não aceita que se critique o teu clube por ser sagrado ou o raio que o parta? É que para trazer futebol para um tema que nada tem que ver com desporto dá que pensar.

    • Paulo Marques says:

      Dualidade de critérios é ser condenado exemplarmente por um consultor jurídico de um clube com uma larga lista de avençados ou isso é só má língua?

  2. JgMenos says:

    Um cargo público é palco para uma desconhecida propagandear as suas intimidades? A governação como cenário de propaganda pessoal?

    • ZE LOPES says:

      A propagandear intimidades anda V. Exa há muito mais tempo! Principalmente, se é que há outras, a que tem consigo próprio.


    • Ó “menos” !

      As estupidez raivosa que patenteias sobre “a desconhecida que utiliza um cargo público para propagandear as suas intimidades”, citada por João Mendes, só um cavernícola, troglodita como tu, é que se recusa a compreender que, longe de ser “propaganda”, como está explicado no post, é antes, um acto de grande coragem, difícil de compreender por matacões ((e por mataconas…) com olhos, como tu !

      Mas porque é que o teu foco, incide sobre “a desconhecida” e passa ao largo, tão evidente como cobardemente, pelo verdadeiro protagonista de hoje, o Adolfo Mesquita Nunes, cujo acto é igualmente de grande coragem ?

      E não é por isso, ó “menos” que não continuo a abominar, a execrar o seu discurso político-populista, tal como a dos seus pares, como a galinhola d. cristas, e outros, que devem estar agora a roer as unhas até aos cotovelos, a papar missas e hóstias, a rezar 200 avé-marias de penitência, com a atitude corajosa deste promissor delfim do CDS (que parece também já ter esquecido que pertenceu tal como a galinhola, a um desgoverno que quase destruiu o país).

      Então ? Sobre o Mesquita Nunes, não dizes nada…Ó “MENOS” ?


  3. O João Mendes já tranquilizou os seus mamilos erectos?

    Este comentário vai ser publicado, não vai, ó hipócrita?


    • Claro que foi, querido otário. E não devia, visto ser um mero insulto, que nada acrescenta ao tema. Mas cá estou eu para descer ao teu nível, facho de merda. Ficaste ressabiadinho, foi?

  4. Analfabeto Político says:

    Carta de Freud à mãe de um homossexual.
    19 de Abril de 1935

    “Minha querida Senhora,

    Lendo a sua carta, deduzo que seu filho é homossexual. Chamou fortemente a minha atenção o facto de a senhora não mencionar este termo na informação que acerca dele me enviou. Poderia perguntar-lhe por que razão? Não tenho dúvidas que a homossexualidade não representa uma vantagem, no entanto, também não existem motivos para se envergonhar dela, já que isso não supõe vício nem degradação alguma.
    Não pode ser qualificada como uma doença. E nós consideramos como uma variante da função sexual, produto de certa interrupção no desenvolvimento sexual. Muitos homens de grande respeito da Antiguidade e Actualidade foram homossexuais, e dentre eles, alguns dos personagens de maior destaque na história, como Platão, Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci, etc. É uma grande injustiça e também uma crueldade, perseguir a homossexualidade como se esta fosse um delito. Caso não acredite na minha palavra, sugiro-lhe a leitura dos livros de Havelock Ellis.
    Ao perguntar-me se eu posso oferecer a minha ajuda, imagino que isso seja uma tentativa de indagar acerca da minha posição em relação à abolição da homossexualidade, visando substituí-la por uma heterossexualidade normal. A minha resposta é que, em termos gerais, nada parecido poderia prometer. Em certos casos conseguimos desenvolver rudimentos das tendências heterossexuais presentes em todo homossexual, embora na maioria dos casos não seja possível. A questão fundamenta-se principalmente, na qualidade e idade do sujeito, sem possibilidade de determinar o resultado do tratamento.
    A senhora pode fazer outra coisa pelo seu filho. Se ele estiver experimentando descontentamento por causa de milhares de conflitos e inibição em relação à sua vida social, poderá proporcionar-lhe tranquilidade, paz psíquica e plena eficiência, independentemente de continuar sendo homossexual ou de mudar sua condição.”

    Sigmund Freud.

  5. Bento Caeiro says:

    Tal como para o motivo que levou a mãe do homossexual a escrever a Freud; a respeito do Adolfo – não o de Hitler – mas o Mesquita, eu direi:
    Se é culpa que o atormenta, pelos pecados que está convencido ter praticado, e agora vem em confissão à procura de bênção, que tenho eu com isso. Vá ter com o cardeal patriarca!

    “Tocam os sinos da torre da igreja,
    Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
    Na nossa aldeia que Deus a proteja!
    Vai passando a procissão.

    Mesmo na frente, marchando a compasso,
    De fardas novas, vem o solidó.
    Quando o regente lhe acena com o braço,
    Logo o trombone faz popó, popó.

    Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
    Com que cuidado os vestiram em casa!
    Um deles leva a coroa de espinhos.
    E o mais pequeno perdeu uma asa!”

    E, no final, para estes e para os outros que assim não são, temos o asilo ou o eutanásio à nossa espera. Chatearmos-nos? Porquê e para quê? Até porque cada qual fará o que bem entender com os seus buracos.


  6. Uma análise de quem comenta de ouvido. Felizmente este escrito não é em papel pois seria um atentado ambiental o desperdício de folhas para a sua impressão. Um bem haja por isso.


  7. João Mendes,
    a intolerância homofóbica tem um cadastro de muitas vidas que se perderam, seja por não se terem desenvolvido e integrado socialmente, seja porque muitos não souberam resistir e acabaram com a própria vida!
    Tive um jovem amigo, que no final dos anos 90 se atirou ao rio Douro, porque na escola onde leccionava correu o boato de que ele era homossexual. Ainda hoje não sei se era ou não, mas bastou a suspeita e o apontar o dedo para lhe ditar o seu fim!
    Hoje, talvez tudo tivesse tido um desfecho diferente.
    Por isso há que louvar sempre quando alguém com destaque na sociedade se “mostra” tal como é, e que por ser “assim ou assado”, no plano sexual, não lhe é retirado o seu valor intrínseco de pessoa humana!
    (Salvaguardando, como é óbvio, a pedofilia e/ou a violência sexual)

    • Bento Caeiro says:

      Ana, não é “a intolerância homofóbica tem” … , é a intolerância, enquanto tal, tem … e em todos os campos, sejam eles religiosos, políticos, sociais, comportamentais. Intolerância dos sacerdotes judeus que levaram o Nazareno à cruz; dos sacerdotes cristão que levaram milhares às fogueiras; dos franquistas e salazaristas que mataram e prenderam à sua vontade; dos nazis que sacrificaram milhões, muitos destes judeus, mas muitos mais soviéticos; dos sionistas judeus que matam o povo da Palestina; dos islâmicos que se acham os únicos com razão e matam todos os outros.
      Mas uma coisa te digo Ana, nestas coisas das intimidades: não vejo razão para se esconder, mas também não vejo razões para se apregoar. Cada qual é o que é e só a ele lhe diz respeito. Pelo que não devendo ser prejudicado, também não poderá querer ser beneficiado – por estar na onda e, presumivelmente, ter aceitação social a sua atitude – por aquilo que é, ou se nos apresenta ser.


      • “Cada qual é o que é e só a ele lhe diz respeito.”

        Num mundo ideal assim seria, só que, desde os anos 80 até esta parte já conheci de perto e por notícia, que não é bem assim… e a história que relatei acima (tal como tantas outras), assim o comprovam!

  8. Emanuel Teixeira says:

    Falta dizer que o AMN é um tremendo hipócrita e incoerente, dada a sua condição, por se rever na ideologia de um partido que atenta contra si próprio!


  9. Para relaxar:

    “Na Europa, cada manifestação “do orgulho Gay” contou, em média, com 100.000 pessoas. Cada manifestação contra a Corrupção teve, em média, cerca de 2.500 pessoas!
    Estatisticamente, fica provado que há mais gente a lutar pelo direito de levar no rabo, do que lutar para não ser enrabado”

    Miguel Esteves Cardoso

  10. Luís says:

    Acontece aos melhores, nem o AMN resistiu a fazer a cena triste da “saída do armário” em nome do populismo eleitoral.

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