Morte e destruição

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Kobani – fotografia de Bulent Kilic/France Presse

A guerra na Síria arrasta-se há 7 anos. Depois de tantos anos de carnificina, que entra por nossas casas adentro todos os dias, sem cerimónias e em horário nobre, as imagens continuam a ser impressionantes, de Aleppo a Ghouta oriental. Bairros inteiros arrasados, cadáveres nos escombros, hospitais em ruínas, crianças em profundo sofrimento. Não tem explicação. Já não era suposto acontecer.

A Síria é o palco do conflito mais complexo e destrutivo da actualidade, que não se esgota no objectivo da conquista do poder. Existem questões étnicas e religiosas à mistura, existe um fanático e imprevisível Daesh, existem facções nacionalistas, paramilitares e exércitos estrangeiros, rebeldes, terroristas, rebeldes-terroristas e milhões de civis indefesos a viver um pesadelo sem justificação. O inferno na Terra.

Existe também um braço-de-ferro entre Estados Unidos e Rússia, que ultrapassa as fronteiras da Síria e que, nos últimos dias, nos proporcionou um belo episódio à moda da Guerra Fria. Vladimir Putin orquestrou uma cena orwelliana para anunciar ao mundo que desenvolveu o melhor míssil nuclear da história, capaz de penetrar o escudo norte-americano, aproveitando para provocar o arquirrival com uma montagem em que a nova artilharia russa atinge aquilo que parece ser território norte-americano. “Ninguém no mundo tem algo igual, por agora. É algo fantástico!“, concluiu o oligarca-chefe.

As reacções da NATO e do Pentágono, que desvalorizaram o anúncio de Putin, insistindo que o escudo antimíssil não foi desenhado a pensar na Rússia (yeah, right…) mas em estados como a Coreia do Norte e o Irão, não se fez esperar. Já do manicómio Trump não nos chegou qualquer tweet até ao momento, ou não estivesse o fascista americano muito ocupado a anunciar novos obstáculos ao comércio com a UE e a polir as AR-15 dos lunáticos da NRA. A ver se o Putin não dá por ele.

Entretanto, enquanto ditadores e aspirantes medem as suas pilas, há crianças a morrer com ataques químicos, cidades dizimadas, atentados terroristas constantes, crimes de guerra e atrocidades cometidas por todas as partes envolvidas. Todas. Sete anos, 500 mil mortos e vários milhões de desalojados depois, a guerra civil na Síria não parece ter fim à vista. E o máximo que as potencias mundiais envolvidas conseguiram fazer até ao momento foi aprofundar ainda mais este inferno que não poupa ninguém, excepto a banca e a indústria do armamento, que lucram milhões com a barbárie. Não admira que milhares de refugiados tentem a sua sorte e deixem tudo para trás em busca do sonho europeu. Já não há nada ali para eles. Só morte e destruição.

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Comments

  1. caco says:

    Os que continuam a fazer a guerra não estão nem nunca estiveram na Síria nem na Rússia. E até o Guterres sabe disso.

  2. Rui Naldinho says:

    Putin, Erdogan, Assad, Trump, Netanyahu, … não passam de uns “Syria(l) Killers”, cada qual à sua maneira.


    • Para não falar nos tiranetes sauditas e afins…

      • ZE LOPES says:

        Pois, as monarquias do Golfo, os príncipes e outros trastes! É tudo a mandar armas! Mas, é claro, não culpemos as armas! A culpa é dos atiradores!

    • Caco says:

      Até certo ponto concordo mas se os Russos não tivessem intervido acredito que a Síria já á muito tempo que não existia, pelo menos não como País soberano.

  3. Bento Caeiro says:

    A coisa, como se costuma dizer, está negra. Não por ser africana, mas por se revelar de uma escuridão quase total para os que, estando de fora, quereriam perceber o que se passa; mas, onde cada um dos intervenientes, perfeitamente consciente da situação, espera para aproveitar as falhas dos outros ou de qualquer um dos outros, para sair ganhador da contenda.
    Estados Unidos com os amigos ocidentais da Primavera Árabe – seja lá isso o que for – dá início e fornece motivos e munições ao jogo. Quando a coisa se complica – como se tornou usual – recua, deixando, tal como fez no Iraque, todos ao barulho. Como de contenda entre sunitas e xiitas se trata e a refrega é preciso parar entra o Irão na refrega, prontificando-se a ajudar quem está no poder na Síria. No entretanto os adversários do presidente sírio e os adversários dos adversários a que se juntam os escorraçados do Daesh, concentram-se – por fatalidade – em determinados regiões e locais e aí, a coberto da população – quem verdadeiramente sofre com o conflito -, lutam contra as tropas de Bashar al-Assad e entre si.
    Por sua vez, os sionistas de Israel, nada interessados em que o Irão reforce a sua influência na zona, tudo fazem para os enfraquecer, nomeadamente destruindo o seu armamento e assim – na prática – ajudando o Daesh e as forças que se opõem a Assad (Não será por coincidência que o Daesh não ataca e não é atacado por Israel). Estas forças (Daesh e outros opositores de Assad) por sua vez, procuram obter a complacência do mundo ocidental, divulgando a carnificina que lá se passa; na esperança de, através de tréguas, reforçar a sua posição – daí não permitirem que os corredores de refugiados sejam abertos.
    Enquanto isto a ONU da Treta, aprova resoluções – dirão os visados, à semelhança do que faz Israel: ai que medo!
    A América de Trump está entretida com o palhaço da Coreia do Norte e com o papão para os americanos que é o Irão – que são os que mais se têm oposto e combatido o Daesh.
    É surpreendente como os americanos depressa esqueceram o papel dos sauditas na queda das suas torres e não esquecem o
    episódio da ocupação embaixada americana em Teerão! Certamente, esta espécie de sapo é de difícil digestão, ou será uma questão de interesses?
    Por fim, temos o armamento: que rica oportunidade de o testar e, sobretudo de o vender! Mas, surpresa – será? – os tais das resoluções da ONU da Treta, são os mesmos que assim procedem.
    Que os Deuses nos protejam – mesmo os que, porventura, já estarão aposentados.


  4. De novo o saúdo, caro Bento Caeiro, que reconheço que esta sua análise é das que tenho lido e ouvido mais completa e certeira sobre aquela realidade tão complicada e tão tendencionalmente manobrada e manipulada pelos media e por mentes ao serviço de um ocidente predador e cobarde e cinicamente hipócrita .
    Israel, EUA, Daesh, Sauditas, Europa e ONU da Treta e a obscena indústria do armamento e do cheiro a petróleo !

    Shame on them !

  5. Caco says:
  6. Caco says:

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