A tal ponte concessionada, mas só na parte de recolher receita

É preciso considerável lata para um jornal dar voz a uma notícia plantada como esta. As pontes sobre o Tejo estão concessionadas à empresa dirigida pelo Ferreira Amaral, o ex-governante que foi para empresa que tutelou (sim, passado algum tempo, e então?). Mas parece que as PPP em causa só servem para recolher receitas, já que, para as obras de manutenção, é ao Estado que se apontam baterias.

Escreve o Público, em artigo não assinado, que o “caso foi detectado há três anos, revela ainda a Visão, que diz ainda que a empresa Infraestruturas de Portugal têm vindo a pedir, há pelo menos dois anos, uma intervenção, devido às fissuras graves na estrutura analisadas pelos técnicos“. Afinal o Estado, via a empresa responsável, tem feito alguma coisa. Falta saber se a IP pediu a quem de direito, à empresa que explora as duas pontes.

Claro que sacudir a água do capote e fazer pressão pública sobre o Estado é mais cómodo do que entrar com os 20 milhões necessários para as obras. Vamos ver se temos um governo à altura ou se, por outro lado, se vai posicionar como passador de cheques.


Adenda
É de atender a esta notícia de 2008:

Acordo global assinado por Jorge Coelho mostra que Estado acabou por financiar a concessão, mas sem a explorar
De início, a Ponte Vasco da Gama foi anunciada como uma construção a custo zero para os cofres do Estado; porém, na altura em que a sua exploração voltar para a esfera pública, e feitas as contas, o Estado terá despendido com esta concessão bem mais do que os 897 milhões de euros que esta custou, caso tivesse optado por uma construção em regime de empreitada tradicional.
(…)
Pode ler-se no relatório do TC: “As contrapartidas directas à concessionária ascendem, a preços descontados das taxas de inflação, a cerca de 180 milhões de contos (900 milhões de euros), isto é, o equivalente a uma nova travessia sobre o Tejo“. Este número foi alcançado através da contabilização das contrapartidas directas que o Estado pagará até 2019 (250 milhões de euros); pela prorrogação do prazo de concessão por mais sete anos, permitindo que seja a Lusoponte a encaixar as receitas de portagem que, segundo as previsões de tráfego do caso-base em vigor, ascendem aos 560 milhões de euros), e pela isenção dos encargos de manutenção da Ponte 25 de Abril, que deixaram de estar a cargo da Lusoponte e regressaram à esfera do Estado, e que estão contabilizados (a preços descontados da inflação) em 95 milhões de euros”
. ”

Obrigado, Jorge Coelho, és o maior. Obrigado pela PPP, Cavaco, foste um craque.

Face a esta notícia de 2008, fica claro quem é que vai pagar o cheque.

Comments

  1. Antonio Medeiros says:

    À semelhança deste assunto,temos no Brasil várias estradas e aeroportos construídos com dinheiro público e entregues aos exploradores do povo,que não se envergonham de ver nas ruas a grande quantidade de pessoas sem um mínimo de assistência que pagaram por isto e nada tem a receber.Quando surge um acidente ou a necessidade de recursos financeiros, é fácil, só apanhar os cheques com os “amigos” do governo para que os lucros deles não diminuam.


  2. Se o governo passar o cheque nada de admiração!
    Não estará a Ponte 25 de Abril sob a égide: ” Too big to faill?!”…

    • Big deal!... says:

      A Lusoponte será “Too big to fail”.

      A ponte propriamente dita será, quando muito (e assim esperemos), “Too big to fall”!

      Para que as duas coisas possam ser verdade, lá terá que ser a malta a safar a primeira para ver se não se arrisca à segunda…

  3. ZE LOPES says:

    Qual é a admiração? Os criadores de vacas leiteiras, a partir de agora, também vão mandar chamar o Estado quando aparecer alguma vaca com um furunculo na pata!

  4. Bento Caeiro says:

    Hoje, que é dia da mulher e a minha não mo deixa esquecer, não tenho muito tempo para discorrer, mas alguma coisa quero dizer.

    Se o tempo está bom e as colheitas são boas, do agricultor nada há a saber. Se as colheitas não são boas, pelo tempo que as estragou, também se os fogos as atingiu: aqui del-rei, alguém, que não eu, vai ter que pagar. Seguros? – Mas eu sou parvo? O Estado há-de pagar. O mesmo se pode aplicar às florestas.

    As empresas, de uma forma geral, andam bem. O Estado só serve para nos cobrar impostos, porque não nos deixa em paz – dirão os patrões e os seus aliados. Pelos seus erros, ganância e incompetência, as coisas começam a correr mal: aqui del-rei, mas o Estado não está aí para nos ajudar? E, como tal, lá vamos todos pagar. O mesmo se aplica aos bancos.

    As parcerias com o Estado – que é como quem diz, os arranjinhos preparados para esmifrar o Estado (todos nós), arrecadando os benefícios e mandando-lhe a factura dos custos e prejuízos – estão a correr bem para os privados, porque não há manutenções e outros custos a suportar. O Estado não tem nada que se meter, está tudo a correr como era de prever – dirão; mas o tempo passa e é preciso manter a coisa em funcionamento e, como é de ver, não vão suportar os custos: parceria só para o bem, corre mal? Então para que servem as parcerias, não era para o Estado, os parceiros socorrer e salvar. Paga o Estado, como é óbvio, todos nós e depois do problema resolvido? Bem, voltamos ao mesmo. Tanto que até vimos os governantes tomarem medidas, fazendo saber para que nos vamos habituando, pois os arranjos da Ponte 25 de Abril, também teremos de pagar.
    Que diabo! Não fora assim, como é que certos parceiros sobreviveriam e poderiam, em tempo, garantir empregos aos que foram dos governos.

    Entretanto, por esse país fora, o Governo da Nação, como se todos fossem culpados da sua incúria e política florestal, desenvolve uma campanha de tal ordem que desgraçado do Alentejano que não corte as suas árvores de fruto do quintal, vai pagar pelos fogos que no próximo Verão se irão, certamente, verificar no Centro e Norte do País.
    Pelo contrário, em relação a essa espécie de eucaliptal, que é para o Alentejo, o olival intensivo e super-intensivo – por matar e secar os solos, que não respeita o estipulado na legislação e são, como os eucaliptais, um perigo – todos olham para o lado; e, pelo que vejo, nada irão fazer.

    Pois é, estes olivais intensivos e super-intensivos – que irão acabar por transformar o Alentejo num deserto – são dos espanhóis e outras grandes empresas e tais como os eucaliptais movem muitos interesses.

    Vamos ver se o ministério- público também aqui vai à bola ou se fica fora de jogo.

  5. antero seguro says:

    As receitas revertem para a Lusoponte a manutenção corre por conta do Estado. Mais um acordo leonino feito no tempo de Cavaco Silva.


  6. Pois é, pobre país há décadas entregue a todos estes interesses privados de políticos e clientelas a explorar o povo !

  7. Paulo Marques says:

    Se nem a Alemanha tem dinheiro para as pontes do maior rio europeu…
    https://www.cnbc.com/2016/09/14/germany-has-a-crumbling-infrastructure-problem.html

  8. j. manuel cordeiro says:

    Face à adenda, é claro quem vai passar o cheque.

    • Malta da República says:

      Perante os constantes bombardeamentos sub-liminares de estímulos aos neuro-transmissores da malta, pá, ’tás a vêr, a fazerem coceguinhas nas suas – da malta – emoções mais primárias enquanto as puxam para cá e para lá até que a malta, pá, só quer, pá, é consumir todos os abafadores de lucidez postos criteriosamente à sua – da malta – disposição, pá…

      Pois ’tá-s’ a vêr qu’ é me’m’ a malta que passa o cheque e, pá, nem dá por ela – a malta -, pá!…

      ¯_(シ)_/¯

  9. MReis says:

    A questão de fundo, fica por resolver. Parole, parole…
    Quem elabora uma petição minimamente fundamentada para fazer acabar com a ‘mama’ (o menos adora este termo) da Lusoponte? do Ferreira do Amaral e Cªa?
    Em 2012, esta empresa apresentou um lucro de 12 milhões de euros, dos 65 milhões que faturou/sacou aos ‘utentes’. E apenas é responsável pela manutenção do piso?
    Caramba, não se põe termo a esta vigarice?

    • ZE LOPES says:

      Quem? Ora bem, o nosso principal especialista em “mama” é, sem dúvida, o JgMenos. Em abstrato, podia pedir-se que avançasse com a petição. Temo é que haja dois problemas: ter de se explicar bem o que é isso de petição e o homem estar ocupado a dar uma série de palestras sobre a “peste esquerdalha”.

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