Fácil demais para António Costa

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Na sequência das Legislativas de 2015, o Partido Socialista chegou a acordo com BE e PCP/PEV para liderar um governo minoritário. Perante este acordo histórico e inesperado, PSD e CDS ficaram muito aborrecidos, porque a democracia representativa pode ser uma grande maçada, e amuaram durante uns meses.

Depois de vários meses a carpir, o CDS decidiu fazer o moving on e procurou mudar ligeiramente o discurso, aproveitando o grande vazio em que o PSD se havia transformado, apesar de na realidade nada ter mudado. Utópica, Assunção Cristas começou por se assumir como alternativa para liderar a direita, apesar de não o poder ser sem o PSD, e já fala em ser primeira-ministra. Já dizia o poeta que o sonho comanda a vida, e Cristas também tem o direito de sonhar, coitada!

Na São Caetano à Lapa, enquanto o partido definhava nas sondagens, Pedro Passos Coelho viu as várias teorias da conspiração serem reduzidas a pó, umas atrás das outras, até não restar discurso, coerência, credibilidade, sanção ou diabo para contar história. Defunto que estava o passismo, Rui Rio lá decidiu sair da poltrona e avançar, cumprido finalmente uma promessa de longa data, e derrotou a barriga de aluguer que o passismo havia entretanto desencantado para se perpetuar no poder.

Chegado ao trono laranja, Rui Rio decidiu fazer mudanças que não agradaram aos mais altos oficiais do antigo regime, que trataram de lhe dar o troco e de lhe proporcionar o mais curto estado de graça de sempre de um líder partidário recém-eleito. Apuparam Elina Fraga no congresso, escolha que levou Paula Teixeira da Cruz a acusar Rio de traição, emocionaram-se com a intervenção crispada de um dos seus antigos líderes, Luís Montenegro, e fizeram a folha ao novo líder parlamentar, traído por elementos da sua própria lista, que tinham aceitado trabalhar com ele, sempre com a retaguarda protegida pelos ideólogos-observadores da nova direita radical portuguesa.

Rui Rio, contudo, não recuou. Nem parece interessado em seguir a via da confrontação com o governo, via essa que já deu provas claras da sua absoluta inutilidade, manifestando inclusive disponibilidade para trabalhar com os socialistas (e até com bloquistas e comunistas) em algumas matérias, nomeadamente na área dos fundos comunitários. Internamente, a notícia não foi bem-recebida pelo sector ressabiado, que alucina com Estalines e se masturba com Pinochets. De pouco lhes adianta, pelo que já deu para perceber. Para Rio, os restos do passismo, em bicos de pés e aos berros, mais não são do que a expressão de uma “convulsãozita”, apesar das facas longas.

Em São Bento, António Costa bem pode abrir garrafas de champanhe. A vida não lhe poderia correr melhor! Com os indicadores económicos a validar a sua estratégia, ainda que em larga medida embalados por variáveis externas que se podem a qualquer momento inverter, Costa conseguiu a proeza de firmar acordos sólidos com partidos que nunca estiveram para aí virados, esvaziou e expôs ao ridículo o discurso catastrofista da direita, que em muito contribuiu para o fim do passismo e para a ascensão de Rui Rio, que num dos primeiros actos oficiais se apresentou ao primeiro-ministro, antes mesmo de se reunir com Assunção Cristas ou com o grupo parlamentar do seu partido. Melhor seria impossível.

E agora, o que se segue? Ora, se nada de extraordinário acontecer, tipo uma violenta crise provocada pelos terroristas financeiros de Wall Street ou da City, António Costa arrisca-se a um sossegado passeio a caminho da renovação do seu mandato, com uma maioria absoluta no horizonte. E, a julgar pelo histórico, nada de bom poderá vir de uma maioria absoluta do PS. Agradeçamos, portanto, ao professor doutor Pedro Passos Coelho, e respectiva entourage de criaturas radicalizadas, por se terem demitido das suas funções e por terem transformado o PSD num pequeno partido de protesto. Tivessem eles saído no devido tempo, e talvez pudéssemos esperar umas Legislativas mais disputadas. Agora é tarde e tudo se tornou fácil demais para António Costa.

Comments

  1. Antonio Martinho MarquesAntónio Martinho Marques says:

    O poleiro que Presunção Cristas não quer quer que o galarós do Rui Rio ocupe…

  2. antero seguro says:

    Os perigos são vários. O mimetismo do CDS que se pretende transformar numa coisa e também no seu contrário, perante um PSD em clara desagregação, um PS que tem colhido inegáveis louros dum amparo, por vezes a roçar a incomodidade duma esquerda que vê os seus valores atropelados, e pode inclusivamente fazer com que percam votos, podendo inclusivamente contribuir para uma intolerável maioria absoluta do PS que mais uma vez deitará tudo a perder, entregando da forma, que só o PS sabe fazer, conforme um passado recente nos demonstrou.

  3. Bento Caeiro says:

    Início do julgamento em tribunal.
    Acção: uma mulher, de pouco mais de um metro de altura, acusa um homem, com cerca de dois metros de altura, de violação. Conta a mulher que o acto foi praticado no campo, estando ambos frente-a-frente, e em pé. Perante esta situação, o juiz questionou-a:
    “Mas como foi isso possível, se a senhora é tão baixa e o acusado é tão alto?”
    – Senhor juiz, diz a mulher, sorridente, quanto a essa parte não houve grande problema, eu, para conseguir fazer ‘aquilo que o senhor sabe’, subi para um murete e, assim, já ficámos da mesma altura – risos na sala e soa o martelo…

    Na política, como na vida em geral, a mais das vezes, quando certas pessoas querem ir mais além do que aquilo que são e as suas capacidades indiciariam – têm mais olhos que barriga -,
    apesar de baixas, mas querendo ser como gigantes, não se importarão de se servir de um murete.
    E não é que muitas vezes, porque alguém se encarrega de fornecer o murete e, ainda, lhes pegam ao colo, o conseguem?

  4. Rui Naldinho says:

    Ontem, a Aximage numa sondagem dava ao PS – 39,2% dos votos, ao PSD- 27%, ao BE-10%, à CDU-7,4% e ao CDS-5,4%.
    Não sei o que vale o trabalho desta empresa a quem o CM encomenda as sondagens, mas acredito que elas favoreçam sempre a direita em caso de dúvida.
    Mas admitindo alguma veracidade no estudo realizado, percebe-se que isto vai andar assim até ao dia das eleições legislativas lá para Outubro de 2019. O PS sobe, mas não descola. O PSD desce mas não morre. E Cristas vai sonhando com o lugar de PP Coelho ou António Costa, mas pode ficar como sempre esteve, a servir de muleta.
    Nessa medida, a vida pode correr-nos bem a todos. Ou melhor, menos mal. O importante é não haver maiorias absolutas, e no caso especial da direita, ela ficar em minoria.
    Isto dará para que o PS perceba de uma vez por todas, que acabou ou seu reinado na versão liberal da “terceira via”, ou coisa que o valha, e para a direita, que ou se refunda num novo discurso e a acima de tudo numa nova prática política, ou vai andar na oposição até haver uma crise grave que assole a Europa. E mesmo assim, não sei!?

  5. ZE LOPES says:

    Acabo de ver o Nuno Melo no congresso do CDS. O rapaz tem jeito para a “Stand Up Comedy”. Pelo caminho,tentou o papel de “Damo de Ferro” (forjado em Bruxelas).Pode vir a dar uma linda novela na CDSTV.

  6. Ana Moreno says:

    “E, a julgar pelo histórico, nada de bom poderá vir de uma maioria absoluta do PS. ” Nossa, mas não há mais alternativas, é? Não tem havido bom trabalho mais à esquerda???
    Nunca entenderei estas lógicas…

    • Rui Naldinho says:

      Acredito que a ideia do voto útil vai ficar banida dos hábitos eleitorais dos portugueses nas próximas duas legislaturas. Voltará porventura um dia, mas não será tão cedo. E óbvio que isto não passa de uma intuição.
      Não vou negar que no passado foram os grandes desígnios nacionais, que Portugal abraçou primeiro, como a democratização do regime, e a integração europeia numa segunda fase, que deram origem a maiorias absolutas. Havia uma lógica subjacente a essa concentração de votos.
      Hoje esses desígnios frustraram-se, e mostraram como a construção europeia trouxe apenas alguns benefícios às populações, muito mais voláteis do que os benefícios que trouxe ao grande capital financeiro. Vivemos num período de desilusão completa.
      Eu dou dois exemplos básicos:
      A integração europeia trouxe melhores acessibilidades em quase todo o território. Mas essa benesse paga-se bem caro em impostos, e portagens nas PPP’s rodoviárias ou às concessionárias. O mesmo com os aeroportos, a electricidade, o gás de aquecimento. Depois veio a saúde. E para lá caminharia a educação, não fosse o travar a fundo da Geringonça. Isto não se passa só cá. Passa-se na Europa toda. Nós, como somos mais frágeis sentimos esse impacto de forma mais violenta.
      O que preocupa a direita não é a Geringonça per si. Tudo indicava que o seu sucesso seria efémero. O que a preocupa cada vez mais é a sua longevidade e o seu pragmatismo. Isso é tão evidente que a cada dia que passa o seu nervosismo se torna mais evidente. E é nisso que eu mais aposto. No bom senso de todas as partes, na Geringonça.
      Até porque esta é a última oportunidade da esquerda criar no curto e médio prazo um “menor múltiplo comum”, que não a destrua por completo, num futuro incerto.
      A seguir só restará o populismo e os André Venturas em toda a linha.
      Foi assim que de certa forma Trump apareceu e foi eleito. E nisso o Partido Democrata e a classe média Norte Americana tem muita culpa.


  7. É preciso também valores que orientem o contrato social que poucos respeitam.
    Sei que o caminho é pela equidade entre as pessoas e pela eliminação de tudo que atente contra a dignidade das pessoas.
    Mas não percebo em que méritos assentam os privilégios de muitos.
    Também não percebo por que é que a tua teoria política é melhore do que a minha.
    Gostava de ver mais ação em consonância com o respeito pelo outro seja ela quem for.

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