Da boa crítica literária

Numa altura em que tantas críticas se fazem ao jornalismo, creio ser igualmente importante sublinhar o que há de bom na imprensa. Algo que tem vindo a melhorar nos últimos anos, inclusive pelo acesso aberto aos artigos, são as secções de literatura de alguns jornais portugueses, notavelmente as do Público e as do Observador.

Nas últimas semanas, tive a sorte de encontrar excelentes críticas a livros. Excelentes porque me convenceram a comprar os livros que não planeava ler e aos quais não prestei grande atenção. Excelentes também porque estão exceptionalmente bem escritas.

Começando pela crítica de Maria João Avillez no Observador sobre Na prática a teoria é outra, a edição da Dom Quixote-Leya que compila as crónicas de Victor Cunha Rego. Bem sei que a leitura de crónicas, tal como a leitura de contos ou pequenas novelas, não satisfaz toda a gente. Mas o texto de Maria João Avillez vale a pena ler só por si, pelo seu conteúdo e forma e porque torna Victor Cunha Rego num herói de romance.  E no mesmo jornal, junto também o artigo sobre os Instantâneos de Claudio Magris de Nuno Costa Santos. Gosto muito de Magris, por razões que Costa Santos enuncia no texto, mas o formato de Instantâneos não me convenceu imediatamente – estranhei os fragmentos desconexos – apesar da beleza da edição da Quetzal (não julgues um livro pela capa, dizem, até que a Quetzal resolveu colocar uma fotografia do Castelo Miramare envolto em neblina numa das suas edições). A crítica de Costa Santos, que permite que o livro de Magris fale e explique as razões pelas quais deve ser lido, acabou com as minhas dúvidas.

Por fim, Isabel Lucas, no Público, redige um extraordinário texto sobre a obra de William T. Vollman Central Europa. Por insondáveis razões (falta de atenção) quando me apercebi pela primeira vez da existência deste livro pensei tratar-se de ficção científica, género que não está nas minhas prioridades (a minha lista de livros para ler indica-me que as minhas prioridades são escritores americanos que escrevem frases de 10 linhas sem um ponto final, e os últimos vencedores de prémios literários franceses). Porém, depois de ler o texto de Isabel Lucas percebi que o livro de Vollman “hits all the right buttons”, isto é, parece que foi escrito à minha medida, modéstia e outras qualidades à parte. Faz aliás sentido que este post junte Magris, o arauto da Mitteleuropa, e Vollman. Um escreve sobre a destruição da Europa, o outro sobre a sua durabilidade, apesar de tudo.

Meus amigos, vão ler.