Tauromaquia e Civilização

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Cartoon@No Limiar das Palavras

A propósito das declarações da nova ministra da Cultura, que muito incomodaram o barão socialista Manuel Alegre, um aficionado dos “eventos” dedicados à tortura animal que dão pelo nome de “tourada”, o poeta afirmou que, por vezes, sente a sua liberdade pessoal ameaçada. Imagino que, caso um qualquer governo decidisse decretar a abolição da sangria tauromáquica, Alegre cuidaria estar perante a ressurreição do nazismo.

Se vamos por este caminho, qualquer dia ainda nos aparece por aí uma seita pagã a exigir o regresso do sacrifício de cordeiros em nome de uma qualquer divindade. Porquê não? Quem somos nós para condicionar a sua liberdade de sacrificar um animal para honrar as suas tradições? Ou então a malta da magia negra, a exigir o sacrifício de galinhas pretas em praça pública. Ou ainda, quem sabe, um qualquer grupo católico extremista a exigir o regresso da Inquisição. Que direito temos nós de impedir um fiel devoto de punir um herege no pelourinho?

Considero positivo, contudo, que um histórico socialista, homem de uma esquerda diferente daquela que hoje impera no PS, venha a terreiro para deixar claro que o debate em torno da tourada não é, como muitos afirmam, um debate de esquerda contra direita. É, essencialmente, um debate entre quem se bate por uma existência digna para todos animais e quem defende o seu sofrimento como forma de entretenimento. E nestas questões, é meu entendimento, não existe esquerda nem direita, apesar da direita tauromáquica não perder uma oportunidade de usar o tema para acusar a esquerda de ser contra as tradições deste país, mesmo quando a tradição em questão é de uma brutalidade desnecessária e atroz.

Lamento, profundamente, que em pleno século XXI ainda exista quem defenda a “liberdade” de exercer violência cobarde e indescritível sobre um animal. Lamento também que alguém como Manuel Alegre olhe para as declarações da Ministra da Cultura e consiga desenvolver uma rebuscada teoria da conspiração que culmina numa espécie de regresso da censura, posicionando-se no patamar argumentativo de Trump ou Bolsonaro. Não são, a meu ver, argumentos razoáveis. Roçam, aliás, um certo fanatismo que eu esperava de outros sectores, nomeadamente daqueles que continuam a lucrar com esta prática cruel, mas não de alguém como Manuel Alegre.

Finalmente, não poderia deixar de comentar uma declaração bizarra que passou algo despercebida nos meios de comunicação. Não, caro Manuel Alegre, não é este tipo de intolerâncias que cria bolsonaros. O que tende a criar bolsonaros, diz-nos a experiência recente à qual não será alheio, é a mediocridade, a falta de preparação e de soluções para a arraia miúda, a corrupção e o tráfico de influência que infelizmente caracterizam boa parte da política portuguesa. Neste capítulo, causa mais dano apoiar políticos criminosos, ou visitá-los na prisão, do que afirmar que a questão tauromáquica é uma questão civilizacional.

Comments

  1. Luís Lavoura says:

    uma seita pagã a exigir o regresso do sacrifício de cordeiros em nome de uma qualquer divindade

    Os muçulmanos (que não são “uma seita pagã”) praticam regularmente o sacrifício de cordeiros, no Eid al Adha (“dia do sacrifício”), uma festa anual.

    Eu tive um colega muçulmano que me disse que já tinha comprado um cordeiro vivo e que o tinha degolava em casa, na banheira, com as suas próprias mãos.


    • E os Samaritanos também o fazem.
      Já os Judeus só o fariam no Templo de Salomão que entretanto foi destruído. Isto tudo só falando nas religiões abraamicas.


    • Apesar de tudo, é bem diferente degolar um animal (morte rápida), que até se vai comer, de torturar um animal para gáudio da plateia.

    • João Mendes says:

      E o que quer que lhe responda a esse whataboutismo? Não sou árabe, não sacrifico cordeiros e não desconto para pagar as demências religiosas dessa gente.

  2. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Reproduzo aquo o comentário deixado numa puiblicação de Bruno Santos:

    A questão das touradas, na forma como é tratada pela Sra. Ministra da Cultura, não é uma questão de civilização. Isso é mais uma falácia, criada para entreter o “povoléu”. Tal como a questão do sal e do açúcar abordadas na carta aberta de António Costa também são falácias.

    Vejamos: Então a tourada é uma questão civilizacional se a entrada for taxada a 13%, mas deixa de ser se for taxada a 21%? A diferença entre civilização e barbárie resume-se a um mero diferencial de percentagem no imposto a pagar?

    E já agora, os espectáculos ao ar livre também são um atentado à civilização? Só os realizados dentro de portas é que são conformes à “cartlilha civilizacional” da senhora ministra “politicamente correcta”?

    Como questionou um comentador: “E se for para bater em pessoas, qual é o IVA a pagar?”

    Da mesma forma, a questão do sal e do açúcar (e do álcool – esta com ainda “mais interessantes” cambiantes) se resume a um diferencial em termos de imposto. Sr ou não ser saudável, ser ou não ser “civilizado” – é tudo uma questão de preço. Isto não é esclarecimento nem zelar pela saúde, é simplesmente esbulho.

    Tal como o é proibir determinadas drogas, mas permitir o tabaco (desde que paguem, claro). Tão “permissivos” com certas coisas, e tão fundamentalistas com outras.

    Quando vejo políticos a falar de questões de moral ou civilizacionais, dá-me vontade de rir.

  3. JgMenos says:

    A tourada surge para honrar homens valentes, não para sacrificar bestas que para tanto bastam os matadouros.

    E como é que os ignorantes pensam que se matava o gado bravo antes de haver touradas?

    E qual é o destino do gado bravo se acabarem as touradas?

    Mais uma onda de corretês para conforto de piedosos cretinos.


    • Correndo o risco de alimentar o troll,
      “E como é que os ignorantes pensam que se matava o gado bravo antes de haver touradas?”
      Não sei, mas certamente me dirá. O que os não ignorantes sabem é que não era, com certeza, espetando-lhes farpas nas costas por longos períodos de tempo, método eventualmente eficaz mas muito ineficiente.

      • abaixoapadralhada says:

        É que está mesmo a alimentar o “coxo mental”, que não merece sequer resposta.
        Esse troglodita que escreva no Observador, que é onde lhe pagam

    • ZE LOPES says:

      Estou solidário com os desabafos de V. Exa. principalmente para a falta de reconhecimento social da atividade a que se tem dedicado há, anos a esta parte: a de peão de brega. É realmente uma profissão muito digna e muito incompreendida.

      Tanto é que, porque insistem em frequentar pastelarias em vez de curros, os novos “aficionados” não passam de turistas que se divertem a ver um gajo a correr à frente do touro ou a pegá-lo ao colo, embora pelos cornos. e a rir-se da valentia com que fazem “tétés” ao touro atrás dos “burladeros.

      São esses tipos que, numa prática consentida por certos “inteligentes”, e entre dois pastéis de nata, se dedicam a cravar bandarilhas nos peões de brega, ao mesmo tempo que gritam pela libertação do touro, que sonham ver transformado em empadas, para gaudio de uma certa intelectualidade.

      Pelo caminho, até drogam os touros, não pensem eles tentar entrar diretamente na pastelaria sem passar pela picadora.

      Vle que alguns alguns são castrados. E é a sorte deles, porque não são abifanados. Pelo contrário, após algumas aulas de canto, engrossam o naipe de sopranos do Coro Gulbenkian. Só voltam à lide durante as encenações da “Carmen”.

      Este pode vir, justamente a ser um destino do gado bravo. Outra possibilidade é, depois de reeducado,, substituir os leões e girafas nos carrosseis. As reses que não fossem reeducáveis poderiam vir a ingressar nas claques desportivas, por já estarem habituadas a andar dentro de “caixas de segurança”

    • Paulo Marques says:

      Tão valentes como o macho ibérico que vai em grupo na coutada.

  4. Fernando Manuel Rodrigues says:

  5. Porque não saberia expressar-me tão perfeitamente como este seu texto, J. Mendes, permita-me que o transcreva com intenção de reforçar :

    ” Não, caro Manuel Alegre, não é este tipo de intolerâncias que cria bolsonaros. O que tende a criar bolsonaros, diz-nos a experiência recente à qual não será alheio, é a mediocridade, a falta de preparação e de soluções para a arraia miúda, a corrupção e o tráfico de influência que infelizmente caracterizam boa parte da política portuguesa. Neste capítulo, causa mais dano apoiar políticos criminosos, ou visitá-los na prisão, do que afirmar que a questão tauromáquica é uma questão civilizacional”.

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  1. […] vi Manuel Alegre afirmar, a propósito da posição da nova ministra da Cultura sobre as touradas, que é esse tipo de intolerância que cria bolsonaros. Pudesse Alegre descer à Terra e visitar o mundo real, e rapidamente perceberia que são […]

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