A santa aliança entre Banca e políticos…

Esta semana, uma vez mais os principais banqueiros do rectângulo pretenderam cobrar comissões por transações nas ATM, história reciclada que nada tem de novo, a pretensão é antiga, mas que permitirá ao governo de esquerda, todo modernaço, dizer que não, defendendo o povo e fazendo frente aos tubarões da alta finança. O embuste do costume para enganar papalvos, como é timbre da equipa de mestres da ilusão que governa o país. Há favores por pagar e todos os banqueiros sabem quanto e quando têm de pagar a quem os auxilia sempre que estendem a mão.

A Banca é apontada inúmeras vezes em Portugal como um exemplo de sucesso, face à massiva utilização pelos portugueses do chamado dinheiro de plástico ou transações electrónicas. Com a cumplicidade do Estado, foi vendida à população uma ideia de segurança, desincentivando a utilização do dinheiro vivo, para os mais renitentes, avessos à mudança ou info-excluídos não faltam as notícias nas televisões sobre idosos burlados ou assaltados nas suas residências em lugarejos mais ou menos ermos, ou incêndios que consumindo habitações levam as poupanças guardadas por baixo do colchão.
Estado e Banca têm lucrado com esta santa aliança, o primeiro com a tenebrosa Autoridade Tributária vasculhando as nossas vidas, qual big brother, a segunda encerrando balcões e diminuindo funcionários. Claro que algumas luminárias aparecem logo a criticar o capitalismo, mas a actividade bancária no nosso país, em grande medida também na Zona Euro, é tudo menos capitalista nos tempos que correm. Eventualmente estaremos perante uma plutocracia, mas capitalismo seguramente que não é, quando a pretexto do conceito “too big to fail” se injectam avultadas somas financiadas com impostos, para impedir que ocorram falências, como resultado de más práticas de gestão.
Em Portugal a coisa tende sempre a ser um pouco pior, porque a Banca está ao serviço do governo e o governo ao serviço da Banca. A promiscuidade é tanta que políticos saltam do governo para os Bancos, ou dos Bancos para o governo, sem qualquer pudor. E são quase sempre os mesmos. Para piorar, existem em Portugal uns tipos que se dizem capitalistas, cuja especialidade é posarem nas revistas cor-de-rosa, pedirem avultados empréstimos que nunca pagam e falir empresas. Sempre na maior impunidade, porque se forem incomodados podem abrir a boca e levar mais uns quantos na queda, o que não convém às pessoas que gravitam num certo bloco central de interesses. Perante um cenário de juros baixos e diminuição dos spread, talvez não fosse má ideia irem atrás do crédito mal parado, sem atender aos nomes dos devedores. Eventualmente para isso seria necessária uma Justiça eficaz, mas quem faz as Leis até aqui também não tem ajudado, porque as mesmas têm demasiadas garantias e salvaguardas que tanto jeito dão aos prevaricadores. E não acredito que seja por incompetência dos legisladores que o problema subsiste. Os juízes são os menos culpados, porque estão obrigados a aplicar e fazer cumprir a Lei.

Comments

  1. Ernesto says:

    “Claro que algumas luminárias aparecem logo a criticar o capitalismo, mas a actividade bancária no nosso país, em grande medida também na Zona Euro, é tudo menos capitalista nos tempos que correm.”

    Se o ridiculo matasse, certamente já não tinhas escrito esta posta..

    • ZE LOPES says:

      Brilhante, não tenha dúvidas, Ernesto! Em breve Almeida irá ser premiado com a Nobelbisca da Liberalice da Academia da Sueca.

      Embora eu tenha, apesar da admiração que tenho pela sua capacidade de contorcionismo liberaleiro de fazer notar que há três coisas que nunca vi na vida:

      Um defunto a ressuscitar.
      Um homem a parir.
      Uma atividade bancária na Zona Euro que não fosse capitalista.

  2. Luís Lavoura says:

    a massiva utilização pelos portugueses do chamado dinheiro de plástico ou transações electrónicas

    Não é assim tão massiva, comparada com países como os escandinavos, nos quais já praticamente ninguém usa dinheiro vivo. Nesses países, praticamente todos os pagamentos são eletrónicos.

    • António de Almeida says:

      Fomos dos primeiros, nos anos 90 ía com frequência a Espanha e até mesmo no início deste milénio, estavam bem mais atrasados que nós…

      • Luís Lavoura says:

        Eu a primeira vez que vi dinheiro de plástico foi na Suíça em 1979. Ou seja, Portugal não foi, de todo, dos primeiros a adotá-lo. Pelo contrário, somente apareceu em Portugal muito tarde.

        • António de Almeida says:

          Em Portugal se a memória não me atraiçoa, terá sido na segunda metade da década de 80, com a abertura da banca à iniciativa privada que começaram os cartões de débito, a par da instalação das máquinas ATM. Antes disso os Bancos já emitiam cartões de crédito mas eram muito raros, ao alcance de poucos. Mas a massificação foi muito rápida, a adesão foi total, sei que na empresa onde eu trabalhei entre 87 e 89 apareceram por lá 2 Bancos a “oferecer” cartões e conta-ordenado “gratuitos” a quem quisesse aderir…

        • Paulo Marques says:

          Posso estar enganado, mas tenho ideia que a grande inovação portuguesa foi a existência de uma grande rede de ATM que não comunicava apenas para o banco onde a máquina estava instalada. Ou seja, em qualquer máquina (bem, quase qualquer) era possível realizar operações e levantar dinheiro, acertando depois os bancos as contas.

          • António de Almeida says:

            Exacto, apesar das primeiras apresentarem algumas falhas…

  3. Luís Lavoura says:

    Eu não sei se o governo dirá que não ou que sim às pretensões dos banqueiros, mas teria toda a racionalidade dizer que sim.
    É que, na prática, as comissões pela utilização de ATMs constituiriam uma taxa sobre a utilização de dinheiro vivo, o que faria diminuir essa utilização e, em parte, a fuga ao fisco que ela permite.

    • António de Almeida says:

      Para funcionar teriam que cobrar uma comissão sobre levantamento ao balcão. De contrário as pessoas tenderiam a levantar o salário de uma vez. Ou fazer levantamentos maiores e ir gerindo…
      E perante tal cenário provavelmente o ideal será entregar o cartão de débito e fazer um levantamento por mês ao balcão. É bem capaz de se virar o feitiço contra o feiticeiro… Não seria contra tal medida se os Bancos não cobrassem já demasiado por comissões, dossiers, anuidades de cartão, manutenção de conta… Sem esquecer que os Bancos não são os responsáveis pela manutenção e gestão do sistema ATM e já estamos a pagar quando nos retardam com publicidade…

      • Luís Lavoura says:

        Há bancos que cobram taxas por levantamento ao balcão. Creio que de facto a maioria, se não mesmo a totalidade, dos bancos cobra. Não tem nada de novo.

        Em minha opinião seria perfeitamente racional os bancos cobrarem taxas por levantamentos no Multibanco que ultrapassassem, digamos, os 150 euros por semana.

    • ZE LOPES says:

      Não me diga que os que querem fugir ao fisco não têm dinheiro para pagar as taxas! Há quem esteja disposto a perder mais de 60 ou 70 % do “dinheiro sujo” nas “lavagens” feitas em negócios legais, casinos, “off-shores” e quejandos!

      Quem se vai lixar são os pobres e a classe média Mr. Lavoura!

      • Ernesto says:

        Caro Zé Lopes, o Lavouras sabe disso tão bem como nós. Está é a fazer o trabalho dele.
        É o mercado livre a funcionar!

        Falta é perceber em que barco foram os 10 mil milhões que o Núncio não viu passar. Certamente que isso foi tudo para off-shores em notas de 10 e 20 euros.

        Fala-se que as notas foram num submarino que o Portas adquiriu há uns tempos, mas ninguém viu!

      • Nascimento says:

        O LaBoura? é um artista. Digamos que 150 euritos tá bem! mais? bem, isso já pode vir a resultar em fugas ao fisco NUNCA SE SABE!…eheheheh… E NÃO QUE O ARTISTA SE ACHA “RACIONAL?

    • Ricardo Ferreira Pinto says:

      Ó Luís Lavoura, mas então não é um contra-senso cobrar taxas pelos pagamentos electrónicos, como fazem aos comerciantes?
      Então, cobram taxas a quem levanta em dinheiro. Cobram taxas a quem levanta com o Multibanco. Cobram taxas aos comerciantes que recebem via Multibanco. Diminuem balcões e funcionários porque toda a gente paga com Multibanco. Recebem milhões do Estado quando gerem mal os seus Bancos.
      Belo mundo, o dos banqueiros.

  4. Paulo Marques says:

    Então o verdadeiro capitalismo ™ existe onde? E já alguém o viu?

    • António de Almeida says:

      Detroit início do século XX ou Silicon Valley anos 90 do sec. XX são bons exemplos de capitalismo…


      • Quer dizer que o Capitalismo (the real thing) tem tendência a não durar muito?

      • Rui Naldinho says:

        António, até esses exemplos que refere, depois de bem escalpelizados, não são bem o que parecem. Mas vamos dar de barato, que estes se enquadrariam nesse seu espírito.
        O capitalismo tem cerca de dois séculos de vida. Começou com a Revolução Industrial, em meados no século XIX, sucedendo ao chamado mercantilismo, e desde essa época, associado a um elevado desenvolvimento tecnológico, tivemos de tudo, no planeta Terra. Até duas Guerras Mundiais, desencadeadas dentro das contradições imperialistas do próprio sistema capitalista. Nenhuma delas foi desencadeada pelo comunismo. A URSS emerge no pós guerra, como uma das potencias vencedoras, e só a partir daí, com Estaline, esta se torna uma real ameaça. É o inicio da chamada “Guerra Fria”, culminado com a divisão da Europa, o aparecimento das armas nucleares de destruição maciça, etc, etc.
        Olhar para esses dois exemplos cirúrgicos que referiu, Detroit e Silicone Valley, um na industria automóvel, quando esta se massifica, na América, ou para as industrias derivadas das tecnologias digitais, no final do mesmo século, num percurso temporal de 200 anos de História, é muitíssimo pouco, para não dizer miserável.
        É óbvio que os liberais contrapõem sempre as suas teorias económicas, com a falência do comunismo, como referencia padrão para glorificar o capitalismo. Se por um lado o capitalismo tem essa vantagem moral, facto é que as suas contradições, acabarão por destruí-lo.
        A globalização foi talvez, um dos últimos suspiros do capitalismo, na sua versão mais financeira, desregulada, evasiva em termos fiscais, tal como o conhecemos. Caricato, é que depois dos deserdados da fortuna, os desempregados sem grandes qualificações académicas e profissionais, sem esperança numa vida digna, começam agora a aparecer os mais qualificados e as classes patronais, que vêm as suas empresas a falir por terem de competir com a mão de obra da China, Índia, Paquistão, Cambodja, Vietname, …sem que a as novas tecnologias possam ainda assim, minimizar esses impactos negativos.
        A não ser feito nada de verdadeiramente palpável, para pôr cobro a esta situação, a ascensão da extrema direita ao poder, de forma generalizada, estará para breve. Já começou nos EUA, e em alguns países Sul Americanos, ainda que por razões um pouco diferentes. O Brexit não é mais que uma resposta “irracional”, perante a impotência dos britânicos, em verem satisfeitas as suas reivindicações. O não acordo entre trocas comerciais, de Norte Americanos e Chineses, estender-se-à a outros países.

        • António de Almeida says:

          A globalização tornou-nos cidadãos do mundo e ainda bem. Sou do tempo em que mal passava a fronteira, ao ligar a tv, tinha que levar com séries ou filmes dobrados. Em Portugal era preciso estar atento à chegada de mercadoria nalgumas lojas específicas para conseguir comprar determinadas marcas de roupa. Música, precisava esperar meses, quando cá chegavam, por discos lançados nos EUA ou UK.
          Hoje como o que me apetecer onde estiver. Compro o telefone ou televisão que me satisfaz, infelizmente ainda não é assim com o automóvel, que continua a ser a galinha dos ovos de ouro para o governo.
          Sim, admito que o liberalismo possa ser uma utopia, mas sempre que conseguir pagar menos pelo mesmo artigo, não hesito. E onde alguém lutar pela liberdade contra o rolo opressor do Estado, sei de que lado estou…

          • Paulo Marques says:

            O cidadão comum está mais preocupado em comer 3 refeições por dia e ainda assim conseguir pagar a renda (rezando para que não fique doente e vá para a rua depois de ser despedido), mas se a elite consegue comprar iPhones a combinar com as Adidas para ir passar o verão a Paris, vale tudo a pena.

          • Rui Naldinho says:

            O António, até parece que os filmes do outro lado, não continuam a ser dobrados? E do outro lado, dos do lado, a mesma coisa. As emissões de televisão francesas tem muita série e novela mexicana dobrada.
            Quanto à roupa, aos sapatos, e outras futilidades, você não as paga ao preço que pagava, ainda que não seja assim tão barato, porque tudo aquilo é feito em países “miseráveis”.

      • Paulo Marques says:

        Ficamos a saber que, para o António, pessoas como Adam Smith e Karl Marx estavam a escrever ficção científica.
        O capitalismo desregulado de Detroit levou a um aumento rápido da segregação racial sem deixar a região minimamente preparada para o inevitável colapso na crise – no mínimo, tudo tão insustentável como na actualidade.
        Quanto a Sillicon Valley, mais do mesmo, os outros que paguem os problemas. Desde poluição que nunca será limpa (http://theconversation.com/how-silicon-valley-industry-polluted-the-sylvan-california-dream-85810), os inevitáveis problemas de falta de planeamento urbano (transporte público? pfft. casas a preços acessíveis? lol. excessivo consumo de água? para já, há na torneira) aos problemas laborais (para os dois lados), o paraíso parece um livro da Ann Rand misturado com William Gibson.
        Se o rolo compressor do capitalismo só gera paraísos com duração de 5 anos e um rastro de destruição de décadas, se calhar não é grande coisa.

        • António de Almeida says:

          Paulo Marques
          Se quer ir por aí, existem países, Guiné-Bissau por exemplo, onde boa parte da população procura conseguir uma refeição por dia. Claro que os governantes que têm tido ao longo dos anos não são alheios ao problema. Quanto aos dois exemplos que apontei, respondi à sua pergunta, poderia ter apontado outros, o capitalismo funciona até ao momento que o governo intervém.

          Rui Naldinho
          Sei que alguns espanhóis se queixavam das dobragens, os franceses que conheço são um pouco como eu, não ligam a novelas ou canais generalistas, falei nas dobragens mas hoje nem sei se isso ainda existe. Em sinal aberto só mesmo futebol ou noticiários…

          • Paulo Marques says:

            Guiné-Bissau não tem uma economia moderna, como o FMI assegura. Depender da exportação de comodidades é receita para o desastre económico seja onde for. Pode ir buscar países sem socialistas que o resultado é o mesmo.
            Ficamos a saber, portanto, que o governo não deve intervir na poluição, se calhar o golfo do México devia ter ficado como a BP o deixou e se o planeta nos queimar a todos, é o custo da eficiência.

            Quanto às dobragens, é uma questão cultural e de modas.

      • ZE LOPES says:

        V. Exa. arranja exemplos de “capitalismo de sucesso” cada vez mais arcaicos! Cá p’ra mim, os próximos ainda vão ser os “Descobrimentos” e, mais para trás, a Lei das Sesmarias!

  5. ZE LOPES says:

    O LiberAlmeidismo no seu melhor!

    Eu a pensar, como esquerdeiro que sou, que estas “taxas” eram normais, num contexto de sã concorrência, onde clientes como Almeida nadariam como enguias nas águas oxigenadas, saltitando de banco a banco sempre que um qualquer descendente da terceira pessoa da Santíssima Trindade os lixasse, e eis que Almeida, o liberteiro de sucesso, irrompe a clamar “estou a ser (en)roubado por liberaleiros encostados ao Estado!”.

    Acrescentando: “se isto é capitalismo, só me dá vontade de puxar o autoclismo!”.

    Rematando: “estou completamente marado! Por que não vão atrás do crédito mal parado?”.

    Bem rima este Almeida! Um liberteiro a levar na…Liberaleira Fundo das Costas.

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