Pelo fim das vagas no acesso ao 5.º e 7.º escalão da Carreira Docente

Imaginem que um professor anuncia aos alunos, no início do ano, que só será possível dar vinte valores a dois deles e que, caso haja um terceiro, haverá um critério que obrigará a baixar uma das notas.

Já se sabe que as probabilidades de haver notas máximas é sempre mais baixa, mas não há avaliação justa sem que haja a possibilidade de dar a nota máxima a todos os alunos.

Há vários anos, o Ministério da Educação criou um simulacro de avaliação com o único objectivo de impedir que a maior parte dos professores chegasse ao topo de carreira, criando estrangulamentos na entrada para os quinto e sétimo escalões. Na prática, o Ministério faz aos professores aquilo que os professores nunca podem fazer aos alunos. Acrescente-se, ainda, que muitos dos professores que estão nesses escalões gastam mais em deslocações ou alojamento, ganhando menos, servindo o público e financiando o patrão.

Alguns dirão que não podem ser todos excelentes, sem se aperceberem de que estão a defender que a maioria dos professores não tem qualidades suficientes para chegar ao topo da carreira e, isso sim, seria preocupante. Esta mentira tem origem no privado, que a usa com a impunidade e desfaçatez.

Não, não há verdadeira avaliação docente e não há, portanto, incentivo aos profissionais da área. É um milagre, portanto, que tudo funcione, apesar de tudo, tão bem. Apesar do Ministério, apesar de alguma opinião pública, os professores fazem milagres. Entretanto, a maioria será artificialmente impedida de se reformar no topo da carreira.

Os que considerarem que estamos diante de uma injustiça, podem começar por assinar uma petição. Não precisam de ser professores, basta que sejam decentes.

Comments

  1. POIS! says:

    Pois Nabais, força!

    Aguente, que já aí vem a cavalaria! Pelo Menos, já se aprontam os burros. Estejamos atentos!

  2. Luís Lavoura says:

    Nos professores universitários, cada universidade tem um quadro de n professores catedráticos, m professores asociados e p professores auxiliares. Um professor auxiliar só pode subir a professor catedrático quando um professor catedrático se reforma.
    Não vejo porque é que para os professores liceais não deva haver um esquema similar.
    No esquema que o autor do post defende, ficaríamos com os professores como com certos exércitos em que há mais generais do que soldados.

    • Professora says:

      Os “generais” no ensino, a havê-los, não ficariam muito tempo, pois é quase impossível atingir escalões de topo antes da idade da reforma.
      E sabe, no básico e secundário não há auxiliares e catedráticos, todos fazemos o mesmo trabalho, passamos pelos mesmos cargos, é-nos exigida a mesma responsabilidade e competência. A cultura de escola sempre foi de colaboração e interajuda entre todos e era assim que deveria continuar a ser. Porém, este tipo de avaliação corrói completamente esses valores e desmobiliza muita gente. Todos ficam a perder, não são só os professores.

      • José Carlos says:

        “todos fazemos o mesmo trabalho, passamos pelos mesmos cargos, é-nos exigida a mesma responsabilidade e competência.” Todos? O novato no seu primeiro ano de profissão faz o mesmo que o professor com 30 anos de carreira? É óbvio que isso está errado.
        “é quase impossível atingir escalões de topo antes da idade da reforma.” Isso depende das regras de promoção. E que mal há se nem todos chegarem ao máximo desde que sejam tratados e pagos condignamente?
        Gostava de entender.

        • António Fernando Nabais says:

          Como já escrevi diversas vezes nestas caixas de comentários, os ignorantes também têm direito a exprimir as suas opiniões, mas isso não nos pode impedir de lhes dizer que são ignorantes. José Carlos, vê-se que não percebe nada da carreira docente, mas não deixe de dizer o que pensa. Tentarei explicar-lhe:
          a) Um professor mais novo desempenha as mesmas funções que um professor mais velho, com duas dificuldades acrescidas: tem mais horas de aulas e ganha menos. Ainda por cima, costuma estar mais longe de casa do que os professores mais velhos (que deram mais horas de aulas, já ganharam menos e já deram aulas mais longe de casa).
          b) As regras de promoção impedem a maioria de chegar ao topo, sem haver a preocupação de saber se a maioria é boa, má ou assim, assim. Progredir na carreira significa receber mais, o que quer dizer que quem é impedido de progredir continuará a ganhar sempre o mesmo.
          Entendeu?

          • José Carlos says:

            “Um professor mais novo desempenha as mesmas funções que um professor mais velho,”
            É óbvio que sendo assim está errado. Veja o que acontece na carreira universitária (há mais exemplos).
            “As regras de promoção impedem a maioria de chegar ao topo,”
            Não me parece mal. Além disso as regras podem aperfeiçoar-se.
            “Progredir na carreira significa receber mais,”
            Isso parece-me bem.
            “o que quer dizer que quem é impedido de progredir continuará a ganhar sempre o mesmo.”
            Ponho uma dúvida: a palavra “impedido” não poderia ser substituída por outra, talvez “não consiga”.
            Confesso que ignoro muita coisa mas, neste caso, penso que o que existe é uma diferença de opinião.
            “os ignorantes também têm direito a exprimir as suas opiniões” Com esta concordo plenamente, nem nunca me passou pela cabeça que o Senhor devesse ser impedido de dizer o que pensa.
            “Entendeu?” Suponho que sim, mas acho que nunca podemos ter certezas absolutas.

        • António Fernando Nabais says:

          Como é que sabe que está certo ou que está errado um professor cumprir as mesmas funções, independentemente do tempo de serviço?
          Em nenhuma profissão faz sentido impedir que a MAIORIA possa atingir o topo.
          Quem não progride na carreira ganhará sempre o mesmo. Como a maioria é impedida artificialmente (através de uma falsa avaliação) de progredir é, portanto, impedida de ganhar mais.
          Claro que há uma diferença de opinião: eu sou professor há 32 anos, o José Carlos deve ser de outra área e tem uma opinião sobre aquilo que desconhece. Está no seu direito. Eu, quando não domino um assunto, no máximo, pergunto, dificilmente dou opiniões.
          Penso que não entendeu.

    • Paulo Marques says:

      Estou a ver que não conhece o exército português… mas então qual seria o incentivo para um professor querer ficar numa escola pequena, que mais precisam, se quer progredir?

  3. Luís Lavoura says:

    É claro que um professor pode dar 20 a todos os alunos. Basta fazer testes muito fáceis!
    Mas um bom professor sabe que o seu trabalho é também seriar os alunos – distinguir os extremamente bons dos muito bons, e os muito bons dos simplesmente bons. Um bom professor procura portanto que os testes que realiza sejam suficientemente fáceis e suficientemente difíceis para que nem todos os alunos tenham 20, e nem todos tenham 0.
    O objetivo de uma avaliação não pode ser só dizer que todos são bons, tem que ser também dizer quais são melhores.

    • António Fernando Nabais says:

      O trabalho de um professor não é seriar coisa nenhuma, é ensinar o melhor possível cada um dos seus alunos. Um professor tem de fazer os testes de acordo com a complexidade da matéria leccionada e com o escalão etário dos alunos.
      O objectivo de uma avaliação não é dizer que os avaliados são bons ou maus – é ajudar a aprender.
      Nada disto impede classificações diferentes, porque há pessoas e momentos diferentes.
      Nenhuma avaliação justa pode depender, portanto, de quotas. Se depender, não é avaliação.

      • Paulo Marques says:

        Extraordinário como ainda há quem ache que os professores servem para avaliar, ou que é o mais importante, como se ainda estivéssemos no século XIX. Mais aulas de cidadania, não se arranja?

        • Maurício Oliveira says:

          “Extraordinário como ainda há quem ache que os professores servem para avaliar,” Não é? Ouvi dizer que até se avaliam uns aos outros.

          • Paulo Marques says:

            Por fazer parte das tarefas, não quer dizer que seja a mais relevante.

  4. Filipe Bastos says:

    Por trás da absurda pretensão do Nabais – obrigar um país que não progride automaticamente em nada a financiar a progressão automática de uma classe que até já tem privilégios perante outras – há uma questão genuinamente importante.

    Podemos pressentir essa questão no comentário do Lavoura: porque não dar 20 valores a toda a gente? Ou indo mais além: porque não dar um milhão de euros a toda a gente?

    Porque não podem todos ser generais? Os cultistas do mercado passam a vida a dizer que a riqueza não é um ‘zero sum game’; alguém ser muito rico não impede que os outros o sejam. Será mesmo assim? Então o que acontece se forem?

    Outra versão, esta da especulação e da mama imobiliária: se toda a gente quer viver no centro, ou em frente ao mar, como decidir quem lá vive? Sabemos como o mundo actual decide; mas qual seria a forma justa de o decidir? Haverá forma justa?

    • António Fernando Nabais says:

      Depois, quando puder, Filipe, diga-me em que parte é que defendi a progressão automática. Parece-me que defendo é a inexistência da retenção automática, mas a hermenêutica não deve ser o seu forte.
      Depois, temos o habitual argumento que faz lembrar namorados ciumentos – “Se eu não me estou a divertir, porque é estás divertida? Põe-te já triste e deprimida como eu estou!”.
      Também procurei a parte em que defendo que se deve dar 20 valores a toda a gente. Até fui consultar os meus arquivos e verifiquei que nunca fiz isso, o que é estranho, muito estranho.
      Espero que esse problema oftalmológico tenha cura. As melhoras, Filipe.

    • Filipe Bastos says:

      Os 20 valores para todos é outro tema; sobre ele referi o Lavoura, não o Nabais. Depois envio-lhe o contacto do meu oftalmologista.

      Quanto à progressão dos professores, OK, a não ser automática então para si como seria?

      • António Fernando Nabais says:

        Os professores têm de cumprir regras para progredir na carreira, mesmo os que não estejam sujeitos aos estrangulamentos artificiais criados só para impedir que cheguem ao topo de carreira. Logo, a progressão não é automática há muitos anos.

  5. Professor B says:

    Esta avaliação é indecente.
    Não premeia os melhores.

    • POIS! says:

      Pois, mas tem uma grande vantagem.

      Também não premeia os piores. Que depois acabam como avaliadores.

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