Este país não é para resilientes

Transição energética, digitalização e obras públicas. É sobretudo destas três áreas que temos ouvido falar, quando o tema é o Plano de Recuperação e Resiliência. E poucas coisas nos dizem tanto sobre o país em que vivemos, sobre a União que integramos, como este conjunto de prioridades, que, não sendo negligenciável, em particular naquilo que diz respeito ao combate contra as alterações climáticas, parece ignorar uma parte do país real. A parte que foi silenciosamente empurrada para a pobreza, pela pandemia e pela ausência de uma estratégia que a contemple, que quer trabalhar e não pode, sem que nenhuma solução alternativa lhe seja apresentada. Os segregados deste admirável mundo novo.

E não, isto não se resume apenas à crise que se abateu sobre a restauração, sobre a cultura, sobre turismo, ou sobre o tecido produtivo, feito de micro, pequenas e médias empresas. Estão todos em muito maus lençóis, no doubt about that. Mas não são invisíveis, ou sequer ignorados, como outros que, não dispondo de tempo de antena, organização de classe ou de figuras mediáticas que os representem, com amigos influentes no Twitter e no Instagram, acabam esquecidos, nesta guerra pelos recursos europeus, ou pelas migalhas que sobrarão do banquete que se antevê.

São os sapateiros, as cabeleireiras e os barbeiros, as esteticistas e pequenos lojistas, são drogarias e ferrageiros, retrosarias e vendedores ambulantes. São negócios de uma vida, não raras vezes herdados da mãe ou do pai, com uma rentabilidade que, sendo mínima, ou quase mínima, permitia pagar as contas e manter um nível de vida aceitável, para os parâmetros de um país desigual e esturtiralmo remediado, com o elevador social avariado, sem que técnico algum da Schindler se atreva a aproximar, não vá a boyada infectar o homem com a neurotoxina do tétano. São estabelecimentos que vão fechando, para não mais abrir, num processo lento e doloroso que não vemos, porque estamos confinados, a menos que o drama seja em nossa casa. São pedaços de história que desaparecem, e que acabarão substituídos por um entreposto de máquinas de vending, ou por uma daquelas lojas que comprará o ouro dos avós dos desgraçados que perderam as lojas, se é que ainda lhes resta algum da crise anterior.

Veremos as ruas diferentes, principalmente nas grandes urbes, quando tudo isto passar. E os resilientes, aqueles que ainda carregam as marcas da miséria e da violência imposta pelo Estado Novo, que atravessaram as várias crises do capitalismo, e que a tudo isto sobreviveram para acabar estralhaçados pela pandemia, cá estarão para ver o corte de fitas nos sítios do costume, com os protagonistas do costume, a rejubilar com este país pobre com vícios de rico, a transitar energética e digitalmente sobre eles, permeáveis ao flautista da clique do ódio. Porque este país já não é para eles. Talvez nunca tenha sido, mas nunca, como agora, foi tão evidente.

Comments

  1. Filipe Bastos says:

    Nem sempre concordo com o João Mendes; neste caso concordo e subscrevo. Óptimo post, é tudo verdade.

    O drama dos pequenos negócios é o mais silencioso de todos: não têm sindicatos barulhentos, ‘consultores’ vistosos ou lobbies que lhes valham. São chulados pelo Estado, trucidados pelos grandes mamões, ignorados pelos consumidores que só procuram preço e comodidade, sem se preocupar se enchem a Amazon, a Sonae ou a semi-ditadura asiática com semi-escravos mais baratos.

    Como diz o post, as ruas vão mudando. Há semanas andei por uma pequena cidade e quase só vi três coisas: oculistas, lojas de chineses e lojas onde empenhar coisas, sobretudo ouro.

    Não é só em Portugal. Em Inglaterra é igual, quase tudo fechado ou limitado a uma dúzia de marcas grandes . Noutros lados será parecido. O capitalismo tudo come; só ficarão mamões.

  2. JgMenos says:

    Andaram anos a derreter, agora que precisavam de se endividar estão para lá do possível…que surpresa!

    • Paulo Marques says:

      Endividamo-nos nos limites do possível pela desunião, mas não se preocupe, como os outros, vai aumentar por aí cima, sem o céu cair.

  3. Paulo Marques says:

    A solução é libertarem-se do negócio e empreenderem outra vez, claro. Porque não há nada de mais moderno economicamente do que empreendedorar no sonho e o marcado provirá, e o Moedas voltou para nos provar e incentivar ao mesmo.
    Recursos Europeus? Isso é para maravilhas de mais uma revolução económica brilhante, não notem que, mais uma vez, mal dá para palitar alguma coisa e é para devolver a curto prazo. Obviamente que as PMEs não são tidas nem achadas, não têm capacidade para tão gloriosas obras. Nem venham os liberalóides com fazer concursos para empresas nacionais, como se isso fosse permitido nos maravilhosos acordos que tanto dizem que nos salvam.
    Nem vale dizer que a culpa é deste ou daquele partido, as elites, quer competentes, quer incompetentes, têm ambições, quer de rendimento não mediocre, quer de poderem realmente fazer coisas, e lá saltarão para as empresas com competências. Nem é esse o problema, é, como diz o João, não haver para a economia real de quem mantém o essencial a funcionar, mas também falta de planeamento e vontade para que a “revolução” sirva para melhorar esta.
    Mas é preciso não confundir a inevitabilidade do falhanço com corrupção, é mesmo ideologia. Senão fazemos como o Menos, apoiamos uns idiota quaisquer que reclamam não ganharem que chegue com o negócio.

  4. Ana Moreno says:

    João, que tristemente belo e verdadeiro post. Dói não poder fazer mais do que constatar. Obrigada por pores em palavras.

  5. JgMenos says:

    Notas sobre um país muito de esquerda e muito racista.

    Lojistas é sem dúvida um dos talentos ancestrais que com o fim do Império se concentrou aqui no rectângulo de tal forma que já quase ninguém habita no rés-do-chão.

    Verdadeiramente são capitalistas e exploradores de raiz, mas como são micro, a comunada diz que pode ser!
    Se crescem o caso logo muda de figura; quem quer ser grande que se faça camarada dirigente,

    Estranho é também que num país que agora se diz ser povoado por perigosos racista ninguém se tenha incomodado com a concorrência dos chineses.

    • Filipe Bastos says:

      Se crescem o caso logo muda de figura…

      Pois muda, Jg. É verdade. Small is beautiful.

      Small is beautiful não é só um livro dos anos 70, que aliás se lê muito bem, mas uma óptima filosofia de vida.

      Faz todo o sentido, sobretudo para um direitista como v.: o mercado livre, esse culto que v. adora, apenas é viável em pequena escala. O crescimento excessivo estraga tudo.

      Sim. Os mamões estragam tudo. Corrompem políticos, lixam a concorrência, viciam o mercado… o seu maior inimigo não é socialismo imaginário; é a vitória do capitalismo.

    • Paulo Marques says:

      É quase como só se tornassem grandes quando aumentam o nível de exploração, dos outros e do ambiente. Naaa, onde é que já se ouviu que o capitalismo promove a sociopatia, tolices.

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