Este país não é para resilientes

Transição energética, digitalização e obras públicas. É sobretudo destas três áreas que temos ouvido falar, quando o tema é o Plano de Recuperação e Resiliência. E poucas coisas nos dizem tanto sobre o país em que vivemos, sobre a União que integramos, como este conjunto de prioridades, que, não sendo negligenciável, em particular naquilo que diz respeito ao combate contra as alterações climáticas, parece ignorar uma parte do país real. A parte que foi silenciosamente empurrada para a pobreza, pela pandemia e pela ausência de uma estratégia que a contemple, que quer trabalhar e não pode, sem que nenhuma solução alternativa lhe seja apresentada. Os segregados deste admirável mundo novo.

E não, isto não se resume apenas à crise que se abateu sobre a restauração, sobre a cultura, sobre turismo, ou sobre o tecido produtivo, feito de micro, pequenas e médias empresas. Estão todos em muito maus lençóis, no doubt about that. Mas não são invisíveis, ou sequer ignorados, como outros que, não dispondo de tempo de antena, organização de classe ou de figuras mediáticas que os representem, com amigos influentes no Twitter e no Instagram, acabam esquecidos, nesta guerra pelos recursos europeus, ou pelas migalhas que sobrarão do banquete que se antevê.

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A resiliência e os seus heróis

resiliencia

Pensamos sempre que a vida é dura, difícil de ultrapassar essa dor que as relações sociais nos causam. Mais uma vez, cito a minha amiga e colega na ciência que aprendeu comigo e desenvolveu pela sua conta. Viver não custa, o que custa é saber viver, diz Ana Vieira da Silva.

Nem que tivesse lido o texto ou os textos de Boris Cyrulnik (Burdeos, 26 de Júlio de 1937), um neurólogo, psiquiatra, psicanalista e etólogo francês, que retirou da ciência da física o conceito de resiliência para ser usado no saber dos sentimentos dos seres humanos. [Read more…]

o saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade III

Beethoven Für Elisen Bagatela en lá menor

Falar de amor à beira do abismo refere-se àqueles que superam um traumatismo e experimentam muitas vezes uma impressão de sursis[1], que multiplica o gosto da felicidade e o prazer de viver o que ainda é possível. Neste ensaio vibrante sobre a vida, o autor mostra que mesmo os que têm graves feridas afectivas podem transformá-las em grande felicidade. O título traz uma figura de retórica que o autor transforma em conceito para caracterizar os resilientes. Trata-se do oximoro, que consiste em associar dois termos antinómicos: falar de amor/beira do abismo. [Read more…]