Adoro o cheiro a napalm logo pela manhã

“E eu que pensava que a riqueza reside na nossa enorme diversidade. E eu que pensava que todos contam e são iguais. Sou uma utópica, que, provavelmente, nada sabe sobre o que é ser lusitana” – Hermana Cruz, jornalista.

Melhor que ninguém, uma jornalista do Porto sabe bem o que custa esta espécie de insularidade para todos os profissionais, dos mais diversos ramos, em que se vive fora da “capital do império”. Seja no Porto, em Braga, Vila Real, Coimbra, Aveiro ou Viseu. Sem esquecer Faro, Évora ou Beja, só para citar alguns exemplos. Ontem, tomou como exemplo o Porto, o FC Porto. Volto a citar Hermana Cruz: “Nacionalismo assim, carregado de preconceito regionalista e clubístico, mostra-me o que é ser portuguesa”. Mas o futebol é apenas a ponta do icebergue de um país que, hoje, não passa de um arremedo. E o FC Porto é apenas uma vírgula em toda esta história. 

Vamos ao exemplo de ontem em que o FC Porto levou de vencida a Juventus de Cristiano Ronaldo. Por partes.

O director adjunto do jornal A Bola deu o pontapé de saída nos comentários ao resultado da equipa “portuguesa”: “Vamos lá ver, a Juventus não joga nada e não tem grandes jogadores. A equipa da Juventus que o Benfica eliminou era de outra dimensão”. Portanto, a Juventus que atropelou o “modesto” Barcelona em Camp Nou em Dezembro (0-3). A Juventus de Cristiano Ronaldo. Não valem nada, caso contrário o Porto seria atropelado – como diziam quando nos tocou a Juve no sorteio. A reacção do homem ao golo do Sérgio Oliveira é todo um programa, aquilo foi como levar uma facada.

Olhai outro: Na conferência de imprensa após o jogo, o treinador do FC Porto entra, senta-se e….nenhum jornalista português presente na conferência de imprensa virtual (via Zoom). Nenhum.

Ou este outro, quando na CBS, o treinador da seleção da Bélgica refere a grande vitória do FC Porto, “Grande clube. É um momento histórico….Estava escrito nas estrelas”. Estava, só não era importante em Portugal. Era só ver os jornais portugueses desse dia. Era ter visto, como eu vi, dois canais de TV, antes do jogo, nos seus dois programas de desporto, em que só ao fim de 31 minutos num e 35 noutro, referiram o jogo. Nem cinco minutos de análise. O importante era um treinador com uma relação difícil com a sua associação profissional (Sporting) e o Benfica (nem me lembro do tema, nem tão pouco é relevante, pois tudo serve para falar do clube do regime).

E depois temos a dupla imbatível: Rui Santos e Paulo Garcia (SIC Notícias) após o jogo. Nem disfarçaram a azia. Foi tão mau e tão mal disfarçado que nem vale a pena gastar vela com tão ruim defunto. E dirão os mais novos ou os mais desatentos que isso é “fruta da época”, que o jornalismo actual está sem meios e tal e coiso. Pois, não esquecer que na final de Viena (1987), quando o FC Porto venceu a sua primeira Champions (Taça dos Campeões Europeus), só o fotógrafo oficial do clube tinha fotos dos golos do Porto porque os fotógrafos dos jornais portugueses estavam na baliza contrária… Reparem, até a espanhola A Marca faz notícia do insólito acontecido na conferência de imprensa. Que vergonha para o jornalismo português. Quer dizer, vergonha é coisa que já não lhes assiste.

É assim com o FC Porto. E é assim com o SC Braga, com o Boavista, o Guimarães ou qualquer outro clube que não o do regime. No caso do Porto é mais notório porque, nos idos de 70, começou uma revolução silenciosa capitaneada por dois ilustres, José Maria Pedroto e Jorge Nuno Pinto da Costa. Nunca lhes perdoaram a ousadia, o atrevimento. Nem esquecem.

E de quem é a culpa? É nossa. Também nossa. Dos empresários do Norte (a sua maioria) que não apoiam, não suportam os meios de comunicação social da região nos seus orçamentos de comunicação. Nossa que continuamos a comprar esses jornais (Bola e Record), que continuamos a ajudar nas audiências desses canais de televisão que não nos respeitam. Nossa que não mexemos uma palha contra tudo isto. E nossa, caros senhores da SAD do FC Porto, quando temos um canal de televisão que não devia ser apenas e só para o clube, mas para a região e a região significa noticiar, abrir o espaço em antena, igualmente ao Vitória, ao Braga, ao Boavista e aos restantes clubes da região. Mais, se é verdade que a sobrevivência do Porto Canal se deve única e exclusivamente ao FC Porto (se não o tivessem comprado acabaria encerrado por falência) penso que é chegada a hora de abrir a sociedade à participação de terceiros, da região, a investidores, sejam eles ou não de outros clubes/SAD ou outros. De transformar o Porto Canal naquilo que sempre deveria ter sido, um canal do Norte para o Mundo e não, como o é hoje, do FC Porto para o mundo. Porque não podemos fazer nós aquilo que criticamos aos outros, trocar um centralismo por outro. E é preciso apoiar o Jornal de Notícias (e O Jogo) pois são os únicos que resistiram e resistem. Até porque não temos mais nenhum. E não se faz a mudança sem comunicação. E já falaram com o Mário Ferreira? Não é ele o dono de um dos maiores grupos de comunicação nacional? Não é ele (ou era) do Conselho Consultivo do clube? Não deveria ser o FC Porto, pois não. Mas se as restantes forças vivas não mexem uma palha….

Voltando atrás, toda esta azia de que fomos testemunha ontem é um bálsamo. Só nos dá força, só nos une. É a gasolina que nos alimenta. Por isso, obrigado, “adoro o cheiro a napalm logo pela manhã”.

Comments

  1. estevesayres says:

    Não sou do FCP, nem dos que fazem parte do sistema…Mas entendi tudo o que escreveu o Fernando Moreira de Sá… Por fim; os meus parabéns aos jogadores e tb aos técnicos/treinador…

  2. Rui Naldinho says:

    Adoro os orgasmos semânticos dos adeptos da bola, incluindo o dos Aventadores. Sejam eles de que clube forem.
    Como eu compreendo o Fernando, depois daqueles dois terríveis jogos com o Sporting de Braga, para a Taça de Portugal.
    É que se o FC Porto foi prejudicado no primeiro jogo com o Sporting de Braga, facto é que no segundo jogo foi comido de cebolada.
    As palavras de Sérgio Conceição na primeira mão serviram de mote, ao gozo, na segunda mão, onde com menos um jogador durante uma parte, o Braga levou de vencida o FC Porto.
    Às vezes alguma parcimónia nas palavras é o melhor remédio contra a arrogância.
    É verdade que o FC Porto tem hoje a mística que em tempos remotos, muito remotos, o SL Benfica já teve. Não é por acaso que o SL Benfica lá fora, não ultrapassa a mediania. Faz por vezes uma triste figura, apesar da pipa de massa que gasta em jogadores e treinador.
    Mística, sim. Isso é muito bom. E mais mística. Acreditar até ao fim sem esmorecer.
    É isso que define um vencedor nato, mesmo quando perde.
    Parabéns o FC Porto. Venha outro e que se agigante até que lhe doam as pernas.

    • Paulo Marques says:

      Não foi arrogância, o Braga fez mesmo zero 11 para 11 na primeira mão, e mesmo depois não melhorou muito. O orgulho de ganhar, perdão, empatar assim ninguém lhes tira, muito menos por se verem à rasca em ganhar a 2ª mão a uma equipa muito mais cansada.
      Só é gozo para quem acha que vale tudo. Não se irão rir na final, pela mesma razão.

  3. Filipe Bastos says:

    Mais uma gravíssima denúncia, esta do Moreira de Sá.

    “Melhor que ninguém, uma jornalista do Porto sabe bem o que custa esta espécie de insularidade”… sem dúvida. Muito melhor do que alguém… insular, dos Açores ou da Madeira que diariamente nos inundam com as suas manchetes; já não posso ouvir falar do Machico e do Graciosa FC.

    Ou alguém do Fundão, ou de Elvas, de Alcácer ou de Loulé: todos com muito mais atenção, dinheiro e lobby do que o pobre norte, sobretudo o Porto – esse gigante de 200.000 almas, ao nível duma Loures!, ainda assim ignorado pelos media sulistas.

    Onde mais dói este ignóbil desprezo? Na bola, claro. Nas gloriosas conquistas do Pintinho Mafioso e do Conceição Mete-Nojo, esse modelo de eloquência e erudição que ninguém quis ouvir, para nossa insanável perda. E isto apesar da sensacional derrota-vitória contra o maior bronco mamão do universo.

    Mas tal não verga o Moreira de Sá e os seus bravos portistas… força, carneirada da bola! Pelo direito a intoxicar-nos com tanta trampa futeboleira como a máfia de Lisboa!

    Mais notícias, mais entrevistas parolas, mais ‘highlights’ repetidos 30 vezes, mais comentadeiros, mais Pintinho, mais Conceição!

  4. Bruno says:

    “Benfica (nem me lembro do tema, nem tão pouco é relevante, pois tudo serve para falar do clube do regime).”

    Clube do regime, bom, o estádio das Antas foi inaugurado a 28 de Maio de 1952 e o seu presidente era Urgel Horta.
    Para um clube que não é do regime, a escolha de datas festivas e o presidente da altura deixam outra impressão!

    E já agora, seria a côr do regime o Vermelho? A escolha do regime nos lápis para a censura indicam outra tendência que não vermelho! O regime acho era um pouco indigesto com os Vermelhos da vida…

    Mas continue a cancionar essa do clube do rwgime que dá-me graça um clube regionla com vergonha da própria história.

    • Paulo Marques says:

      “Salazar mandou-me chamar e disse-me que eu não podia sair do País, porque era património do Estado! Fui prejudicado nesse momento. Hoje teria uma grande fortuna”.

      “Queria ir para Itália, fui travado, houve muitos casos de outros colegas meus que não puderam sair, mas nunca houve ameaças.”

      Aliás, era normal grande parte dos jogadores serem colocados [na tropa] em Lisboa, os do Benfica, os do Sporting e os do… FC Porto. Foi o caso do portista Serafim, que jogou com Eusébio na selecção militar (Serafim que mais tarde haveria de ser transferido para o Benfica por 2.500 contos e, depois de duas ou três épocas no SLB, foi para a Académica).

      A partir dos anos 60, o Benfica aparece como grande figura da união nacional, alimentando um sentimento patriótico com a conquista das Taças dos Campeões Europeus em 1960/61 e 1961/62. in Record, 25-04-2013

      E que disse esse grande portista, João Marcelino?

      «Pode agora parecer bizarro, mas eram os clubes de Lisboa, Benfica, Sporting e Belenenses, que em rotação escolhiam o presidente da FPF, e a partir daí todo o elenco. O Benfica chegou a ter o exclusivo dos bons jogadores (era vulgar serem chamados 13/14 futebolistas do clube aos jogos da selecção A!). Mesmo as arbitragens, que na altura não tinham o escrutínio de uma comunicação plural, eram visivelmente tendenciosas. E foi a partir do Norte, desse triângulo com o vértice maior nas Antas, que as coisas melhoraram.
      Desde aí, o futebol português foi crescendo e conseguiu êxitos sem paralelo na sua história. Modernizou-se. Modernizou estruturas. Desenvolveu escolas. Formou técnicos e por consequência jogadores. Conseguiu resultados (no FC Porto, ainda no Benfica, em todas as selecções). O FC Porto tornou-se uma potência do futebol europeu e o Boavista passou de clube confidencial a vencedor de um campeonato. Ambos se tornaram escolas de know-how futebolístico, e não é por acaso que o Benfica, por exemplo, recentemente recrutou José Veiga (da escola do FC Porto) e hoje conta com Paulo Gonçalves (formado no Bessa).»