Pirata André Ventura num mar de Rosas

Ainda o doutor Ivo ia a meio da sua homília e já se ouvia dizer que “quem ganha com isto do Sócrates é o André Ventura”.
Ora bem, ontem mesmo na RTP, a Sandra Felgueiras desmontou mais uma negociata envolvendo a presidência portuguesa do Conselho da União Europeia. Está tudo lá naquela reportagem. Mais de oito milhões de euros queimados através de ajustes directos com empresas criadas a pressão, ligações familiares, cunhas e mentiras a rodos. O deboche envolve mesmo uma factura de 260,000€ para um centro de imprensa que ainda não foi utilizado. Augusto Santos Silva garantiu que o contracto “era público para quem o quer consultar”. Mas não era público. Será quando muito púbico, público não é de certeza. O ministro garantiu ainda que “tudo foi feito de forma transparente”. Aqui concordo. Os esquemas são as claras e parentes não faltam.
Mas a preocupação de muita gente é o Chega! e o André Ventura. A sério?
Em parte, eu entendo e lamento que o Chega! aparente ser a única alternativa. Tal não é verdade dado que existem outras alternativas a pocilga do bloco central e dos partidos pajen que os apoiam. E são estes partidos que têm de ser confrontados. Estes e não o Chega!
Pode não dar tanto like, exigir mais trabalho, custar algumas avenças e até amizades. Mas é a vida.
Já enoja esse discurso cheio de arrogância onde nos tentam fazer acreditar que o Ventura é o único perigo para a democracia. Não é. Nem é único, nem sequer o principal.
Eu sei que não é bonito de se dizer e por isso repito-o: O Chega! não é o maior perigo para a democracia.

Os comentadores ensimesmados e altivos na sua arrogância intelectual têm que se convencer de algo simples: o maior perigo é o constante fedor a corrupção a volta deste governo e anteriores.
É a arrogância de António Costa, Marta Temido, o inenarrável Cabrita e outras figurinhas do género que comungam todas da prática da mentira, atrás de mentira, atrás de mentira. Os causadores do desespero, da exaustão e da descrença são António Costa, o imprestável Rui Rio, o chefe de fanfarra de Belém e os partidos-pajen que nas últimas décadas nunca faltaram na hora de segurar a toalhinha ao bloco central.
São estes que apodrecem o regime e avançam já para apodrecer o resto.
O próximo rodízio chega em forma de bazuca e com ele os concursos, as PPPs, a criação descontrolada de empresas, de tráfico de influências nos círculos do poder. E directos. Muito ajuste directo que nem cem Sandras Felgueiras conseguirão cobrir.
A isto juntam-se:
– as CCDRs que controlarão parte do bolo e a farsante eleição dos seus líderes cozinhada por Costa e Rio (um processo que Marcelo defendeu, sem se rir, num debate com Mayan).
– a nomeação de um amigo de Paulo Campos (lembram-se dele?) para o Tribunal de Contas.
– ferramentas criadas a pressão como a tenebrosa lei para as expropriações e outra que permite “flexibilizar” concursos púbicos.
Tudo isto aponta para que os próximos anos sejam de festa nos círculos do poder. Festa? Nada disso. Festa foi a Parque Escolar com pombais de 300,000€ e vários concursos mafiados. Isto não vai ser uma festa, vai ser uma orgia mesmo. Depois virá a factura.
E se no futuro o Ventura valer 3% ou 33%, tal será completamente indiferente para a máfia instalada. Nessa altura António Costa já terá o seu cargo europeu que tem andado a mendigar ao presidente francês. Com Costa emigrarão uns quantos. Muitos cairão no esquecimento. Sobrarão dois ou três para responder, isto se ainda restar algo parecido com imprensa para os denunciar e um tarefeiro qualquer que mantenha algo semelhante a tribunais.
Serão dois ou três a representar e responder por uma máquina mafiosa, cleptocrática e com tiques ditatoriais.
Mas não tenhamos medo. Não nos faltarão os sempre os mui intelectuais comentadores para nos garantir que o Ventura é um perigo. Corrijo, ele é o perigo. The one and only. Ou se não o único, pelo menos o maior. Muitíssimo maior.
Continuem. A sério, continuem meus queridos comentadores e activistas de hashtag e com bué de followers.
Continuem a fazer de conta que ninguém repara que vocês nunca apertam contra a corrupção e os vícios dentro dos vossos partidos e do regime em geral. Continuem entrincheirados entre “facholas e esquerdalhos” e acharem que ninguém entende a vossa covardia, complacência e inutilidade. Continuem a ladrar que ninguém pode afirmar “não concordo com o Ventura, mas…” enquanto ignoram o galopante apodrecimento do regime e dos partidos que representam as vossas ideologias. Continuem a esconder-se em tretas do tipo “Sócrates foi uma desilusão” mas o Ventura é O monstro. Continuem, são livres disso. E eu sou livre de vos dizer algo muito cru, mas real: vocês não não têm ponta de legitimidade para apontar uma unha que seja contra qualquer eleitor do Chega!. Não, enquanto não apontarem as outras nove aos que sempre cuidaram das suas vidinhas enquanto apodreciam o regime. Eles são e sempre sempre foram o perigo.
São eles que desprezam a classe média.
São eles que desprezam os direitos mais básicos que o consumidor deveria ter face a uma EDP, NOS, seguradoras, bancas e outros oligopólios que todos os meses roubam milhares de pessoas, riem-se na vossa cara e torturam-vos com horas de música de call centers para onde procuram reclamar achando, feitos otários, que vale sempre a pena tentar.
São eles que permitem o antro económico português onde ainda compensa ser caloteiro. Mas eles lá, na corte do poder, estão-se a borrifar para o sofrimento de um empresário médio a quem uns lambem o reto na hora de gabar “empreendedorismos” e outros classificam de “esclavagista” a cada 1 de Maio. Uns gabam, outros insultam. Nenhum deles quer verdadeiramente saber.
São eles que protegem uma máquina fiscal autoritária, cleptocrata e por vezes criminosa. Mas útil ao regime na engorda do orçamento.
São eles que fazem fatos a medida para tráfico de barragens. São eles que nos garantem uma vindoura “transição verde” e até enviam a corte inteira para a Doca de Santo Amaro esperar pela cachopa sueca do ambiente enquanto ignoram o tráfico de lixo entre Itália e Portugal, a destruição de terrenos agrícolas no Alentejo e Algarve ou que entregaram o Sabor de mão beijada e por aí fora.
São eles que destruíram a PT que nos vão trazer a “transição digital”.
São eles que gritam “fascista” contra quem questione as vagas de refugiados e enchem-se de verborreia pelos “direitos humanos” – até a direita deixou de ser direita, mas sim “direita humanitária” – mas que se calam perante a crescente vaga de escravatura de africanos e asiáticos nos mares de plástico alentejanos.
São eles que erguem trincheiras entre portugueses do público e portugueses do privado (os do bem e os do mal), movidos pelo único e exclusivo propósito de criar gado eleitoral.
São eles que protegem deputados que aldrabam declarações, CVs e trazem passados como os da Sra Hortense.
São eles que não retiram confiança política a autarcas que roubaram (roubar é a palavra) vacinas. E são eles que recandidatam esta estirpe de autarcas.
São eles que criaram energia e telecomunicações das mais caras da Europa, casas onde se passa frio, uma economia minada por conflitos entre empresas ou em ambiente laboral. Mas os mesmos que vão agora construir a resiliência económica.
São eles que querem como prioridade as cenas inclusas, o “verde” e o debate sobre monumentos históricos e revisão da História. Ó meus cepos, a História que interessa a classe média é saber se daqui a um mês terão emprego e um mínimo de guito no bolso. A prioridade é essa. O debate que interessa é este. Entenderam ou querem um desenho financiado pela raspadinha da cultura?
Em suma, são eles que recusam a reforma do regime e nem se preocupam em dar o mínimo sinal de procura de consensos para que se recupere alguma estabilidade social. Mesmo depois da sociedade ter respondido bem no início da pandemia e, não obstante vário erros, ter continuado a fazer o seu papel, mas que acaba agora multada por comer sandes dentro de um carro, sem saber para onde foram centenas de milhões gastos pelo Ministério da Saúde e a ver camones a deslocar-se entre concelhos.
Muito mais haveria para dizer sobre eles, nem nada disto significa que se pode ignorar riscos e ameaças externas. Mas é isso que elas são: externas. As internas é que corroem e os partidos reinantes que já estão a dar sinais claros que só há uma coisa e uma coisa apenas que lhes interessa: abocanhar tudo o que o momento lhes permitir e depois lá se verá. Tudo isto com o vosso silêncio. Tudo isto sem participarem na defesa dos vossos partidos, das vossas ideias ou de novos movimentos.
Porque enquanto só tiverem latidos para o Ventura, a caravana dele seguirá. E a dos outros partidos irá acumulando um rasto de podridão, dívida, destruição e prescrições. Podem por isso continuar a confundir parasitas com anticorpos. Mas parem é de fazer de conta que se não fosse o Ventura, Portugal era um mar de Rosa sem riscos ou ameaças.
Não era. E vocês, no vosso silêncio, sabem disso.

Comments

  1. João Paz says:

    Excelente artigo Paulo Franzini! Defacto o MAIOR perigo Não está no extremismo fascistoide do A Ventura mas sim nas práticas, efectivamente fascistas de António Costa bem acolitado por Rui Rio como mero peâo de brega.. É um artigo extenso daqueles que está na moda não ler por inteiro. Só perde e muito quem seguir essa moda da barbárie informática dos nossos tempos.

    • Rui Naldinho says:

      Concordo com o texto do Paulo Franzini e com o seu comentário ao mesmo.
      Só acrescentaria uma coisa:
      – Se isto já é assim sem maioria absoluta, o que seria com ela?

      • Paulo Franzini says:

        A ausência de maiorias foi óptima para comprovar que CDS, BE e PCP não são muito diferentes e a sua representatividade faz cada vez menos sentido.

        • Paulo Marques says:

          Se os Franzinis acham que os votos contra o orçamento foram por propaganda, claro que não é diferença. Que ninguém note que não foram eles que recuaram, que ainda descobriam que havia.
          Ou o trabalho feito para que as transferências de posto de trabalho mantivessem os direitos para os seguranças. Fechando os olhos, de facto, é tudo igual para quem trabalha.

          • Paulo Franzini says:

            eu não posso responder pelos outros Franzinis, apenas por mim. Acho que PCP, BE e CDS por vezes dão uns coices ou uns espamos apenas para dar sinal de vida. Mas são muito “poucochinhos” como diz o chefe de um deles.

          • Paulo Marques says:

            Decidam-se: ou são “irresponsáveis” (muitas vezes com concordância da maior oposição ou cedência eventual do governo), ou é tudo combinado.

        • Rui Naldinho says:

          Apesar de reconhecer que partidos como o BE e PCP tendem a permanecer fora do poder por mero taticismo, fazendo por vezes demagogia, sem que isso contribua para resolver o que quer que seja, acho no entanto que as maiorias absolutas acabam por transformar a governação num autêntico assalto do poder económico ao Estado de Direito.
          Foi isso que aconteceu em todas as maiorias absolutas e coligações partidárias.

    • Paulo Franzini says:

      Obrigado João Paz. O artigo é mesmo extenso e a primeira versão era ainda mais extensa. Mas para mim era importante deixar claro o desprezo que a classe reinante tem tido pela classe média seja como consumidores ou como contribuintes.

  2. estevesayres says:

    Não vou perder o meu precioso tempo a comentar…E como diria o saudoso jurista Arnaldo Matos , isto é tudo um p*****!!!
    Nem fascismo nem-social-fascismo!

  3. Filipe Bastos says:

    Franzini, este é talvez o melhor, o mais completo post que já li no Aventar. Muitos aqui precisam de lê-lo.

    Paulo, POIS e todos que passam os dias a berrar sobre o Chega: só há Chega porque esta partidocracia fede. Acima de tudo, porque o PS é a máfia merdosa que é. O PS fede mais que tudo.

    Sim, até mais que o PSD. O PSD engana menos: existe para encher e branquear mamões. É esse o seu papel. Só vai ao engano quem quer. Mas o PS diz-se alternativa; o PS diz-se socialista.

    A este Centrão irreversivelmente podre, com o PS à cabeça, soma-se a conivência dos demais. O Arnaldo estava certo. Vocês insistem em negar o que entra pelos olhos dentro todos os dias.

    Há diferenças entre o BE e o PS, entre a Mortágua e o 44, o Relvas ou o Bosta? Com certeza. Mas é impossível viver no esgoto sem se ficar a cheirar mal. Sim, é tudo um putedo. Só varia o grau.

    Não é conversa de taxista; não é ‘populismo’; é uma constatação. Populismo é o que a canalha chama ao que não gosta de ouvir.

    • Paulo Marques says:

      Ok, e mafiou o quê, quando, e como? E quanto?
      A Mariana já denunciou e enfrentou mais DDTs que os pífios Alexandre e Vidal, mas faça lá de conta que é tudo igual.

      • Fernando Manuel Dias de Lemos Rodrigues says:

        Mariana? Que Mariana? O que é que ela fez? Qual o resultado? Já foi alguém preso? Recuperámos algum dinheiro?

        • Paulo Marques says:

          O resultado foi que toda a gente sabe que mentiram e que qualquer um que faça negócios com os ditos não é de fiar.
          Recuperar dinheiro é com a justiça, se se seguissem os avisos da esquerda, só na banca tinha-se poupado muito.
          Mas, pronto, os justiceiros lá prenderam o Isaltino, sempre candidato, e o Macedo. Está o país salvo.

          • Paulo Marques says:

            E avisos enquanto toda a gente séria elogiava os grandes gestores premiados, tal como continuam sem problemas com os RERT que permitiram a Sócrates lavar o dinheiro, com planemanto fiscal, e com as compras de residência sabe-se lá a quem, quanto mais a origem do dinheiro.

    • Paulo Marques says:

      E é preciso lembrar que, graças ao caso do dito, que não se safou nem pouco mais ao menos, ao contrário de Bava e Granadeiro, e, aliás, foi declarado corrupto, já nem a coisa prescrevia, como era acusado de muitos mais crimes. E, com sorte, ainda acabamos com a indústria de incompetência e branqueamento que são os megaprocessos.
      Por isso, sim, já lhes metemos medo sem deitar o direito abaixo, à populista. Mas lá ganhará, qualquer dia não haverá obras nas escolas, manutenção de estradas e pontes, tal como já foram os apoios à recuperação das empresas. Só foi pena termos tido xulecos a certificar máscaras e contractos de compra das mesmas e de gel, era mais seguro deixar os hospitais sem os dois, não fosse o primo ganhar. E é melhor não comprar vacinas fora da UE, vai-se a ver e o Sócrates tem primos russos e andamos a alimentar esta gente.
      Não, não, bom, bom, é impedir os políticos de fazerem alguma coisa, e quando cair, bom, a culpa não é de ninguém, é o preço de ser tudo transparente.

    • Paulo Franzini says:

      Filipe Bastos, muito obrigado.
      As diferenças são cada vez menores. Cavaco e Guterres criaram os maiores parasitas da democracia portuguesa. Os restantes partidos ainda tentaram algo diferente, mas acabaram engolidos e complacentes.

      Sim, o Arnaldo Santos tinha toda a razão.

  4. Paulo Marques says:

    Eu só ainda não percebi como é que o Chega e a IL pretendem, sendo a favor de cumprir e manter tratados, fazer alguma coisa diferente, especialmente para defender a classe média cada vez mais explorada e os empresários entregues a concorrência com apoio do estado, mesmo às nossas custas pelas “contas certas”.
    Quando souberem como funciona o dinheiro, avisem.

    • Paulo Franzini says:

      A IL já adiantou muito do que defende, já o Chega é muito confuso e vive ao sabor da polémica do momento.

      • Paulo Marques says:

        Falar, falou, mas continua sem mostrar os mecanismos que impedem as inevitáveis desvalorizações internas num país inerentemente deficitário com a mesma moeda de países inerentemente excedentários que, de resto, se divertem a facilitar a nivelação por baixo com o resto do mundo. Nem como pretendem priviligiar empresas nacionais se é proibido.

  5. ANTONIO CARDOSO says:

    Exemplar retrato do nosso Pais. Infelizmente a corrupcao ja e endemica e, basta ler a nossa historia, para constactar tal facto: faz parte do ADN portugues. Resta, aos mais corajosos, emigrar para realizarem os seus sonhos. Foi o que fiz ha 70 e tal anos e nao me tenho arrependido. Custa mas….

    • Paulo Franzini says:

      Também eu, meu caro. Desde 2011 que estou emigrado. No meu caso emigrei porque quis mesmo trabalhar fora mas a situação do país não convida nada a pensar num regresso. E não vejo melhorias no horizonte.

    • Daniel says:

      Mais um que fugiu e que fica à espera que os problemas se resolvam sozinhos… se toda a gente fosse como tu, hoje já não existiriam países – seria uma anarquia do salve-se quem puder…
      Como dizia o outro, “dos fracos não reza a história”!…

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