Liberais e o Estado, parte 35

Por acaso, o assunto do dia ainda é o caso de José Sócrates, que ontem foi comentado num episódio especial no nosso blogue e que já teve direito a postas bastante certeiras. No entanto, houve uma notícia no jornal Nascer do Sol que não passou despercebida a muitas pessoas de Esquerda, incluindo o meu estimado João Maio, que não faço ideia que calçado usa. (É assim que se faz para vocês pensarem que um de nós vai acabar expulso, não é?)

A notícia, muito resumidamente, diz que Bruno Horta Soares recebe pagamentos do Estado. Honestamente, eu não conheço o caso em si. E, palpite meu, talvez seja por não ser caso nenhum. A empresa do candidato liberal a Lisboa forneceu um serviço e, vejam lá o escândalo, recebeu por isso. Isto anda tudo doido: agora as pessoas recebem dinheiro em troca do trabalho que fazem?

Portanto, para a esquerda, uma pessoa não tem legitimidade para vender serviços ao Estado, mas o Estado tem legitimidade para cobrar impostos, taxinhas e tudo o que se lembrar. A esquerda só permite uma relação unilateral e acha que isto é justiça social. A esquerda não questiona o poder abusivo do Estado e a má, perdão, péssima gestão do dinheiro dos contribuintes, mas insinua que alguém vive dependente do Estado, porque fornece serviços.

Obviamente, este pequeno alarido deve-se à narrativa antiliberal que tenta colar os liberais aos anarquistas.

Os liberais não querem acabar com o Estado, repito pela 1325ª vez. Mas é mais fácil acreditarem nisso. O ser humano tem esta tendência de mentir a si mesmo para se proteger do que o pode magoar.

Um abraço a todos e, já que estamos numa de recomendações musicais, façam como Os Quatro e Meia e riam, que o riso ainda não paga imposto.

Comments

  1. POIS! says:

    Pois tem direito…

    À repetição de um comentário que há pouco fiz. É fresquinho!

    O Hayeck, Supremo Guru Liberalesco, nunca excluiu o papel do Estado. Até pensava que era necessária a intervenção do Estado, através de “boas ditaduras”, para impor à força…o liberalismo!

    O lema era assim uma coisa tipo: “quer tu queiras, quer não queiras hás de ser liberal! Ou ainda acabas por “desaparecer” a voar sem paraquedas, que é para aprenderes!”.

    • Francisco Figueiredo says:

      Não há boas ditaduras. E aprenda a escrever o nome de um dos melhores economistas que já houve: Hayek!

      • Paulo Marques says:

        Não me diga, acertou nalguma previsão?

        • Francisco Figueiredo says:

          Leia um bocadinho de Hayek e veja pelos seus olhos. Nem lhe digo para ler livros, basta artigos. Pelo caminho, talvez aprenda um bocado.

          • Paulo Marques says:

            Estamos todos a ver, mais uma vez, o capital não se chega à frente para cortar o desemprego, aposta no mercado financeiro, e continua a viver bem com a destruição do clima.

      • POIS! says:

        Pois tá bem!

        Foi lapso. Já li mais do personagem do que V. Exa. possa imaginar.

        Um dos melhores economistas couve? Tá bem!

        Não sei quando foi o campeonato, mas desconfio. Deve ter havido algum cifrão dourado. O gajo nem nos distritais tinha hipótese!

  2. João L Maio says:

    “ A empresa do candidato liberal a Lisboa forneceu um serviço e, vejam lá o escândalo, recebeu por isso.”

    Não é isso que está em causa, Francisco Salvador. O que está em causa é o discurso recorrentemente anti-Estado, o que depois leva a tiros nos pés, seja no caso do Miguel Quintas ou do Bruno Horta Soares.

    O mesmo vale à esquerda, com os Robles.
    Não se pode (ou não se deve) ter o discurso A e depois fazer B, que contraria A, e lucrar com isso. E isto é válido para todos os quadrantes.

    Os liberais podem não ser contra o Estado; até porque se servem dele, quando dá jeito. Mas têm um discurso contra-Estado bem conhecido. Daí a piada de quem tanto berra mas depois também gosta de “mamar nos peitos da cabritinha”.

    • Francisco Figueiredo says:

      Não têm um discurso contra-Estado, têm um discurso contra esta forma de atuar do Estado. Um liberal reconhece a importância do Estado na sociedade, ao contrário dos teus sonhos.

      Os liberais não se servem do Estado. Mas é importante manter esse mito até porque fica difícil arranjar algum argumento decente.

      • Paulo Marques says:

        Só têm muito azar a arranjar candidatos…

        • Francisco Figueiredo says:

          O Quintas abandonou por razões pessoas. Não têm a ver com o partido.

          O BHS é ótimo candidato.

          • Paulo Marques says:

            Abandonou porque era a favor da nacionalização da TAP, ponto final.
            Para mim são todos péssimos, não é essa a questão; são contra o estado, excepto quando ele é importante, e nem digo ilegitimamente, para o emprego do próprio.
            E, não, não estou a dizer que são todos assim, só os mais populares na política, e muitos no comentário à mesma. O problema é que o que resta são posições que na prática seriam muito díspares.

        • Francisco Figueiredo says:
          • Paulo Marques says:

            Sim, o equilíbrio de tentar justificar o custo monetário da não falência para agradar à narrativa neoliberal, invés das vantagens indirectas dá sempre asneira.
            O que continua sem me ser explicado é como é que o turismo, que nem sequer acho que é boa opção, continua sem a TAP, sem o hub, e sem aeroporto. Excepto por magia invisível graças a empresas a ser salvas noutros países. Perdoe-me por não levar a sério.

      • POIS! says:

        Pois é lindo!

        Ai, maldito Estado, que não nos deixas sonhar!

        Sem as tuas escolas, seríamos, talvez, ser analfabetos! Sem os teus hospitais, estaríamos, quiçá, mortos! Sem os teus transportes, muitos andaríamos a pé! Sem a tua segurança social, passaríamos seguramente fome!

        Mas não deixaríamos de sonhar! Sonharíamos todo o dia e toda a noite!

  3. Paulo Marques says:

    Claro que os libertários não são contra o estado se querem viver à custa de rendas.

  4. Filipe Bastos says:

    Acho que ainda não entenderam o Francisco: ele fala, creio que sinceramente, do liberalismo ideal. De um sonho, uma utopia.

    Os liberais dele não se servem do Estado, não compram partidos e políticos, não viciam a democracia, não subvertem a concorrência ou corrompem qualquer hipótese de um mercado realmente livre.

    É como os comunistas que falam da URSS com os olhos brilhantes, recordando apenas a saúde e a educação gratuitas, o sentido do bem comum, o nobre ideal e tal. Quando alguém lhes recorda as coisas… menos boas, encolhem os ombros. Isso não faz parte do programa.

    • Paulo Marques says:

      O mercado livre não existe; aliás, o conceito original era livre de rendas (e da aristocracia que já não existe). Porque essa liberdade favorece practicamente só e practicamente sempre só quem já parte à frente.

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