A Euroliga e a infalibilidade liberal

Os liberais defendem a livre concorrência como garantia da melhoria da qualidade seja do que for, de empresas a escolas, passando por hospitais e mercearias, porque o mundo é sempre simples se olharmos para ele com as lentes do dogma.

No mundo das empresas, e de acordo com o pessoal liberal, o sucesso é sempre resultado do mérito. Se alguém ganha mais, é porque fez por isso e, portanto, merece. Se uma empresa tem lucro, é porque os gestores foram competentes. Críticas à distribuição de dividendos por uma minoria ou reclamações por melhores salários são sempre desvalorizados pela onda liberal, em nome da meritocracia – quem não está melhor é porque não dá para mais e, desde que os mercados funcionem, quem estiver em lugares cimeiros estará sempre por merecimento.

Qual não é o meu espanto, quando vejo tanto liberal adepto do futebol a criticar a ideia da Euroliga (que nem sequer é nova), usando, de maneira inábil, o argumento de que tudo isto é contrário à meritocracia, essa alegada essência do capitalismo! Ora, há muitos anos que os clubes que defendem este projecto se transformaram em empresas cujas receitas são, em grande parte, geridas pela UEFA ou pela FIFA, centrais de negócios disfarçadas de confederações. Estes clubes, para usar a vulgata liberal, estão na posição em que estão graças ao mérito, foi esse mérito que lhes deu poder e projecção, tornando as suas marcas globais.

Os presidentes ou donos dos clubes, esses gestores evidentemente meritórios, decidiram agora criar um campeonato que lhes trará mais e melhores receitas e eis que uma massa de liberais vem reivindicar que o futebol é dos adeptos, aproximando-se perigosamente da exigência de uma espécie de ditadura do proletariado, um território livre do capitalismo tão amado. Ó românticos, socialismo no futebol? O regresso dos clubes à condição de quase cooperativas? Estou espantado. E divertido, confesso.

Comments

  1. Luís Lavoura says:

    Eu, como liberal, acho que o Nabais tem bastante razão nesta crítica que faz.
    A UEFA é uma organização mafiosa que está a tentar defender, com unhas e dentes, o seu direito a organizar de forma monopolista competições de futebol a Europa.
    Os liberais são cotra os monopólios e defendem o direito de qualquer empresário a estabelecer novas empresas, mesmo que essas novas empresas vão retirar o mercado às já instaladas.
    Portanto, os liberais só podem defender o direito de seja quem fôr a criar novas competições de futebol.
    É precisamente isso que eu defendo.
    De resto, como o Nabais diz, a ideia de uma Superliga europeia nada tem de novo, pois já há vários anos que se fala de campeonatos de futebol a nível europeu.

  2. francis says:

    nada contra. Mas e se, por exemplo, daqui a 6 anos o Liverpool, Mancheter City e R. Madrid estiverem pelo meio da tabela, será que a Superliga continua a ter o mesmo interesse ? É que clubes que ja estiveram em cima e agora andam por baixo……………….estamos fartinhos de ver.

    • Luís Lavoura says:

      Se daqui a uns anos esses clubes estiverem a meio da tabela, a Superliga deixará de ter interesse. Você deixará de a ver na TV. E depois? Qual é o mal disso? Isso será problema desses clubes e da Superliga.

  3. Miguel says:

    A “piada” disto é que os americanos, chineses e os principes árabes levam tudo e os europeus (alminhas, outrora maquiavélicas, tornadas tão inocentes: um-dó-li-tá … cara de amendoá … quem é mais liberal … mais despido está) já nem a “bola” são capazes de proteger.

  4. Fernando Manuel Dias de Lemos Rodrigues says:

    A UEFA não tem o monopólio, pelo simples facto de que a UEFA não é uma empresa. A UEFA é a união das Federações Europeias.

    Cada Federação representa as diferentes Associações de Futebol do seu país. O futebol é um movimento ASSOCIATIVO basista, que culminou num organismo de cúpula mundial (a FIFA) e num organismo de cúpula em cada continente, onde o mais importante, precisamente em resultado da importância das Federações que representa, é o europeu (UEFA).

    Pretender que a UEFA, que movimenta muito dinheiro, e como tal é susceptível de albergar corruptos, é em si mesma corrupta, é uma falácia. Seria como dizer que todos os governos são corruptos, só porque, em certos momentos tiveram corruptos a governar.

    A UEFA nos anos 60 era pouco importante. A antepassada do Liga dos Campeões, chamada Taça dos Clubes Campeões Europeus, e que começou nos finais de 50, era disputada por muito poucos clubes, de muito poucos países, e despertava pouco interesse. A FIFA, que organizava o campeonato do mundo de selecções, era muito mais importante. Aliás, o melhor futebol até nem seria o europeu.

    Entretanto, as coisas mudaram. No final dos anos 60 e durante os anos 70, a Europa foi progressivamente conquistando uma hegemonia que já se manifestava nos anos 80, e que hoje em dia é esmagadora.

    A UEFA, sobretudo a partir do momento que transformou a Taça do Clubes Campeões Europeus na Liga dos Campeões, e começou a organizar um verdadeiro Campeonato da Europa de Selecções, ganhou uma importância enorme, e isso reflectiu-se nas quantidades de dinheiro que foi movimentando.

    Seja como for, nunca o MÉRITO desportivo esteve em causa. Qualquer clube, em teoria, podia ganhar a Liga dos Campeões, e a prova disso é o facto de ter havido tantos vencedores ao longo dos anos. E NENHUM clube tinha assento garantido e inquestionável – todos os anos todos os clubes tinham e têm de conquistar o direito a disputar a prova.

    Se houve alguma coisa que matou o futebol foi precisamente o não liberalismo, e a protecção desmedida dada aos futebolistas (considerados “trabalhadores” pela União Europeia – risível), transformando as transferência numa autêntica MINA, explorada por um grupo de parasitas chamado “Agentes”.

    E agora temos uma máfia endinheirada (com dinheiro em alguns casos de duvidosa proveniência) a tentar, eles sim, criar um NONOPÓLIO, fazendo tábua rasa de todo o movimento Associativo e Federativo que sempre foi a base do futebol.

    Apresentar isto como uma manifestação de “liberalismo” é ridículo, Parece-se, isso sim, muito com uma golpada comunista (não fora o dinheiro que rola – isso faz dela uma golpada mafiosa, simplesmente).

    • Paulo Marques says:

      Portanto, o pilar da livre deslocação dos trabalhadores é risível. É o que eu digo, os liberais são anti-europeus e não sabem, só por más razões.
      Sim, o movimento federativo coordenado por uma associação não-comercial em que só entra quem querem… taditos, ganham todos mal por tão nobre serviço.

    • Filipe Bastos says:

      Entendido, Sôr Rodrigues: se é mau é forçosamente comuna. Se é bom é certamente liberal, capitalista e direitista.

      Claro que a Liga dos Campeões tem mais impacto – e mama muito mais – do que a antiga Taça dos Campeões Europeus. É uma vitória do marketing, da crescente ganância do futebol, dos governos que o usam e dos mamões que o exploram: são largas décadas de lavagem cerebral, de bola de manhã à noite.

      Há muito que a malta se está nas tintas para Fátima ou para fado; e só malucos ainda querem morrer pela pátria. A ‘paixão clubística’ é o novo deus, a selecção a nova pátria.

      “A UEFA não tem o monopólio, pelo simples facto de que a UEFA não é uma empresa.”

      Nem só empresas têm monopólios: o Estado tem o monopólio de várias coisas. Claro que a FIFA e a UEFA também o têm, as competições oficiais são delas.

      Numa coisa concordamos: é absurdo chamar ‘trabalhadores’ às prima donnas futeboleiras. E é preciso ser muito otário para idolatrar tais broncos obscenamente sobrepagos.

  5. Fernando Manuel Dias de Lemos Rodrigues says:

    Outra falácia. Os 12 não estão no lugar em que estão graças ao mérito. Estão no lugar em que estão muito por força do poderio financeiro que têm (algum de muito duvidosa proveniência), e que lhes permite açambarcar os melhores jogadores do mundo inteiro.

    mesmo assim, não ganham tudo. Muitas vezes falham, e vêm outros com bem menos “poderio” (leia-se “dinheiro”) a vencê-los, como ainda este ano se viu nos embates entre o FC Porto e a Juventus. Mesmo nos embates entre o FC Porto e o City e entre o FC Porto e o Chelsea, a coisa esteve ela por ela, e não fora uns “jeitinhos” das arbitragens o desfecho até poderia ter sido outro.

    Qualquer um dos três faz parte dos 12 que querem ser os “donos da bola”. Se é isto o “mérito”, estamos conversados.

    Quando eu era miúdo, havia sempre o “dono da bola”. Nem sempre era o melhor jogador (muitas vezes até era dos piores) mas como era o dono da bola, escolhia os melhores, e quase sempre equipa dele ganhava. Sempre com muito “mérito”, claro.

    Mesmo assim, às vezes a coisa corria mal, e o dono da bola começava a perder. O que fazia, então? Pegava na bola e ia-se embora – acabava o jogo.

    É o que estão a fazer estes modernos “donos da bola”.

    • Paulo Marques says:

      Sim, tal como acontece exactamente noutros mercados em que a resposta é “o mercado resolve a ineficiência se o estado sair do caminho”.
      Quando custa, como sempre, já se torce o bico ao prego e reconhece exactamente os mesmos problemas e a falta de magia. Coincidências. Tal como os jeitinhos anuais, mesmo quando ganham para não perder o hábito.

  6. Miguel says:

    Aprenderam com os ingleses? Não é uma questão de liberalismo, mérito nem sequer de capitalismo. É uma questão de soberania. É simples como o bê-a-bá.