Extermínio Social Democrata

Foto: Nuno Pinto Fernandes/ Global Imagens@JN

Na Alemanha, potência e motor da Europa, existe um cordão sanitário que só por uma vez esteve em risco de ser quebrado, na Turíngia, na eleição regional de 2020. Angela Merkel, que classificou a participação da CDU numa aliança presidida pelo FDP que incluía a AfD de “imperdoável”, impôs a retirada do partido do acordo e o líder regional dos conservadores caiu. E notem que foram os conservadores, não os liberais, quem se afastou da extrema-direita, o que não deixa de ser interessante de analisar à luz daquilo que apregoa o próprio liberalismo.

Como resultado, subiu ao poder Bodo Ramelow, candidato do Die Linke, apoiado pelo SPD, Verdes e com a abstenção da CDU. Ao optar por esta solução, Angela Merkel deu um claro sinal à Europa. Um sinal que certa direita radicalizada se recusa, por cá, a aceitar. Merkel disse-nos: não se fazem alianças com fascistas. E, se for necessário fazer uma cedência ao Bloco de Esquerda lá do sítio, nos antípodas do partido de Merkel, que assim seja. Mas não com a extrema-direita. Nunca.

Opinião diferente tem o germanófilo Rui Rio, que lançou a primeira pedra para essa grande empreitada que está a ser a normalização do Chega, e com ela a normalização da narrativa racista, xenófoba, censória e violenta da extrema-direita. Começou nos Açores, chegou a ser bromance no Twitter, ouviu-se falar em acordos de âmbito nacional e, neste momento, estamos na fase em que a direcção do PSD foi à sociedade civil buscar Suzana Garcia, a exterminadora que serve para a Amadora, mas que talvez não passe o crivo para a Assembleia da República. Rio não se limita a romper o cordão: reforça-se para lá dele.

A primeira vítima da decisão de Rui Rio, secundada pelo CDS e pelo PPM, foi o próprio PSD, como bem revelam as sondagens. A próxima vítima poderão ser os autarcas do PSD, que disputarão as próximas autárquicas contra candidatos do Chega, o que beneficia o PS e enfraquecerá o seu partido. Já a escolha de Suzana Garcia, uma profissional do justicialismo populista do entretenimento sensacionalista, vem apenas reforçar algo que se torna cada vez mais evidente para muitos eleitores: que ESTE PSD cada vez menos se distingue do Chega. A decisão de Rio é de tal forma desastrosa, que permitiu a André Ventura sair por cima, apesar de ter sido Manuel Luís Goucha a pressionar Suzana Garcia a acrescentar o Chega ao lote dos partidos a exterminar:

Como é que uma candidata que defende tantas coisa que o Chega defende, é capaz de dizer que o Chega deve ser exterminado? (…) Se o Dr. Rui Rio colocasse mais Suzanas Garcias no PSD, certamente teríamos um futuro brilhante da direita em Portugal.

Rui Rio, que desceu à política para lhe dar um banho de ética, afirmando-se de centro e da social-democracia, parece agora determinado em exterminá-la. Se o sempre citado Sá Carneiro por cá andasse, certamente ficaria perturbado com o rumo recente do seu partido. Normalizar a extrema-direita e o discurso de ódio, assegura quem o conheceu, não estava nos seus planos. E quando Ventura obtém ganhos políticos através da instrumentalização do extremismo de uma candidata autárquica do PSD, algo que poderia ter sido facilmente evitado, não é o Bloco nem o Chega que são exterminados. É o PSD.

Comments

  1. JgMenos says:

    «a normalização da narrativa racista, xenófoba, censória e violenta da extrema-direita»
    É assim a esquerdalhada: configura um rótulo, aplica-o a quem lhe convém e repete-o até que seja ‘verdade’.
    E segue infatigável a lenga-lenga que sempre visa silenciar quem lhes denuncie a falsidade dos princípios e os fingimentos no que dizem ser a defesa da liberdade.

    • Chega, Menos! says:

      Para mongolóide não te sais nada mal!
      Já vi pior.

    • POIS! says:

      Pois não percebo!

      V. Exa. está a ser narrativamente normalizado e, ainda assim, chateia?

      Salazaresco e mal agradecido, é o que é!

    • António Fernando Nabais says:

      Ó João Mendes, então tu apagaste o comentário do menos, que continua publicado mais acima? Pois. Parece que não.

    • Paulo Marques says:

      Sim, o apagamento… coitado de gentinha como JMT, José Manuel Fernandes ou Alberto Gonçalves, desapareceram sem deixar rasto.

  2. Paulo Marques says:

    Agora vem o Carlos Troquinhos, sem ainda apresentar uma ideia para a cidade, despejar ódio por não gostarem deles.
    Já não é vácuo, é um buraco negro a aumentar.

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  1. […] a direita portuguesa teima em não aprender a lição de Merkel e da direita alemã. Ou então, como notou o Ricardo, tudo se resume à habitual sede de ir ao pote. Não sei para qual […]