O assédio sexual em Portugal e o ensurdecedor silêncio das Capazes

Quem não se lembra da música de Valete e do histerismo das Capazes na forma como reagiram a essa música.
A violência de género é um dos principais problemas sociais em Portugal e no resto do mundo. Um mundo profundamente machista, no qual as mulheres têm de arcar não só com o peso da biologia como com todo o peso da História. Se a igualdade entre sexos passar pelas quotas e pela discriminação positiva da mulher perante a lei, que assim seja.
Apesar de ser feminista, falta-me muito para ser um exemplo. Mas vou fazendo o meu percurso. A lei da criminalização do piropo, que em tempos me fez rir, é um exemplo de como me tenho tornado cada vez mais intolerante neste aspecto. Piropos? Com que direito?
Já o feminismo das Capazes é selectivo. Salta-lhes a tampa para defenderem as mulheres da música de Valete – valha a verdade que de mau gosto. Mas também lhes salta a tampa quando uma mulher acusa Cristiano Ronaldo de violação. Aí, só porque é Cristiano Ronaldo, um ídolo, a mulher deixa de ser a vítima e passa a ser a vil chantagista, a puta. A mesma puta de Valete.
E quando está no auge a discussão em Portugal acerca do assédio sexual e sucedem-se as denúncias de figuras públicas, a Capazes remete-se ao silêncio. Uns posts fofinhos no Facebook a apoiar as vítimas, que é para não fazer muito barulho, e está a andar.
Sofia Arruda, Dânia Neto, Catarina Furtado, Inês Herédia, Olívia Ortiz, Carolina Deslandes, Bárbara Norton de Matos, Cláudia Chéu, Bárbara Guevara e tantas outras têm sorte, ainda assim. Os seus algozes não têm, por agora, o nome publicado. Se tivessem, fosse o seu nome Cristiano Ronaldo ou outra figura pública, seriam chamadas de putas para baixo.

Comments

  1. J. M. Freitas says:

    Você acredita mesmo na rapariga que acusa o Ronaldo?
    Acha bem que dizer um piropo seja um crime? E arrotar alto e bom som (e com mau cheiro) num Restaurante? Não deveria ser crime? Não? E mandar um traque?
    Olhar escandalosa e abertamente para partes atraentes do corpo feminino deveria ser crime? Ou contra ordenação?
    Ser indelicado deveria ser objecto de multa?

    • Paulo Marques says:

      Quanto ao piropo, é só questão de ler estórias do dia a dia que é o receio para muitas mulheres, porque nunca se sabe o que vem a seguir a uma resposta, ou se deve haver resposta, e se vai ser aquele que a vai perseguir a ela.
      Pode ser que um dia repare na quantidade ridícula de mulheres com história de abuso e quanto os piropos servem para as desumanizar, legitimar assedios, desacreditar casos, e incentivar jovens a serem “homens”, e que só uma sociedade ridícula aceite que isso seja normal.
      Não faço ideia como a lei existe no país da coutada do macho ibérico.

      • Ana Moreno says:

        Ricardo, obrigada pelo post. Não estou a par no que toca às Capazes. Mas sobre o assunto dos chamados piropos e falando em especial do que se ouve nas ruas (eu felizmente já não ouço), ocorre-me o seguinte: até percebo que, para quem os diz “por dizer”, sem nunca ter tido a experiência de ter que os ouvir a torto e a direito, a bel-prazer do emissor, seja difícil de entender qual é o problema dos chamados piropos. Independentemente do conteúdo do comentário (e há coisas odiosas como: “até o sangue te bebia”) ou apenas um assobio, o que está em causa é alguém considerar que é seu direito pronunciar-se sobre o aspecto de uma pessoa que não conhece de lado nenhum, colocando-se com isso num patamar superior e impositivo. A sensação de encolhimento ao passar, como jovem, no meio de um grupo de homens na rua, talvez só possa ser entendida por quem viveu isso – ou por quem queira dar ouvidos a quem viveu. Por sorte, isto está a mudar. Mas nunca me esqueço da sensação de liberdade que tive, quando fui viver para um país em que isso não é uso, e me parecia que a rua era minha.
        Por sorte nunca me aconteceu, mas conheço quem tenha levado uma estalada de um qualquer desconhecido por ter dito, em resposta a um “piropo”, qualquer coisa tipo “meta-se na sua vida”.

  2. J. M. Freitas says:

    Um polícia em cada esquina …..

  3. Júlio Rolo Santos says:

    Quando lhes começa a faltar o “vil metal” o recurso á denúncia do assédio, pode ser uma solução para lhes amenizar a crise. A americana, com o pretexto da violação, já chupou alguns milhares e agora prepara-se para reforçar a dose pedindo muitos milhões, sessenta e quatro milhões. Será que os homens também poderão recorrer a este subterfúgio? Ou a igualdade de gênero aqui não se lhes aplica?

  4. Filipe Bastos says:

    Jamais me passou pela cabeça lançar um piropo; seria como dizer “sou tosco e procuro uma mulher que aprecie toscos”. Mas o actual realinhamento dos sexos parece avançar numa só direcção.

    Ou seja: a maioria das mulheres sabem, embora raramente o admitam, que estão em vantagem no jogo; nunca falta procura, e elas é que controlam a oferta. São elas que decidem. Até serem mais velhas, muitas nem imaginam o que é estar do outro lado.

    Para a maioria dos homens é ao contrário. Desde jovens que o seu papel é tentar seduzir e ser rejeitados. Querer e não poder. Muitos levam isso a bem, outros viram o jogo e tornam-se Valmonts (se leram Laclos), outros tornam-se incels, outros bestas.

    Há muitas bestas. Como dizem a Ana e o Paulo, é incrível o nº de mulheres perseguidas, ameaçadas, agredidas ou mortas por bestas. Para nossa vergonha como sociedade, será rara a mulher que não tem histórias de medo ou abuso para contar.

    Criminalize-se, eduque-se, mude-se o que se tiver de mudar. De acordo. Mas os sexos não vão mudar; a biologia não vai mudar, os nossos instintos de milhares de anos não vão mudar. E se o jogo continuar assim, só vai haver mais homens frustrados.

    É como a desigualdade do trabalho: passamos a vida a ouvir da falta de mulheres em conselhos de administração; nunca em trabalhos desagradáveis ou mal pagos onde quase só há homens. Uma espécie de igualdade selectiva.

    • Paulo Marques says:

      Ouvir ouve-se; embora não comparasse as condições físicas, ser empregada de limpeza ou operadora de caixa sem pausas não deve ser fácil. Ou outras em que não há descanso físico nem pausas no assédio.

  5. Ana Moreno says:

    Conseguir um mundo mais justo, seja no que se refere a relações de género, seja às classes sociais, seja a culturas, nunca é tarefa fácil. É um caminho turtuoso, com exageros, com retrocessos, com progressos. A perfeição é inatingível, mas sabemos que ainda há muito caminho visível e possível a percorrer. Se nos esforçarmos por avançar juntos no mesmo sentido, chegaremos a um lugar bem melhor. E para isso, o diálogo é fundamental. Por exemplo, “nunca falta procura, e elas é que controlam a oferta. São elas que decidem”, isto é certamente uma percepção sincera, não questiono minimamente que alguém sinta isso assim; mas garanto que isso não se aplica numa estrondosa maioria de casos.
    É este um tema tão essencial e é tão difícil encontrar vias abertas para falar nele construtivamente, com vontade de enfrentar e desenvencilhar os cordelinhos que prendem mulheres e homens.

    • Filipe Bastos says:

      “São elas que decidem” é certamente uma percepção sincera, não questiono que alguém sinta isso assim; mas garanto que não se aplica numa estrondosa maioria de casos.

      Não tenho como não responder-lhe da mesma forma, Ana: a percepção de que as mulheres têm menor poder de escolha que os homens é certamente sincera e verdadeira em muitos casos; mas duvido que seja sequer 10% dos casos.

      Isto é fácil de comprovar e válido em todo o mundo. Sim, há muitas variáveis e personalidades e Tinders e etc., mas a natureza tem muita força. A decisão final é da mulher.

      By default, a mulher recusa e o homem aceita. O contrário é motivo de alegria para o homem e de espanto para a mulher. Conhece muitos homens que recusem uma ‘amizade colorida’ com uma mulher atraente que lhes proponha tal?

      No resto dou-lhe razão: há muito a evoluir.

      • Paulo Marques says:

        Já que pôs a questão assim… por acaso, se calhar rejeitam, porque a mulher é oferecida, então se for ela a avançar é porque gosta é de rodar.
        Os homens em geral, onde incluo um passado eu, dão demasiada importância ao sexo como forma de se afirmarem ou como a única forma de intimidade. É uma cultura parva, que depois também nos põe a interrogar qual é o problema delas para quererem estar connosco.
        Como em muitas outras coisas, precisamos de nos definir em relação ao que queremos, não ao que achamos que os outros vêm.

  6. J. M. Freitas says:

    O que me impressiona é que se queira resolver tudo através da polícia: és mal educado ou desagradável, então é crime.
    Quanto ao instinto sexual: há muita hipocrisia no que dizem os feministas. E as mulheres fingem que não gostam de sexo o que contraria a minha experiência (muito limitada) no relacionamento com mulheres. Penso que um número enorme de homens condenados (judicialmente ou socialmente) constitui uma injustiça e resulta de aldrabices femininas (elas são tão capazes de vigarizar como os homens. E fazem-no para ganhar dinheiro).

    • Ana Moreno says:

      O que sempre se confirma é a quantidade de preconceitos que há de parte a parte. As construções de género são insidiosas, subterrâneas e babilónicas na sua amplitude. Enquanto a tecnologia galopa desenfreadamente, as relações de género mantêm-se praticamente conservadas num limbo borbulhante. Vão evoluindo, mas a passo de caracol.

    • Paulo Marques says:

      Se fingem, por alguma razão é…

  7. J. M. Freitas says:

    “as relações de género mantêm-se praticamente conservadas”
    Não é verdade. Mudaram muito.

  8. whaleproject says:

    Falta de mulheres em trabalhos desagradáveis e mal pagos? Estejam descansados que não faltam. O único sector onde faltam é na construção civil. De resto, nos lares a limpar m***a e vomitado estejam descansados os senhores que acreditam que dar direitos às mulheres só servirá para frustrar as bestas que já batem na mulher que por lá não faltam mulheres. Sem contar limpezas várias, trabalho doméstico de fardinha a aturar peruas, ajudantes de cozinha e assim por diante. Quase só homens em trabalhos desagradáveis e mal pagos? Em que mundo é que vive? Aliás, as mulheres ganham em média menos 15% que os homens. Deve ser mesmo por estarem a faltar em trabalhos desagradáveis e mal pagos.

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