André Ventura rendido ao politicamente correcto

André Ventura, membro proeminente da extrema-direita histrionicamente histérica, uma dessas minorias sobre-representadas de que muito se fala, usou hoje o Twitter para elogiar o chapadão que Will Smith espetou ontem à noite, durante a cerimónia dos Óscares, na cara de Chris Rock, que resultou de uma piada desconfortável de Rock sobre Jada Pinkett Smith, esposa de Will, relacionada com a doença da actriz.

Ventura, por estes dias à beira de um ataque de nervos por ninguém querer saber dele – só mesmo palermas como eu – aproveitou o estalo, e sobretudo o mediatismo do acontecimento, não para criticar o péssimo exemplo de uso da violência física, que para a extrema-direita é um método legítimo como qualquer outro, mas para expressar a sua tristeza por nunca ter tido a coragem de fazer o mesmo a Ferro Rodrigues. Parafraseando o extremista:

Que coragem! A vontade que já tive de fazer isto na AR ao Ferro Rodrigues e não executei.

Confesso que não me recordo de Ferro Rodrigues insultar a esposa de André Ventura. Ou o próprio André Ventura. Ou mesmo a coelha Acácia. Porque quereria, então, o valentão Ventura esbofetear Rodrigues, um homem com 73 anos e idade para ser pai dele? Não se sabe, mas presume-se que, para além do ódio de estimação, a escolha de Ferro Rodrigues não seja inocente. O presidente cessante da Assembleia da República é uma figura controversa, está envolvido em alguns escândalos políticos, sem contudo ter sido condenado por o que quer que fosse, mas, mais importante que tudo isso, o ódio por Ferro Rodrigues é uma commodity política com muita procura. A respeito, recordemo-nos, por exemplo, quando há uns meses uma turba de chalupas decidiu concentrar-se à porta do restaurante onde Rodrigues almoçava com a esposa, entoando insultos e ameaças à sua integridade física. Mas eram chalupas, e há que dar desconto ao grupo liderado pela senhora do grafeno. Coisa diferente é um político eleito, líder de um partido, que usa a sua posição para promover e legitimar o ódio contra um seu colega de profissão, que, tal como Ventura, fez escola no centrão dos interesses e dos negócios. Se André Ventura, cuidadosamente seleccionado por Nosso Senhor Jesus Cristo para salvar a nação, pode arrepender-se de não pregar um par de chapadas em Ferro Rodrigues, porque não poderá um qualquer como mortal fazer o mesmo?

Assim se legitimam os linchadores. E a extrema-direita é exímia neste jogo.

Mas isto não ficou por aqui. É que Ventura, paladino alado no combate ao politicamente correcto, arrependeu-se e apagou o tweet. Auto-censurou-se. Rendeu-se ao politicamente correcto. Mostrou ao país que já nada em si é genuíno. Que é, como qualquer político na sua posição, submisso às directrizes impostas por assessores e técnicos de marketing político. E isto foi clarificador. Clarificador porque ficamos a saber que André Ventura é um tipo que quer agredir Ferro Rodrigues, o que o aproxima mais da ala neo-nazi do partido do que dos alegadamente-democratas-cristãos vindos do CDS. Clarificador porque ficamos igualmente informados sobre a capitulação perante o status quo do sistema político, que tornou Ventura voluntariamente refém do politicamente correcto. Clarificador porque fica para todos claro que André Ventura é moralmente culpado pela ascensão e mainstreamização de uma direita que gosta de resolver as coisas à pancada.

Comments


  1. Tudo o que diga respeito a cheganços fede inexoravelmente

  2. Alexandre+Barreira says:

    É do tipo “bate e foge”.
    ~´E só miséria !

  3. POIS! says:

    E foi preciso ver um murro nos óscares para dizer isto?

    Na “Porrada TV” dos canais do cabo há bué todos os dias!

    Ou pensava o gajo que, como comediante de créditos firmados, também já podia ser candidato a um Óscar, o de Melhor Arruaceiro Adaptado?

    Mas há outra versão por aí a correr: isto é uma solene confissão, destinada á expiação dos pecados.

    O Quarto Pastorinho está já a penitenciar-se, porque vem aí o Apocalipse e o Juízo Final não tarda. É natural que a Irmã Lúcia já lhe tenha soprado mais um bocado do segredo e ele esteja mais bem informado que o comum dos mortais.

    Ou então foi a Santa Marina Lepenica que o avisou. Por ter muito bons conhecimentos, costuma estar a par das desgraças.

  4. JgMenos says:

    Disse ter apagado porque poderia ser interpretado como apelo à violência, não pelo apetite a que teve e tem todo o direito – assim o ouvi no jornal da noite de um qualquer canal.

    • Paulo Marques says:

      Ou isso ou lembrou-se de ter fugido por causa de um pacote de chicletes que mandou atirar. Um dos dois.

    • POIS! says:

      Pois claro!

      O Quarto Pasrtioinho limitou-se a invocar um direito fundamental da era salazaresca que, por influência da esquerdaria reinante, não foi incluído na atual Constituição: o Direito ao Apetite, que incluía a Liberdade de Contemplar as Montras das Mercearias Finas.

      Sobre o “Direito a Apagar Depois de Ter Armado Bacorada Para Ganhar Protagonismo nos Telejornais e Nas Redes Sociais” falarei numa próxima oportunidade.

  5. luis barreiro says:

    Por acaso violência, assassinatos, atentados á bomba e envios para gulags associo mais à extrema esquerda ao contrário do que tentas lavar.

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