Até onde estamos dispostos a ir para defender a democracia?

Pensar o futuro das relações entre o mundo democrático e as várias ditaduras na dependência das quais nos colocamos, em maior ou menor grau, é um debate que já devia ter feito correr rios de tinta. Ao invés disso, assistimos ao reciclar dessa relação tóxica, quando vemos, por exemplo, Boris Johnson a anunciar ao mundo o embargo à energia russa, que será substituída pela saudita. E uma pessoa fica logo mais tranquila, por saber que o ditador que envenena opositores no estrangeiro e está a tentar esmagar a Ucrânia será substituído por um ditador que fatia opositores no estrangeiro e está a tentar esmagar o Iémen. É reconfortante.

O próprio conjunto das democracias é, em si mesmo, uma agremiação sui generis. Inclui a Hungria e a Polónia, como se iliberalismo e autocracia não fossem uma e a mesma coisa, apresenta Singapura como um modelo elogiável e ignora os abusos das monarquias absolutas do Médio Oriente, não vá a liberdade dos mercados sentir-se ameaçada. Tirando um par de regimes que, por razões que a própria mão invisível desconhece, são excluídos. Temos ainda o elefante que nunca saiu da sala, e que no plano interno é uma democracia, no doubt about that, apesar de uma política externa que acumula invasões mais ou menos oficiais, falsas bandeiras, golpes de Estado, orquestrados ou patrocinados, e inúmeros crimes de guerra e violações do direito internacional, de My Lai a Guantanamo, com escala em Bagdad, Bagram e Abu Ghraib. Em todos estes casos, ainda que de formas diferentes, os princípios democráticos e liberais que nos definem – ou deviam definir, para bater a bota com a perdigota – foram e são constantemente violados, servindo posteriormente de argumentário para eficientes manobras de whataboutism, por parte das diferentes máquinas de propaganda das autocracias, como a russa, que aposta na China e noutros inimigos ou lesados do Tio Sam. Há boa informação disponível sobre o seu funcionamento, e inúmeros testemunhos de soldados e civis que estão absolutamente convencidos que todos os ucranianos são nazis, disparam mísseis contra a sua própria infraestrutura e são a encarnação moderna do III Reich.

Porque é que isto importa agora?

Porque este é o momento certo para iniciar uma discussão constantemente adiada, porque nunca é hora de a fazer. Talvez o esmagamento em curso da Ucrânia nos faça abrir os olhos. Em princípio não vai fazer, mas era bom que fizesse. Até porque estamos sempre sujeitos a que um dos nossos parceiros entre em modo wild, e decida invadir e destruir um Estado soberano sob um qualquer pretexto fabricado, como, sei lá, a existência de armas de destruição maciça no seu arsenal. Já vimos este filme e sabemos como terminou.

Perante esta encruzilhada, que fazer? Fechamos as nossas economias e mercados a todos os regimes não-democráticos? Decretamos um embargo idêntico ao imposto a Cuba? Ou ficamos quietos e colaboracionistas, arte na qual somos especialistas, até ao dia em que a China invada Taiwan ou o Japão? Já agora, será que percebemos a hipocrisia e os danos causados na reputação de todas democracias que embargam Cuba e têm na China o seu maior parceiro comercial? E o que fazer perante as múltiplas violações dos princípios democráticos por parte das próprias democracias? Até onde estamos disponíveis para exigir mais democracia e respeito pelo direito internacional a países como os EUA?

Bem sei que entrar em ruptura total com os regimes ditatoriais, que estão entre os nossos principais fornecedores de energia, terá, no curto e no médio prazo, efeitos destrutivos para as nossas economias. Mas o que será pior? Fechar as portas do Ocidente agora ou esperar pela próxima invasão e ter que fazer tudo em cima do joelho, com efeitos ainda mais nefastos para todos, sobretudo os mais pobres e desfavorecidos dos mais pobres e desfavorecidos? Economicamente falando, não sei qual será a opção mais prejudicial. Mas estou profundamente convencido de que empurrar o problema com a barriga será bem pior, pelo menos no longo prazo, que é exactamente o horizonte para o qual deveríamos estar a olhar. A democracia tem custos. Combater o autoritarismo e o totalitarismo mais ainda. Estaremos disponíveis para empobrecer no curto prazo, para fortalecer a democracia no longo? Até onde estamos dispostos a ir para defender as nossas sociedades e o nosso modo de vida?

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Mas qual democracia, ao certo? Começou com só permitir homens de posses a votar, até aos vários modernos mecanismos de impedir ou somente afastar e dificultar o voto e a representatividade, bem como o efeito. E praticamente sempre sem o alargar ao plano das decisões da produção.
    Em nome dessa qualquer coisa, desde que tenha o nome certo, estamos dispostos a muito, sempre rodeados de melhor é impossível e as coisas são o que são. Fome, guerra, assassinatos, bombardeamentos, roubos, golpes de estado, armamento de terceiros, poluição, manipulação da verdade, branqueamento de pessoas e da história, acordos com o diabo, empobrecimento, ameaças ao fim do mundo (vá, da civilização), sempre estivemos dispostos a tudo para “as nossas sociedades e o nosso modo de vida”, desde que afecte os Outros ou se convença que só afecta uma minoria. Aliás, o João sabe que é uma necessidade dos sistemas que tivemos e temos, não precisa que lhe diga.
    O único sítio por onde se pode começar é pela verdade, e logo a seguir é o de aceitar o que não sabemos, mas que se faz por que “saibamos”, seja que empobrecimento é o número não subir, seja que os fascistas existem e têm influência política, seja que há crimes que já são maus sem um monte de mentiras em cima. Sem isso, não há liberdade, e se vamos mal, só vai piorar enquanto as contradições continuarem a vir exigir pagamento.

  2. JgMenos says:

    Tudo interrogativas para suscitar que o verdadeiro espírito da carneirada impere: ‘ que pelo menos me assegurem que coma e durma e não veja ninguém a viver melhor que eu… a não ser que seja pastor’

    • POIS! says:

      Pois cá está!

      JgMenos esperou cuidadosamente que a Páscoa passasse e, um minuto depois, já estava no ativo, reivindicando sonoramente, pelo Menos, cama, mesa e a melhor vidinha do mercado (excetuando pastores).

      Sim, porque falar de carneirada durante a Páscoa poder-lhe-ia ser fatal. Perguntem à malta dos matadouros!

  3. francis says:

    Não, é preferivel vivermos confortaveis, quentinhos e gordinhos e adiar a batata quente para as gerações vindouras

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