Apontamentos & desapontamentos: O evangelho segundo Marx (subsídios para um novo marxismo)

Hoje trago-vos alguns apontamentos – pensamentos de Marx, frases sábias de um homem sábio e de princípios. Ora leiam:

– Sou um homem de princípios. Estes são os meus princípios. Mas se não concordarem, arranjo outros:

– No que prefere acreditar, em mim ou nos seus próprios olhos?

– O segredo do sucesso é a honestidade – se você conseguir evitá-la, terá sucesso garantido!

– O segredo da vida são a honestidade e a lealdade. Se você conseguir simular possuí-las, tem o problema resolvido.

– Só há uma forma de saber se um homem é honesto: perguntando-lhe. Se responder «sim», ficamos a saber que é corrupto.

– Partindo do zero, consegui atingir os mais altos cumes da miséria.

– «Inteligência militar» é uma contradição de termos.

– A política é arte de procurar problemas, de os encontrar, fazer um diagnóstico falso e aplicar depois os remédios errados.

– A política não faz com que estranhos durmam na mesma cama; o casamento, sim.

– Acho a televisão muito educativa. Logo que alguém a liga, vou para outra sala ler um livro.

– Nunca vou ver filmes em que o peito do herói seja maior do que o da heroína.

– Não sou vegetariano, mas como animais que o são.

– Andei dois anos atrás de uma rapariga até descobrir que os seus gostos coincidiam exactamente com os meus: ambos éramos loucos por raparigas.

– Nunca esqueço uma cara, mas para si vou abrir uma excepção.

– Você é a mulher mais bela que vi em toda a minha vida… o que não abona muito em meu favor.

– Não pense mal de mim, menina. O meu interesse por si é puramente sexual.

– Até logo, querida… Caramba, a conta do jantar é caríssima. Eu sendo a ti, não pagava.

– Pagar a conta? Que hábito mais absurdo!

– O quê? Por que estava eu com essa mulher? É que, sabes, ela faz-me lembrar de ti. De facto, lembra-me melhor com tu foste, do que tu própria.

– Por detrás de todo o homem bem sucedido, está uma mulher. E por detrás dessa, está a mulher dele.

– Peço desculpa de vos estar a tratar por cavalheiros, é que não vos conheço bem.

– É melhor ficar calado e passar por parvo, do que falar e acabar definitivamente com a dúvida.

– Lembre-se de que estamos a lutar pela honra dessa mulher, o que provavelmente foi coisa que ela nunca fez.

– Bebo para achar as outras pessoas interessantes.

– Fui casado por um juiz. Devia ter exigido um júri.

– O casamento é a principal causa de divórcio.

– O casamento é uma grande instituição. Se você gostar de viver numa instituição, claro.

– O verdadeiro amor só surge uma vez na vida… e depois não há quem nos livre dele!

– O mal do amor é que muitos o confundem com uma gastrite e quando se curam, descobrem que estão casados.

– Há tantas coisas na vida mais importantes do que o dinheiro! O problema é serem tão caras!

– Meu filho, a vida é feita de pequenas coisas: um pequeno iate, uma pequena mansão, uma pequena fortuna…

– Não posso dizer que não discordo de ti.

– Ele pode parecer um idiota e até comportar-se como um idiota. Mas não se deixe enganar – ele é mesmo um idiota!

– Por que me hei-de preocupar com a posteridade? O que fez ela por mim?

– Pretendo viver para sempre, ou morrer tentando.

– Ou você está morto ou o meu relógio parou.

– Quero ser cremado. Um décimo das minhas cinzas devem ser dadas ao meu agente, como estipula o contrato.

Claro, que não são frases de Karl Marx, mas sim de Groucho Marx (1890-1977), actor norte-americano, um dos famosos irmãos Marx. Este jogo com o apelido comum às duas personalidades, é uma graça que já foi repetida milhares de vezes. Mas o humor ácido e inteligente do Groucho aguenta diversas leituras. Costumava ele dizer que era tão velho, tão velho, que ainda se lembrava de Doris Day antes dela ser virgem. E também que nunca entraria para um clube que o aceitasse como sócio. Telefonou para a recepção do hotel e disse: «Serviço de quartos? Mandem-me um quarto maior!» Ah, mais uma coisa (diz o Groucho): «Podem citar-me desde que digam que me citaram mal». «Peço desculpa por não me levantar», está escrito no epitáfio do túmulo de Groucho Marx.

Apontamentos & Desapontamentos: Os nossos queridos irmãos brasileiros


Há um livro do Mario Vargas Llosa, «A Tia Júlia e o Escrevedor», que deu lugar a um magnífico filme americano, realizado por Jon Amiel e interpretado pelo Peter Falk, o velho Columbo, pelo Keanu Reeves e pela Barbara Hershey – Tune in Tomorrow (1990). O livro é delicioso e o filme uma pérola. Falk representa o papel de «criador» de folhetins radiofónicos que não perde uma oportunidade para dar alfinetadas nos albaneses (no livro, passado no Peru, o alvo são os argentinos). As referências maldosas vêm sempre embrulhadas em elogios como, «os nossos queridos imigrantes albaneses que, como se sabe, têm a antiga tradição de urinar na sopa antes de a começar a comer»… Não sei se esta frase concreta existe, apenas quis dar um exemplo dos maldosos elogios a albaneses (argentinos) que a personagem central vai debitando ao longo da história. Ora bem, quando digo, os «nossos queridos irmãos brasileiros» não é com a intenção de em seguida os denegrir. Apraz-me que haja em Portugal um fluxo de imigração brasileira. Acho que, tanto quanto possível e cada um de per si o mereça, os devemos tratar tão bem como tratamos os nossos compatriotas. Nunca esquecendo os milhões de luso-descendentes que vivem no Brasil.

Aprecio muito a cultura brasileira, as obras de Machado de Assis, Graciliano Ramosl, João Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Morais, alguns dos livros de Jorge Amado, Ruben Fonseca, a pintura de Cândido Portinari, a arquitectura de Óscar Niemeyer, a obra musical de Heitor Vila-Lobos, de Tom Jobim, de Caetano Veloso, de Chico Buarque, os programas televisivos de Jô Soares, a mestria dramática de Paulo Autran… Poderia encher todo o espaço que vou dedicar a esta crónica com nomes de brasileiros que admiro. E muitos ficariam por referir. Para não falar nos muitos amigos. Contudo, custa-me compreender a razão por que gastamos dinheiro a importar lixo televisivo brasileiro, tão competentes que nós somos a produzi-lo. Ruy de Carvalho disse há tempos numa entrevista que se sentia ofendido de cada vez que ouvia dizer que «No Brasil é que há bons actores». Não que não os haja – os maus, porém, são em muito maior quantidade (como cá, aliás).

Os portugueses dos níveis culturais mais «desfavorecidos» adoram «falar brasileiro». Sempre é mais fácil do que ter o trabalho de aprender inglês, francês, alemão ou castelhano – basta falar abrindo vogais, usando expressões como «vou pégá um cineminha!» ou o meu filho anda na «escólinha», em vez de «vou ao cinema» ou «o meu filho anda no infantário». Já aqui disse – gosto muito de ouvir os brasileiros falar – portugueses a macaqueá-los é um espectáculo degradante. Até porque não conseguem. Uma amiga brasileira com quem estava a ver um programa do Herman, afirmou-me que o «sotaque brasileiro» dele é deplorável.

A nossa diplomacia e os mecanismos culturais de que dispomos, deveriam, no entanto, esforçar-se por esclarecer os brasileiros (os do Brasil e os de cá) que as chamadas «piadas de português» são uma grosseria que não merecemos. É conhecido o episódio de Collor de Mello quando em 1990 fez uma visita a Portugal, em pleno jantar no Palácio das Necessidades, resolveu contar uma «piada de português». É curioso que qualquer brasileiro, mesmo os das camadas culturais mais baixas, entendem que «português é burro». Uma arquitecta brasileira que trabalha num gabinete de projectos em Lisboa, ao concluir uma pós-graduação em que obteve uma excelente classificação final, felicíssima, telefonou aos pais dando-lhes a boa nova. Resposta do pai: «Ó minha filha, isso não tem valor, não. Você não sabe que português é burro? O que vale um pós-graduado feito aí?» Dos brasileiros que dizem estas coisas, não gosto mesmo e não preciso de embrulhar em papel de seda – burrice não usa passaporte nem respeita oceanos ou fronteiras! E este tema da burrice dos portugueses já viaja pela blogosfera a todo o gás.

Para falarmos com a franqueza que entre irmãos deve ser usada e, sempre generalizando, claro, a maioria de nós gosta dos brasileiros, acha graça à maneira como falam, às suas expressões. Em contrapartida, a maioria dos brasileiros não gosta de nós. Às vezes são sinceros e reconhecem que assim é – «É uma recordação do período colonial», dizem. Mas de qual período colonial? Os angolanos, os moçambicanos, sim, tiveram de lutar para conquistar a independência. Os brasileiros não – a independência foi-lhes dada. Porque, nas tropicais cabeças, se gerou a lenda de que os portugueses escravizaram os brasileiros, os quais em 1822, num arroubo de valentia, se libertaram. Disparate. Os portugueses escravizaram negros importados de África, tratados como gado. Mataram índios. Fizeram tudo isso e muito mais. Porém, os «brasileiros» que proclamaram a independência (começando pelo imperador), não eram escravos africanos, nem índios – a independência foi proclamada por portugueses que, rendidos às delícias do Rio de Janeiro, não estavam pelos ajustes de voltar a uma Lisboa bisonha e onde muitos deles perderiam o estatuto que ali, naquela corte de circunstância, tinham alcançado.

Isto mesmo disse, por palavras mais elaboradas, Eduardo Lourenço num colóquio que há anos se fez no Centro Nacional de Cultura e em que um brasileiro fez uma intervenção na base do «nós, oprimidos/vocês, opressores». Eduardo Lourenço, muito delicadamente, perguntou-lhe o nome. Por sorte, tinha um apelido português. E o professor desfechou-lhe esta: «Sabe? Foram os seus antepassados quem escravizou e quem oprimiu. Os meus, nunca saíram de Portugal e, portanto, não podem ser culpados disso».

A política cultural do nosso país é deficiente (aí está uma inegável burrice dos sucessivos governantes). Até no seio das colónias de emigrantes, no Brasil, em França, na Alemanha, existe a ideia de que Portugal é um país que parou no tempo. Com todas as deficiências que temos, com todos os atrasos endémicos, somos tão burros como os outros, que o mesmo é dizer, tão inteligentes como os outros. Claro, que não depende só de nós o haver no exterior uma avaliação correcta do que somos como povo – isso depende também da inteligência e do nível cultural de quem avalia. Porém, os nossos queridos irmãos brasileiros já deviam ter sido informados de que os emigrantes que daqui foram, sobretudo no princípio do século XX, eram gente muito pobre, completamente iletrada, muitos deles desembarcavam no Rio ou em São Paulo e era a primeira cidade que viam, pois de Lisboa ou do Porto só tinham visto o cais de embarque. Decorrido um século, as coisas mudaram; não tanto como gostaríamos que tivessem mudado, mas mudaram. Falando há tempos com imigrantes portugueses em França, pareceu-me (afirmar seria generalizar) que aquelas pessoas, vivendo em grandes cidades, mas em comunidades fechadas, mal falando a língua de acolhimento e nunca tendo verdadeiramente aprendido a sua, estão mais atrasadas do que os habitantes de qualquer aldeia do interior do País. Atrasadas no sentido cultural de compreensão das novas realidades. Os jovens, ajuizando Portugal pela pobreza cultural dos avós e dos pais, desprezam profundamente tudo o que é português.

De quem será a culpa desta incompreensão?

Enquanto pensam na resposta, ouçam um dos verdadeiramente grandes actores brasileiros, Paulo Autran (1922-2007) declamando Ricardo Reis. – «Vem sentar-te comigo, Lídia; à beira do rio» – Que maravilha quando nem nós nem eles
s
omos burros e trabalhamos em conjunto.

Falando de democracia: A rebelião das massas

La rebelión de las masas, é a obra mais emblemática do grande pensador espanhol José Ortega y Gasset (1833-1955). Foi publicada pela primeira vez em 1930 na Revista de Occidente da qual Ortega y Gasset era fundador. É uma obra de uma extraordinária profundidade, onde surge o inovador conceito de «homem-massa». Sendo que este ser humano que recusa a originalidade, proclama a vulgaridade como valor, elevando-a mesmo a categoria suprema. Porém, não me vou embrenhar no labirinto da sua filosofia, pois corria o risco de, como costuma acontecer nos labirintos, nele entrando, não saber como sair. A não ser que, como Teseu, usasse um novelo de Ariadne, para encontrar a saída. Pelo sim, pelo não, faltando-me o tal novelo, fiquemo-nos pelo empréstimo do título.
Um dos pressupostos revolucionários que nos chegam, vindo do século XIX, é o do papel revolucionário das massas. Está por provar que essas massas proletárias, nomeadamente os operários e os camponeses, contenham implicitamente a carga revolucionária que, não digo os teóricos, mas os activistas políticos lhes atribuem. Não me lembro de nenhuma destas revoluções que se verificaram no século XX (para não irmos mais atrás) ser liderada por um proletário – Lenine nasceu numa família da classe alta, Estaline foi um seminarista, Mao um bibliotecário filho de camponeses abastados, Fidel um advogado proveniente de uma família importante de Havana, «Che» um médico… Não estou a lembrar-me de nenhuma revolução liderada por um camponês ou por um operário. As massas não produzem os seus líderes, eles vêm da aristocracia ou das instituições escolares da burguesia, onde recebem a formação e ganham, inclusive, a consciência de que é necessário extinguir a injustiça social que os beneficiou. Mas as massas são sempre invocadas – Não disse usadas –(ainda). É em seu nome que as revoluções se fazem.
A ideia não é nova.
Fernão Lopes descreve-nos, com a sua linguagem viva e colorida, a maneira subtil como, num dia de Dezembro de 1383, o Mestre de Avis e o seu partido (aliás liderado por Álvaro Pais, um burguês – «homem honrado e de boa fazenda») – após terem morto o Andeiro, tentaram manipular o povo de Lisboa: «Os outros quiseram-lhe dar mais feridas, e o Mestre disse que estivessem quedos e nenhum foi ousado de lhe mais dar. E mandou logo Fernando Álvares e Lourenço Martins que fizessem cerrar as portas que não entrasse nenhum, e disseram ao seu pajem que fosse à pressa pela cidade bradando que matavam o Mestre, e eles fizeram-no assim.» Como se vê, o papel distribuído aos mesteirais e arraia-miúda na conjura foi o de comparsas, o de figurantes. Sabia-se que a multidão, supondo o Mestre em perigo, acorreria ao paço, impedindo que sobre ele se exercessem represálias pela morte do conde de Andeiro. (Se fosse hoje, o Mestre esperaria pela hora dos jornais televisivos para fazer a comunicação). Assim aconteceu, o povo acorreu de todos os lados, ameaçou incendiar as portas e só se aquietou quando D. João surgiu a uma janela, agradecendo as delirantes aclamações da multidão e pedindo aos populares que regressassem a suas casas, pois «não havia deles mais mister», ou seja, cumprido o seu papel, podiam abandonar a cena. Foi a partir daqui que o plano tão bem urdido por Álvaro Pais falhou – a população amotinou-se, linchou o bispo de Lisboa que, recusando-se a mandar tocar a rebate os sinos da Sé, foi considerado implicado na suposta conspiração contra a vida do Mestre. A insurreição alastrou e dificilmente se conseguiu evitar o assalto às casas dos judeus e dos ricos da cidade. Como um grande incêndio começado por uma brincadeira com fósforos, a intriga palaciana deu lugar a uma Revolução difícil de controlar.
Mais próxima de nós, a Revolução Francesa mostra-nos igualmente como a burguesia ilustrada, impaciente por tomar o lugar da moribunda aristocracia, se serviu das massas populares, envolvendo-as numa trama onde esperavam ser protagonistas, reservando ao povo o habitual lugar de figurante. Sob o barrete frígio da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, ocultavam-se interesses económicos e ambições políticas da emergente burguesia. Sabemos o que aconteceu. O animal tomou o freio nos dentes e muitos dos que esperavam tomar o poder, ficaram com a cabeça cortada. Só Napoleão conseguiu domar a fera enraivecida. Quando se envolve o povo, as massas, numa revolução e se diz que ele é o protagonista, existe sempre o perigo de que ele acredite.
Em Portugal em 25 de Abril, os feiticeiros das diversas tribos convocaram também o grande Manitu, o povo. Este acreditou que ia mesmo tomar o poder e durante 18 meses foi o que se viu – Manifes todos os dias, greves, saneamentos… Em 25 de Novembro, lá veio o Jaime Neves e as suas chaimites, «restabelecer a ordem» e repor a «normalidade». Contudo, o axioma de que a História se repete, tem que se lhe diga. É pouco ou mesmo nada científico. Porque quem defende esta tese, se refere aos pormenores e aí dificilmente terá razão. Mas este truque de invocar o povo não é um pormenor. E aí, sim, a história repete-se. Sempre que o povo acredita que estão a falar com ele e não apenas em seu nome, avança e derruba os tronozinhos dos santos que encontra pelo caminho. Como os actores que representam sem ter estudado o papel, é gente que, não tendo lido os manuais, os teóricos, os grandes filósofos, não sabe como comportar-se em cena e às vezes até dá cabo dos cenários. Ignora o que deve fazer nas revoluções, mesmo naquelas em que supostamente é protagonista – o papel destinado às massas tem sido o de seguir os grandes líderes, quer eles se chamem Bolívar ou Fidel, D. Pedro de Bragança ou Robespierre, Lenine, Mestre de Avis ou Hugo Chávez. E não há maneira de o povo aprender…
Querendo evitar-se a balbúrdia de verões quentes, a chamada «democracia representativa» foi criada para impedir que as massas intervenham na cousa pública, metendo o nariz onde não são chamadas. A democracia representativa é uma espécie de democracia asséptica – ama o povo, mas não lhe suporta o cheiro. Portanto, cidadãos, «metam lá o papelinho dobrado em quatro quando nós dissermos, mantenham os impostos em dia, e deixem o resto connosco. Deixem a política para os políticos», como dizia o outro.

Falando de democracia: Da luta das sufragistas aos nossos dias


«Bem-vinda Christabel Pankhurst», dizem os cartazes que estas senhoras exibem num dia do frio Inverno londrino, no já distante ano de 1909, há cem anos, imaginem. Christabel é uma das senhoras da frente, a que tem um chapéu envolvido por uma écharpe branca. O que queriam estas mulheres, visivelmente das classes mais favorecidas, o que reivindicavam elas? Uma coisa tão simples como direito de voto.
A desigualdade entre homens e mulheres, sobrevivera à democracia grega (onde elas não tinham quaisquer direitos), não melhorara durante a Idade Média. Não se diluíra com o humanismo renascentista e o século das luzes apenas lhes deu algum protagonismo no palco da cultura. Na Revolução Francesa as «cidadãs» lutaram ao lado dos homens (e foram guilhotinadas em perfeita igualdade de circunstâncias), mas logo o Império as remeteu de novo para a cozinha ou, no caso das burguesas e aristocratas, para os salões, bordando, tocando piano, recitando poesia e cantando nos serões. Veio a Revolução Industrial e lá foram elas malhar com os ossos nas fábricas com salários ainda mais miseráveis do que o dos seus companheiros. A Revolução de Outubro, no plano prático, também não aplainou grandemente as desigualdades. Mas, já vou em 1917. Voltemos atrás, a 1905, quando Christabel e sua mãe Emmeline Pankhurst (1858-1928) interromperam um comício do partido Liberal, fazendo perguntas incómodas sobre os direitos das mulheres. Christabel(1880-1958) nasceu em Manchester, filha de Richard Pankhurst, um advogado, e da sufragista Emmeline.
As sufragistas eram frequentemente presas, acusadas de desacatos e de outros crimes – alcoolismo e prostituição, entre eles, calúnias com que as tentavam desacreditar. Em todo o caso, havia quem acreditasse e, não raro, quando desfilavam empunhando orgulhosamente os seus estandartes e dísticos, nos passeios, mulheres do povo, pelas quais elas principalmente lutavam, lhes gritavam o equivalente a: «Vão coser meias!». Não faltava quem fosse mais longe e lhes chamasse «putas» e «bêbedas». Nas prisões onde as condições de higiene eram mais do que precárias, faziam greve da fome. Eram hospitalizadas, alimentadas à força e voltavam para a prisão. Mãe e filha, dedicaram as suas vidas à causa do sufragismo. Emmeline, no ano em que morreu (1928) teve a alegria de ver consagrado na lei britânica o direito de as mulheres votarem em pé de igualdade com os homens.
E em Portugal?
Em Portugal, destaca-se um nome: Ana de Castro Osório (1872-1935) que terá ficado conhecida sobretudo por ser uma pioneira da literatura infanto-juvenil. Casada com um tribuno republicano, Paulino de Oliveira, publicou em 1905 «Ás Mulheres Portuguesas», obra considerada como um manifesto do movimento feminista. Fundou a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, criada oficialmente em 1909, no mesmo ano em que Christabel surge na foto acima. A propósito, um ilustre republicano, um democrata, terá comentado – «Causa patrocinada por senhoras, é causa vencida!». Proclamada a República, Ana prosseguiu a sua luta, pois o novo regime foi tímido no reconhecimento da igualdade de géneros. Foi consultora de Afonso Costa, ministro da Justiça do Governo Provisório, aconselhando-o na elaboração da Lei do Divórcio, promulgada em 3 de Novembro de 1910, menos de um mês depois da Revolução. Esta lei, pela primeira vez no nosso País, concedia à mulher os direitos dados ao homem, no que se referia aos motivos do divórcio e à tutela dos filhos. E novas leis foram sendo aprovadas, baseando o casamento no princípio da igualdade, deixando a mulher de dever obediência ao marido e passando o crime de adultério a ser julgado de igual maneira, fosse cometido pela mulher ou pelo marido. Tudo isto hoje nos faz sorrir, pois parecem-nos questões ultrapassadas. Mas há cem anos estas medidas foram recebidas com sorrisos de outro género, com aqueles com que se acolhem as utopias. O machismo lusitano, mesmo entre os mais ferozes adeptos da República, recusava-se a aceitar esta igualdade legal que lhes parecia contra natura – ora uma mulher pode lá ter os mesmos direitos que um homem! E rematavam com um aforismo do género: «Onde há galos, não cantam galinhas!». Isto entre copadas de champanhe ou de tinto, e fumaças de Romeo y Julieta ou de tabaco de onça.
Indiferentes ao cepticismo, as heroínas prosseguiam a sua luta. Em 1911, as mulheres ganham o direito de trabalhar na Função Pública. Antecipando-se à lei, a médica Carolina Beatriz Ângelo, viúva e com filhos a seu cargo, vota para a Assembleia Constituinte. A Lei dizia que os chefes de família votavam e para o legislador era tão óbvio que o chefe de família teria de ser um homem que Carolina pôde votar, deixando o presidente da mesa de voto a coçar a cabeça, perplexo. Posteriormente, a lei foi «aperfeiçoada» – só podiam votar os chefes de família «do sexo masculino». Mas as coisas não paravam – nesse mesmo ano Carolina Michaëlis de Vasconcelos, mulher do grande filólogo Leite de Vasconcelos, é a primeira mulher a ser nomeada para uma cátedra universitária, neste caso a de Filologia na Universidade de Lisboa. Ainda em 1911 se assinala a criação da Associação de Propaganda Feminista. Para rapazes e raparigas, é estabelecida a escolaridade obrigatória entre os sete e os onze anos. E a caminhada prosseguiu. Em 1918, é autorizado o exercício da advocacia às mulheres, em 1926, são autorizadas a leccionar em liceus masculinos, em 1931 é concedido o direito de voto às mulheres diplomadas com cursos secundários ou superiores (aos homens basta fazer prova de que sabem ler e escrever). Em 1933 a Nova Constituição Política do Estado Novo, no seu artigo 5º, estabelece a igualdade dos cidadãos perante a lei, embora «salvas, quanto à mulher, as diferenças resultantes da sua natureza e do bem da família». Todo o edifício jurídico da igualdade laboriosamente construído, se desmoronava com esta frase singela que deixava as portas escancaradas à continuação da desigualdade. Num País moldado à medida das fantasias de um ditador tacanho, o lugar da mulher era em casa, junto dos filhos. Disse-o por diversas vezes. E sempre houve mulheres que concordaram com esta visão do seu papel na sociedade. Quando, em 1935, Ana de Castro Osório morre, outra grande defensora dos direitos femininos se destaca – Maria Lamas (1893-1983). Em 1948 publica o seu exaltante livro «As Mulheres do Meu País».
Só a Revolução de 25 de Abril começaria paulatinamente a acabar, a nível legal, com as todas as diferenças. Uma luta que em Portugal ainda não acabou. A guerra silenciosa da violência doméstica, por exemplo, não cessa de fazer vítimas. Não que a lei a consinta, mas talvez tenha que se criar uma moldura penal muito mais dura para quem a comete. E aqui deve fazer-se uma ressalva. Não incidir, claro, no erro do legislador de 1911 que partia do princípio que «chefe de família» só podia ser um homem. Parece que nem sempre são as mulheres espancadas. Embora numa percentagem pequena, há homens vítimas de violência doméstica. Serão uma minoria, mas existem. Há que protegê-los. Por outro lado, em algumas cabeças femininas, entontecidas com a recente libertação, ébrias de tanta liberdade, começa a despertar a ideia de que as «mulheres são superiores». Não passemos do oito para o oitenta. Não troquemos uma tirania por outra. Não cheguemos ao ponto de ter de formar uma Liga dos Homens Portugueses – que teria como divisa – Homens oprimidos, uni-vos!
Somos diferente biologicamente, mas iguais perante a lei. Era aqui que pretendíamos chegar. É preciso agora que as leis que consagram essa igualdade sejam escrupulosamente aplicadas. Porque Lei e realidade, têm andado desencontradas. Bem-vindas, companheiras.

Poemas com História: Vinte anos, meu amor

Antes do poema, a História. Este vídeo, comentado em português do Brasil, com uma outra afirmação menos correcta (do meu ponto de vista), explica a quem não se lembrar e a quem não souber, o que se passou naqueles dias de Agosto de 1945:

O poema que hoje vos trago foi escrito em 1965, quando se completaram 20 anos sobre o bombardeamento nuclear das cidades japonesas de Hiroxima e Nagasáqui. Foi publicado na antologia Hiroxima, uma antologia de poetas portugueses que organizei, de colaboração com Manuel Simões, e que foi publicada em 1967 e também na colectânea A Voz e o Sangue (1968).. O título é uma clara alusão ao script de Marguerite Duras, Hiroshima mon amour, para o filme de Alain Resnais. Foi reproduzido em numerosas antologias, algumas estrangeiras, e traduzido em diversos idiomas, nomeadamente em castelhano, em francês, em inglês e em catalão. Vamos ao poema:
Vinte anos, meu amor
O relâmpago da bomba que assassinou Hiroxima,
esculpiu sombras sobre a pedra e o cimento
e diz-se que uma delas foi a de um pintor
cuja silhueta ficou para sempre tatuada
no mármore da frontaria de um banco comercial.
O operário, no pedestal do seu escadote,
mergulhava o pincel na lata de tinta
quando o grande clarão se abateu sobre a cidade.
Isto é,
às oito horas e quinze minutos do dia seis de Agosto
de mil novecentos e quarenta e cinco
(enquanto outros homens lançavam bombas),
um homem que trabalhava deixava o seu protesto
esculpido a luz na fachada de um banco.
A sua sombra é talvez o mais evidente e doloroso
monumento à glória dos trabalhadores de todo o mundo.
Mas isto foi há vinte anos,
quando Hiroxima e Nagasáqui foram duas flores de fogo
em cujas corolas explodia a carne e o vidro,
o sangue e o betão – foi há vinte anos,
quando os SS fugiam de Weimar e de Auschwitz,
deixando barracões atulhados de esqueletos vivos
e pátios com montões de cadáveres – carne podre
e ossos amarelecidos que não houve tempo de cremar,
foi há vinte anos e dos barracões saíram filas
de esqueletos vivos que partiram para as suas pátrias
desembarcando nas gares cinzentas da Europa Central,
com a palavra esperança bordada nos seus brancos lábios.
Tudo isto há vinte anos e desde aí os homens,
com os lábios em que tinham hasteado a palavra esperança,
decoraram nomes de terras onde outros homens morriam
para que a esperança deixasse de ser apenas uma palavra:
– Coreia, Indochina, Argélia, Cuba, Congo…
As fachadas dos bancos de Orão, de Havana, de Leopoldville,
viram passar sombras reivindicativas de trabalhadores
e – embora não eternamente – elas projectaram-se sobre o mármore
numa ameaça do Trabalho à indignidade.
………………………………………………………………………………..
A esperança é como uma grande bandeira que os homens levam
nos lábios, nos olhos e na memória,
e as suas sílabas, como pombas invencíveis,
sobrevoam os fornos crematórios, as cidades assassinadas,
as câmaras de gás, as selvas e as celas dos presídios.
Os homens levam a esperança desfraldada nos seus lábios
e um dia hão-de hasteá-la sobre todo o Universo.

Falando de democracia: Um dia já não me lembrarei. De nada (sobre Hiroxima e Nagasáqui)


Foi há 64 anos. A era de um novo terror começara. Os Estados Unidos lançaram a 6 e a 9 de Agosto sobre Hiroxima e Nagasáqui, respectivamente, as primeiras bombas nucleares a atingir alvos civis. Em 1965, com o poeta, e agora professor universitário, Manuel Simões, organizei uma antologia com «depoimentos de poetas portugueses sobre o flagelo atómico, no 2º aniversário da destruição de Hiroxima e Nagasáqui». Mais de trinta escritores contribuíram com os seus poemas para esta edição que foi publicada em 1967 – nomes como os de António Cabral, António Rebordão Navarro, Casimiro de Brito, Eduardo Guerra Carneiro, Egito Gonçalves, Fernando J.B. Martinho, João Rui de Sousa, Manuel Alegre, Maria Rosa Colaço, Papiniano Carlos… Transcrevo alguns excertos do prefácio (estávamos a 7 anos de Abril e o livro foi proibido, não só pelo seu prefácio, mas também pela agressividade da maioria dos poemas):
«Agosto de 1945 é para o mundo, um fundamental marco miliário: é a partir dessa altura que é lícito falar-se dos Estados Unidos como da mais poderosa potência do Ocidente. A ambiciosa e florescente nação dos anos vinte, ressurge, já recomposta das cicatrizes que a crise económica de 1929 abrira. Poder edificado sobre os 130 000 cadáveres de Hiroxima e de Nagasáqui, consolidado com o sangue e com as lágrimas de tantas vítimas.
«Em nome da Liberdade, os E.U.A. deram o seu contributo para a destruição do nazi-fascismo, mas hoje, após a guerra da Coreia, após a invasão da Guatemala, após o desembarque na Baía dos Porcos, após a intervenção no Congo, em plena guerra do Vietname e em flagrante e escandalosa ingerência na política interna da República Dominicana, é oportuno perguntar até que ponto a «democracia» ianque se identifica com os fantasmas que ajudou a derrubar.» (…) «Os 130 000 mortos de Hiroxima e de Nagasáqui, são diariamente agitados ante os nossos olhos como um negro estandarte. A América serve-se dessa terrível recordação que inseriu a fogo na memória deste século, para amedrontar o mundo.»(…)«No Verão de 45, o Japão estava virtualmente derrotado – esgotara as suas fontes de energia humana e económica. Mas, nos Estados Unidos, temiam-se as consequências de uma batalha final em que o império nipónico empregasse desesperadamente as suas últimas forças.» (…) «É preferível que morram 100 000 japoneses a que morra um só Americano, eis uma explicação oficial citada num livro de J. Robert Oppenheimer.» (…)«Hiroxima, se é um terrível símbolo de morte, se é o aval do cheque com que os americanos exercem a sua chantagem atómica, é, para os homens verdadeiramente livres, e referimo-nos àqueles que o são em pensamento, ainda que os seus pulsos levem algemas, um símbolo de Paz.» (…)«Símbolo de Paz, porque nos ensinou, entre outras coisas, que Hiroxima pode, amanhã ou ainda hoje, acontecer em Londres, em Lisboa, em Moscovo ou (quem sabe?) em Nova Iorque.»
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Mais de 40 anos depois, estas palavras continuam actuais Com pequenas alterações de circunstância e pormenor, voltaria a subscrevê-las. O que aconteceu de 1967 a esta parte não as desmentiu, antes as confirmou. Inclusive na medida em que o reflexo da prepotência norte-americana, apoiada pelos seus aliados da NATO, sob a forma do fundamentalismo islamista, atingiu Londres, Nova Iorque e Madrid. Porém, perdura, nos dias de hoje, 64 anos depois, a memória de Hiroxima?
Para nos recordarmos, vejamos acima algumas cenas de «Hiroshima mon amour», o inesquecível filme que, em 1959, Alain Resnais realizou com script de Marguerite Duras.

O professor Eduardo Lourenço, num artigo publicado no Público há vinte e quatro anos diz: «Desde Heródoto que a História existe como discurso contra o esquecimento, como estratégia para conferir um ¨sentido¨, uma plausível inteligibilidade inerente à vida e acontecimentos humanos. Para termos essa existência plena, semelhante à dos deuses gregos, imunes ao tempo, assumimos a vigília sem noite que chamamos História. Nela e com ela, sabemos de onde vimos e para onde vamos. Subsidiariamente, quem somos. Desta ilusão fundadora Hiroxima nos despiu. Os seus “cem mil sóis” não podem ser olhados sem morrer. Mesmo a sua recordação é mortal. Hiroxima impõe o esquecimento.» (…) «Hiroxima é um não-lugar, uma Pompeia fabricada de mão pensada pelos homens. Os japoneses deviam tê-la conservado assim, arrasada como Cartago pelos novos romanos, insuportável à vista e intolerável para o coração. Preferiram dissimulá-la e ninguém está no seu lugar para os julgar. Para sobreviver, incorporaram o esquecimento na sua história privada. Sem o saber, inauguravam a lúdica era da pós-modernidade que não é culto pedantismo de intelectuais europeus expulsos de uma História como fonte de sentido, mas tempo de gente que incorpora o esquecimento-Hiroxima por saber de mais que, sem ele, desembocaria descalça num terraço com vista privilegiada sobre o nada. Aquele onde tão festivamente estamos.» Vejamos mais um pouco do filme de Resnais.

Como Eduardo Lourenço, citando Marguerite Duras, lembra nesse artigo publicado no Público quando do cinquentenário da destruição atómica: «Un jour je ne me souviendrai plus. De rien». São palavras de Emanuelle Riva, a intérprete principal do filme: «- Um dia já não me lembrarei. De nada». Um dia, Hiroxima será uma data nos livros de História. Não nos lembraremos. De nada.

Apontamentos & desapontamentos: As eleições autárquicas em Lisboa

Hoje é um mero apontamento, pois ao falar da classe política já não faz sentido manifestar qualquer espécie desapontamento. Sou lisboeta, filho, neto e bisneto de lisboetas. Nasci em plena Baixa, ali pelas mesmas paragens por onde o Pessoa, e o seu Bernardo Soares, remoíam o desassossego e às vezes o afogavam num copinho de aguardente ao balcão do Vale do Rio (aquele em que o Fernando foi fotografado «em flagrante delitro»). Porém, não moro na cidade e, por isso, não posso votar na eleição do presidente do município da «minha» Lisboa. De todos os candidatos em presença, tenho dificuldade em escolher um do qual o programa e as provas dadas me dêem garantias de que as coisas vão correr bem. O António Costa, apesar de pertencer a um partido de que não gosto (na verdade, não sendo anarquista, não gosto de nenhum dos partidos existentes), desiludiu-me. Por aquilo que dele sabia – fui muito amigo do pai, excelente escritor e cidadão de primeira água – pensei que fosse fazer melhor. Bem sei que herdou uma situação difícil, mas isso é um dado adquirido – todos os autarcas herdam situações complicadas. Porém, a maneira como lidou com essas dificuldades, definem-no como um autarca vulgar, com soluções de compromisso nem sempre, quase nunca, aceitáveis. Não me parece que devesse insistir neste cargo. Não lhe assenta bem. Mas ele é um político profissional e, na sua perspectiva, não tem alternativa. O candidato do Bloco, não sei, seria um voto em alguém que não vai ganhar, mas não seria por esse motivo que deixaria de votar nele. Dizem-me que, pese embora a sua «genealogia» estalinista, é pessoa séria. Talvez fosse a minha escolha. Talvez. Nos candidatos do PCP e do CDS, sejam quem forem e prometam o que prometerem, nunca votaria por uma questão de princípios. E Santana Lopes?
Não é candidato que se apresente. Comparando-o com outro autarca do mesmo partido, o Rui Rio, por exemplo, Santana fica a perder (Não digo em obra feita, mas, pelo menos, em imagem). Mas esse é o drama do PSD – não tem gente de qualidade – o PS tem-na bem arrumada no sótão e empacotada, mas tem-na. O PPD, ainda vá que não vá, tinha aqueles jovens da Ala Liberal da ANP, teve pessoas como a Natália Correia, enfim, sempre era outra coisa. Agora tem o Pacheco Pereira, que é um homem de cultura, mas esse teria de criar um partido só para ele. Tem o Marcelo Rebello de Sousa, uma espécie de «bruxa má» destilando, sempre com um sacaníssimo sorriso, veneno a torto e a direito, até entre os seus correligionários. Em suma, o PSD é um deserto de ideias e de pessoas apresentáveis. Veja-se a Manuela Ferreira Leite – hesitante, mentindo tanto como Sócrates, parecendo mais séria só porque, de facto, se ri menos. Mentindo porque tem a desvergonha de criticar até mesmo medidas económicas lançadas por ela quando fez parte do ministério de Durão Barroso. A Manuela Ferreira Leite não existe. É uma sombra de outra sombra – da inexistente personalidade de Cavaco Silva. Tenho dito por diversas vezes que nunca gostei de Francisco Sá Carneiro enquanto era vivo e não seria pelas condições trágicas em que morreu que iria passar a apreciá-lo. Era um político no mau sentido da palavra – oco de ideias, chicaneiro, manipulando a oratória, a sua e a dos adversários. Em todo o caso, era um político. Ponto final. Os que lhe têm sucedido são gente sem vergonha em busca de tachos para eles e para os amigos. Tachos e protagonismo. E Santana Lopes, não sendo propriamente um político, é um paradigma desse tipo de pessoas.
É um homem do jet set, das revistas cor-de-rosa, mas não é um político (embora considerando toda a carga pejorativa que o termo comporta, mesmo assim ele fica aquém). Lá habilidoso e desenrascado é ele – envia um postal ao Machado de Assis, o grande escritor brasileiro morto em 1908, confunde um anúncio do livro Cuidado com os Rapazes com uma ameaça e convoca uma conferência de imprensa para denunciar a conjura, mede o Co2 em magawatts e inventa concertos de violino ao pobre do Chopin… Era quando desta gaffe secretário de Estado da Cultura, veja-se.

E secretário de Estado de quem? De Cavaco Silva, claro – o tal primeiro-ministro de Portugal que não sabia quantos cantos têm Os Lusíadas. Que pronunciava pograma e supreza. Gaffes e atropelos da língua e da cultura que o actual presidente da República não comete, já se vê). Mas Santana não se prende com ninharias. Ah não são megawatts, são toneladas? E então, não faz tudo parte do sistema decimal? O Chopin não compôs concertos para violino? E não podia ter composto? No século qualquer coisa já se fabricavam violinos, ou rabecas… Então esse tal gajo, o Machado não sei quantos, morreu há cem anos? Qual é o mal de lhe mandar um postalinho? É o chamado «desenrascado», não se prende com pormenores. Passa adiante. Só que a política autárquica é feita de pormenores, pelo conhecimento de pequenas coisas que às vezes têm um grande significado para os munícipes, de amor pela cultura (que ele arrogantemente despreza, porque a ignorância é sempre arrogante). Desta vez chega prometendo mais um túnel, avisando em todo o caso que provavelmente não o fará. Enfim, a verdade é que o António Costa, menos ignorante, com menos gaffes, mais ponderado no discurso, pessoa mais séria, também não fez grande coisa e a cidade está num caos. Duma coisa podem os lisboetas estar seguros – os múltiplos problemas da sua cidade, incluindo a excessiva emissão de magawatts de Co2, não será Santana Lopes que os resolverá. É a escolha mais óbvia a não fazer. Mas, e a escolha certa? Há alguma? Parece-me que não. Em todo o caso, oxalá os meus conterrâneos façam outra escolha, seja ela qual for será provavelmente uma má escolha – só que com o Santana o «provavelmente» não faz sentido. O Santana outra vez, não. Dêem o benefício da dúvida a qualquer um dos outros. Porém, desde que vejo o mafioso Berlusconi a ser eleito pela quarta vez, na Itália da cultura, como posso acreditar que os alfacinhas, com o seu pendor fadista e fatalista, não sejam também eles seduzidos pelo charme indiscreto da fatal ignorância do playboy Santana?

O dia em que conheci José Afonso

zeca
Capa da revista «MC» de Fevereiro de 1975

Terminada esta série de textos biográficos dedicados a José Afonso, gostaria de vos poder transmitir algumas impressões pessoais colhidas no convívio que tive com ele, que não foi muito. Isto, à margem de uma biografia na qual não faria muito sentido falar desse convívio, muito importante para mim, mas irrelevante para a história do José Afonso.

Em 1967, com o Manuel Simões e o Júlio Estudante, criámos em Tomar onde trabalhava e vivia, uma pequena editora, a Nova Realidade. Fizemos questão de iniciar a actividade com um livro do Zeca, os «Cantares». Além das duas edições dos «Cantares» que se esgotaram, publicámos em 1970, um segundo livro «Cantar de Novo». Portanto, o Zeca conhecia-me de nome. Entretanto, deixei Tomar, fui para Lisboa em 1971. Deu-se o 25 de Abril e na tarde do 11 de Março de 1975, na sequência do golpe de direita, que todos supúnhamos de maiores proporções, desloquei-me a Setúbal em missão «para-militar», digamos. Quem vejo eu parado na estrada, boina basca, mãos nos bolsos? – o Zeca (na altura, ligado à LUAR). Arrumei o carro e fui falar com ele. Disse-lhe quem era. Não perdeu muito tempo com cortesias, aviou-as rapidamente:

– Estás porreiro?… Trazes armas? – esperava-se para breve uma nova ofensiva da direita. Eram cerca de três da tarde e não sabíamos que a operação «Matança da Páscoa», o culminar da conspiração spinolista, se tinha limitado ao ataque naquela manhã ao Ralis e a pouco mais. A bem dizer, esperava-se «a ofensiva», talvez até a invasão de forças espanholas. A canção «O que faz falta» foi repetidamente passada nas estações de rádio. Fora gravada nos últimos meses do ano anterior em Londres e, por certo, inspirada noutra intentona de direita – no 28 de Setembro de 1974 – a manifestação da «Maioria silenciosa», liderada por um dos homens da Junta de Salvação Nacional, o general Galvão de Melo. Voltando ao encontro em Setúbal, tomámos nota dos respectivos endereços e números de telefone e despedimo-nos com um abraço.

Depois, pelo tempo fora, encontrámo-nos por numerosas ocasiões, em reuniões políticas e não só. Durante a campanha do Otelo, em 1976, por exemplo, encontrámo-nos por diversas vezes. Quando do II Congresso dos Escritores Portugueses, em Março de 1982, ficámos lado a lado e almoçámos sempre juntos, durante os três dias, num pequeno restaurante da Conde de Valbom, em frente do muro da Gulbenkian, onde se realizaram os trabalhos do congresso. Num desses almoços esteve também, além de nós os dois, a escritora e saudosa amiga Maria Rosa Colaço. Estivemos pela última vez, já ele estava muito doente, salvo erro em 1984, numa reunião de tentativa de criação de um movimento unitário da chamada extrema-esquerda (tentativa que soçobrou, como as anteriores, diante da muralha do sectarismo), realizada em casa de um amigo comum. A doença notava-se, sobretudo, na impaciência com o Zeca procurava que se discutisse apenas o essencial e se pusesse de parte o acessório.

Quando há dias, num comentário, eu dizia que o Zeca era distraído, referia-me a histórias que os amigos contavam.. Como, por exemplo, numa manhã de domingo foi com os filhos, ainda pequenos, ao jardim, os pôs a brincar nos baloiços e no escorrega e depois, pouco antes do almoço, sempre imerso nos seus projectos, chegou a casa sem eles. Perante a aflição da mulher, voltou correndo ao parque e lá estavam, felizes, brincando. Ou como, à mesa do café, trauteava uma melodia que criara, perguntando aos amigos se aquela música já existia, respondendo eles sempre, com amistosa ironia, que sim. Ou ainda, quando as salas multiplex eram ainda novidade, com a Zélia, e com o casal Bruno da Ponte e Clara Queiroz, foram ver um filme. No intervalo, saiu e quando o intervalo acabou o Zeca entrando por engano noutra sala, viu a segunda parte de um filme diferente. A Zélia e os da Ponte, pensaram que ele se fartara do filme e os esperava no átrio. Esperava-os de facto, mas com esta observação: «Não vos encontrei na sala. Mas estes filmes de agora… não percebi nada da história». O Fausto e outros companheiros, por diversas vezes me contaram das atrapalhações quando, a meio de uma actuação, o Zeca se esquecia da continuação da letra. Parava tudo, ele encontrava o papel e lá se recomeçava. Distraído o Zeca? Sim. Mas, ao mesmo tempo, muito atento à realidade do seu tempo.

Seria uma grande injustiça que nós nos distraíssemos e que esquecêssemos um artista e, sobretudo, uma pessoa como José Afonso.

Nos 80 anos do nascimento do José Afonso (Fim)

(continuação daqui)

NÃO ME ARREPENDO DE NADA DO QUE FIZ

Em 1982 revelam-se os primeiros sintomas da doença degenerativa que o virá a vitimar. Em Janeiro de 1983 actua no Coliseu dos Recreios, num espectáculo em que colaboram, entre outros, Fausto, Júlio Pereira, Janita Salomé… Durante esta actuação, é já visível a dificuldade de Zeca em exibir plenamente os seus dotes de grande executante. Em Dezembro, sai o álbum Como Se Fora Seu Filho, em que colaboram Fausto, José Mário Branco, Janita Salomé e Júlio Pereira. Em Abril de 1984 presta um depoimento à revista Questões e Alternativas: «Penso que, após o 25 de Abril, devia ter havido uma prática pedagógica de exercício da democracia. As populações deveriam experimentar, directamente, quais são as possibilidades de inserção na realidade, de a transformar. Essa, para mim, é a forma mais sã de exercer a democracia. O voto de quando em quando, após 50 anos de obscurantismo, é uma coisa para especialistas em demagogia. Até porque os deputados não estão na Assembleia para resolver os problemas mais imediatos do povo, mas para cumprir desideratos políticos.»

Em 1985 Sai o álbum Galinhas do Mato. Já muito doente, apoia a campanha presidencial de Maria de Lourdes Pintasilgo em 1986. Em 1987, às três da madrugada de 23 de Fevereiro, no Hospital de São Bernardo, em Setúbal, José Afonso morre, vítima da esclerose lateral amiotrófica diagnosticada cinco anos antes. No funeral, realizado no dia seguinte, um longo cortejo de 30 mil pessoas, trabalhadores na sua maioria, segue-o até ao cemitério da Senhora da Piedade, em Setúbal.
Após a sua morte, o seu nome é dado a numerosas artérias por cidades, vilas e aldeias do País. Em Novembro, é criada a Associação José Afonso, que desde então promove sessões e iniciativas de divulgação da obra do grande músico, cantor e poeta. No ano de 1994, o Presidente da República, Mário Soares, procura condecorar postumamente José Afonso com a Ordem da Liberdade. Tal como Zeca fizera a igual proposta de Ramalho Eanes, sua esposa Zélia recusa a condecoração. Em 23 de Fevereiro de 1997, é inaugurado na Baixa da Banheira um monumento a José Afonso, da autoria do escultor Lagoa Henriques. Em Grândola, nas comemorações do 25º aniversário da Revolução, em 1999, foi também construído um monumento em sua homenagem da autoria do escultor António Trindade. Também nos anos 90, um outro monumento, este da autoria de Francisco Simões, foi edificado no Parque Central da cidade da Amadora. Este município instituiu um Prémio José Afonso da Música Popular, atribuído anualmente.

«Não me arrependo de nada do que fiz», escreve José Afonso, acrescentando «Mais, sou aquilo que fiz. Embora com reservas, acreditava suficientemente no que estava fazendo, e isso é que fica. Quando a gente pára, há uma espécie de pacto implícito com o inimigo, tanto no campo político, como no campo estético e cultural. E, às vezes, o inimigo é nós mesmos, a nossa própria consciência e as desculpas de que nos servimos para justificar a modorra e o abandono dos campos de luta».
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Nota
Na execução deste texto utilizei, além de notas de José Afonso, nomeadamente as de carácter autobiográfico e as que insere em Cantares, excertos do prefácio de Manuel Simões a este livro, do depoimento que Zeca deu aos cadernos Questões e Alternativas, e, finalmente, do texto de Miguel Mora, publicado no diário El País (edição de 9 de Agosto de 2007 – Grândola – faro del 25 de Abril). Em 1967, fui, com Manuel Simões e Júlio Estudante, um dos promotores das duas primeiras edições de Cantares, embora só depois do 25 de Abril tenhamos encetado uma relação pessoal de amizade. Sei que o Zeca detestaria que sobre ele se escrevessem textos demasiado formais, que se usasse a tal «prosa de notário». Por isso, dispensei o recurso às habituais notas de pé de página – as tais que Umberto Eco diz serem boas «para pagar dívidas». Com esta única nota, tento pagar a dívida de gratidão para com o Zeca e para com os autores aqui referidos.

Nos 80 anos do nascimento de José Afonso (VIII)

(continuação daqui)

GRÂNDOLA, SENHA DE ARRANQUE PARA A REVOLUÇÃO

Em 29 de Março de 1974, quase duas semanas após o «golpe das Caldas» e a menos de um mês da «Revolução dos Cravos», realiza-se no Coliseu dos Recreios um «Canto Livre» organizado pela Casa da Imprensa onde, além de Zeca, participam José Barata Moura, José Jorge Letria, Vitorino, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, entre outros. A censura avisa a organização de que algumas canções não devem ser interpretadas. Entre elas, algumas do Zeca – Menina dos Olhos Tristes, Venham Mais Cinco e A Morte Saiu à Rua, dedicada ao escultor e pintor José Dias Coelho, assassinado a tiro por um agente da PIDE, em 1961, numa rua de Alcântara, em Lisboa. Acabam o espectáculo cantando em coro Grândola, Vila Morena, que, estranhamente, não fora proibida pela Censura. Oficiais do MFA que assistem ao espectáculo, escolhem nesta altura a senha para o arranque do levantamento militar. Diz o Zeca: «Vivi o 25 de Abril numa espécie de deslumbramento» (…) «Fui para o Carmo, andei por ali… Estava tão entusiasmado com o fenómeno político que nem me apercebi bem, ou não dei importância a isso da Grândola. Só mais tarde (…) quando recomeçaram os ataques fascistas e a Grândola se cantava nos momentos de maior perigo ou entusiasmo, me apercebi de tudo o que significava e, naturalmente, senti uma certa satisfação». Ainda em 74, gravado em Londres, é editado o álbum Coro dos Tribunais. Após o 25 de Abril, Zeca entra numa fase frenética de intervenção em festivais, sessões de esclarecimento… Apoia o M.F.A. na operação Maio-Nordeste, um esforço de esclarecimento das populações isoladas do Nordeste transmontano. É indubitavelmente a voz da Revolução. O período agitado que se segue à Revolução de Abril, constitui uma época de grande envolvimento de Zeca na vida do País – canta em quartéis, em fábricas, em escolas em colectividades, em serões de solidariedade internacional; apoia o MFA na animação cultural junto da emigração e na recolha de fundos para a Reforma Agrária… Após os Acordos de Alvor, actua em diversas cidades de Angola. Em Itália, organizações políticas como a Lotta Continua, Il Manifesto e Avanguardia Operaia, editam o álbum República, gravado em Roma. A receita é destinada a apoiar os trabalhadores do vespertino República e uma cooperativa agrícola. Francisco Fanhais e músicos italianos colaboram na gravação. Em 1976, apoia a candidatura de Otelo Saraiva de Carvalho à presidência da República. Edita o álbum Com as Minhas Tamanquinhas. Pelo seu álbum Cantigas do Maio, é distinguido com o Prémio Alemão do Disco, outorgado pela Academia Fonográfica Alemã. Em 1978, com a colaboração de Fausto, grava e edita o álbum Enquanto Há Força. No ano seguinte sai o álbum Fura Fura, com a colaboração dos Trovante e de Júlio Pereira. Em Bruxelas, canta no Festival da Contra-Eurovisão. Em 1981 Grava Fados de Coimbra e Outras Canções. Realiza um espectáculo no Théatre de la Ville, em Paris.

Nos 80 anos do nascimento de José Afonso (VII)

(continuação daqui)
G. Catarina Eufémia


Em Dezembro de 1971 é lançado o álbum Cantigas do Maio, gravado em França, num estúdio situado numa quinta dos arredores de Paris. José Mário Branco, também ele grande cantautor da Resistência antifascista, que, como participante, estava presente na gravação, conta que, a certa altura, lhe disse: «`Vamos a isto Zeca´ `Não tens nada para ir metendo?´, respondeu. Não estava ainda pronto; a alma do Zeca, apercebi-me depois estava toda no Alentejo, nos olhos de Catarina Eufémia. Como tantas vezes lhe acontecia, andava pelo estúdio, de cá para lá, como um jovem leão na sua jaula. Até que, já ao fim da tarde, disse: `Vou lá fora ver as vacas´» (…) «Desapareceu durante uma ou duas horas. Quando voltou já era quase noite: `Vamos gravar a Catarina´. Zeca em metade do estúdio, só e às escuras cantou. Uma só vez. E é essa que está no disco. Nós, privilegiados espectadores, estávamos na central técnica todos a chorar, incluindo o técnico francês. `Acham melhor que cante isto outra vez?´ `Não, Zeca, não. Está muito bem assim».

Acrescente-se que Cantar Alentejano, dedicado à ceifeira do Baleizão, Catarina Eufémia, morta a tiro, em 1959, pelo tenente Carrajola (da GNR), é outra das composições de Zeca que rapidamente se difundem entre a população. Hoje, muitas mulheres portuguesas com mais de 30 anos têm o nome de Catarina e algumas delas talvez nem saibam que assim se chamam por que seus pais ou padrinhos quiseram homenagear Zeca e a ceifeira assassinada.

Neste ano de 1971 é, pela terceira vez consecutiva, distinguido com o prémio da Casa da Imprensa. Em 1972, no meio de grande polémica, é eleito por votação dos leitores do Diário de Lisboa, como «Rei da Rádio». Intelectualmente, o concurso estava mais do que desprestigiado, pois a eleição contemplara nos anos anteriores cantores ligados ao chamado «nacional-cançonetismo». Por isso, participa no Festival Internacional da Canção Popular do Rio de Janeiro. Grava em Madrid, com a colaboração do cantor galego Benedicto e dos Aguaviva de Manolo Díaz, Eu Vou Ser Como a Toupeira. É publicado pela editora Paisagem o livro José Afonso. Em Abril de 1973 é detido pela PIDE/DGS: «Bateram à porta» (…) o meu filho Zé Manel foi abrir. O inspector apresentou-lhe o «crachat» da polícia e ele voltou-se displicentemente para a sala a dizer ‘oh pai é a prestimosa’. Fica 20 dias encarcerado na prisão de Caxias. Aproveita, na solidão da cela, para escrever Era Um Redondo Vocábulo. Em Dezembro sai o álbum Venham Mais Cinco, que grava em Paris, sempre com a colaboração de José Mário Branco.

Nos 80 anos do nascimento de José Afonso (VI)

(continuação daqui)
F. Cantares

Ainda em 64, é editado o EP Cantares de José Afonso. Sai também a público o álbum Baladas e Canções (reeditado em CD em 1996). Neste ano parte para Lourenço Marques, dando aulas, primeiro nesta cidade e, depois, em 1966 e 1967, na Beira. Nesta cidade, compõe a música para a peça de Brecht A Excepção e a Regra. Trabalha também no Centro Associativo dos Negros, dirigido pelo Dr. Luís Arouca. Em 1965 nasce a sua filha Joana e em 1967 regressa a Portugal. É colocado como professor em Setúbal. Devido a uma grave crise de saúde, é internado numa clínica. Quando sai, 20 dias depois, fora expulso do ensino oficial. Estamos em 1968. Embora mais tarde venha a ser readmitido, opta por se dedicar exclusivamente à música. A Nova Realidade, uma pequena editora de Tomar, publica o livro Cantares de José Afonso, com um prefácio de Manuel Simões. O livro, que contém as letras das canções e notas do autor, esgota-se em poucos dias. Sai uma segunda edição que acaba por ser apreendida pela polícia política. Em 1992, com a chancela da Fora do Texto, uma cooperativa editorial de Coimbra, sairá a 3ª edição que, além do prefácio de Manuel Simões, terá também novos textos introdutórios deste e de Rui Mendes. Ainda em 1968 é editado o álbum Cantares do Andarilho. Zeca participa activamente na CDE de Setúbal durante a campanha para eleição de deputados à Assembleia Nacional que se segue à «queda da cadeira». Em 1969 saem o álbum Contos Velhos, Rumos Novos e o single Menina dos Olhos Tristes e Canta Camarada, canções em que é acompanhado à viola por Rui Pato. É distinguido com o prémio da Casa da Imprensa para o melhor disco. Nasce o seu filho Pedro. Em 1970, a Nova Realidade lança o livro Cantar de Novo, com uma introdução do poeta António Cabral (1931-2007). É editado o álbum Traz Outro Amigo Também, gravado num estúdio de Londres. Desta vez, Rui Pato não o poderá acompanhar, pois a polícia política não autoriza a sua saída do País. Ganha novamente o prémio da Casa da Imprensa. Vai a Cuba participar num Festival Internacional de Música Popular.

Nos 80 anos do nascimento de José Afonso (V)

(continuação daqui)

E. Subitamente, Grândola

Em 1964 é editado um novo disco – Coro dos Caídos, Maria, Vila de Olhão, Canção do Mar. Na noite de 17 de Maio desse ano, actua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, a «Música Velha», como a colectividade é designada pelas gentes da terra. Aqui se inspira para a criação de Grândola, Vila Morena (que dedica à colectividade), canção que viria a estrear num récita que realizará em Maio de 1972, em Santiago de Compostela. Aliás, essa noite de Maio de 1964, pode dizer-se, muda a sua vida. Canta perante uma assistência constituída maioritariamente por gente pobre, mas faminta de cultura – trabalhadores da indústria corticeira, amadores de música, ceifeiras, alguns clandestinos ligados ao Partido Comunista… José Saramago, então um escritor quase desconhecido, está também entre a assistência. Mais tarde, após a morte de Zeca, Saramago interroga-se sobre o que José Afonso sentiria se pudesse observar o rumo social e político do Portugal dos nossos dias – «Creio que estaria, pelo menos, tão desanimado como eu», conclui o Nobel. Nesta sessão conhece Carlos Paredes, o prodigioso guitarrista – «o que esse bicho faz com a guitarra!», exclama Zeca numa carta aos pais. Compra uma pequena parcela de terreno em Grândola, com uma modesta casa, onde gosta de passar os seus tempos livres. Grândola cativara-o definitivamente pelo ambiente fraterno que envolvia as suas gentes. Pedro Martins da Costa, militante do PCP e, a partir de 1974, vice-presidente do município durante mais de 25 anos, presente no famoso concerto de 1964, diz que ao Zeca agradou sobretudo a igualdade que ali existia antes e depois da Revolução de Abril – continuaram a ser «tão igualitários que nem se sabia quem era o presidente». A letra da canção não constitui, portanto, um conjunto de simples metáforas… Durante anos, na placa toponímica da vila, fechando o círculo de interacções entre a «cidade» e o seu cantor, lia-se. Grândola, Vila Morena – Grândola mudou a vida de Zeca e Zeca alterou a vida e a história da vila (actualmente, a placa foi retirada – decisão política?) Como se diz numa reportagem de Miguel Mora publicada no El País (9 de Agosto de 2007): «Hoje, em pleno centro de Grândola, a Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, continua de pé, sóbria e austera. Resiste, embora tenha estado durante algum tempo fechada e rodeada de tapumes para reconstrução. O tijolo, a construção civil, foram substituindo a pouco e pouco a cortiça, o arroz como fonte de riqueza do concelho». No interior vazio da Música Velha, subsistem, pelo menos no imaginário dos que amam a liberdade, os ecos nostálgicos do que ali ocorreu naquela noite mágica de Maio de 1964.

Nos 80 anos do nascimento de José Afonso (IV)

(continuação daqui)

D. Os Vampiros e Menino do Bairro Negro

Em 1962, nos Estados Unidos, é editado o álbum Coimbra Orfeon of Portugal, que inclui duas baladas de Zeca: Minha Mãe e Balada Aleixo, «Homenagem a António Aleixo, poeta cauteleiro, natural de Loulé.» Nestas duas composições é acompanhado à viola por José Niza e por Durval Moreirinhas. Participa em digressões pela Suiça, Alemanha e Suécia. Em 1963 conclui o curso, com uma tese sobre Jean-Paul Sartre – Implicações substancialistas na filosofia sartriana. Divorcia-se de Maria Amália, casando depois em Olhão com Zélia. Sai o LP Baladas e Canções (Ronda dos Paisanos, Altos Castelos, Elegias…). Diz Zeca sobre a Ronda, que depressa será entoada de boca em boca – em reuniões de estudantes, em fábricas, em serões pequeno-burgueses e até nos cárceres políticos: «A música ocorreu-me no WC do rápido, Faro-Lisboa, depois da estação da Funcheira» (…) «Em Lisboa inteirei-me dos postos do exército, que são muitos e soantes. Rimados às parelhas dariam uma canção popular, capaz de ser entendida por soldados e generais.» E foi.

Em 1963 surge então o disco Baladas de Coimbra que inclui Os Vampiros, Menino do Bairro Negro, Canção Vai… e Vem… e Pombas. O título da capa não reflecte a realidade, pois este disco marca uma ruptura com a elitista tradição da balada e do fado coimbrões. A voz do Zeca passa os muros da velha cidade universitária e, como um rio caudaloso e de irresistível força, salta para os lábios de milhões de portugueses – torna-se impossível não associar os seus vampiros aos ávidos barões do regime salazarista: Eles comem tudo/ eles comem tudo/eles comem tudo/e não deixam nada… O Zeca explica: «Numa viagem que fiz a Coimbra apercebi-me da inutilidade de se cantar o cor-de-rosa e o bonitinho» (…) «Se lhe déssemos uma certa dignidade e lhe atribuíssemos, pela urgência dos temas tratados, um mínimo de valor educativo, conseguiríamos talvez fabricar um novo tipo de canção cuja actualidade poderia repercutir-se no espírito narcotizado do público, molestando-lhe a consciência adormecida em vez de o distrair.»
Como nota de humor, refira-se que uma então famosa marca de pudins quis comprar os direitos do refrão de Os Vampiros para servir de música de fundo a um spot publicitário. Obviamente, Zeca recusa. Em Menino do Bairro Negro, inspirada na vida dos meninos de um bairro degradado – o Barredo, no Porto – essa intenção de «molestar consciências» torna-se ainda mais evidente. A emigração forçada pela miséria e pela guerra colonial, bem como o aparecimento, nas periferias das grandes cidades, de bairros de lata (fruto do começo da desertificação do interior), eram, no começo dos anos 60, realidades inseridas a fogo no quotidiano dos Portugueses.

Nos 80 anos do nascimento de José Afonso (III)

(continuação daqui)

A. Que voz é esta?

Na nota introdutória a Cantares (1ª edição, Tomar, 1967), Manuel Simões interroga-se: «De facto, ao ouvir-se José Afonso pela primeira vez, há uma pergunta que logo nos acode: – ‘Que voz é esta, tão nova e substantiva, que imediatamente se nos torna familiar? ‘. De tal modo se identifica com as nossas aspirações que nos parece tratar-se de uma voz que sempre nos acompanhou». Escritas estas palavras, ainda antes do Maio de 68, a voz do Zeca iria acompanhar-nos ainda pelos vinte anos que se seguiram e durante os quais tantas coisas mudaram nas nossas vidas. Agora, mais de vinte anos após se ter fisicamente silenciado, ela continua a viver dentro de nós, acompanhando-nos como um imperecível eco de expectativas iludidas, de aspirações não realizadas e de persistentes injustiças. Continua sendo a nossa voz.

Infância – «uma larva branca»

Ao evocar o nascimento e a infância, Zeca refere «uma luz láctea; uma luz imanente, uma luz muito vital (…) uma larva branca». Em termos menos poéticos, digamos que nos três primeiros anos de vida, enquanto os pais vão para Angola, por uma questão de saúde, ficará em Aveiro, na casa da Fonte das Cinco Bicas, deixado ao cuidado do tio Chico (republicano e anticlerical) e da tia Gegé. Em 1933, somente com três anos e meio, vai para Angola, para onde seus pais tinham ido já em 1930. Seu pai fora colocado como Delegado do Ministério Público em Silva Porto (actual Menongue). Ficará três anos em Angola, ali iniciando a instrução primária. África surge aos seus olhos de criança como «uma coisa imensa, uma natureza inacessível que não tinha fim» (…) «as grandes trovoadas, os gafanhotos, florestas, travessias de rios em barcaças.» Em 1936 regressa a Aveiro, onde ficará ao cuidado de umas tias «afáveis», usando uma expressão do próprio Zeca. No ano seguinte, já com oito anos, irá para Moçambique: «Pouco tempo ali estou, mas é de novo o paraíso» (…) «Eu sonhava nunca mais abandonar aquela terra». Mas a itinerância continua: em 1938 volta a Portugal, ficando em casa de seu tio Filomeno, presidente da Câmara Municipal de Belmonte. Comandante da Legião e salazarista, homem que gosta muito de dançar a valsa e o tango. Em Belmonte conclui a instrução primária. Segundo o Zeca, este é o pior ano da sua vida.

B. Coimbra – das serenatas aos primeiros discos

Em 1940 vai para Coimbra ao cuidado de uma tia paterna, a tia Avrilete, matriculando-se no Liceu D.João III. Neste liceu conhecerá António Portugal e Luiz Goes, futuros companheiros de andanças musicais. Entretanto, seguindo novamente a itinerância profissional de seu pai, a família vai de Moçambique para Timor, que em 1942 é invadido e ocupado por forças japonesas. Até 1945, ano em que termina a II Guerra Mundial, Zeca ficará sem notícias dos pais e da irmã Mariazinha (João, seu irmão, viera também para Portugal). Por volta de 1945, começa a cantar serenatas. Gozando do estatuto de «bicho-cantor», não sofre os tormentos praxistas que as trupes reservam aos estudantes liceais. Não sendo demasiado aplicado, é reprovado dois anos e só em 1948, com quase 19, conclui o curso dos liceus. Nesse mesmo ano, casa com Maria Amália de Oliveira. Viaja em digressões com a Tuna Académica e pratica futebol na Associação Académica de Coimbra.

Em 1949, dispensa no exame de aptidão à Universidade, matriculando-se na Faculdade de Letras, no primeiro ano do curso de Ciências Histórico-Filosóficas. Integrado no Orfeão Académico, vai a Angola e a Moçambique. Na Universidade convive com os cantores Augusto Camacho, Fernando Machado Soares e Napoleão, com o guitarrista António Brojo e com os seus companheiros do liceu Luiz Goes e António Portugal. Contacta também duas figuras cimeiras do fado coimbrão – os guitarristas Artur Paredes (pai do grande Carlos Paredes, que virá a conhecer em Grândola, na memorável sessão da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, em Maio de 1964) e Flávio Rodrigues, o famoso «guitarrista-barbeiro». Em 1953, nasce José Manuel, seu primeiro filho. Para sobreviver, dá explicações e faz a revisão ortográfica do Diário de Coimbra. São editados os seus dois primeiros discos (em 78 r.p.m.).

C. Militar «sem aprumo» e professor «indisciplinador» – cantautor genial

Começa a cumprir em Mafra, no C.O.M., dois anos de serviço militar obrigatório. Mobilizado para Macau, salva-se desta viagem por motivos de saúde, vindo depois a ser colocado num quartel em Coimbra. «Fui o menos classificado de todo o curso por falta de aprumo militar». Em 1954, nasce a sua filha Helena, e Zeca tem grandes dificuldades em sustentar a família. Em 1958, dadas essas dificuldades económicas, envia os dois filhos para junto dos avós, então de novo em Moçambique. Em 1956 é editado o seu primeiro LP – Fados de Coimbra. Em 4 de Dezembro de 1957, actua em Paris no Teatro «Champs Elysées», acompanhado por Fernando Rolim, pelas guitarras de António Portugal e de David Coimbra e pelas violas de Sousa Rafael e David Leandro. Ainda estudante, dá aulas num colégio particular de Mangualde e, depois, como professor-provisório da Escola Industrial e Comercial de Lagos. Em 1959, leccionará na Escola Industrial e Comercial de Faro: «A minha acção como professor era mais de carácter existencial, na medida em que queria pôr os alunos a funcionar como pessoas, incutir-lhes um espírito crítico, fazer com que exercitassem a sua imaginação à margem dos programas oficiais». Um «indisciplinador de alunos», é como Zeca se auto classifica e sintetiza a sua acção docente. É também neste ano que começa a cantar em colectividades populares. Em Faro convive com o casal de poetas Luísa Neto Jorge e António Barahona da Fonseca e ainda com António Ramos Rosa. É, em 1960, colocado por alguns dias num colégio de Aljustrel, sendo posteriormente transferido para a Escola Comercial e Industrial de Alcobaça onde permanecerá até ao final do ano lectivo. Em 1960 é editado o disco Balada de Outono (Menino de Ouro e Senhor Poeta), o quarto na discografia de Zeca. Sobre a Balada, diz: «Dominada ainda pelo velho espírito coimbrão, é o produto de um estado perpétuo de enamoramento» (…) uma espécie de revivescência tardia da juventude».

Nos 80 anos do nascimento de José Afonso (II)

(continuação daqui)

1973: Em Abril, é detido, pela PIDE/DGS, 20 dias na prisão de Caxias. Em Dezembro sai o álbum Venham Mais Cinco.
1974/75: Em 29 de Março de 1974, realiza-se no Coliseu dos Recreios um «Canto Livre» onde, além de Zeca, participam outros cantores. Acabam, interpretando Grândola, Vila Morena. Oficiais do MFA que assistem ao concerto, escolhem nesta altura a senha para o arranque do levantamento militar. É editado o álbum Coro dos Tribunais.

Após o 25 de Abril, Zeca entra numa fase de intensa intervenção em festivais e sessões de esclarecimento. Canta em quartéis, em fábricas, em escolas, em colectividades, em serões de solidariedade internacional; apoia o MFA na animação cultural junto da emigração e na recolha de fundos para a Reforma Agrária… Actua em Angola. Em Itália, organizações de esquerda editam o álbum República. 1976: Apoia a candidatura de Otelo à presidência da República. Edita o álbum Com as Minhas Tamanquinhas. Pelo seu álbum Cantigas do Maio, recebe o Prémio Alemão do Disco (da Academia Fonográfica Alemã). 1978: Edita-se o álbum Enquanto Há Força. 1979: Sai o álbum Fura Fura. 1981: Grava Fados de Coimbra e Outras Canções. Realiza um espectáculo no Théatre de la Ville, em Paris. 1982: Sente os primeiros sintomas da doença degenerativa que o virá a vitimar. 1983: Em Janeiro actua no Coliseu dos Recreios de Lisboa. Em Dezembro, sai o álbum Como Se Fora Seu Filho. 1984: Em Abril, em Questões e Alternativas, é publicado um depoimento de Zeca sobre o balanço de dez anos de democracia.

1985: Sai o álbum Galinhas do Mato. 1986: Apoia a campanha presidencial de Maria de Lourdes Pintasilgo. 1987: Em 23 de Fevereiro, no Hospital de São Bernardo, em Setúbal, com 57 anos, José Afonso morre. 1992: Sai a 3ª edição de Cantares. 1994: o Presidente da República, Mário Soares, quer condecorar postumamente José Afonso com a Ordem da Liberdade. Tal como Zeca fizera a igual proposta de Ramalho Eanes, Zélia recusa. 1996: Coordenada por José Niza, é reeditada em CD uma colecção de toda a obra de José Afonso. 1997: Em 23 de Fevereiro, é inaugurado na Baixa da Banheira um monumento a José Afonso. 1999: Em Grândola e na Amadora são inaugurados monumentos em sua homenagem.

(continua amanhã)

Nos 80 anos do nascimento de José Afonso (I)

Nota: No dia 2 de Agosto, completam-se 80 anos sobre o nascimento de José Afonso. Para assinalar a data, o Aventar vai publicar diariamente, a partir de hoje, no dia em que é inaugurada a Exposição «José Afonso 80 Anos», um «post» sobre a vida e obra do mais genial dos nossos Cantautores. Porque, se hoje fosse vivo, o Zeca teria certamente muito a dizer sobre aquilo que é hoje Portugal. A falta que o Zeca nos faz…

1929: Em 2 de Agosto nasce em Aveiro José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, filho do juiz José Nepomuceno Afonso e da professora do ensino primário Maria das Dores Dantas Cerqueira. Virá a ser conhecido por José Afonso, por Zeca Afonso ou, ainda apenas por Zeca. 1933: Com três anos e meio, vai para Angola, (os pais tinham ido já em 1930) – o pai fora colocado como Delegado do Ministério Público em Silva Porto. Estará três anos em Angola, ali iniciando a instrução primária. 1936: Regressa a Aveiro. 1937: Vai para Moçambique, para onde seu pai fora transferido. 1938: Regressa a Portugal, ficando em casa de um tio, presidente da Câmara de Belmonte, onde conclui o ensino primário. 1940: Ruma a Coimbra, matriculando-se no Liceu D.João III. 1945: Começa a cantar serenatas.1948: Conclui o curso dos liceus, casando depois com Maria Amália. Viaja em digressões com a Tuna Académica e pratica futebol na Associação Académica. 1949: Matricula-se em Letras, no curso de Ciências Histórico-Filosóficas. Integrado no Orfeão Académico, vai a Angola e a Moçambique. 1953: Nasce José Manuel, seu primeiro filho. São editados os seus dois primeiros discos (em 78 r.p.m.). 1953/55: Cumpre em Mafra dois anos de serviço militar, sendo depois colocado em Coimbra. Em 1954, nasce a sua filha Helena. 1956: É editado o seu primeiro LP – Fados de Coimbra 1957/59: Em 4 de Dezembro de 1957, actua em Paris no Teatro «Champs Elysées». Ainda estudante, dá aulas num colégio de Mangualde e, depois, como professor-provisório da Escola Industrial e Comercial de Lagos. Em 1959, ensinará na Escola Técnica de Faro. Começa a cantar em colectividades. 1959/60: Por alguns dias, ensina num colégio de Aljustrel, sendo depois transferido para a Escola Técnica de Alcobaça onde estará até ao final do ano lectivo. Em 1960 é editado o disco Balada de Outono (Menino de Ouro e Senhor Poeta) 1962: Nos Estados Unidos sai o álbum Coimbra Orfeon of Portugal, que inclui duas baladas de Zeca: Minha Mãe e Balada Aleixo. Participa em digressões pela Suiça, Alemanha e Suécia. 1963: Conclui o curso, com uma tese sobre Sartre. Divorcia-se de Maria Amália, casando depois em Olhão com Zélia. Sai o LP Baladas e Canções (Ronda dos Paisanos, Altos Castelos, Elegias…). É editado o disco Baladas de Coimbra que inclui Os Vampiros e Menino do Bairro Negro.
 

1964: Sai um novo disco – Coro dos Caídos, Maria, Vila de Olhão, Canção do Mar. Em Maio, actua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, à qual dedica Grândola, Vila Morena. É editado o EP Cantares de José Afonso. Sai também a público o álbum Baladas e Canções. Neste ano parte para Lourenço Marques, aqui leccionando e, depois, em 1966 e 1967, na Beira. 1965: Nasce a sua filha Joana. 1967: Regressa a Portugal. É colocado como professor em Setúbal. Adoece e é internado numa clínica. Quando sai, fora expulso do ensino. Mais tarde é readmitido, mas opta por se dedicar à música. É publicado o livro Cantares, que depressa se esgota. Sai uma segunda edição que será apreendida pela polícia política. 1968: É editado o álbum Cantares do Andarilho. Zeca participa na CDE de Setúbal durante a campanha para eleição de deputados à Assembleia Nacional que se segue à morte política de Salazar. 1969: Saem o álbum Contos Velhos, Rumos Novos e o single Menina dos Olhos Tristes e Canta Camarada. Recebe o prémio da Casa da Imprensa para o melhor disco. Nasce o seu filho Pedro. 1970: É lançado o livro Cantar de Novo e editado o álbum Traz Outro Amigo Também. Em Cuba participa num Festival Internacional de Música Popular. Em Dezembro, sai o álbum Cantigas do Maio.
 

1971: É, pela terceira vez, distinguido com o prémio da Casa da Imprensa. 1972: É eleito por votação dos leitores do Diário de Lisboa, como «Rei da Rádio» e actua no Festival Internacional da Canção Popular do Rio de Janeiro. Grava em Madrid Eu Vou Ser Como a Toupeira. É editado o livro José Afonso.

Apontamentos & Desapontamentos: Viajando por Cuba

cuba
Apesar do desapontamento (que se seguiu ao fascínio), quando em 1962, na sequência da chamada «crise dos mísseis», para se proteger dos Estados Unidos, Cuba foi forçada a transformar-se num satélite da União Soviética, aqueles primeiros três anos da Revolução Cubana, tal como os 18 meses da nossa Revolução dos Cravos, foi algo que marcou os jovens daquela época. Não escapei à regra. Ouvir o verbo emocionado e emocionante de Fidel, lendo na Praça da Revolução, as declarações de Havana, particularmente a segunda, era arrepiante. Daí este apontamento.
Embora as minhas ilusões sobre a Revolução Cubana há muito tivessem morrido, era um projecto meu visitar Cuba, como quem revisita a juventude e algumas das ilusões perdidas (porque há outras que nunca se perdem e é isso que nos mantém vivos). Há poucos anos atrás, com a minha mulher e um casal amigo, metemos mãos à obra. As agências só ofereciam pacotes inaceitáveis – três dias em Havana e quatro em Varadero. Mas nós íamos lá fazer uma viagem de tantas horas, atravessar o Atlântico para ir à praia, com a Caparica, as praias da linha ou o Algarve aqui tão perto? Lá descobrimos uma alternativa aos pacotes usuais. Uma boa alternativa que agora vejo que já está mais divulgada. Um carro de aluguer à nossa espera no aeroporto de Havana, hotéis reservados por um itinerário escolhido por nós, a começar e a acabar na capital – Havana, Matanzas, Cienfuegos, Sancti Spíritus, Camagüey, Ciego de Ávila, Santiago de Cuba, Trinidad, Santa Clara, Havana… Tudo por um preço razoável, pouco acima do que custavam os tais pacotes usuais. Durante duas semanas percorremos quase quatro mil quilómetros, vimos o que queríamos, sem guias turísticos a incomodar-nos. E lá fomos à Baía dos Porcos, ao Quartel de Moncada, à Sierra Maestra, ao museu da Revolução, a todos os lugares de culto. Visitámos Havana em pormenor, fomos aos locais frequentados por Hemingway, e até almoçámos em Varadero. Varadero é um local de veraneio, sem nada de especial (a não ser o mar maravilhoso das Caraíbas) – Hotéis, edifícios de apartamentos, etc. Nada, nesse aspecto, que Vilamoura ou Torre Molinos não tenham – tal como pensávamos, não se justifica ir tão longe. Mas o nosso itinerário foi uma maravilha.
*
Falámos com muita gente. Pudemos verificar que, apesar de algum medo à repressão (que inegavelmente existe), as pessoas falaram connosco com à-vontade. Encontrámos mais descontentes nas grandes cidades, Havana e Santiago, principalmente. De facto, as condições de vida são constrangedoras. Racionamento dos bens mais elementares – lâminas de barbear, pensos higiénicos, géneros de primeira necessidade, arroz, ovos, leite, tudo é racionado. As casas de Havana, algumas lindíssimas, estão em ruínas. O turismo é uma das saídas. Cozinha-se em casa para os turistas. São os chamados «paladares», alternativas aos restaurantes. Combina-se previamente, escolhe-se a ementa e à hora combinada lá temos a mesa posta e anfitriões dispostos a deixar-nos sós ou a conversarem connosco, como preferirmos. Pelas ruas andam pessoas das mais diversas idades a cooptar clientes para os paladares. Em Ciego de Ávila um professor universitário de avançada idade andava nesta tarefa, recitando de memória poemas de Nicolás Guillén. Para não falar da prostituição, mais ou menos encoberta, que pessoas normalíssimas, qualificadas, quase todas com cursos superiores, se vêem obrigadas a praticar para completar ordenados baixíssimos. A prostituição em Cuba é, de uma maneira geral, uma forma desesperada de sobrevivência
Nos campos, sobretudo em granjas colectivas, encontrámos mais adeptos do regime, gente saudando-se de punho cerrado. Também é verdade que nos campos a vida não é tão difícil, pois os bens alimentares essenciais são ali criados e, portanto, escasseiam menos. Porém, numa coisa todos estão irmanados, fidelistas, antifidelistas: no ódio ao ianque. Mesmo os opositores ao regime, têm consciência de que sem o bloqueio norte-americano, o povo não sofreria tanto.
É evidente que o bloqueio tem perpetuado a ditadura e impedido o advento da democracia. Toda a gente sabe isso. Só a CIA e a Casa Branca se obstinam em não o reconhecer. E Obama, que parece ser mais inteligente do que a generalidade dos antecessores, poderá, mesmo que queira, contrariar a CIA e os falcões do Pentágono?

«Vamos bien» diz cartaz. Não. Não vão nada bem. Vão até bastante mal. Em todo o caso, vão sobrevivendo, o que só por si já constitui um milagre.

Falando de democracia: Espanha, ontem e hoje

Hoje, 18 de Julho, faz 73 anos que eclodiu a Guerra Civil de Espanha. Estava-se em 1936. O conflito só terminaria quase três anos depois, em 1 de Abril de 1939. Morreu cerca de meio milhão de pessoas. 73 anos na escala humana anos são uma vida, são muito tempo. Porém, à escala da História, não são nada. A Guerra Civil de Espanha foi ontem. Aproveito para uma reflexão sobre quanto, desde ontem para hoje, a direita (tal como a esquerda) mudou. Em Espanha e não só. O vídeo é anódino, meramente informativo. No youtube encontram-se outros mais impressivos, mais dramáticos, e também, de uma forma geral, mais parciais.

Não vos vou contar a História recente de Espanha. Por certo, muitos de vós a conhecerão melhor do que eu. Lembro apenas que em 16 de Fevereiro de 1936, em eleições livres e democráticas, uma frente de esquerda, resultante da aliança dos anarquistas com os partidos republicanos, a chamada Frente Popular, venceu, proclamando-se a II República (a I República vigorara entre 11 de Fevereiro de 1873 e 29 de Dezembro de 1874). A direita militar espanhola, as classes possidentes, a Igreja católica, suportaram mal o clima de controvérsia dos primeiros passos do jovem regime. Clima que adensaram com provocações e actos insensatos (que os houve de ambos os lados), mas vitimizando-se sempre a direita, cometendo dislates e crimes, mas comportando-se sempre com o tom pudicamente ofendido de uma virgem num bordel. Em suma, todas as forças reaccionárias, aproveitando como pretexto os erros das esquerdas se mancomunaram para derrubar a República. Os pormenores históricos estão ao dispor, em livros, em filmes, não os vou repetir. Direi só que os generais golpistas de 18 de Julho de 1936 deram corpo a tudo o que de mais sinistro existia no substrato daquilo a que se chama a «alma espanhola» e que mais não é do que um crisol onde se misturam sentimentos e interesses contraditórios, nacionalidades sufocadas, quezílias seculares mal resolvidas; em suma, a «alma espanhola» é um cliché e como a maioria dos clichés não passa de uma treta. Três anos e quase 500 mil mortos depois a guerra terminou com a vitória da direita. As trevas da repressão abateram-se sobre Espanha – foram quase quarenta anos de ditadura de uma direita reaccionária, ressabiada, raivosa. Estúpida como só as ditaduras (as ditas de esquerda também) sabem ser.

Embora os objectivos continuem a ser os mesmos – conservação de valores considerados intemporais, tais como os privilégios de classe, prevalência da religião como cimento dum edifício mais torto do que a torre de Pisa – o estilo mudou. Um derradeiro assomo deste estilo arruaceiro no estado espanhol foi o assalto golpista ao Congresso, em 23 de Fevereiro de 1981, por forças da Guarda Civil comandadas pelo tenente-coronel Tejero. Rajadas de pistola-metralhadora e gritos de «Quieto todo el mundo! Al suelo! Al suelo!». Don Juan Carlos fez a sua rábula de democrata (coisa que podia e deveria ter feito dez ou vinte anos antes, durante o reinado de Franco). A própria direita condenou o acto e, pronto, tudo acabou em bem.

Hoje as coisas não são tão visíveis, tão claras como eram há setenta anos. A direita descobriu o seu nicho ecológico no seio da democracia. Não sei se já repararam que todos, ou quase todo, os partidos de direita fazem questão de incluir na sua sigla a palavra «democrata», «democracia»… A nova direita adaptou-se à democracia; mais – não saberia já viver noutro sistema. Mas…

A ideia da extinção dos conceitos de direita e de esquerda já não se justificarem no pós-modernismo é uma ideia de direita; ouvia-a, já há muitos anos, defendida pela primeira vez em Portugal, falando de pessoas conhecidas, pelo Professor Freitas do Amaral num debate televisivo. Porém, já ouvira a afirmação, feita com menor consistência e autoridade, a pessoas comuns, com aquele ar com que se fala de coisas ultrapassadas. Porque a direita actual tem vergonha da direita de ontem, tal como aqueles filhos licenciados que se envergonham dos pais analfabetos os quais, em todo o caso, lhes punham todos os dias a comidinha na mesa. Mussolini, Hitler, Salazar, Franco, Auschwitz, Tarrafal, Guernica, Gestapo, Pide, tortura… «Ih, que nojo!».
A designação até pode vir a cair em desuso. O que esse desuso não extinguirá é a realidade subjacente à classificação. E aqui sou forçado a emitir uma definição pessoal. Para mim, a distinção entre direita e esquerda pressupõe uma clivagem, entre os que querem conservar valores que implicam a manutenção das desigualdades sociais e os que, sem se importarem com esses valores, querem transformar a sociedade e promover uma igualdade absoluta dos cidadãos perante a lei, bem como o acesso de todos, de modo igual, aos bens que a comunidade, no seu conjunto, puder produzir. Quando a direita aceitar isto sem reservas, deixará de ser direita e, então sim, deixará de se justificar a distinção.

Quando Manuela Ferreira Leite, comentando reformas do Governo perguntou, há meses atrás, se «não seria bom haver seis meses sem democracia para pôr tudo na ordem» obviamente que não está a pensar em instaurar uma ditadura no estilo das do século passado. Mas esqueceu-se de dizer como seria governado o país durante esse semestre – por ela? Pelo seu partido? O que significa «pôr tudo na ordem?» – acabar com os protestos dos professores? Silenciar os sindicatos? Não quero dar demasiada ênfase a uma frase dita durante um almoço, apenas me parece que esta afirmação (que até pode ter sido um raro assomo de ironia da sisuda senhora) revela o chamado «acto falhado», a involuntária verbalização de uma nostalgia do tempo em que «tudo estava na ordem». Passou o tempo dos ogres fascistas. Como um rottweiler domesticado, a direita apresenta-se civilizada e, sobretudo, muito democrática.
Mas a dentição e o apetite continuam lá.

A Guerra Civil de Espanha começou faz hoje 73 anos. Foi há muito tempo. Foi ainda ontem.

Falando de Democracia: A «República da Atlântida»

Desde que Platão em Timeu e a Natureza e em Crítias se referiu a um misterioso continente perdido, o mito da Atlântida tem dado lugar a narrativas de toda a espécie e a mil e uma teorias, uma ou outra com algum suporte científico. Uma dessas teorias, situa a Atlântida na chamada região da Macronésia, que abrange as Canárias, a Madeira, Cabo Verde e os Açores. Estes arquipélagos seriam os pontos mais elevados do continente tragado pelo oceano devido a uma catástrofe (e as hipóteses vão desde o Dilúvio, a uma bomba nuclear, talvez lançada por extra-terrestres…).
Em 1931, ia a Ditadura Militar instaurada em Maio de 1926, no quinto ano de vigência, quando em Abril, eclodiram na Madeira, nos Açores, na Guiné, uma série de levantamentos militares contra o Governo. Desde a Grande Depressão de 1929, Salazar então Ministro das Finanças, impusera medidas que, tentando restringir os efeitos dessa «crise global», como hoje diríamos, obrigava a população mais carenciada a complicadas ginásticas para resolver problemas básicos de subsistência. As liberdades democráticas que tinham ficado da I República, iam sendo, uma a uma, suprimidas. Daí as revoltas insulares desencadeadas por militares. Foram rapidamente juguladas, menos a da Madeira que, devido ao grande apoio popular que teve, resistiu durante alguns dias às tropas e aos navios de guerra que foram enviados do continente. Os revoltosos eram, mais ou menos coordenados pela chamada «Liga de Paris», directório de refugiados políticos portugueses na capital de França. Esperava-se que as unidades continentais aderissem, o que não aconteceu. Só em 26 de Agosto foi desencadeada em Lisboa uma outra revolta militar e civil, orientada no sentido de repor as liberdades fundamentais coarctadas pela Ditadura, que após a rendição dos revoltosos, se cifrou em cerca de quarenta mortos e duzentos feridos. Os revoltosos das ilhas chegaram a ponderar proclamar a independência daquilo a que chamaram a «República da Atlântida». Feita por militares na sua maioria continentais colocados nas unidades sediadas na Madeira, foi a primeira ameaça de secessão que dali nos chegou. Mas não seria a última, pois agora essas ameaças chegam-nos com muito maior frequência. Primeiro foi a FLAMA, Frente de Libertação do Arquipélago da Madeira, que se terá extinguido em 1978. Daí para cá, ou são alguns dirigentes históricos do movimento separatista ou o próprio presidente da Região Autónoma que, de forma explícita ou implícita, agitam esse fantasma.
Tudo isto, vem a propósito das bandeiras separatistas que, em 25 de Abril de 2009 foram colocadas no Palácio de São Lourenço, sede da representação da República, e noutros locais do arquipélago. Um dos elementos do núcleo fundador da FLAMA, Costa Miranda, afirmou que a FLAMA nada teve a ver com a acção. Daniel Drummond, outro dos históricos, acrescentou que o hasteamento das bandeiras terá vindo de «pessoas com altos cargos na região, estejam na Quinta da Vigia (presidência do Governo Regional) ou na Quinta Magnólia», também propriedade do Governo regional. Num documento que acompanhou a colocação das bandeiras, afirma-se que os Madeirenses «não querem pertencer a um país governado por um corrupto que deveria estar preso». Costa Miranda nega que a FLAMA seja autora do comunicado – «Não tem qualquer semelhança com os nossos comunicados, nem no estilo nem na ortografia e gramática. É um plágio tosco, rude e grosseiro». E diz outra coisa muito esclarecedora: «Levantar neste momento o espantalho da independência só interessa a quem quer colher dividendos políticos na guerra com Lisboa.» A mesma pergunta – com resposta diferente – a quem se estará a referir?
Pergunta-se: quererão os Madeirenses ser independentes? Vou com alguma frequência ao arquipélago e, de uma forma geral, a população aparece-me tão portuguesa como a de qualquer outra região do País. Os Madeirenses e Porto-santenses, têm as suas especificidades dialectais, culturais, tal como os Beirões ou os Alentejanos, mas nada me faz pensar que queiram ser independentes. É totalmente falaciosa a comparação com a Catalunha, que ouço frequentemente fazer (Alberto João passeou-se na praia de Porto Santo com um boné que dizia Catalunya Lliure ou algo no género). A Catalunha, unida a Aragão, foi uma nação independente durante séculos, tem um idioma próprio, uma História e uma cultura diferenciadas. A ideia da independência madeirense, só a vi defendida por Muammar Kadhafi, por Jardim e pelos seus apaniguados.
Outra pergunta pertinente a colocar é se a independência do arquipélago seria economicamente sustentável. Note-se que a Madeira gasta actualmente mais do que produz e o orçamento nacional suporta o défice. Não que isso me choque, porque a solidariedade nacional obriga a que não discutamos pormenores contabilísticos.
Não compartilho a ideia que já vi defendida por muito boa gente – «se querem ser independentes, que sejam», dizendo isto como quem vê a oportunidade de nos desfazermos de uma fonte de despesa. A Madeira é uma região linda – tal como o Algarve ou o Minho – e é um privilégio dos Portugueses ter um território com tanta beleza espalhada por todas as suas regiões. Portugal sem a Madeira (ou sem o Alentejo), não seria o mesmo. O que é insuportável é que seja o Governo Regional, por vezes em intervenções oficiais, a ameaçar impunemente, perante o silêncio cúmplice de quem chefia o Estado e governa o País, com grande e rude clareza – «ou pagam ou vamo-nos embora». É uma chantagem sem qualquer base democrática, pois duvido que os Madeirenses, na sua generalidade, queiram que as suas maravilhosas jangadas zarpem de Portugal.
Para aportar aonde?

Irão em mudança

Apontamentos & Desapontamentos: Acabar de vez com o trabalho. Uma solução para o desemprego

desemprego
Um dos aspectos que sempre me seduziu na argumentação do ensaísta francês Albert Jacquard (1925) é a sua consistente defesa de uma sociedade futura menos voltada para o consumo e mais evoluída culturalmente, com uma consciência colectiva que ultrapasse interesses pessoais, de classe, de género, etnia, de religião ou quaisquer outros. Mais pobre materialmente e mais rica humanisticamente., regredindo do ponto de vista da posse de bens individuais e evoluindo no sentimento de pertença a uma comunidade de milhares de milhões de pessoas. Mais voltada para o ser do que para o ter. A sua teoria de um «decrescimento sustentável», radica na tomada de consciência de que o crescimento descontrolado das economias conduzirá, com o aumento exponencial da população, ao caos social e ao extremar das desigualdades, dado que os recursos do planeta são limitados, finitos. Hoje não é dia de desapontamento, mas sim de apontamentos.
Apontamentos tomados durante uma intervenção de Jacquard numa jornada de debate interdisciplinar sobre o desenvolvimento territorial a partir das relações entre educação, acção meio-ambiental e cultural, realizada no Centre d’Estudis i Recursos Cultural de Barcelona e a que assisti há uns anos atrás. O que se segue é fruto das notas que tomei, auxiliadas por uma entrevista que no dia seguinte Jacquard deu, salvo erro, ao La Vanguardia e onde pude colher elementos que me tinham escapado na véspera. Não tenho a pretensão de reproduzir textualmente o que o sábio disse, mas sim de resumir o sentido daquilo que disse. Remeto-vos para a leitura dos seus livros, alguns dos quais estão traduzidos em português.
Começou a sua palestra com uma citação de Valéry – «Le temps du monde fini commence», «agora que fomos à Lua, pudemos ver como a Terra é pequena», disse. Em contrapartida, a população não pára de crescer. Dentro de um século seremos dez mil milhões. Temos de reflectir como poderão essas pessoas viver neste pequeno planeta e, para isso, temos de ser lúcidos. A ciência trar-nos-á essa lucidez, pois permite compreender como se fabrica um indivíduo a partir do património genético. Temos de saber ver a nova realidade do mundo. Somos quatro vezes mais do que éramos no princípio do século XX. Se procedermos sem reflectir, desembocaremos na destruição da humanidade ou, em alternativa, na supressão de toda a liberdade. Temos de administrar criteriosamente os recursos do planeta, não podemos ter tantos filhos. Numa Terra pequena tem de se limitar a natalidade.
Quanto ao envelhecimento da população, isso, segundo Jacquard, não é um mal. A velhice traz mais experiência. Veja-se, cada vez há menos trabalho porque há mais robots. Quando houver mais pessoas com mais de 65 anos do que jovens, terá de haver uma adaptação a essa realidade. O objectivo da vida humana não é trabalhar, mas sim desenvolver-se e isso pode fazer-se em qualquer idade. Isto é uma utopia, mas estamos condenados à utopia, afirmou. Os utópicos mais fantasiosos são os que vêm o mundo daqui a cem anos como uma projecção do actual. Ao contrário, os mais realistas são o que o vêm diferente. E uma vez que assim será, mais vale imaginá-lo.
No que se refere ao preocupante problema do crescente desemprego, Jacquard fez uma afirmação surpreendente – O ideal é que não haja trabalho. O problema do desemprego será resolvido quando ninguém trabalhar. Hoje, para produzir alimentos ou viaturas, precisa-se de cem vezes menos trabalho do que há um século. Portanto, devíamos ter cem vezes mais tempo livre. Não soubemos multiplicar os tempos livres. E os tempos livres são o tempo que se dedica à cultura.
Quanto à manipulação genética, Jacquard fez parte durante quatro anos do Comité Nacional de Ética onde discutiu essa questão. Na sua opinião, a manipulação genética foi até agora benéfica. Permitiu avançar na investigação sobre o ADN e começar a curar mais eficazmente certas doenças. Pode também desembocar em aplicações perigosas. Deve proibir-se determinadas aplicações, sem bloquear a investigação. A clonagem humana, por exemplo, seria dramática; tecnicamente possível, é uma abominação. Muitas vezes um êxito técnico ou científico pode constituir uma catástrofe humana.
Enfim, segundo Jacquard, não estamos inevitavelmente condenados ao caos e à catástrofe. A superpopulação, a escassez de recursos do planeta e temas mais imediatos como o desemprego, têm afinal solução. O nosso futuro depende daquilo que fizermos hoje. Afinal, podemos (poderíamos?) ser os deuses do nosso próprio devir.

Apontamentos & Desapontamentos: Consumo

colombo
Mais uma vez recorri ao dicionário do saudoso amigo José Pedro Machado e, mais uma vez, ele não me deixou ficar mal. Desta feita a consulta foi à palavra Consumir. A entrada diz: «v. tr. (do lat. Consumere). Gastar, destruir, extinguir, corroer até completa destruição. Enfraquecer, abater.» E continua com muitas outras acepções terminando com «Enganar, iludir». Pelo meio, tem as acepções mais comuns – «Dar extracção, procurar géneros alimentícios, artigos fabricados, etc.\\ Despender, gastar ||» e outras menos comuns «Matar, assassinar. || Devorar em silêncio. E entra no foro da liturgia católica:
«Desfazer a hóstia na boca. || Receber (o sacerdote), na missa, o corpo e o sangue de Cristo, sob as espécies do pão e do vinho consagrados.» Está aqui a entrada quase toda, não escamoteei acepções importantes. Não esqueçamos, porém, que a primeira acepção, é sempre a mais importante – «gastar, destruir, extinguir, corroer…» Em épocas de penúria, ansiávamos por poder comprar, consumir. Mas estou desapontado com a abundância da oferta que veio desembocar no consumo.
Corroer até à completa destruição, eis uma boa definição do que é o consumo, quando elevado à categoria de projecto de vida. Vou contar-vos uma história. Um homem, cujo nome é relativamente, conhecido e com o qual privei profissionalmente durante algum tempo, perseguido pela polícia política na sequência do 18 de Janeiro de 1934, a chamada Revolta da Marinha Grande, fugiu para Espanha em cuja Guerra Civil combateu integrado no Exército Republicano (pois casara com uma valenciana). Derrotada a República, esteve num campo de refugiados em França de onde foi evacuado para a União Soviética. Aí viveu e trabalhou até quase ao fim dos anos 60, altura em que foi para Cuba. Por volta de 1970, com mais de cinquenta anos, tendo garantido que não se envolveria em movimentos políticos, foi autorizado a voltar a Portugal com a família. O barco de onde veio de Havana aportou a Valência. Habituado ao rígido racionamento que vigorava, quer na URSS, quer em Cuba, quando entrou pela primeira vez num supermercado, foi por diversas vezes perguntar a uma empregada se podia comprar duas pastas de dentes, depois se podia levar duas ou três latas de feijão, quatro pacotes de lâminas de barbear… até que agastada a empregada lhe disse: – Desde que pague, pode levar o supermercado inteiro – O meu amigo chorou de emoção. Não lhe era fácil conceber tanta abundância à sua disposição. Nesta facilidade de comprar, reside o grande fascínio do consumo – mesmo que não tenhamos dinheiro vivo, podemos sempre utilizar cartões de crédito… Compra-se por impulso, o gesto de tirar os produtos das prateleiras e de os pôr no carrinho é gratuito. Só na caixa nos apercebemos do dinheiro que gastámos. Tem-se a falsa sensação de que as coisas não custam dinheiro.
Ainda há relativamente poucos anos, vivíamos numa economia de poupança – as roupas usavam-se enquanto duravam, os géneros alimentícios não tinham prazo de validade, sendo esta determinada pelo bom ou mau aspecto que os produtos apresentavam, as pastas dentífricas eram gastas até ao fim (havia uns artefactos, primeiro em madeira e depois em plástico, para as espremer), se saíamos de uma sala, apagávamos as luzes… Era, de facto, uma economia e uma cultura de penúria, mesmo para as famílias ditas «remediadas», aquilo a que agora se chama classe média. Hoje, vê-se pessoas com graves problemas económicos, mas que são incapazes de economizar. Não sabem. Nem relacionam o facto de deixarem todas as luzes acesas, de se desfazerem de roupas em bom estado (mas que «já se não usam»), com as dificuldades por que passam e com o facto de a meio do mês já não terem dinheiro e começarem a viver com a conta-ordenado e com o crédito dos cartões levados até ao limite. Nem com o número de chamadas que fazem com o telemóvel, muitas delas (para não dizer a maioria) dispensáveis. Troca-se de carro, embora aquele que se larga possa ser melhor do que o que se adquire. E por aí fora. Consome-se.
Um dos motivos para o aumento do número de divórcios é o facto de ao período (por vezes, prolongado) de namoro, em que os pais continuam a resolver os problemas básicos, se sucede a chamada «vida real» – contas para pagar, coisas para comprar – assuntos «mesquinhos» do dia-a-dia, que dão lugar a discussões mesquinhas e, sobretudo, ao choque de vontades pouco treinadas para serem contrariadas, porque desde o berço foram habituados a não aceitar o não como resposta. E não é uma palavra para ser usada, como qualquer outra. O confronto de vontades, gera discussões e verdadeiros desapontamentos. E aos desapontamentos, seguem-se muitas vezes os divórcios. Habituadas como estão agora as pessoas aos produtos descartáveis, deitam fora uma relação e começam outra. A geração dos famosos anos 60, a minha, tem graves responsabilidades nesta disfunção. Criámos os filhos seguindo o princípio de que era proibido proibir. Essa educação, que quase se traduziu numa ausência de educação, criou estes cidadãos que, generalizando (o que é perigoso) podemos dizer que é uma geração que não luta pelas coisas, não luta inclusive pelo amor – gasta o amor como se fosse um produto descartável.
Em suma, o consumo também consome o amor.

Homenagem a um grande resistente antifascista


Não era um amigo íntimo do Hermínio da Palma Inácio, ao contrário do que algumas pessoas pensam, sabendo-se que escrevi um romance inspirado na tentativa de assalto à cidade da Covilhã, em Agosto de 1968 (A Mão Incendiada). Também, ao contrário do que já se tem dito, não participei nessa acção, por duas razões de peso: não pertencia à LUAR e estava preso em Caxias quando a operação foi preparada. Estive reunido com ele por diversas vezes depois do 25 de Abril, mas a única conversa pessoal que tivemos foi quando, festejando os seus 80 anos, um grupo de amigos organizou um jantar num restaurante do Bairro Alto. Fiquei ao seu lado, conversámos sobre muita coisa e, naturalmente, sobre o livro. Teve a amabilidade de me dizer que, apesar de ser uma ficção, as coisas se tinham passado quase como eu as descrevera. Mérito de um participante na acção, o Fernando Pereira Marques, escritor e, actualmente, professor universitário, que entrevistei por diversas vezes, enchendo cassetes com os pormenores da operação.
Não era um amigo íntimo do Palma Inácio, mas admirava-o muito. Penso que ele foi, como alguém disse, um dos últimos heróis românticos protagonizando actos como os que, durante a ditadura, muitos de nós sonhávamos praticar: Participou ao lado de militares, numa tentativa de golpe de Estado; assaltou um banco (sem provocar vítimas – as armas eram réplicas); desviou um avião da TAP obrigando o piloto a sobrevoar a baixa altitude o centro de Lisboa e lançando panfletos revolucionários;  tentou tomar de assalto a cidade da Covilhã; fugiu das instalações da PIDE, na Rua do Heroísmo, no Porto…
Enquanto alguns sonhavam afrontar o regime (e éramos presos muitas vezes só por ter esses  sonhos) ele desferia-lhe golpes certeiros, uns atrás dos outros. Um herói romântico, parece-me uma boa definição, desde que por «romântico» não se entenda o avesso daquilo que o Palma realmente era – um homem de acção.; um homem para o qual a teoria não era para discutir pelos cafés – era para levar à prática.
Como se dizia no post do Aventar, sem o Palma ficamos todos mais pobres, pois com ele é um pedaço da nossa história recente que desaparece, que se perde. E perde-se um homem muito valente, um resistente e um lutador pela democracia.
 A minha sincera e comovida homenagem.

Apontamentos & Desapontamentos: As «Primaveras» de Praga e a Marcelista

praga
Em Agosto de 1968 (no mesmo mês em que Salazar caiu da cadeira), pondo termo às reformas que o governo de Alexandre Dubcek anunciava, tropas do Pacto de Varsóvia ocuparam Praga e esmagaram aquilo a que já se chamava a «Primavera de Praga». Desde que em 5 de Janeiro Dubcek assumira a liderança do P.C., as coisas tinham-se precipitado, com a censura a ser revogada em Março, a lista pública das reformas a ser apresentada ao povo em Abril, com o documento «Duas Mil Palavras», subscrito por gente de todos os quadrantes da vida checoslovaca, exigindo a abertura política do regime. Em Moscovo soaram campainhas de alarme. Quando os líderes checoslovacos recusaram a convocatória soviética para uma conferência em Moscovo, a paciência russa extinguiu-se – em 21 de Agosto, duzentos mil soldados e cinco mil tanques do Pacto de Varsóvia irromperam em Praga. Dubcek, preso, foi levado para Moscovo. Fim de festa. A primavera daquele verão acabara em inverno.
Os ecos invasão da Checoslováquia duraram mais algum tempo. No ano seguinte o assunto não morrera ainda. Logo em Janeiro, o estudante Jan Palach imolou-se pelo fogo na Praça Venceslau, em Praga. Em Abril deu-se a substituição de Dubcek por Gustav Husak à frente do partido. Pelo mundo fora continuavam a circular entre outros, documentos assinados pelo próprio Dubcek, um longo discurso de Fidel Castro sobre o tema, defendendo e justificando a invasão porque «a Checoslováquia se encaminhava para uma situação contra-revolucionária»; Roger Garaudy assinalava a «liberdade adiada». Todos estes testemunhos saíram num livro coordenado por Isabel do Carmo – «Dossier Checoslováquia», publicado em Dezembro de 1968.
Em Portugal, nesse ano de 1969, já com Caetano no poder, era a «primavera marcelista», com algumas promessas de abertura, que se encaminhava para uma liberdade adiada – a «abertura» limitara-se à mudança de nomenclatura – a PIDE, passou a ser DGS, a União Nacional foi crismada de Acção Nacional Popular… maquilhagens. No essencial, tudo ficava na mesma – a guerra colonial, a repressão, a descarada fraude eleitoral logo nas legislativas de Outubro… Outra falsa primavera.
Porém, tentando dar alguns sinais visíveis dessa abertura, nesse Verão de 1969 veio a Portugal uma delegação da União Soviética. Vinha avaliar as potencialidades de Portugal como destino turístico dos soviéticos – eram gente distinta: generais que haviam combatido em Espanha, bailarinas do Teatro Bolshoi, escritores e um jornalista do Izvestia, que vimos logo ser o chefe político da delegação (homem do KGB, pela certa). Só ele tinha autorização para falar.
Eu estava a viver numa cidade do centro do País. Em Lisboa a delegação colhera a informação de que na cidade onde vivia, que estava no itinerário dos soviéticos, deviam contactar-me. Não que eu tivesse alguma coisa a ver com a URSS ou sequer com o PCP – digamos que era um esquerdista assumido e referenciado (com duas prisões políticas no currículo). O homem do Izvestia/KGB quando chegou telefonou-me e combinámos encontrar-nos nessa noite com a delegação soviética, eu e os amigos que quisesse levar, no hotel da cidade, uma unidade hoteleira de luxo (na altura) que Américo Tomás inaugurara, meses antes, com um longo discurso em que se referiu sempre a uma cidade diferente, embora próxima, numa das famosas gaffes que lhe valeram o cognome de «cabeça-de-abóbora».
Uma meia dúzia de antifascistas locais, homens e mulheres, com a curiosidade de conhecer soviéticos (que para nós eram uma espécie de extra-terrestres) a superar o medo da polícia política, lá fomos ter ao hotel onde tivemos de esperar pelo fim do jantar oferecido pelo presidente da câmara (que no livro da Isabel Flunser Pimentel sobre a PIDE vi, sem surpresa, ser referenciado como agente informador daquela polícia), com ranchos folclóricos e tudo. Sergei, o jornalista viera, mal chegáramos, falando um castelhano impecável, receber-nos, convidando-nos amavelmente a tomar tudo o que quiséssemos e teve depois de voltar para o jantar. Fomos bebendo os nossos uísques e a delegação numerosa (cerca de trinta elementos) lá nos veio cumprimentar. Na sua maioria só falava russo – nós, entre os sete, dominávamos o francês, o inglês e o castelhano. Comunicação cortada, portanto, salvo com os generais combatentes na Guerra Civil, que falavam espanhol e com os quais tentei em vão encetar uma conversa. Estavam todos muito fatigados, disseram (e deviam estar mesmo), sorrisos, beijinhos, abraços e recolheram aos seus quartos, ficando só o Sergei a falar connosco.
Tema inevitável: a Checoslováquia. Todos nós, esquerdalhos impenitentes, condenávamos a invasão. Sergei não se atrapalhou, um a um, com grande mestria, foi contestando os nossos argumentos. Em síntese, a sua defesa da invasão baseava-se em que na Checoslováquia, segundo ele, sobrevivera uma ampla burguesia porque não havia tantos judeus como noutros países da região e o holocausto nazi não provocara tantas baixas entre a inteligentzia. Cientistas, médicos, engenheiros, arquitectos, professores, artistas, escritores, haviam sobrevivido, invadindo sindicatos, organizações de trabalhadores e as próprias estruturas do partido. Agora, com o nível de vida em alta, queriam recuperar os seus privilégios de classe, derrubar o socialismo e zarpar rumo ao Ocidente. Não fora para criar ninhos capitalistas que milhões de soviéticos tinham dado a vida durante a Segunda Guerra, rematou. Daí a invasão. Sobre Fidel Castro disse que era um «homem que fazia discursos muito bonitos, mas demasiado extensos».
E entre bebidas e sorrisos, passou ao elogio da sua cidade, Moscovo. Cantarolámos em conjunto a «Nathalie» do Gilbert Bécaud. (La Place Rouge était vide/la neige faisait un tapis…) Ele disse-nos uma coisa de que me havia de lembrar mais tarde, quando mais de vinte anos depois visitei Moscovo na Primavera. «A fina camada de gelo que cobre a Praça Vermelha em Abril, quebrando-se sob as solas dos sapatos, produz uma sensação única, um anúncio de Primavera, o fim do longo Inverno». «Pois, só em Praga é que continua a ser Inverno», disse um de nós mais teimoso. Sergei sorriu com fair play e não quis reacender a controvérsia. No outro dia a delegação partia para outra cidade mais a Norte. Fomos levar-lhes lembranças – louças regionais (de Alcobaça!) para lá, matrioskas para cá, beijinhos abraços – Spassibo, spassibo tovarich, o nosso léxico de russo não ia além de da, net, tovarich…
E partiram, pondo fim àquele encontro imediato do terceiro grau.

Falando de democracia: Do sonho à realidade – Comentário do autor

São 21.30 e vejo com surpresa que já algumas dezenas de pessoas se deram ao trabalho de ler o meu texto «Do Sonho à Realidade». Resolvi que essas pessoas mereciam uma explicação mais clara e pedi ajuda ao José Mário Branco. Aqui está ela:

Falando de democracia: Do sonho à realidade

Falemos do sonho e da necessidade do sonho. O poeta António Gedeão garantiu que «o sonho comanda a vida». Por seu turno, Lenine disse no seu «Que Fazer?»: «Se o homem estivesse completamente privado de sonhar, se não pudesse, de vez em quando, adiantar-se e contemplar com a sua imaginação o quadro inteiramente acabado da obra que se esboça entre as suas mãos, não se me afigura que motivos o obrigariam a compreender e levar a cabo vastas e penosas empresas no terreno das artes, da ciência e da vida prática» […] «O desacordo entre os sonhos e a realidade não produz qualquer dano, desde que a pessoa que sonha creia seriamente no seu sonho, se fixe atentamente na vida, compare as suas observações com os seus castelos no ar e, em geral, trabalhe escrupulosamente na concretização das suas fantasias. Quando existe algum contacto entre os sonhos e a vida, tudo vai bem» No mesmo texto dizia ainda: «Ai desses homens mesquinhos que não sabem sonhar!». Durante a ditadura, sonhávamos com a democracia – alguns limitavam-se a sonhar, outros sonhavam e agiam no sentido de tornar o seu sonho realidade, estabelecendo a tal relação entre a utopia e o mundo real de que fala Lenine. Subitamente, em Abril…
Foi numa tarde do Verão Quente de 1975. A uma janela de uma avenida de Lisboa, via passar uma manifestação onde se gritavam palavras de ordem. Ao meu lado estava um democrata que estivera preso e fora perseguido pela polícia política. Antifascista, ex-membro do Partido Comunista, naquela altura mais ligado ao Partido Socialista, mas homem, por aqueles anos setenta, com grande fortuna pessoal e com uma posição importante. Abanou a cabeça e comentou: «- Não foi para isto que se fez o 25 de Abril! Não foi por isto que eu lutei e fui perseguido». «Isto», eram os gritos de «abaixo a exploração capitalista», e os graffiti que os manifestantes iam deixando pelas paredes da avenida, como um rasto ou como um eco da sua ruidosa passagem – e também as greves, os saneamentos, o Copcon… Não respondi, pois não havia resposta possível, tanto mais que eu, que também tive os meus dissabores durante a ditadura, sempre pensei que um dia as pessoas se poderiam manifestar livremente. Tinha sido mesmo por «aquilo» que eu tinha lutado. Por aqui se vê, como o termo antifascista é vago, impreciso e ilusório. Mas cada um podia, e pode, sonhar o que lhe aprouver.
Luigi Pirandello, o dramaturgo italiano escreveu uma peça a que deu o título Para Cada Um Sua Verdade. De facto, quando antes da Revolução, falávamos da «unidade dos antifascistas», verbalizávamos uma utopia dando corpo a uma ideia que só podia ter viabilidade no curto-prazo – a unidade de que se falava era a da acção contra a ditadura. Mal a ditadura caiu, a ilusão da unidade caiu com ela – os interesses individuais, de classe, as opções políticas, fizeram ruir essa ficção. Para cada um havia uma verdade. A sua verdade.
Aquela explosão popular que encheu as ruas e que significou o fim da guerra colonial, a concessão da independência às colónias, a criação de dezenas de novos partidos, o nascimento de assembleias populares nas empresas, nos bairros, nas escolas, apanhou todos de surpresa. Aquela onda de paixão democrática que, como um tsunami varreu o País de Norte a Sul, surpreendeu todos, apanhando desprevenidos, não só os patrões, como também os democratas e antifascistas que tinham conspirado e lutado contra o regime ditatorial (o sujeito que ao meu lado abanava a cabeça em tom de censura, era um deles); surpreendeu até mesmo os partidos e movimentos que, criados na clandestinidade, tinham como razão da sua existência a crença na força dos trabalhadores e a esperança no advento da democracia. A ilusão da democracia, ganhando as ruas e os corações, excedeu o que a nossa capacidade de sonhar, pudera imaginar. Pensávamos que nada seria como até então. Que tudo ia mudar. Porém, lá veio o 25 de Novembro «repor a normalidade» e, como diz o José Mário Branco em «Eu vim de longe», – Foi um sonho lindo que acabou, houve aqui alguém que se enganou…
Passados estes anos, estas décadas, não se imagina sequer o que eram aquelas manifestações espontâneas. O desfile mumificado que comemora o feriado de 25 de Abril, nada tem a ver com as «manifes» de 74 e 75. As «jornadas de luta» organizadas pelas centrais sindicais, obedecendo a interesses corporativos (respeitáveis, em todo o caso) não dão sequer uma pálida ideia do que aconteceu naqueles 21 meses de brasa. As pessoas já não vêm para a rua gritar a sua revolta, a sua esperança e o seu amor à Liberdade. Estão nas suas casas, em frente da televisão e ver telenovelas, concursos tontos, jogos de futebol, ou a assistir ao degradante espectáculo da «democracia real» – políticos fingindo odiar-se, denunciando-se mutuamente de felonias, corrupções… (e com razão na maior parte das vezes) A democracia com que, seguindo o conselho de Lenine, alguns de nós sonhavam, a da solidariedade, a da fraternidade, não tem a mais vaga semelhança com esta «democracia real».
O meu companheiro da varanda no Verão quente já morreu, mas ainda viveu o suficiente para ver cumprido o seu sonho – os administradores a administrar, os corruptos a enriquecer, os trabalhadores a trabalhar, os marginais a aterrorizar, os políticos a politicar… tudo arrumadinho, tal como ele sonhara. Mas agora sou eu quem diz: – e então o meu sonho? – Não foi para isto que se fez a Revolução, não foi por isto que lutei.
Vivemos na ilusão da democracia. A verdadeira (voltemos ao Zé Mário) é um sonho lindo para viver, quando toda a gente assim quiser.
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Falando de democracia: Ainda o tema do iberismo (I)

Portugal é independente «de facto» desde 1128 (batalha de São Mamede) e «de jure», desde 1143 (Conferência de Zamora). Espanha existe «de facto» desde 1469, quando Isabel de Castela e Leão casou com Fernando de Aragão. Os dois reinos continuaram a existir, com seus foros, privilégios e costumes, mas uma coroa dual passou a ser posta na mesma cabeça a partir de Carlos I. «De jure», Espanha existe «de jure» desde 1812, quando as Cortes de Cádis reconheceram a unidade territorial do estado espanhol e a plasmaram na Constituição. Os reis Católicos começaram a chamar Espanha ao conjunto dos territórios abrangidos pelas duas coroas e D. João II terá escrito aos primos protestando por terem usado o nome da Península para designar uma parte dela. Isto foi-me afirmado pelo meu amigo Ricardo Martin, professor da Universidade de Barcelona. Porém nunca consegui localizar a tal carta. Nem ele.
«Hablad de castellanos y portugueses, porque españoles somos todos!», terá dito Camões. Abro parêntesis – conheço razoavelmente a obra do Luís Vaz. Como todos os da minha geração, usei «Os Lusíadas» para aprender a dividir orações. Na adolescência, li com paixão a sua poesia lírica da qual depois, já com olhos de adulto, apreciei a grandeza. Conheço-lhe os autos. Esta frase, não a encontrei em parte alguma. O que não significa que não exista e se existe é apenas mais uma confirmação da gigantesca enciclopédia do conhecimento que se faria com aquilo que desconheço. Há semanas, circulou uma carta apócrifa da Clara Ferreira Alves atacando Mário Soares, carta que teria publicado no Expresso, mas cuja autoria ela desmentiu. Suponhamos, suponhamos só, que a carta do Príncipe Perfeito, de que me falou o Ricardo Martin, e que a frase do Luís, também nunca existiram. Como é que as criaturas podem vir repor a verdade? A frase viaja pela blogosfera em velocidade de cruzeiro e em castelhano (todos sabemos que Camões era bilingue, como quase todos os poetas da época). Apesar das dúvidas, vou partir do princípio que não se trata de apocrifia. Porque somos, de facto, tão espanhóis como castelhanos, catalães ou galegos. Afinal, «espanhol» é sinónimo de «ibérico».
Volto a este temática porque, segundo pude verificar, está a ser muito agitada, com sites e blogs específicos, onde se trocam opiniões (e alguns insultos). Como vos confessei, há muito tempo atrás fui iberista convicto. Com amigos portugueses, catalães, maiorquinos, um castelhano e alguns latino-americanos, fiz parte de um Centro de Cultura Íbero-Americano. Para nós, peninsulares, amordaçados pelas ditaduras de Franco e de Salazar, a Federação Ibérica, composta pelas cinco nacionalidades existentes na Península, seria uma forma de atingir a democracia. Era uma ingenuidade, porque não estou a ver os ditadores a abandonar as suas cadeiras e a dizer – Façam favor de constituir a vossa Federação. Mas era de uma Federação que falávamos – Países Catalães (Catalunha, Aragão e Baleares), País Basco, Espanha (com o remanescente do território não autonomizado), Galiza e Portugal. A capital sairia de Madrid. O estado seria uma República.
O que eu vejo hoje defender não é nada de semelhante, não se trata de uma federação de cinco estados, nem sequer da união dos dois existentes – trata-se da integração pura e simples de Portugal no estado espanhol, com o estatuto autonómico das demais regiões. Isto não é iberismo, nem união – chama-se anexionismo. Só o meu respeito pelas pessoas que defendem ideia tão disparatada, me impede de as qualificar. Porque além de toda a aberração que constitui tal ideia, do ponto de vista economicista que me parece constituir a parte mais visível da ideia – em Espanha paga-se melhor, a ideia da união ibérica é, nas actuais circunstâncias uma «ideia absurda» (e isto foi Cavaco Silva quem afirmou – não costumo estar de acordo com o que ele diz, mas não há regra sem excepção – esta cavaquiana afirmação é o mínimo que posso citar, num grande esforço de contenção, pois tenho palavras mais vicentinas a ocorrerem-me em catadupa). Sermos absorvidos por Espanha seria, para além dos aspectos que mais me interessam, entrarmos numa jangada que se está a desfazer. Espanha é um estado sem futuro, com uma forma arcaica e kitsch de chefia. Se Catalães, Bascos, Galegos querem ou não sair, é algo em que não nos podemos deter muito tempo. Diria que, na Catalunha, por exemplo, existem patriotas exaltados, monárquicos e republicanos, que não admitem a ideia de estar integrados e outros que entendem que o processo de integração não pode ser revertido. Uma grande parte dos Catalães tem origem noutras regiões, em imigrantes andaluzes principalmente. Pois, encontrei jovens, andaluzes de segunda ou terceira geração, que são catalanistas ferrenhos, profundamente imbuídos do ideal independentista. No País Basco, nem preciso de falar, todos sabemos o que se passa. Na Galiza, as correntes separatistas são menos visíveis, embora existam e se manifestem.
Pessoas que gostavam de «ser espanholas» por que «é bonito ter um rei», ou porque os ordenados são melhores e os espanhóis vivem materialmente melhor do que nós (o que, em termos médios, é inegável), não se deviam esquecer de que Espanha tem uma taxa de desemprego das mais elevadas da União Europeia. Por outro lado, muito do «esplendor» da economia espanhola é feito de multinacionais que instalaram as suas centrais para a Península em Barcelona ou em Madrid – são empresas americanas, alemãs, francesas, britânicas… Os «capatazes» ou executivos (que enxameiam os nossos hotéis) são castelhanos, catalães, galegos… e ajudam a criar a ilusão de que é a Espanha que está a tomar conta da nossa economia (como se tal coisa existisse…). Parte dos defensores da anexação, em grande maioria, iriam engrossar as fileiras do exército de «parados». Se querem deixar de ser independentes, porque não sugerem uma união (ou mesmo uma venda) à Suécia? Os suecos ganham muito melhor do que os espanhóis, há menos desemprego… E, já agora, também têm um rei e a rainha Sílvia até fala muito bem o português.
Sempre houve e continua a haver, por esse mundo fora, pessoas a morrer para que os seus países se tornem independentes. São «pobres idealistas». Entre nós há gente «realista» e com «sentido prático» disposta a vender uma Nação com nove séculos por um prato de lentilhas, que é como quem diz por meia dúzia de euros. Não vou qualificar estas pessoas nascidas no nosso País (mas que pelos vistos não o amam). Nem voltarei a este tema porque, além de ser repugnante, ouvi dizer que há fantasmas que, de tanto falarmos neles, se materializam.

Falando de democracia: A questão do islamismo e de outros integrismos

A crença islâmica é a mais recente das três religiões de Abraão – judaísmo, cristianismo e islamismo. São três religiões irmãs, baseadas em princípios muito semelhantes, embora a organização do Corão, dividido em 114 capítulos («suras») seja diferente da que orienta quer a Bíblia cristã, quer a Torah hebraica. A primeira perplexidade de um ateu convicto como me prezo de ser, imune até mesmo à prova ontológica da existência de um Ser Supremo como a que Santo Anselmo tão laboriosamente teceu, é a seguinte – como pode haver, desde há séculos, tanto ódio entre três crenças, basicamente tão semelhantes, como puderam os príncipes das três religiões não ter feito um acordo, estabelecido uma plataforma ecuménica, baseada no que é comum (que me parece ser tanto) e secundarizando o que é específico de cada uma delas, que é mais litúrgico do que essencial? Não me vou envolver na análise teológica, por diversas razões, mas principalmente porque é matéria na qual sou profunda e voluntariamente ignorante (razão de peso, não acham?). E cuja essência não me interessa minimamente. O tema só me interessa pelas repercussões históricas, sociais e políticas que assume desde, pelo menos, a época das Cruzadas. Para nos entendermos: neste texto, vou usar o termo «islamitas» para designar os crentes no Islão e de «islamistas» quando me referir aos activistas dos grupos islâmicos (vulgo «terroristas islâmicos»). Roger Garaudy, no seu livro Religiões em Guerra – O debate do século, usa o termo «islamismo» para definir o conceito de fundamentalismo ou integrismo do Islão.
Sou um admirador devoto da obra do grande Omar Khayyam, um poeta nascido no actual Irão, no distante século XI. Alguns dos seus maravilhosos rubayat são dedicados ao vinho e ao prazer de beber (Fernando Pessoa, inspirou-se neles para escrever as suas «Canções de Beber»). Rubayat, plural de rubai, constitui uma forma particular de poesia, com uma métrica quantitativa específica. A poesia popular do Irão continua a respeitar os cânones do rubai. Omar Khayyam era crente no Islão. Como conciliava essa crença com o gosto pela bebida, sabendo-se que o Corão proíbe o consumo de álcool. Segundo também me disse um entendido nessas matérias, o profeta apenas pôs reticências ao vinho de tâmara. Tal como aconteceu com a Bíblia, em que os teólogos ligados ao aparelho da Igreja, manipularam os textos e os moldaram às suas seculares conveniências – o Concílio de Trento terá sido um festival de ajustamentos dos textos sagrados à práxis de Roma – Não se terá passado o mesmo com o Corão? Os islamistas encontram no seu livro sagrado todas as justificações para o seu integrismo e para a sua acção fanática. Há mil anos, quando uma grande parte da bacia do Mediterrâneo estava submetida ao Islão, a tolerância era muito maior. E o esplendor cultural muçulmano, também.
Nessa altura, foi o integrismo cristão que espalhou o terror entre os muçulmanos, com base em princípios religiosos de duvidosa limpidez. Como é possível, pelo menos aparentemente e para quem, como eu, quase nada sabe sobre religiões, que quatro ou cinco séculos depois de Maomé ter divulgado a sua palavra, houvesse uma compreensão «do outro» muito mais moderna por parte dos islamitas do que acontece agora, um milénio depois. A nós, ocidentais, a visão do mundo revelada pelos islamitas é semelhante à da nossa Idade Média. O que se terá passado para os muçulmanos terem regredido?
Como disse, não sou adepto nem defensor do terrorismo para resolver questões políticas. Não aceito a violência sobre pessoas inocentes (embora quem defende esse tipo de intervenção política afirme que «ninguém é inocente», o que constitui uma inaceitável falácia), venha essa violência da ETA ou dos grupos islamistas. No entanto, esse tipo de acção deve ser devidamente contextualizado. Podemos não aceitar, mas temos obrigação de compreender. Os Estados Unidos praticam o mais odioso dos terrorismos, arvorando-se em polícia do Mundo, arrogam-se o direito de ir destruir uma ditadura no Iraque, deixando, no entanto, florescer outras ditaduras ou «democracias musculadas», inclusivamente no seu continente. Pelos vistos, para a Casa Branca há «boas ditaduras» e «más ditaduras». O Irão não tem o direito de ter armas nucleares, mas o minúsculo e artificial estado de Israel, inventado pela inépcia da diplomacia britânica, tem esse direito – a França, a Grã-Bretanha, a Índia, podem ter armamento nuclear – a Coreia do Norte, não. Isto cabe dentro de alguma cabeça normal? Ainda nós falamos das arbitragens do nosso futebol!
Não seria muito mais aceitável que os Estados Unidos usassem o seu imenso poderio para acabar de uma vez por todas com um tipo de armas que já se viu ser de consequências incontroláveis e que pode, inclusive, conduzir à destruição da vida sobre o planeta?
Vêm estas considerações a propósito da intolerância islâmica e do fanatismo dos islamistas. O terrorismo é uma espécie de bomba atómica dos pobres. É criminoso e mata inocentes? Claro que é criminoso e mata inocentes. E as trezentas mil pessoas que morreram em Hiroxima e em Nagasáqui eram todas culpadas da arrogância e das ambições imperialistas dos senhores da guerra japoneses? Os muçulmanos têm sido espezinhados, espoliados, humilhados… Cria-se o Estado de Israel em território que tinha donos – os Palestinianos. Estes são acantonados em campos de refugiados. Que povo não ficaria enraivecido? O Sadam Hussein era um ditador? Pois era. Não competiria então aos iraquianos combatê-lo se queriam implantar a democracia? Por que foram os americanos ao Iraque, destruindo as estruturas do poder ditatorial, mas mostrando-se incapazes de as substituir e deixando o país, quando o vierem a abandonar, num estado muito pior do que estava quando o invadiram.
A democracia não se impõe do exterior, o amor por ela nasce no interior das sociedades. Temos, passados todos estes anos sobre a Revolução Francesa, de reconhecer que nem todos os povos querem ser governados de forma democrática. Obrigar africanos e asiáticos, por exemplo, a reger-se por esse sistema, é profundamente antidemocrático. É como a história do escuteiro que tendo de fazer uma boa acção diária, obrigou uma velhinha a atravessar a rua.
Condeno o terrorismo. Não gosto dos talibãs, nem aprovo as acções da Al-Qaeda. O fanatismo dos islamistas é intolerável. Como ousam querer impor a sua crença, por mais verdadeira que entendam que ela é a outros povos? Os clérigos islamitas são uma caricatura carregada dos padres cristãos da Idade Média. Roger Garaudy, na obra que referi na abertura desta crónica, afirma «O islamismo é uma doença do Islão, tal como o integrismo é uma doença de todas as religiões.» «O integrismo é a pretensão de se possuir a verdade absoluta e, por conseguinte, de possuir não só o direito mas também o dever de a impor a todos, sem olhar a meios. O primeiro integrismo é o colonialismo ocidental.» É uma boa e correcta explicação.
Porém, apesar desta visceral antipatia pela religiosidade fanática e tacanha dos islamistas, simpatizo muito menos com o terrorismo levado a cabo pelos governos norte-americanos, que, por exemplo, movem uma guerra económica a um pequeno estado das Caraíbas porque tem um regime ditatorial, mas protegem, por esse mundo fora, ditadores, criminosos de toda a espécie, incluindo barões da droga. Que invadem militarmente um país porque era dirigido por um déspota, mas que deixaram aqui na Península Franco e Salazar sem açaime durante décadas. Que me digam que todos os impérios têm sido assim, ainda vá; que me queiram explicar as razões por que é assim, vá lá. Não me queiram é convencer da razão deste império. A prepotência, o integrismo no conceito de Garaudy, dos Estados Unidos gera monstros como o do terrorismo islâmico. Monstros que morderam aos donos em 11 de Setembro de 2001, mas que mo
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em também noutras latitudes – Londres. Madrid… Aviso à navegação: o laboratório do Doutor Frankenstein situa-se em Washington. Está sempre em funcionamento, nunca encerra.

INFIDELIDADE – Quem sofre são sempre as crianças !!!

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