Apontamentos & Desapontamentos: Acabar de vez com o trabalho. Uma solução para o desemprego

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Um dos aspectos que sempre me seduziu na argumentação do ensaísta francês Albert Jacquard (1925) é a sua consistente defesa de uma sociedade futura menos voltada para o consumo e mais evoluída culturalmente, com uma consciência colectiva que ultrapasse interesses pessoais, de classe, de género, etnia, de religião ou quaisquer outros. Mais pobre materialmente e mais rica humanisticamente., regredindo do ponto de vista da posse de bens individuais e evoluindo no sentimento de pertença a uma comunidade de milhares de milhões de pessoas. Mais voltada para o ser do que para o ter. A sua teoria de um «decrescimento sustentável», radica na tomada de consciência de que o crescimento descontrolado das economias conduzirá, com o aumento exponencial da população, ao caos social e ao extremar das desigualdades, dado que os recursos do planeta são limitados, finitos. Hoje não é dia de desapontamento, mas sim de apontamentos.
Apontamentos tomados durante uma intervenção de Jacquard numa jornada de debate interdisciplinar sobre o desenvolvimento territorial a partir das relações entre educação, acção meio-ambiental e cultural, realizada no Centre d’Estudis i Recursos Cultural de Barcelona e a que assisti há uns anos atrás. O que se segue é fruto das notas que tomei, auxiliadas por uma entrevista que no dia seguinte Jacquard deu, salvo erro, ao La Vanguardia e onde pude colher elementos que me tinham escapado na véspera. Não tenho a pretensão de reproduzir textualmente o que o sábio disse, mas sim de resumir o sentido daquilo que disse. Remeto-vos para a leitura dos seus livros, alguns dos quais estão traduzidos em português.
Começou a sua palestra com uma citação de Valéry – «Le temps du monde fini commence», «agora que fomos à Lua, pudemos ver como a Terra é pequena», disse. Em contrapartida, a população não pára de crescer. Dentro de um século seremos dez mil milhões. Temos de reflectir como poderão essas pessoas viver neste pequeno planeta e, para isso, temos de ser lúcidos. A ciência trar-nos-á essa lucidez, pois permite compreender como se fabrica um indivíduo a partir do património genético. Temos de saber ver a nova realidade do mundo. Somos quatro vezes mais do que éramos no princípio do século XX. Se procedermos sem reflectir, desembocaremos na destruição da humanidade ou, em alternativa, na supressão de toda a liberdade. Temos de administrar criteriosamente os recursos do planeta, não podemos ter tantos filhos. Numa Terra pequena tem de se limitar a natalidade.
Quanto ao envelhecimento da população, isso, segundo Jacquard, não é um mal. A velhice traz mais experiência. Veja-se, cada vez há menos trabalho porque há mais robots. Quando houver mais pessoas com mais de 65 anos do que jovens, terá de haver uma adaptação a essa realidade. O objectivo da vida humana não é trabalhar, mas sim desenvolver-se e isso pode fazer-se em qualquer idade. Isto é uma utopia, mas estamos condenados à utopia, afirmou. Os utópicos mais fantasiosos são os que vêm o mundo daqui a cem anos como uma projecção do actual. Ao contrário, os mais realistas são o que o vêm diferente. E uma vez que assim será, mais vale imaginá-lo.
No que se refere ao preocupante problema do crescente desemprego, Jacquard fez uma afirmação surpreendente – O ideal é que não haja trabalho. O problema do desemprego será resolvido quando ninguém trabalhar. Hoje, para produzir alimentos ou viaturas, precisa-se de cem vezes menos trabalho do que há um século. Portanto, devíamos ter cem vezes mais tempo livre. Não soubemos multiplicar os tempos livres. E os tempos livres são o tempo que se dedica à cultura.
Quanto à manipulação genética, Jacquard fez parte durante quatro anos do Comité Nacional de Ética onde discutiu essa questão. Na sua opinião, a manipulação genética foi até agora benéfica. Permitiu avançar na investigação sobre o ADN e começar a curar mais eficazmente certas doenças. Pode também desembocar em aplicações perigosas. Deve proibir-se determinadas aplicações, sem bloquear a investigação. A clonagem humana, por exemplo, seria dramática; tecnicamente possível, é uma abominação. Muitas vezes um êxito técnico ou científico pode constituir uma catástrofe humana.
Enfim, segundo Jacquard, não estamos inevitavelmente condenados ao caos e à catástrofe. A superpopulação, a escassez de recursos do planeta e temas mais imediatos como o desemprego, têm afinal solução. O nosso futuro depende daquilo que fizermos hoje. Afinal, podemos (poderíamos?) ser os deuses do nosso próprio devir.

Comments

  1. isac says:

    Já aqui defendi que até nas escolas, deveria ser instituida uma disciplina que abordasse as utopias. Mal não faria de certeza. Isso daria uma perspectiva daquilo que o planeta e em especial os humanos poderiam ser. Seria uma das formas de prever se estamos a ir no caminho certo ou errado, antes mesmo de lá chegarmos.”Enfim, segundo Jacquard, não estamos inevitavelmente condenados ao caos e à catástrofe. A superpopulação, a escassez de recursos do planeta e temas mais imediatos como o desemprego, têm afinal solução.” Aqui, terei que discordar. Como pilar de formação da Ordem, o Caos é inevitável. É um fenómeno natural. Veja-se o exemplo dos dias de hoje. Apesar de vivermos praticamente uma catástrofe ecológica de contornos futuros difusos mas obviamente graves, a humanidade não recua e apenas adia as consequências, sustentado em argumentos económicos.

  2. maria monteiro says:

    se houvesse a preocupação de levar para as escolas o ensino da filosofia a crianças e jovens, muito provavelmente seriam capazes de olhar, estar, pensar, cuidar do mundo e da humanidade duma forma bem diferente daquela a que todos nós hoje estamos habituados ….


  3. Tenho pensado nisso. E a crise veio suscitar a necessidade de equacionar esta matéria de forma muito séria. Mas, claro, o caminho seguido não foi esse, mas o do economicismo.


  4. Isac, Maria Monteiro e José Freitas: As vossas observações são pertinentes. A palestra do Jacquard foi há seis ou sete anos (ou oito). As coisas não estavam tão negras, a «crise global« não atacara… Na última frase ponho a dúvida onde o grande filósofo tinha certezas. Nâo sei se ainda mantém o mesmo optimismo. Obrigado pelos vossos comentários.Abraços.

  5. Santos Silva says:

    Está mais que provado que se o governo quiser diminuir os encargos com os desempregados basta dar às micro e médias empresas com até 20 trabalhadores 2 Anos sem pagar segurança social o governo deixa de pagar a media de 600€ e paga so +/- 250 €uros para segurança social reduz o desemprego em 50%

    • Luís Moreira says:

      mas o problema é que quando é para dar ajuda, dá às grandes “porque têm efeitos sistémicos”, quando é para tirar , tira às pequenas porque são 600 000. Muita gente não sabe, mas as PMEs representam 70% do emprego,80% das exportações e 60% do PIB!!!

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