Homenagem a um grande resistente antifascista


Não era um amigo íntimo do Hermínio da Palma Inácio, ao contrário do que algumas pessoas pensam, sabendo-se que escrevi um romance inspirado na tentativa de assalto à cidade da Covilhã, em Agosto de 1968 (A Mão Incendiada). Também, ao contrário do que já se tem dito, não participei nessa acção, por duas razões de peso: não pertencia à LUAR e estava preso em Caxias quando a operação foi preparada. Estive reunido com ele por diversas vezes depois do 25 de Abril, mas a única conversa pessoal que tivemos foi quando, festejando os seus 80 anos, um grupo de amigos organizou um jantar num restaurante do Bairro Alto. Fiquei ao seu lado, conversámos sobre muita coisa e, naturalmente, sobre o livro. Teve a amabilidade de me dizer que, apesar de ser uma ficção, as coisas se tinham passado quase como eu as descrevera. Mérito de um participante na acção, o Fernando Pereira Marques, escritor e, actualmente, professor universitário, que entrevistei por diversas vezes, enchendo cassetes com os pormenores da operação.
Não era um amigo íntimo do Palma Inácio, mas admirava-o muito. Penso que ele foi, como alguém disse, um dos últimos heróis românticos protagonizando actos como os que, durante a ditadura, muitos de nós sonhávamos praticar: Participou ao lado de militares, numa tentativa de golpe de Estado; assaltou um banco (sem provocar vítimas – as armas eram réplicas); desviou um avião da TAP obrigando o piloto a sobrevoar a baixa altitude o centro de Lisboa e lançando panfletos revolucionários;  tentou tomar de assalto a cidade da Covilhã; fugiu das instalações da PIDE, na Rua do Heroísmo, no Porto…
Enquanto alguns sonhavam afrontar o regime (e éramos presos muitas vezes só por ter esses  sonhos) ele desferia-lhe golpes certeiros, uns atrás dos outros. Um herói romântico, parece-me uma boa definição, desde que por «romântico» não se entenda o avesso daquilo que o Palma realmente era – um homem de acção.; um homem para o qual a teoria não era para discutir pelos cafés – era para levar à prática.
Como se dizia no post do Aventar, sem o Palma ficamos todos mais pobres, pois com ele é um pedaço da nossa história recente que desaparece, que se perde. E perde-se um homem muito valente, um resistente e um lutador pela democracia.
 A minha sincera e comovida homenagem.

Comments


  1. Palma Carlos era uma referência. De facto, enquanto alguns desenvolviam estratégias, ele resolvia aplicar as suas ideias. Ousadas, diga-se. Coragem não lhe faltou.

  2. maria monteiro says:

    JF, Palma Inácio (lapso de troca de nome).

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