Apontamentos & Desapontamentos: Os nossos queridos irmãos brasileiros


Há um livro do Mario Vargas Llosa, «A Tia Júlia e o Escrevedor», que deu lugar a um magnífico filme americano, realizado por Jon Amiel e interpretado pelo Peter Falk, o velho Columbo, pelo Keanu Reeves e pela Barbara Hershey – Tune in Tomorrow (1990). O livro é delicioso e o filme uma pérola. Falk representa o papel de «criador» de folhetins radiofónicos que não perde uma oportunidade para dar alfinetadas nos albaneses (no livro, passado no Peru, o alvo são os argentinos). As referências maldosas vêm sempre embrulhadas em elogios como, «os nossos queridos imigrantes albaneses que, como se sabe, têm a antiga tradição de urinar na sopa antes de a começar a comer»… Não sei se esta frase concreta existe, apenas quis dar um exemplo dos maldosos elogios a albaneses (argentinos) que a personagem central vai debitando ao longo da história. Ora bem, quando digo, os «nossos queridos irmãos brasileiros» não é com a intenção de em seguida os denegrir. Apraz-me que haja em Portugal um fluxo de imigração brasileira. Acho que, tanto quanto possível e cada um de per si o mereça, os devemos tratar tão bem como tratamos os nossos compatriotas. Nunca esquecendo os milhões de luso-descendentes que vivem no Brasil.

Aprecio muito a cultura brasileira, as obras de Machado de Assis, Graciliano Ramosl, João Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Morais, alguns dos livros de Jorge Amado, Ruben Fonseca, a pintura de Cândido Portinari, a arquitectura de Óscar Niemeyer, a obra musical de Heitor Vila-Lobos, de Tom Jobim, de Caetano Veloso, de Chico Buarque, os programas televisivos de Jô Soares, a mestria dramática de Paulo Autran… Poderia encher todo o espaço que vou dedicar a esta crónica com nomes de brasileiros que admiro. E muitos ficariam por referir. Para não falar nos muitos amigos. Contudo, custa-me compreender a razão por que gastamos dinheiro a importar lixo televisivo brasileiro, tão competentes que nós somos a produzi-lo. Ruy de Carvalho disse há tempos numa entrevista que se sentia ofendido de cada vez que ouvia dizer que «No Brasil é que há bons actores». Não que não os haja – os maus, porém, são em muito maior quantidade (como cá, aliás).

Os portugueses dos níveis culturais mais «desfavorecidos» adoram «falar brasileiro». Sempre é mais fácil do que ter o trabalho de aprender inglês, francês, alemão ou castelhano – basta falar abrindo vogais, usando expressões como «vou pégá um cineminha!» ou o meu filho anda na «escólinha», em vez de «vou ao cinema» ou «o meu filho anda no infantário». Já aqui disse – gosto muito de ouvir os brasileiros falar – portugueses a macaqueá-los é um espectáculo degradante. Até porque não conseguem. Uma amiga brasileira com quem estava a ver um programa do Herman, afirmou-me que o «sotaque brasileiro» dele é deplorável.

A nossa diplomacia e os mecanismos culturais de que dispomos, deveriam, no entanto, esforçar-se por esclarecer os brasileiros (os do Brasil e os de cá) que as chamadas «piadas de português» são uma grosseria que não merecemos. É conhecido o episódio de Collor de Mello quando em 1990 fez uma visita a Portugal, em pleno jantar no Palácio das Necessidades, resolveu contar uma «piada de português». É curioso que qualquer brasileiro, mesmo os das camadas culturais mais baixas, entendem que «português é burro». Uma arquitecta brasileira que trabalha num gabinete de projectos em Lisboa, ao concluir uma pós-graduação em que obteve uma excelente classificação final, felicíssima, telefonou aos pais dando-lhes a boa nova. Resposta do pai: «Ó minha filha, isso não tem valor, não. Você não sabe que português é burro? O que vale um pós-graduado feito aí?» Dos brasileiros que dizem estas coisas, não gosto mesmo e não preciso de embrulhar em papel de seda – burrice não usa passaporte nem respeita oceanos ou fronteiras! E este tema da burrice dos portugueses já viaja pela blogosfera a todo o gás.

Para falarmos com a franqueza que entre irmãos deve ser usada e, sempre generalizando, claro, a maioria de nós gosta dos brasileiros, acha graça à maneira como falam, às suas expressões. Em contrapartida, a maioria dos brasileiros não gosta de nós. Às vezes são sinceros e reconhecem que assim é – «É uma recordação do período colonial», dizem. Mas de qual período colonial? Os angolanos, os moçambicanos, sim, tiveram de lutar para conquistar a independência. Os brasileiros não – a independência foi-lhes dada. Porque, nas tropicais cabeças, se gerou a lenda de que os portugueses escravizaram os brasileiros, os quais em 1822, num arroubo de valentia, se libertaram. Disparate. Os portugueses escravizaram negros importados de África, tratados como gado. Mataram índios. Fizeram tudo isso e muito mais. Porém, os «brasileiros» que proclamaram a independência (começando pelo imperador), não eram escravos africanos, nem índios – a independência foi proclamada por portugueses que, rendidos às delícias do Rio de Janeiro, não estavam pelos ajustes de voltar a uma Lisboa bisonha e onde muitos deles perderiam o estatuto que ali, naquela corte de circunstância, tinham alcançado.

Isto mesmo disse, por palavras mais elaboradas, Eduardo Lourenço num colóquio que há anos se fez no Centro Nacional de Cultura e em que um brasileiro fez uma intervenção na base do «nós, oprimidos/vocês, opressores». Eduardo Lourenço, muito delicadamente, perguntou-lhe o nome. Por sorte, tinha um apelido português. E o professor desfechou-lhe esta: «Sabe? Foram os seus antepassados quem escravizou e quem oprimiu. Os meus, nunca saíram de Portugal e, portanto, não podem ser culpados disso».

A política cultural do nosso país é deficiente (aí está uma inegável burrice dos sucessivos governantes). Até no seio das colónias de emigrantes, no Brasil, em França, na Alemanha, existe a ideia de que Portugal é um país que parou no tempo. Com todas as deficiências que temos, com todos os atrasos endémicos, somos tão burros como os outros, que o mesmo é dizer, tão inteligentes como os outros. Claro, que não depende só de nós o haver no exterior uma avaliação correcta do que somos como povo – isso depende também da inteligência e do nível cultural de quem avalia. Porém, os nossos queridos irmãos brasileiros já deviam ter sido informados de que os emigrantes que daqui foram, sobretudo no princípio do século XX, eram gente muito pobre, completamente iletrada, muitos deles desembarcavam no Rio ou em São Paulo e era a primeira cidade que viam, pois de Lisboa ou do Porto só tinham visto o cais de embarque. Decorrido um século, as coisas mudaram; não tanto como gostaríamos que tivessem mudado, mas mudaram. Falando há tempos com imigrantes portugueses em França, pareceu-me (afirmar seria generalizar) que aquelas pessoas, vivendo em grandes cidades, mas em comunidades fechadas, mal falando a língua de acolhimento e nunca tendo verdadeiramente aprendido a sua, estão mais atrasadas do que os habitantes de qualquer aldeia do interior do País. Atrasadas no sentido cultural de compreensão das novas realidades. Os jovens, ajuizando Portugal pela pobreza cultural dos avós e dos pais, desprezam profundamente tudo o que é português.

De quem será a culpa desta incompreensão?

Enquanto pensam na resposta, ouçam um dos verdadeiramente grandes actores brasileiros, Paulo Autran (1922-2007) declamando Ricardo Reis. – «Vem sentar-te comigo, Lídia; à beira do rio» – Que maravilha quando nem nós nem eles
s
omos burros e trabalhamos em conjunto.

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