Nos 80 anos do nascimento de José Afonso (IV)

(continuação daqui)

D. Os Vampiros e Menino do Bairro Negro

Em 1962, nos Estados Unidos, é editado o álbum Coimbra Orfeon of Portugal, que inclui duas baladas de Zeca: Minha Mãe e Balada Aleixo, «Homenagem a António Aleixo, poeta cauteleiro, natural de Loulé.» Nestas duas composições é acompanhado à viola por José Niza e por Durval Moreirinhas. Participa em digressões pela Suiça, Alemanha e Suécia. Em 1963 conclui o curso, com uma tese sobre Jean-Paul Sartre – Implicações substancialistas na filosofia sartriana. Divorcia-se de Maria Amália, casando depois em Olhão com Zélia. Sai o LP Baladas e Canções (Ronda dos Paisanos, Altos Castelos, Elegias…). Diz Zeca sobre a Ronda, que depressa será entoada de boca em boca – em reuniões de estudantes, em fábricas, em serões pequeno-burgueses e até nos cárceres políticos: «A música ocorreu-me no WC do rápido, Faro-Lisboa, depois da estação da Funcheira» (…) «Em Lisboa inteirei-me dos postos do exército, que são muitos e soantes. Rimados às parelhas dariam uma canção popular, capaz de ser entendida por soldados e generais.» E foi.

Em 1963 surge então o disco Baladas de Coimbra que inclui Os Vampiros, Menino do Bairro Negro, Canção Vai… e Vem… e Pombas. O título da capa não reflecte a realidade, pois este disco marca uma ruptura com a elitista tradição da balada e do fado coimbrões. A voz do Zeca passa os muros da velha cidade universitária e, como um rio caudaloso e de irresistível força, salta para os lábios de milhões de portugueses – torna-se impossível não associar os seus vampiros aos ávidos barões do regime salazarista: Eles comem tudo/ eles comem tudo/eles comem tudo/e não deixam nada… O Zeca explica: «Numa viagem que fiz a Coimbra apercebi-me da inutilidade de se cantar o cor-de-rosa e o bonitinho» (…) «Se lhe déssemos uma certa dignidade e lhe atribuíssemos, pela urgência dos temas tratados, um mínimo de valor educativo, conseguiríamos talvez fabricar um novo tipo de canção cuja actualidade poderia repercutir-se no espírito narcotizado do público, molestando-lhe a consciência adormecida em vez de o distrair.»
Como nota de humor, refira-se que uma então famosa marca de pudins quis comprar os direitos do refrão de Os Vampiros para servir de música de fundo a um spot publicitário. Obviamente, Zeca recusa. Em Menino do Bairro Negro, inspirada na vida dos meninos de um bairro degradado – o Barredo, no Porto – essa intenção de «molestar consciências» torna-se ainda mais evidente. A emigração forçada pela miséria e pela guerra colonial, bem como o aparecimento, nas periferias das grandes cidades, de bairros de lata (fruto do começo da desertificação do interior), eram, no começo dos anos 60, realidades inseridas a fogo no quotidiano dos Portugueses.

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