Falando de democracia: A questão do islamismo e de outros integrismos

A crença islâmica é a mais recente das três religiões de Abraão – judaísmo, cristianismo e islamismo. São três religiões irmãs, baseadas em princípios muito semelhantes, embora a organização do Corão, dividido em 114 capítulos («suras») seja diferente da que orienta quer a Bíblia cristã, quer a Torah hebraica. A primeira perplexidade de um ateu convicto como me prezo de ser, imune até mesmo à prova ontológica da existência de um Ser Supremo como a que Santo Anselmo tão laboriosamente teceu, é a seguinte – como pode haver, desde há séculos, tanto ódio entre três crenças, basicamente tão semelhantes, como puderam os príncipes das três religiões não ter feito um acordo, estabelecido uma plataforma ecuménica, baseada no que é comum (que me parece ser tanto) e secundarizando o que é específico de cada uma delas, que é mais litúrgico do que essencial? Não me vou envolver na análise teológica, por diversas razões, mas principalmente porque é matéria na qual sou profunda e voluntariamente ignorante (razão de peso, não acham?). E cuja essência não me interessa minimamente. O tema só me interessa pelas repercussões históricas, sociais e políticas que assume desde, pelo menos, a época das Cruzadas. Para nos entendermos: neste texto, vou usar o termo «islamitas» para designar os crentes no Islão e de «islamistas» quando me referir aos activistas dos grupos islâmicos (vulgo «terroristas islâmicos»). Roger Garaudy, no seu livro Religiões em Guerra – O debate do século, usa o termo «islamismo» para definir o conceito de fundamentalismo ou integrismo do Islão.
Sou um admirador devoto da obra do grande Omar Khayyam, um poeta nascido no actual Irão, no distante século XI. Alguns dos seus maravilhosos rubayat são dedicados ao vinho e ao prazer de beber (Fernando Pessoa, inspirou-se neles para escrever as suas «Canções de Beber»). Rubayat, plural de rubai, constitui uma forma particular de poesia, com uma métrica quantitativa específica. A poesia popular do Irão continua a respeitar os cânones do rubai. Omar Khayyam era crente no Islão. Como conciliava essa crença com o gosto pela bebida, sabendo-se que o Corão proíbe o consumo de álcool. Segundo também me disse um entendido nessas matérias, o profeta apenas pôs reticências ao vinho de tâmara. Tal como aconteceu com a Bíblia, em que os teólogos ligados ao aparelho da Igreja, manipularam os textos e os moldaram às suas seculares conveniências – o Concílio de Trento terá sido um festival de ajustamentos dos textos sagrados à práxis de Roma – Não se terá passado o mesmo com o Corão? Os islamistas encontram no seu livro sagrado todas as justificações para o seu integrismo e para a sua acção fanática. Há mil anos, quando uma grande parte da bacia do Mediterrâneo estava submetida ao Islão, a tolerância era muito maior. E o esplendor cultural muçulmano, também.
Nessa altura, foi o integrismo cristão que espalhou o terror entre os muçulmanos, com base em princípios religiosos de duvidosa limpidez. Como é possível, pelo menos aparentemente e para quem, como eu, quase nada sabe sobre religiões, que quatro ou cinco séculos depois de Maomé ter divulgado a sua palavra, houvesse uma compreensão «do outro» muito mais moderna por parte dos islamitas do que acontece agora, um milénio depois. A nós, ocidentais, a visão do mundo revelada pelos islamitas é semelhante à da nossa Idade Média. O que se terá passado para os muçulmanos terem regredido?
Como disse, não sou adepto nem defensor do terrorismo para resolver questões políticas. Não aceito a violência sobre pessoas inocentes (embora quem defende esse tipo de intervenção política afirme que «ninguém é inocente», o que constitui uma inaceitável falácia), venha essa violência da ETA ou dos grupos islamistas. No entanto, esse tipo de acção deve ser devidamente contextualizado. Podemos não aceitar, mas temos obrigação de compreender. Os Estados Unidos praticam o mais odioso dos terrorismos, arvorando-se em polícia do Mundo, arrogam-se o direito de ir destruir uma ditadura no Iraque, deixando, no entanto, florescer outras ditaduras ou «democracias musculadas», inclusivamente no seu continente. Pelos vistos, para a Casa Branca há «boas ditaduras» e «más ditaduras». O Irão não tem o direito de ter armas nucleares, mas o minúsculo e artificial estado de Israel, inventado pela inépcia da diplomacia britânica, tem esse direito – a França, a Grã-Bretanha, a Índia, podem ter armamento nuclear – a Coreia do Norte, não. Isto cabe dentro de alguma cabeça normal? Ainda nós falamos das arbitragens do nosso futebol!
Não seria muito mais aceitável que os Estados Unidos usassem o seu imenso poderio para acabar de uma vez por todas com um tipo de armas que já se viu ser de consequências incontroláveis e que pode, inclusive, conduzir à destruição da vida sobre o planeta?
Vêm estas considerações a propósito da intolerância islâmica e do fanatismo dos islamistas. O terrorismo é uma espécie de bomba atómica dos pobres. É criminoso e mata inocentes? Claro que é criminoso e mata inocentes. E as trezentas mil pessoas que morreram em Hiroxima e em Nagasáqui eram todas culpadas da arrogância e das ambições imperialistas dos senhores da guerra japoneses? Os muçulmanos têm sido espezinhados, espoliados, humilhados… Cria-se o Estado de Israel em território que tinha donos – os Palestinianos. Estes são acantonados em campos de refugiados. Que povo não ficaria enraivecido? O Sadam Hussein era um ditador? Pois era. Não competiria então aos iraquianos combatê-lo se queriam implantar a democracia? Por que foram os americanos ao Iraque, destruindo as estruturas do poder ditatorial, mas mostrando-se incapazes de as substituir e deixando o país, quando o vierem a abandonar, num estado muito pior do que estava quando o invadiram.
A democracia não se impõe do exterior, o amor por ela nasce no interior das sociedades. Temos, passados todos estes anos sobre a Revolução Francesa, de reconhecer que nem todos os povos querem ser governados de forma democrática. Obrigar africanos e asiáticos, por exemplo, a reger-se por esse sistema, é profundamente antidemocrático. É como a história do escuteiro que tendo de fazer uma boa acção diária, obrigou uma velhinha a atravessar a rua.
Condeno o terrorismo. Não gosto dos talibãs, nem aprovo as acções da Al-Qaeda. O fanatismo dos islamistas é intolerável. Como ousam querer impor a sua crença, por mais verdadeira que entendam que ela é a outros povos? Os clérigos islamitas são uma caricatura carregada dos padres cristãos da Idade Média. Roger Garaudy, na obra que referi na abertura desta crónica, afirma «O islamismo é uma doença do Islão, tal como o integrismo é uma doença de todas as religiões.» «O integrismo é a pretensão de se possuir a verdade absoluta e, por conseguinte, de possuir não só o direito mas também o dever de a impor a todos, sem olhar a meios. O primeiro integrismo é o colonialismo ocidental.» É uma boa e correcta explicação.
Porém, apesar desta visceral antipatia pela religiosidade fanática e tacanha dos islamistas, simpatizo muito menos com o terrorismo levado a cabo pelos governos norte-americanos, que, por exemplo, movem uma guerra económica a um pequeno estado das Caraíbas porque tem um regime ditatorial, mas protegem, por esse mundo fora, ditadores, criminosos de toda a espécie, incluindo barões da droga. Que invadem militarmente um país porque era dirigido por um déspota, mas que deixaram aqui na Península Franco e Salazar sem açaime durante décadas. Que me digam que todos os impérios têm sido assim, ainda vá; que me queiram explicar as razões por que é assim, vá lá. Não me queiram é convencer da razão deste império. A prepotência, o integrismo no conceito de Garaudy, dos Estados Unidos gera monstros como o do terrorismo islâmico. Monstros que morderam aos donos em 11 de Setembro de 2001, mas que mo
rd
em também noutras latitudes – Londres. Madrid… Aviso à navegação: o laboratório do Doutor Frankenstein situa-se em Washington. Está sempre em funcionamento, nunca encerra.

Comments

  1. Xico says:

    A tolerância existe sempre quando o outro não nos afronta. (veja o caso da Holanda, com a extrema direita a crescer) Era o que acontecia no universo do império árabe. Toda a conquista árabe foi feita a ferro e fogo e em muito pouco tempo. Depois de pacificado veio a tolerância? Desconhece os inúmeros massacres feitos entres os islâmicos de diferentes ideias religiosas, mesmo na península. As cruzadas são sempre uma história muito mal contada, de ódios religiosos etc. Tretas! O Papa opôs-se à tomada de Tânger. E opôs-se por motivos de ordem religiosa. Não se deviam guerrear por serem religiões irmãs. As cruzadas, no entender dele, foram legítimas enquanto salvaguarda de território cristão, e nunca de ocupação. Leia o final da conquista de Lisboa! Nunca houve verdadeiro ódio entre cristãos e muçulmanos. Houve guerra de conquista de poder e território. O ódio existiu de cristão para judeus e aqui não se tratou de território nem de poder. Era puro ódio e intolerância. Mas já era assim no tempo de Adriano e este não era cristão nem muçulmano…Porque seria?


  2. Xico: É como diz, «a tolerância existe quando o outro não nos afronta» – os muçulmanos eram mais tolerantes há mil anos , porque eram poderosos. A tolerância é um luxo a que os actuais muçulmanos não se podem dar. A única superpotência mundial acossa-os influenciada pelos sionistas, como se pode esperar que eles sejam justos e equilibrados? O fanatismo propugnado pelos clérigos, prometendo o paraíso a quem vive no inferno, é um refúgio. Não concordo com o terrorismo, mas compreendo que quem está sujeito a um terror permanente reaja como eles e odeie como eles. Não estou a aceitar. Estou só a compreender. Felicito-o e agradeço-lhe o inteligente comentário. Abraço.

  3. isac says:

    Concordo perfeitamente. Não tenho dúvidas que o poder policial americano tem efeitos secundários graves, como é o caso do terrorismo. A injustiça de se armarem em polícias e juízes do mundo cria desequilíbrios. O fanatismo religioso é apenas uma vertente desse desequilíbrio. Algo que suporte e justifique o ódio perante acções intrusivas e perante o constante argumento de “eu posso porque sim, já tu, não podes porque eu acho que não!”

  4. isac says:

    Já agora, em termos religiosos, a Bíblia (o único dos livros sagrados que li, espero em breve ter tempo para os outros) explica porque as religiões de Abraão, apesar de uma base comum, não são tolerantes entre si. Problemas entre irmãos. E como se sabe, problemas familiares não se resolvem, vão-se resolvendo…


  5. Carlos,
    Parabéns, artigo, bem redigido, argumentos bem e claramente expostos, apesar de discordar de suas ideias e convicções, admiro sua redação, sua imensa lista de texto lidos, aliás até te invejo por não ter o dom de escrever e paciência para ler e citar tantos textos, até que leio um pouquinho (pouquinho mesmo, sou mais classificado como arrogante que modesto), mas não os sistematizo para citá-los como anabolizantes dos meus argumentos.
    Acontece, que, apesar disso tenho ideias, argumentos, percepções, devaneios, opiniões que me cutucam por dentro e me impelem a expulsarem…
    Então vamos lá.. o parto é doloroso:
    1. O artigo começou bem falando de Democracia, até, em algum momento, acreditei na sua plena convicção pela opção democrata ( claro, diferente dos democratas do DEM, como o TSE permitiu este nome???). Porém do meio para frente ( sempre é do meio pra frente) começam os argumentos que me irritam do tipo “um erro justifica o outro” não jugam as ações em questão mas as omissões ou outras ações feita pelo Império. Me lembra meu colega de trabalho que sempre diz que não tenho bom gosto musical por que ouço músicas de diversos estilos, as pessoas tem necessidade de que sempre exista uma certa coerência em todas as ações e assim não julgam as ações isoladamente e … já ia dizer sem paixão, sem cometários, isso não existe… ( já li ou ouvir dizer que o Juízes primeiro decidem, depois vão pesquisar os argumentos que justificam…) ok, vou parar com os devaneios… é muito mais inteligente maldizer a invasão do Iraque como fruto do lobby da indústria bélica (ou outra coisa mais realista) que apontar a incoerência Americana que derruba uma ditadura e sustenta outras… mas peraí… o argumento oficial foram as armas de destruição em massa, lembra?? Prá finalizar o tópico que tá muito grande, vamos combinar: não se justifica um erro com outro. Os absurdos praticados por ditadores ou afins com a incoerência Americana…
    só para lembrar o óbvio: Concordamos que ditaduras ( e outros estado não democráticos, do ponto de vista ocidental mesmo) fizeram muito mais mal a humanidade que as atuais democracias imperfeitas…)
    2. 3. 4 sei lá, me perdi…
    então… democracia, por definição é sempre imperfeita, sempre em construção, será sempre diferente em cada país…
    mas não há nenhuma outra solução para todos os problemas que não esteja contida em um ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO, também é óbvio, mas adoro repetir que eleição (sou o cara, sei a diferença entre assembleísmo e democracia) é só a ponta do iceberg, é importante, mas o alvo mesmo é o pleno ESTADO DE DIREITO, precede sempre o democrático…
    Agora, não sei porque, mas o EUA são sempre a referência em termos de democracia e é recorrente, na américa latina, a construção de ditaduras, ou melhor argumentos pró, a partir de críticas ao tio SAM, porque ninguém critica a democracia da Dinamarca ( Eu até critiquei, condenar alguém só por que não usou camisinha… desculpe, sem mais parentes).
    Bem, vamos criticar os EUA, mas junto com ela, vamos enaltecer o monstro abstrato chamado ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO.
    um grande abraço…

  6. Carlos Loures says:

    Meu caro Henrique, a minha resposta às suas objecções ao que defendo no artigo, está no próprio texto. Apesar de escrito já há algum tempo, continua a exprimir o que penso. Os recentes acontecimentos de Tunis e do Cairo, confirmam a tensão, o confronto de mentalidades, entre Ocidente e Islão. Muitos dos que estão nesta nova intifada, os Irmãos Muçulmanos, por exemplo, não estão contra o obscurantismo que os clérigos querem impor, mas contra as tímidas reformas «ocidentalizantes» e «democratizantes» que Mubarak tem introduzido na sociedade egípcia. Tem sido um aliado dos Estados Unidos e tem tolerado as agressões sionistas contra os palestinianos. Onde quero chegar é à conclusão de que as potências ocidentais, nomeadamente os Estado Unidos, não deviam interferir na vida interna de países soberanos, protegendo governantes. depondo outros, ao sabor dos seus interesses. Esta interferência sistemática, que se seguiu às práticas colonialistas da Grã-Bretanha, em nada tem ajudado os povos árabes e oxalá não venha a pôr em causa a paz mundial. Um abraço, Henrique.

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