Falando de democracia: Ainda o tema do iberismo (I)

Portugal é independente «de facto» desde 1128 (batalha de São Mamede) e «de jure», desde 1143 (Conferência de Zamora). Espanha existe «de facto» desde 1469, quando Isabel de Castela e Leão casou com Fernando de Aragão. Os dois reinos continuaram a existir, com seus foros, privilégios e costumes, mas uma coroa dual passou a ser posta na mesma cabeça a partir de Carlos I. «De jure», Espanha existe «de jure» desde 1812, quando as Cortes de Cádis reconheceram a unidade territorial do estado espanhol e a plasmaram na Constituição. Os reis Católicos começaram a chamar Espanha ao conjunto dos territórios abrangidos pelas duas coroas e D. João II terá escrito aos primos protestando por terem usado o nome da Península para designar uma parte dela. Isto foi-me afirmado pelo meu amigo Ricardo Martin, professor da Universidade de Barcelona. Porém nunca consegui localizar a tal carta. Nem ele.
«Hablad de castellanos y portugueses, porque españoles somos todos!», terá dito Camões. Abro parêntesis – conheço razoavelmente a obra do Luís Vaz. Como todos os da minha geração, usei «Os Lusíadas» para aprender a dividir orações. Na adolescência, li com paixão a sua poesia lírica da qual depois, já com olhos de adulto, apreciei a grandeza. Conheço-lhe os autos. Esta frase, não a encontrei em parte alguma. O que não significa que não exista e se existe é apenas mais uma confirmação da gigantesca enciclopédia do conhecimento que se faria com aquilo que desconheço. Há semanas, circulou uma carta apócrifa da Clara Ferreira Alves atacando Mário Soares, carta que teria publicado no Expresso, mas cuja autoria ela desmentiu. Suponhamos, suponhamos só, que a carta do Príncipe Perfeito, de que me falou o Ricardo Martin, e que a frase do Luís, também nunca existiram. Como é que as criaturas podem vir repor a verdade? A frase viaja pela blogosfera em velocidade de cruzeiro e em castelhano (todos sabemos que Camões era bilingue, como quase todos os poetas da época). Apesar das dúvidas, vou partir do princípio que não se trata de apocrifia. Porque somos, de facto, tão espanhóis como castelhanos, catalães ou galegos. Afinal, «espanhol» é sinónimo de «ibérico».
Volto a este temática porque, segundo pude verificar, está a ser muito agitada, com sites e blogs específicos, onde se trocam opiniões (e alguns insultos). Como vos confessei, há muito tempo atrás fui iberista convicto. Com amigos portugueses, catalães, maiorquinos, um castelhano e alguns latino-americanos, fiz parte de um Centro de Cultura Íbero-Americano. Para nós, peninsulares, amordaçados pelas ditaduras de Franco e de Salazar, a Federação Ibérica, composta pelas cinco nacionalidades existentes na Península, seria uma forma de atingir a democracia. Era uma ingenuidade, porque não estou a ver os ditadores a abandonar as suas cadeiras e a dizer – Façam favor de constituir a vossa Federação. Mas era de uma Federação que falávamos – Países Catalães (Catalunha, Aragão e Baleares), País Basco, Espanha (com o remanescente do território não autonomizado), Galiza e Portugal. A capital sairia de Madrid. O estado seria uma República.
O que eu vejo hoje defender não é nada de semelhante, não se trata de uma federação de cinco estados, nem sequer da união dos dois existentes – trata-se da integração pura e simples de Portugal no estado espanhol, com o estatuto autonómico das demais regiões. Isto não é iberismo, nem união – chama-se anexionismo. Só o meu respeito pelas pessoas que defendem ideia tão disparatada, me impede de as qualificar. Porque além de toda a aberração que constitui tal ideia, do ponto de vista economicista que me parece constituir a parte mais visível da ideia – em Espanha paga-se melhor, a ideia da união ibérica é, nas actuais circunstâncias uma «ideia absurda» (e isto foi Cavaco Silva quem afirmou – não costumo estar de acordo com o que ele diz, mas não há regra sem excepção – esta cavaquiana afirmação é o mínimo que posso citar, num grande esforço de contenção, pois tenho palavras mais vicentinas a ocorrerem-me em catadupa). Sermos absorvidos por Espanha seria, para além dos aspectos que mais me interessam, entrarmos numa jangada que se está a desfazer. Espanha é um estado sem futuro, com uma forma arcaica e kitsch de chefia. Se Catalães, Bascos, Galegos querem ou não sair, é algo em que não nos podemos deter muito tempo. Diria que, na Catalunha, por exemplo, existem patriotas exaltados, monárquicos e republicanos, que não admitem a ideia de estar integrados e outros que entendem que o processo de integração não pode ser revertido. Uma grande parte dos Catalães tem origem noutras regiões, em imigrantes andaluzes principalmente. Pois, encontrei jovens, andaluzes de segunda ou terceira geração, que são catalanistas ferrenhos, profundamente imbuídos do ideal independentista. No País Basco, nem preciso de falar, todos sabemos o que se passa. Na Galiza, as correntes separatistas são menos visíveis, embora existam e se manifestem.
Pessoas que gostavam de «ser espanholas» por que «é bonito ter um rei», ou porque os ordenados são melhores e os espanhóis vivem materialmente melhor do que nós (o que, em termos médios, é inegável), não se deviam esquecer de que Espanha tem uma taxa de desemprego das mais elevadas da União Europeia. Por outro lado, muito do «esplendor» da economia espanhola é feito de multinacionais que instalaram as suas centrais para a Península em Barcelona ou em Madrid – são empresas americanas, alemãs, francesas, britânicas… Os «capatazes» ou executivos (que enxameiam os nossos hotéis) são castelhanos, catalães, galegos… e ajudam a criar a ilusão de que é a Espanha que está a tomar conta da nossa economia (como se tal coisa existisse…). Parte dos defensores da anexação, em grande maioria, iriam engrossar as fileiras do exército de «parados». Se querem deixar de ser independentes, porque não sugerem uma união (ou mesmo uma venda) à Suécia? Os suecos ganham muito melhor do que os espanhóis, há menos desemprego… E, já agora, também têm um rei e a rainha Sílvia até fala muito bem o português.
Sempre houve e continua a haver, por esse mundo fora, pessoas a morrer para que os seus países se tornem independentes. São «pobres idealistas». Entre nós há gente «realista» e com «sentido prático» disposta a vender uma Nação com nove séculos por um prato de lentilhas, que é como quem diz por meia dúzia de euros. Não vou qualificar estas pessoas nascidas no nosso País (mas que pelos vistos não o amam). Nem voltarei a este tema porque, além de ser repugnante, ouvi dizer que há fantasmas que, de tanto falarmos neles, se materializam.

Comments

  1. isac says:

    Muito bem. Mas numa perspectiva europeia em que não existem fronteiras, as autonomias apesar de tudo o que se diga começam a ser diluídas pelo poder central de Bruxelas e a progressão económica é imparável este é um cenário infelizmente inevitável. Não tenho dúvidas, que por exemplo, o Porto mais cedo ou mais tarde se “vire” para norte para a Galiza e especialmente Vigo (pela proximidade e parecença) do que para o sul, para Lisboa e para o resto do país. E não é uma questão de antigos bairrismos. Eu, por exemplo, quando quis ver uma exposição de Frida Kahlo, preferi ir a Compostela porque era mais rápido e mais barato do que ir ver a exposição a Lisboa. Mais cedo ou mais tarde, isto aplica-se a tudo.


  2. Naturalmente, Isac. Como direi num texto que ainda não saiu, o conceito de capitalidade é arcaico, anacrónico. Os países devem ter centros de decisão espalhados pela sua geografia e não «capitais». A capitalidade é um fardo para os lisboetas. Mas nada disto nos leva a integrar-nos no estado espanhol. Antes pelo contrário. Um abraço.

  3. isac says:

    Verdade. Ontem estive a ler um manual de geografia do “antigo regime” e ainda tinha todo o território português. Ultramarino e tudo. Percebo que vivemos ainda num país profundamente ferido por uma amputação enorme de terras. Mas acredito que quer queiramos quer não, com o tempo, este sentimento irá perder-se e um país tão pequeno como o nosso diluir-se-á naturalmente pelas fronteiras, impulsionado pela economia. Não é por nada que o principal argumento iberista, como bem disse, é o “eles ganham mais que nós.”

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