Poemas com História: Vinte anos, meu amor

Antes do poema, a História. Este vídeo, comentado em português do Brasil, com uma outra afirmação menos correcta (do meu ponto de vista), explica a quem não se lembrar e a quem não souber, o que se passou naqueles dias de Agosto de 1945:

O poema que hoje vos trago foi escrito em 1965, quando se completaram 20 anos sobre o bombardeamento nuclear das cidades japonesas de Hiroxima e Nagasáqui. Foi publicado na antologia Hiroxima, uma antologia de poetas portugueses que organizei, de colaboração com Manuel Simões, e que foi publicada em 1967 e também na colectânea A Voz e o Sangue (1968).. O título é uma clara alusão ao script de Marguerite Duras, Hiroshima mon amour, para o filme de Alain Resnais. Foi reproduzido em numerosas antologias, algumas estrangeiras, e traduzido em diversos idiomas, nomeadamente em castelhano, em francês, em inglês e em catalão. Vamos ao poema:
Vinte anos, meu amor
O relâmpago da bomba que assassinou Hiroxima,
esculpiu sombras sobre a pedra e o cimento
e diz-se que uma delas foi a de um pintor
cuja silhueta ficou para sempre tatuada
no mármore da frontaria de um banco comercial.
O operário, no pedestal do seu escadote,
mergulhava o pincel na lata de tinta
quando o grande clarão se abateu sobre a cidade.
Isto é,
às oito horas e quinze minutos do dia seis de Agosto
de mil novecentos e quarenta e cinco
(enquanto outros homens lançavam bombas),
um homem que trabalhava deixava o seu protesto
esculpido a luz na fachada de um banco.
A sua sombra é talvez o mais evidente e doloroso
monumento à glória dos trabalhadores de todo o mundo.
Mas isto foi há vinte anos,
quando Hiroxima e Nagasáqui foram duas flores de fogo
em cujas corolas explodia a carne e o vidro,
o sangue e o betão – foi há vinte anos,
quando os SS fugiam de Weimar e de Auschwitz,
deixando barracões atulhados de esqueletos vivos
e pátios com montões de cadáveres – carne podre
e ossos amarelecidos que não houve tempo de cremar,
foi há vinte anos e dos barracões saíram filas
de esqueletos vivos que partiram para as suas pátrias
desembarcando nas gares cinzentas da Europa Central,
com a palavra esperança bordada nos seus brancos lábios.
Tudo isto há vinte anos e desde aí os homens,
com os lábios em que tinham hasteado a palavra esperança,
decoraram nomes de terras onde outros homens morriam
para que a esperança deixasse de ser apenas uma palavra:
– Coreia, Indochina, Argélia, Cuba, Congo…
As fachadas dos bancos de Orão, de Havana, de Leopoldville,
viram passar sombras reivindicativas de trabalhadores
e – embora não eternamente – elas projectaram-se sobre o mármore
numa ameaça do Trabalho à indignidade.
………………………………………………………………………………..
A esperança é como uma grande bandeira que os homens levam
nos lábios, nos olhos e na memória,
e as suas sílabas, como pombas invencíveis,
sobrevoam os fornos crematórios, as cidades assassinadas,
as câmaras de gás, as selvas e as celas dos presídios.
Os homens levam a esperança desfraldada nos seus lábios
e um dia hão-de hasteá-la sobre todo o Universo.

Comments

  1. Adalberto Mar says:

    Sem dúvida é preciso não esquecer esta degraça horrenda…e a sociedade actual parece ignorar isto e muito mais actualmente…E elas existem, estão aí. É preciso também não só esquecer, e fazer-se referência, ao poder brutal dos militares puritanos americanos, e do seu uso, abuso e hipocrisia sobre o mundo, MAS É ABSOLUTAMENTE vital também fazer referência à mentira, ao horror e terror do IMPÉRIO COMUNISTA e da ex União Soviética, e actual Rússia (também) que, como os EUA, fizeram e fazem sofrer muita, muita gente mesmo, no mundo (e na História recém-passada).

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