Falando de democracia: Espanha, ontem e hoje

Hoje, 18 de Julho, faz 73 anos que eclodiu a Guerra Civil de Espanha. Estava-se em 1936. O conflito só terminaria quase três anos depois, em 1 de Abril de 1939. Morreu cerca de meio milhão de pessoas. 73 anos na escala humana anos são uma vida, são muito tempo. Porém, à escala da História, não são nada. A Guerra Civil de Espanha foi ontem. Aproveito para uma reflexão sobre quanto, desde ontem para hoje, a direita (tal como a esquerda) mudou. Em Espanha e não só. O vídeo é anódino, meramente informativo. No youtube encontram-se outros mais impressivos, mais dramáticos, e também, de uma forma geral, mais parciais.

Não vos vou contar a História recente de Espanha. Por certo, muitos de vós a conhecerão melhor do que eu. Lembro apenas que em 16 de Fevereiro de 1936, em eleições livres e democráticas, uma frente de esquerda, resultante da aliança dos anarquistas com os partidos republicanos, a chamada Frente Popular, venceu, proclamando-se a II República (a I República vigorara entre 11 de Fevereiro de 1873 e 29 de Dezembro de 1874). A direita militar espanhola, as classes possidentes, a Igreja católica, suportaram mal o clima de controvérsia dos primeiros passos do jovem regime. Clima que adensaram com provocações e actos insensatos (que os houve de ambos os lados), mas vitimizando-se sempre a direita, cometendo dislates e crimes, mas comportando-se sempre com o tom pudicamente ofendido de uma virgem num bordel. Em suma, todas as forças reaccionárias, aproveitando como pretexto os erros das esquerdas se mancomunaram para derrubar a República. Os pormenores históricos estão ao dispor, em livros, em filmes, não os vou repetir. Direi só que os generais golpistas de 18 de Julho de 1936 deram corpo a tudo o que de mais sinistro existia no substrato daquilo a que se chama a «alma espanhola» e que mais não é do que um crisol onde se misturam sentimentos e interesses contraditórios, nacionalidades sufocadas, quezílias seculares mal resolvidas; em suma, a «alma espanhola» é um cliché e como a maioria dos clichés não passa de uma treta. Três anos e quase 500 mil mortos depois a guerra terminou com a vitória da direita. As trevas da repressão abateram-se sobre Espanha – foram quase quarenta anos de ditadura de uma direita reaccionária, ressabiada, raivosa. Estúpida como só as ditaduras (as ditas de esquerda também) sabem ser.

Embora os objectivos continuem a ser os mesmos – conservação de valores considerados intemporais, tais como os privilégios de classe, prevalência da religião como cimento dum edifício mais torto do que a torre de Pisa – o estilo mudou. Um derradeiro assomo deste estilo arruaceiro no estado espanhol foi o assalto golpista ao Congresso, em 23 de Fevereiro de 1981, por forças da Guarda Civil comandadas pelo tenente-coronel Tejero. Rajadas de pistola-metralhadora e gritos de «Quieto todo el mundo! Al suelo! Al suelo!». Don Juan Carlos fez a sua rábula de democrata (coisa que podia e deveria ter feito dez ou vinte anos antes, durante o reinado de Franco). A própria direita condenou o acto e, pronto, tudo acabou em bem.

Hoje as coisas não são tão visíveis, tão claras como eram há setenta anos. A direita descobriu o seu nicho ecológico no seio da democracia. Não sei se já repararam que todos, ou quase todo, os partidos de direita fazem questão de incluir na sua sigla a palavra «democrata», «democracia»… A nova direita adaptou-se à democracia; mais – não saberia já viver noutro sistema. Mas…

A ideia da extinção dos conceitos de direita e de esquerda já não se justificarem no pós-modernismo é uma ideia de direita; ouvia-a, já há muitos anos, defendida pela primeira vez em Portugal, falando de pessoas conhecidas, pelo Professor Freitas do Amaral num debate televisivo. Porém, já ouvira a afirmação, feita com menor consistência e autoridade, a pessoas comuns, com aquele ar com que se fala de coisas ultrapassadas. Porque a direita actual tem vergonha da direita de ontem, tal como aqueles filhos licenciados que se envergonham dos pais analfabetos os quais, em todo o caso, lhes punham todos os dias a comidinha na mesa. Mussolini, Hitler, Salazar, Franco, Auschwitz, Tarrafal, Guernica, Gestapo, Pide, tortura… «Ih, que nojo!».
A designação até pode vir a cair em desuso. O que esse desuso não extinguirá é a realidade subjacente à classificação. E aqui sou forçado a emitir uma definição pessoal. Para mim, a distinção entre direita e esquerda pressupõe uma clivagem, entre os que querem conservar valores que implicam a manutenção das desigualdades sociais e os que, sem se importarem com esses valores, querem transformar a sociedade e promover uma igualdade absoluta dos cidadãos perante a lei, bem como o acesso de todos, de modo igual, aos bens que a comunidade, no seu conjunto, puder produzir. Quando a direita aceitar isto sem reservas, deixará de ser direita e, então sim, deixará de se justificar a distinção.

Quando Manuela Ferreira Leite, comentando reformas do Governo perguntou, há meses atrás, se «não seria bom haver seis meses sem democracia para pôr tudo na ordem» obviamente que não está a pensar em instaurar uma ditadura no estilo das do século passado. Mas esqueceu-se de dizer como seria governado o país durante esse semestre – por ela? Pelo seu partido? O que significa «pôr tudo na ordem?» – acabar com os protestos dos professores? Silenciar os sindicatos? Não quero dar demasiada ênfase a uma frase dita durante um almoço, apenas me parece que esta afirmação (que até pode ter sido um raro assomo de ironia da sisuda senhora) revela o chamado «acto falhado», a involuntária verbalização de uma nostalgia do tempo em que «tudo estava na ordem». Passou o tempo dos ogres fascistas. Como um rottweiler domesticado, a direita apresenta-se civilizada e, sobretudo, muito democrática.
Mas a dentição e o apetite continuam lá.

A Guerra Civil de Espanha começou faz hoje 73 anos. Foi há muito tempo. Foi ainda ontem.

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