Poemas com história – Canção para Maria

A receita desta nova série é muito simples: pego num poema meu, já publicado ou inédito, e explico em breves palavras a sua génese, o sentimento ou o acontecimento que o provocou. Uma advertência: alguém me disse que devia chamar à série «poemas com estória». Há empréstimos da norma brasileira e do português falado no Brasil que aceito e outras que não. Essa de estabelecer diferença entre História, para definir a ciência que relata os factos públicos, militares ou políticos de uma nação ou estado, e estória, para qualificar a arte da ficção narrativa, diferença que, grande parte das pessoas (algumas muito respeitáveis) adoptou com o entusiasmo de quem descobriu a pólvora, a mim não me apanha. Uso o termo história nas duas acepções. O facto de em inglês se usar History e story, respectivamente, a mim não me diz nada. A única diferenciação que aceito (desnecessária pois, pelo contexto, logo se percebe do que estamos a falar), é utilizar o H maiúsculo no caso da disciplina científica. Em suma, gosto muito de ouvir falar os brasileiros a falar com o seu sotaque e expressões próprios e não gosto nada de ouvir os portugueses a macaqueá-los. Está explicado – poemas com história.

fanhais

Francisco Fanhais cantando Canção para Maria (Queria Um País de Sol Para te Dar) na FNAC do Fórum Almada.

O primeiro poema que apresento nesta série, intitula-se Queria um país de Sol para te dar e foi publicado no meu livro A Poesia Deve Ser Feita Por Todos. Escrevi-o no presídio do Reduto Norte de Caxias em 1968, dedicado a minha mulher. O Francisco Fanhais musicou-o e ainda hoje o canta com frequência. Mudou-lhe o título para Canção para Maria. Há uma história interessante relacionada com este poema, para além do facto das circunstâncias em que foi escrito e da forma como, com muitos outros textos, saiu comigo quando fui posto em liberdade, após seis meses de cativeiro – dentro de sapatos, entre a palmilha e a sola: o Francisco Fanhais cantava o poema por muitos lados e antecedia-o sempre da mesma história – o Carlos Loures uma tarde disse para a mulher: – Vou até ao café, venho já! – e o Fanhais fazia uma pausa e rematava – voltou passados seis anos! Isto tinha-se passado assim, eu de facto fui preso no café, mas foram seis longos meses e não seis anos. Quando, finalmente, já depois do 25 de Abril conheci pessoalmente o Fanhais, pedi-lhe para ele fazer a rectificação. Aqui vai o tal poema:

Queria um país de Sol para te dar

Para a Maria Helena

Queria um país de Sol para te dar,

com amantes e crianças nos jardins,

pássaros livres a cantar nas árvores

e a luz em liberdade pelas ruas

– as coisas nos lugares onde as sonhámos

e não nos sítios onde estão,

com armas aperradas a guardá-las.

Um país onde sulcássemos as límpidas manhãs

com sorrisos claros vestindo as faces.

Um país sem muros, sem medo

nem carimbos nas cartas que escrevemos

e ouvidos nas palavras que dizemos,

em segredo.

Mas, meu amor, nascemos cedo,

chegámos ainda a tempo de viver

este tempo que vivemos

com lágrimas ocultas no sorriso,

a raiva escondida nas carícias

e uma secreta esperança aprisionada

nos nossos corações aprisionados.

Viemos ainda a tempo de sofrer

Este tempo que sofremos

dia a dia e que sulcamos,

com os beijos vigiados,

com os nossos segredos desvendados,

com este amor amputado e prisioneiro

com que amamos.

Meu amor, não desertemos

Do tempo e do país em que nascemos

(e viver outro tempo dentro deste

ou estar fora do país

dele não saindo,

também é desertar).

Já que foi este o tempo que nos coube,

já que foi este o país que nos deixaram,

temos de conquistar o Sol que os ilumine,

roubando-o ao silêncio e à mordaça

que nos sufoca a voz – Não desertamos

– o ódio, o medo, a morte

que fujam, que desertem

se o amor os insulta e ameaça.

– Nós ficamos!

Com ao companheiros

e o amor dos companheiros,

o amor será mais forte

do que o ódio, do que o medo, do que a morte.

A luz também se constrói com os nossos beijos,

com as palavras clandestinas que escrevemos,

aquelas que a opressão não vê nem ouve.

A luz também se constrói com os nossos filhos,

eles tingem de luz nova

as sombras que com ódio vêm pôr

entre as carícias, os beijos e as palavras.

Neles se erguerá a luz para amanhã

e a liberdade prisioneira nos nossos corações

inundará de Sol as ruas,

meu amor.

Nota final: Este poema também ficaria bem na minha outra série Apontamentos & Desapontamentos. A democracia, esta «democracia», desapontou-me. Em todo o caso, não alimento saudosismos estúpidos por esse tempo de odiosa e criminosa repressão. Desse período negro, só invejo nostalgicamente a «mocidade perdida», como diz o faduncho.

Falando de democracia: Indios e cowboys

Pelo menos os da minha geração, lembram-se de uma das brincadeiras favoritas dos miúdos – os índios e cowboys (cóbois, no nosso inglês simplificado). Nascido no centro de Lisboa, não podia brincar na rua. Mas nas férias grandes desforrava-me. Numa vila de praia da margem Sul, hoje transformada num caos urbanístico, mas na altura pacata e tranquila, reunia-me a um grupo de amigos certos, todas as tardes, depois do almoço, antes de uma última ida à praia, quando o sol já não «fizesse mal». Dividíamo-nos em dois grupos, os maus e os bons, os índios e os cóbois. Não havia lugares fixos, a divisão era aleatória. Mas quem se atrasasse na chegada já nem tinha direito a escolher. Ninguém discutia as regras.
*
Antonio Gramsci (1891-1937), filósofo e político italiano, perseguido pelo regime fascista de Benito Mussolini, dizia na sua obra Os Intelectuais e a Organização da Cultura: «Cada grupo social essencial» (…) «surgindo na história a partir da estrutura económica anterior e como expressão do desenvolvimento desta estrutura, encontrou – pelo menos na história que se desenvolveu até aos nossos dias – categorias intelectuais pré-existentes, as quais apareciam, aliás, como representantes de uma continuidade histórica que não fora interrompida nem mesmo pelas mais complicadas e radicais modificações das formas sociais e políticas.» Ao recordar estas palavras de Gramsci, sou levado a reflectir sobre o facto de a realidade histórica dos últimos dois séculos nos permitir verificar que são oriundos da burguesia quando não mesmo da aristocracia, os intelectuais que surgem à superfície das grandes e pequenas perturbações sociais e que construíram, não só os suportes teóricos do sistema capitalista, como também os pressupostos ideológicos de quantas revoluções se produziram.
A Revolução Industrial, ao mesmo tempo que veio criar um novo modo de produção – o que, pode dizer-se, não acontecia desde o Neolítico – provocou o aparecimento de uma estrutura intelectual adequada, do mesmo modo que a aristocracia fundiária, no sistema feudal, criou a sua própria categoria intelectual – a dos sacerdotes. Estes monopolizaram, durante um longo período da história, a ideologia religiosa que, para todos os efeitos, constituía a ciência da época. Em contrapartida, poder-se-ia afirmar que a classe operária, nasceu, sobreviveu e, provavelmente, extinguir-se-á sem ter organizado (ainda que a partir de categorias intelectuais «pré-existentes» uma intelectualidade própria, acabando o marxismo, numa análise superficial, fria e pragmática, por surgir como uma ruptura interna na superstrutura da burguesia, não ultrapassando na prática a concepção hegeliana que atribuía aos intelectuais o papel de «aristocracia do Estado».
Esboça-se um quadro de luta de classes em que, a nível superestrutural, um dos contendores estaria numa total dependência dos quadros formados pelo adversário, aparecendo a luta, no campo das ideias, como uma dissensão no campo de burguesia – a clivagem entre intelectuais «burgueses» e intelectuais «proletários» seria determinada por um jogo de opções pessoais baseado na pressão moral que a natureza cruel e desumana da exploração sempre tem exercido sobre camadas sensíveis da classe dominante, nomeadamente entre a juventude. O campo revolucionário, nessa luta que, embora tão anunciada nunca chegou a travar-se, dependeria das deserções que essa pressão ontológica provocasse. Não falarei aqui do papel desempenhado nessas deserções do campo burguês motivadas por ilusões românticas e a esperança no advento de uma sociedade justa. Não falarei também de apressadas «opções de classe» feitas em ordem a objectivos obscuros de oportunismo, carreirismo, servidas por consabidos artifícios de demagogia. Desde o século XIX até ao século XX, organizações operárias fizeram esforços no sentido de criar estruturas culturais autónomas do tipo das universidades livres. Porém, salvo uma ou outra excepção, todas elas desembocaram em arremedos do ensino burguês.
No fundo, toda esta problemática radica num ponto – o socialismo não criou um modo de produção alternativo ao do capitalismo. Procurou pôr o modo de produção capitalista ao serviço do proletariado. Porém, tal como o carro não consegue puxar os bois, é o modo de produção que determina a estrutura cultural e não o contrário. Entrou-se num labirinto sem saída. Melhor, num labirinto cuja única saída deita para o depósito das revoluções abortadas. O «socialismo real» tinha falido muito antes da queda do muro de Berlim. Quando na União Soviética se chamou stakanovismo à mesma coisa a que os capitalistas chamavam taylorismo, a revolução acabara já. Porque o problema não era uma questão de nomenclatura. Nessa altura, em que os operários se emulavam para ver quem ganhava o título de «trabalhador do mês», nascera uma nova forma de exploração – o capitalismo de Estado, com a economia posta ao serviço de uma nova classe dominante. As pessoas mudaram, a exploração capitalista manteve-se. A bem dizer, não houve revolução.
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Nesta era pós-industrial em que vivemos, observando a classe política que temos em Portugal, verifico que ainda há muita gente do «meu tempo». Na grande vaga de prisões que se verificou em meados dos anos 60 – o controleiro do sector universitário do Partido Comunista deu de mão-beijada à PIDE toda a estrutura do sector, nomes, pseudónimos, moradas, ligações – tudo. Ao mesmo tempo, um acidente com uma bomba artesanal desencadeou a prisão de muita gente da Frente de Acção Popular, um movimento proveniente de uma cisão no PCP. As prisões regurgitavam de jovens estudantes. Naquela altura, há mais de quarenta anos, estavam concentrados em duas organizações de esquerda (muitos mais no PCP). Eram jovens da classe média na sua generalidade, «filhos da burguesia», usando o linguarejar politiqueiro da época.
No começo dos anos 70, tinham começado a constituir-se outras formações políticas – a LUAR, as BR, o MRPP e, em 1973, a ASP, que daria lugar ao PS. No seio do partido único, a ANP, nascia uma ala liberal. O leque político que durante as décadas anteriores se resumira ao PCP, aos republicanos históricos (que só se organizavam em vésperas de eleições) e à Causa Monárquica, diversificava-se. Muitos dos militantes destas organizações, geralmente estudantes, provinham da geração seguinte à minha. Porém, os dos anos 60, formados na sua grande maioria no PCP, espalharam-se pelos novos movimentos (alguns em lugares de liderança) nomeadamente pelo PS, um ou outro pelo PSD. Não digo nomes, mas quem viveu aqueles tempos, sabe que foi como digo. Ministros e secretários de Estado do PS, foram e são, gente desse tempo, provenientes das hostes do PC. O que não tem mal nenhum – embora para 0o PC quem sai para o PS ou para o PSD seja um traidor, mas ache normal que se faça a viagem em sentido contrário (o que raramente acontece, diga-se). Onde quero chegar é à conclusão de que, tal como nos jogos infantis de índios e cóbois, a escolha do campo político em que se actua, não sendo aleatória por corresponder, na melhor das hipóteses, a convicções políticas (há casos em que corresponde a interesses da mais variada espécie, mas não vou por aí), nada tem a ver com a chamada origem de classe. Toda a gente, da extrema-esquerda mais extra parlamentar à direita mais conservadora, pertence, grosso modo, à mesma classe, bebeu a sua formação nas mesmas fontes. Assumindo uns, em diversos graus, o papel de defensores da classe a que pertencem e outros, em diversos graus também, o de revolucionários. Não explicará esta circunstância a falência sucessiva de quantas experiências de derrube da sociedade burguesa que têm sido empreendidas? Através dos intelectuais, dos quadros herdados, como sapatos de defunto, do capitalismo e introduzidos, mercê das tais opções de classe, sub-repticiamente no cerne do
te
cido revolucionário, a burguesia ressurge, mais cedo ou mais tarde, metamorfoseada em casta dirigente proletária, como erva daninha agarrada às estruturas de Estado, revestida da sacrossanta autoridade das altas hierarquias do Partido, montada solidamente no cavalo do poder. Cóbois disfarçados de índios. Ou vice-versa, se preferirem.

Falando de democracia: A era americana

Os Estados Unidos da América, pela límpida voz dos próceres da sua independência, nomeadamente a de Thomas Jefferson, principal autor do texto da Declaração da Independência, proclamada em 4 de Julho de 1776, foram no final do século das luzes um farol de liberdade que ofuscou as candeiazinhas do iluminismo. Diz a Declaração em certo passo – «a prudência recomenda que não se mudem os governos instituídos há muito tempo por motivos leves e passageiros.» (…) «Mas quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objecto, indica o desígnio de reduzi-los ao despotismo absoluto, assiste-lhes o direito, bem como o dever, de abolir tais governos e instituir novos Guardiães para sua futura segurança». Palavras que os revolucionários franceses beberam, seguindo o exemplo americano treze anos depois. Porém, em pouco mais de dois séculos, esse capital de esperança foi dissipado, a luz radiosa do american ‘dream transformou-se no buraco negro onde a liberdade e a democracia se precipitam e desaparecem, passando para uma realidade paralela – «a realidade americana».
Nos Estados Unidos existe uma quase ilimitada liberdade de expressão. Centrais de inteligência, como a CIA e o FBI, são em livros, em filmes, em séries televisivas, acusados das mais torpes felonias de uma forma que não sei se a PJ ou o CIS aguentariam. Não se pode deixar de apreciar aquilo que aparece como uma transbordante capacidade de autocrítica. Porém, essa facilidade de denunciar ficcionando, banaliza o crime e as prepotências dessas centrais. Até porque, geralmente, não são as centrais ou as instituições propriamente ditas que são acusadas, mas indivíduos corruptos ao seu serviço. Nesta ânsia de efabular a perversão, nem o Presidente escapa. Estou a lembrar-me de um filme, Poder Absoluto (Absolute Power, 1997), realizado por Clint Eastwood, em que o criminoso é precisamente o presidente dos Estados Unidos, interpretado por Gene Hackman. É a teoria da conspiração em todo o seu esplendor.
Quando as coisas acontecem fora dos ecrãs ou das páginas dos romances de aeroporto, em Guantánamo, no Iraque ou no Afeganistão, a maioria dos cidadãos norte-americanos acha normal. Em suma, tudo o que de negativo existe na sociedade norte-americana pode ser denunciado e criticado – do racismo à tortura. As maiores felonias e as mais sinistras conspirações são antecipadas. O efeito é perverso. Se amanhã os Estados Unidos decidirem lançar bombas nucleares sobre o Irão, muitos americanos acharão normal – encolherão os ombros e dirão – já vi este filme.
Naturalmente que esta acefalia colectiva não traça um retrato de corpo inteiro da sociedade norte-americana – há uma percentagem elevada de americanos inteligentes, cultos, bem informados e preocupados com o rumo que as coisas estão a tomar. Porém, na sua maioria, os norte-americanos confundem o seu mundo com o Mundo. É vulgar o vencedor da final de qualquer desporto que só ali se pratica ser designado por «campeão do mundo». Para a maioria dos norte-americanos, o «mundo» são eles; os outros continentes e países, arredores insignificantes. É assim desde a Segunda Guerra Mundial, quando após a grande depressão de 1929 e que se prolongou pelos anos 30, os Estados Unidos emergiram com grande potência. O colapso da União Soviética que dividia com eles a tarefa de dirigir e policiar o planeta, deixou-os sozinhos e entregues ao seu grande poder que é, também a sua maior fraqueza – a invasão do Iraque, para falar numa das mais recentes demonstrações da sua «omnipotência», foi, pode dizer-se, decidida unilateralmente pelo gabinete de George W. Bush. A União Europeia foi um mero figurante (com a Grã-Bretanha a assumir o papel de embaixadora de «deus» aqui na terra…).
O realizador cinematográfico francês Alain Resnais, o director de «Hiroshima, mon amour» (1959) e de «Mon oncle d’Amérique» (1980), disse numa entrevista que era doloroso «viver na era americana e não ser americano». Isto foi dito há quarenta anos, talvez, quando ainda nós, europeus, não nos tínhamos apercebido totalmente da carga de perversa prepotência existente na democracia americana, embora tivéssemos já elementos históricos para tal (o lançamento de duas bombas nucleares sobre o Japão, por exemplo). Hoje em dia, o inglês impôs-se como língua franca e não foi por mérito ou pressão da Grã-Bretanha que isso aconteceu, pois enquanto a Grã-Bretanha, no século XIX, foi a principal potência mundial, o francês era a língua internacional por excelência. A american way of life constitui um modelo implantado à escala global, desde os cereais do pequeno-almoço até às séries televisivas e aos programas com que preenchemos os serões. Sentimo-nos como se deviam sentir os nossos ancestrais depois da ocupação romana da Península – obrigados a arranhar o latim e a adoptar hábitos e leis impostos desde Roma. Viviam na era romana e não eram romanos – dissolveram-se no decurso do processo de romanização. Mas o Império Romano também não durou eternamente, dissolvendo-se na corrosão do tempo, da sua degenerescência, do seu próprio poder. Não há impérios eternos. Porém, sempre duram mais do que aqueles que lhes profetizam o fim.
Duram sempre demais.

Tiananmen foi há 20 anos


Praça de Tiananmen, lembram-se? Fez no Sábado 20 anos. Milhares de jovens prosseguiam os seus protestos, exigindo a abertura do regime à democracia. Construíram eles próprios um monumento à Democracia. Em 4 de Julho de 1989, o governo da China ordenou às Forças Armadas que pusessem fim aos protestos. E foi o que fizeram. Segundo os dados oficiais, morreram 241 pessoas. Mas fala-se num número que oscila entre os 2600 e os 3000 mortos. Jovens na sua maioria. Desse massacre fica-nos a imagem de um homem sozinho enfrentando os tanques. Tiananmen, em mandarim, significa Paz Celestial.

Apontamentos & desapontamentos

O meu amigo José Pedro Machado deu-me muitas lições em vida. À mesa do restaurante «O Pardieiro», no Largo da Graça, onde almoçávamos em regra uma vez por mês, na «Chineza» da Rua do Ouro, onde muitas vezes tomávamos o pequeno-almoço num grupo de amigos, na sua maioria seus ex-alunos, no meu gabinete da editora, onde fazíamos reuniões de trabalho, ou na Livraria Portugália, onde ia todas as manhãs, ensinou-me coisas, sobre as mais variadas matérias, que eu lhe perguntava ou esclarecia dúvidas que surgiam durante as conversas. Grande filólogo, tinha aquilo a que se chama uma cultura enciclopédica que ia muito para lá das fronteiras da sua especialização científica. Obrigou-me, tal como aos outros amigos, a tratá-lo por tu, embora tivesse idade para ser nosso pai. Não dizia, como muitos, que era democrata – praticava a democracia. Em 27 de Julho de 2005, acometido de doença súbita, deixou-nos. Todavia, o seu «Grande Dicionário da Língua Portuguesa» é para mim um companheiro inseparável. Não sabe tudo, mas sabe muito. Raramente não responde ao que lhe questiono e nunca me desapontou. O meu amigo continua a ensinar-me. Obrigado José Pedro!

Apontamento, todos sabemos o que significa (nota, registo, lembrança, resumo de algo que se leu…). Desapontamento tem talvez mais que se lhe diga. Vejamos substantivo masculino. Acontecimento desagradável que causa surpresa; decepção por falta daquilo com que se contava…» Todas estas acepções, esclarece-nos também, são provenientes de anglicismos, pois provêm da palavra disappointment. Pois na acepção portuguesa desapontar significa desfazer, riscar, anular o que se apontou (anotou, registou, etc.). O que, de certo modo, também me serve.

Ao longo da vida, tenho tomado muitos apontamentos (alguns dos quais não me serviram até agora para nada) e muitos são também os desapontamentos que tenho sofrido. Também não têm tido grande utilidade. Nestas séries de mini-crónicas vou dar-vos conta de alguns desses apontamentos e desapontamentos (também se pode dizer desaponte ou desaponto – do inglês disappoint). Este é um caderno onde não escrevo. É um caderno de onde vou arrancando folhas com apontamentos sobre decepções ou sobre temas que em certos momentos me interessaram, apaixonaram mesmo em alguns casos. E que ou me desapontaram ou me deixaram de preocupar. Hoje, para não começarmos com pessimismos, sai um apontamento sobre a função da catarse (e dos blogues).

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Catarse, substantivo feminino, é a expulsão daquilo que, sendo estranho à essência ou à natureza de um ser, o corrompe. É um processo de purificação. Embora não pareça, catar, o verbo transitivo, na sua forma reflexiva catar-se, tem um significado muito semelhante, embora mais popular. Enquanto catarse nos remete para o classicismo grego, para o orfismo, o pitagorismo, o platonismo ou para acepções mais técnicas, do foro da psiquiatria, o verbo catar, menos clássico, mais democrático, lembra-nos mães, às portas de suas casas em bairros pobres espiolhando os filhos ou, numa versão mais National Geographic, chimpanzés catando-se mutuamente (porque os sais que extraem das pelagens fazem falta à sua dieta – não sei se isto é verdade. A Dra. Jane Goodall, grande especialista no estudo da espécie, não o confirma). O blogue é uma forma moderna de catarse. Moderna e barata, pois os psiquiatras não cobram pouco… É também uma forma de cada blogger se catar, limpando-se de obsessões, ou de os bloggers se catarem mutuamente, extraindo uns dos outros os sais necessários ao seu equilíbrio emocional. Catarse = catar-se. O português não é uma língua traiçoeira – é como um cão fiel e bonacheirão – desde que tratada com respeito, não nos morde. Mas voltemos aos blogues, esquecendo a sua função catártica e voltando-nos agora para a sua vocação comunicacional.

Numa entrevista dada no Brasil em Janeiro de 2009, o entrevistador pergunta a José Saramago se acredita que a organização das pessoas em rede, permitida pela explosão dos blogues, poderá ser um motor para a mudança social no futuro. Ao que o escritor responde: «Eu tenho umas quantas dúvidas. Quando aparece um caso como o da Internet, com a potencialidade que apresenta de comunicação, de troca de ideias, as pessoas falam de revolução pela Internet, mas no fundo somos ingénuos e vamos continuar a ser, aconteça o que acontecer. Não sei como essa revolução se daria. A Internet daqui a dez anos talvez não seja o que é. Nós estamos livremente na rede, não sei se em dez anos essa liberdade será permitida. E mesmo que isso não aconteça, há uma questão central: quem é que está no poder? Estamos nas mãos do poder e, portanto, é-nos praticamente impossível propor uma alternativa económica, sem uma alternativa política e social. Podemos organizar-nos em rede e fazer uma manifestação nas ruas, mas no dia seguinte acaba. Porque os meios de comunicação podem simplesmente decidir não falar dela. E se não falam dela, a manifestação não existiu e acabou».

Grande verdade, Saramago – hoje em dia, o que não é relatado pela comunicação social, é como se não existisse. 

Falando de Democracia: Lixo e televisão

Woody Allen, disse algures que, na Califórnia, não se deve deitar fora o lixo – «Eles reciclam-no sob a forma de programas de televisão». O problema é que este conselho passou a ser válido fora da Califórnia, mesmo na Europa, particularmente em Portugal. Dissemos num texto anterior que as palavras cultura e televisão estavam a deixar de fazer sentido quando aparecem em conjunto; a palavra lixo, porém, coaduna-se perfeitamente com a televisão que se faz dos nossos dias. E tanto assim é que Gustavo Bueno, o pensador espanhol, criador do conceito de Materialismo Filosófico, publicou em 2002 um livro a que chamou «Telebasura y democracia», ou seja «Telelixo e Democracia». O subtítulo da obra é elucidativo – «cada povo tem a televisão que merece». Afirmação que tem graça, mas que não pode corresponder à verdade. Quando um povo é muito inculto tem tendência a preferir programas fúteis, idiotas mesmo. Isso não significa que «mereça» que lhe sirvam o lixo que ele prefere.

É uma interpretação muito redutora do princípio democrático que obriga a respeitar a vontade das maiorias, esquecendo que é função das instituições democráticas do Estado proporcionar meios para as pessoas elevarem o seu nível cultural e educacional. Mas, aparte este slogan que não sei se é da autoria de Bueno ou de algum «génio» do marketing, o livro é muito interessante. Não conheço tradução em língua portuguesa, mas tudo o que ali se diz sobre a qualidade da televisão espanhola é aplicável, por maioria de razão, à televisão portuguesa que, pelo que tenho visto, consegue ser pior do que a do estado vizinho, embora isso pareça difícil. Para além do lixo servido como entretenimento e que cria dependência nos telespectadores, há a vertente política de um meio que Karl Popper, como já vimos noutro texto anterior, não hesitou em classificar como «um perigo para a democracia»-

O eixo temático do livro de Gustavo Bueno é a observação sistemática que o reputado filósofo fez sobre o Big Brother (Gran Hermano, na versão espanhola), programa visto diariamente por onze milhões de telespectadores. Os índices de abjecção e de indigência mental alcançados em Espanha, parecem não terem ficado nada a dever aos que em Portugal se atingiram. Lembremo-nos de que em França o programa não foi autorizado devido à sua falta de qualidade. Isto demonstra que, mesmo em democracia (eu diria, principalmente em democracia) pode e deve haver mecanismos que impeçam certas «liberdades», das tais que são inimigas da Liberdade. Para quem vê os canais franceses torna-se evidente que, com uma ou outra concessão às tais «liberdades», o nível médio é bastante superior ao dos canais peninsulares. Na televisão espanhola, tal como na nossa, a programação procura corresponder ao gosto da audiência e se ela quer lixo, é lixo que recebe: «A audiência na sociedade democrática é que manda e a televisão-lixo tem que obedecer a esta procura», diz Bueno. Como dizíamos numa crónica anterior dedicada a este tema, a televisão vai progressivamente baixando o seu nível e com a sua impressividade e imensa capacidade formativa, gera um estirpe de telespectadores cada vez mais dependentes do lixo – telenovelas, talk shows, reality shows, concursos, e o próprio lixo vai diminuindo a sua qualidade para poder corresponder à procura. É a tal espiral descendente de que falávamos e que poderá conduzir, segundo a profecia de Marlon Brando, ao extremo de pôr pessoas a satisfazer necessidades fisiológicas em frente das câmaras.

Como referi na tal crónica anterior sobre a televisão, quando o actor disse isto, há mais de quinze anos, parecia um exagero, mas cada vez vai parecendo mais verosímil. Porque, como afirma Gustavo Bueno, os índices de audiência na sociedade democrática é que orientam a produção de novos programas. E Bueno remata o raciocino dizendo que não será por razões éticas ou morais, «mas sim por razões de simples sobrevivência democrática». E cita Lope de Veja, grande dramaturgo espanhol dos séculos XVI e XVII: «homem de teatro que conhecia as leis do mercado séculos antes da televisão: “Se o vulgo é néscio, é justo falar-lhe néscio para lhe dar prazer.”» Será verdade que o néscio e o inculto, por uma questão de preguiça intelectual, têm prazer em que lhes falem na linguagem e segundo os conceitos que melhor dominam, sem terem que fazer esforço mental.

Mas, seguindo este critério, o néscio nunca deixará de o ser.

Falando de democracia: centralismo democrático

«Centralismo democrático» é a designação que se dá à forma de direcção e ao modo de organização dos partidos comunistas. As características e os princípios deste sistema de estruturação partidária, são – a elegibilidade de todos os cargos e a possibilidade da sua revogação em qualquer altura; uma severa centralização organizativa; todas as decisões aprovadas pela maioria devem ser acatadas pela minoria; uma forte disciplina implantada a todos os níveis da estrutura; permanente possibilidade de discussão da linha política; o imperativo da crítica e da autocrítica; unidade na acção, não se admitindo a criação de facções, fracções, tendências ou «sensibilidades». É óbvio que qualquer defensor deste tipo de organização que me esteja a ler, logo dirá que esta descrição é sinteticamente redutora. Será, mas alongar-me mais era correr o risco de não encontrar ninguém com paciência para chegar ao fim da leitura.

Na prática, este sistema de direcção partidária criada por Lenine conduziu em linha recta ao estalinismo e às suas monstruosas consequências, entre as quais a eliminação física, pura e simples, de quem se atreveu a discutir a linha política do partido (a tal que, segundo o projecto de Lenine, podia ser discutida permanentemente). Depois, já não era apenas a linha do partido que era crime discutir (e crime ainda muito maior, era discordar), pois também todas as directivas emanadas do comité central, não podiam ser contestadas. Sabe-se que o comité central obedecia cegamente a Estaline. O que passava pela cabeça de um Estaline, filtrado pela sua psicopatia, era a «linha política do partido». As purgas em que foram executados centenas de milhares de comunistas, eram a forma «democrática» de resolver a discussão. Chegou-se a um ponto em que, como as paredes tinham ouvidos e microfones também, as pessoas já tinham medo de pensar algo que fugisse à ortodoxia estalinista. Em «1984», o genial romance de George Orwell, retrata-se de forma exemplar uma sociedade dirigida pela omnipotência do Big Brother.

Rosa Luxemburgo (1870-1919), a revolucionária social-democrata alemã, fundadora do grupo Spartakus (foi assassinada durante a revolução spartakista), que, com Karl Liebknecht, contestou vivamente a organização partidária que Lenine defendia para os partidos, dizia em A Revolução Russa: «Sem dúvida que toda a instituição democrática possui os seus limites e os seus defeitos…Pois bem, o remédio inventado por Lenine e por Trotsqui – a supressão da liberdade em geral – constitui um mal pior do que aqueles que pretendia curar».

O «centralismo democrático» tem vigorado nos partidos comunistas e não só, pois a concepção leninista de partido foi adoptada por organizações partidárias e movimentos de todo o leque político, da extrema-direita à extrema-esquerda. No fundo reproduz o conceito de democracia a que Jean-Jacques Rousseau punha reticências em Do Contrato Social – o que assenta cegamente no princípio da representatividade. As massas ou os militantes elegem representantes, que, depois de eleitos, passam a agir sem consultar os eleitores ou sem sequer respeitar os pressupostos programáticos que conduziram à sua eleição. Albert Camus, em O Homem Revoltado, chama a atenção para o facto de Lenine, inspirado em Karl Marx, ter criado o imperialismo da Justiça, «justificando com uma justiça longínqua a injustiça durante todo o decurso da História».

A democracia interna nos partidos políticos (e não falo só dos partidos comunistas), deixa muito a desejar. Porque a concepção leninista de organização partidária pegou e o «centralismo democrático» tem feito carreira por todo o leque político, da direita à esquerda. Eleitos os comités centrais, os secretariados, as direcções e presidências (a nomenclatura varia, o sistema é muito semelhante), os militantes eleitores passam a ser meros coladores de cartazes, vendedores de jornais, produtores de aplausos e agitadores de bandeirinhas nos comícios.

Centralismo democrático? – Não pode ser: os dois termos excluem-se reciprocamente: – ou bem que é centralismo, ou bem que é democrático.

“Casablanca” – O melhor filme de sempre

Lembro-me, e alguns de vós também, de, nos anos 50, esta passagem do filme ser saudada com palmas nas salas portuguesas.

Falando de democracia: Direita e Esquerda

A raiz dos conceitos de direita e esquerda estará, segundo sempre ouvi dizer, no facto de nas assembleias políticas anteriores e posteriores à Revolução de 1789, os políticos mais conservadores se sentarem à direita da mesa da presidência e os mais radicais à esquerda. Na Assembleia Nacional (1789), a expressões «gauche» e «droite» eram aplicadas respectivamente a republicanos e a monárquicos; na Convenção Nacional (1792), o termo usou-se para distinguir jacobinos de girondinos. Os primeiros eram defensores dos chamados sans-cullotes, os deserdados da fortuna; os segundos eram deputados que representavam a burguesia ilustrada, hesitante entre a monarquia constitucional e a república.
De então para cá, o campo semântico dos dois termos foi-se alargando e especializando, incorporando contributos e empréstimos vindos de todas as áreas do conhecimento e, da localização, aleatória de duas facções nos hemiciclos da França de fins do século XVIII, os conceitos de direita e esquerda saltaram para a liça das grandes lutas sociais e políticas. O poeta Jean-Arthur Rimbaud disse que era preciso «mudar a vida». Karl Marx, (que, tal como Engels, nunca disse ser «de esquerda»), afirmou que era indispensável «transformar o mundo». Eis aqui duas boas sínteses para o conceito de esquerda, a mudança da vida e a transformação do mundo, numa palavra, a Revolução. A direita, também com contributos os mais diversos, vindos também de todos os quadrantes do conhecimento, procura conservar o que considera serem valores intemporais – reage mal à mudança da vida e pior a todas as transformações do mundo que não sejam regressos ao passado.
Existe desde há uns anos a esta parte, eu diria desde que, na prática, PS e PSD se fundiram num só partido, a tendência para afirmar que os conceitos de esquerda e de direita deixaram de fazer sentido. Outro elemento que contribuiu para a criação desta ideia foi o colapso do chamado «socialismo real». Mal ou bem (eu penso que mal), esse tipo de socialismo era associado à esquerda e, tendo ruído e com ele a dicotomia que justificava os blocos militares, as pessoas, ficando sem uma das suas referências básicas, entenderam que todas essas coisas de que se falou muito depois de 1974, nomeadamente a luta de classes, tinham tido o seu acto final. Tal como num mapa, se não tivermos a indicação de onde se situa o Norte, nunca encontraremos o Sul (e vice-versa). Era, diziam alguns, o fim da História e o fim da Política. Saturadas da interminável querela, as pessoas suspiraram de alívio.
Esta conclusão, de que já não faz sentido a dicotomia esquerda/direita, quando inocentemente tirada pelos cidadãos comuns, é compreensível; porém ouvi políticos profissionais, comentadores e analistas políticos, politólogos, gente com responsabilidade, argumentar no mesmo sentido. E, nesses casos, já não acredito em inocência, tanto mais que foi a «inocência» dos segundos que terá induzido a dos primeiros. Porque, claro, meus amigos, o fim do conceito de esquerda e direita, o fim da concepção da luta de classes e a extinção do próprio conceito de classe, são tudo coisas que interessam muito à direita e à falsa esquerda e à direita travestida. Porém todos esses conceitos só deixarão de fazer sentido quando a vida tiver mudado e o mundo se tiver transformado num local onde não existam desigualdades sociais; a fome, a miséria, a doença, todas as chagas sociais, tiverem sido extintas. O «fim» dos dois conceitos, já era, desde há anos, tema de discussão por essa Europa fora, sobretudo em democracias mais antigas do que a nossa, como a italiana. Vejamos.
Em meados dos anos noventa, saiu em edição portuguesa a obra do italiano Norberto Bobbio, Direita e Esquerda (Destra e Sinistra), com o subtítulo Razões e significados de uma distinção política. Definindo as palavras que constituem o título, diz Bobbio: «Os dois conceitos – «direita» e «esquerda» – não são conceitos absolutos. São conceitos relativos. Não são conceitos substantivos ou ontológicos. Não são qualidades intrínsecas do universo político. São locais do «espaço» político, representam uma determinada topologia política, que nada tem a ver com a ontologia política: Não se é de direita ou de esquerda, no mesmo sentido em que se diz que se é «comunista», «liberal» ou «católico». Por outras palavras, «direita» e «esquerda» não são termos que designam conteúdos definitivamente assentes. Podem designar conteúdos diferentes, de acordo com as épocas e as situações». Isto parece-me correcto – Lembro como a generalidade dos oposicionistas à ditadura do Estado Novo eram considerados «de esquerda», vindo-se a revelar depois da Revolução que uma boa parte deles passou, em função das opções político-partidárias que fez, a ser considerada de «direita». Mais adiante, Bobbio acrescenta: «Convirá também notar que «esquerda» e «direita» são termos que a linguagem política veio utilizando desde o século XIX até aos nossos dias para representar o universo conflitual da política. Todavia, esse mesmo universo pode ser representado, e foi-o de facto noutros tempos, por outros pares de opostos, alguns dos quais têm um valor descritivo forte, como «progressistas» e «conservadores», e outros têm um descritivo fraco, como «brancos» e «negros». O par «brancos- negros», também só exprime uma polaridade, isto é, significa apenas que não se pode ser ao mesmo tempo branco e negro, mas não permite de modo algum perceber quais são as tendências políticas de uns e de outros». Como se infere do que nos diz Bobbio, não se é de esquerda ou de direita tout court; é-se de esquerda ou de direita em relação a um determinado referencial, nem que seja apenas relativamente à mesa da presidência.
Esta «geometria variável» que acompanha a aplicação dos conceitos de opostos em política é um dado a ter em conta, sempre que falamos de «esquerdas» e de «direitas» e que nos deve levar a ser um pouco mais rigorosos. Sobretudo, cuidado com as imitações, como nos avisa o Sérgio Godinho.

A Sinfonia da Morte, de Carlos Loures

Aventar continua hoje a apresentação de vários excertos do livro “A Sinfonia da Morte”, de Carlos Loures. Eis a sexta e última parte:

Chegaram, no final do corredor, a uma sala lugubremente iluminada por velas. Sentado a uma mesa estava um homem encapuchado. Fez um gesto com as mãos. Os raptores deixaram-nos sós. Era um sujeito aparentemente alto e forte e que, quando falou, revelou uma voz  de pessoa educada e habituada a comandar, utilizando uma linguagem cuidada e com boas maneiras:

– Não sei se o meu amigo conhece ou se recorda daquela fala do Hamlet em que ele diz, mais ou menos assim, salvo erro, para sua mãe, a rainha Gertrudes – «Talvez eu seja cruel, mas apenas quero ser bom» – suspirou – na vida e na política também é assim, muitas vezes, para sermos bons, temos de ser cruéis. Por isso, o trouxemos até aqui desta forma desagradável e a esta hora imprópria. Peço-lhe, desde já, imensas desculpas.

Sem saber porquê, Jorge, pareceu-lhe já ter ouvido antes aquele timbre de voz, aquela maneira de  pronunciar correcta e totalmente as palavras, ao contrário do que acontecia entre os lisboetas em que, sobretudo nas camadas populares, muitas das sílabas eram comidas e na sucessão de vogais mudas havia palavras que pareciam bizarras sequências de consoantes. Não falava também com as vogais abertas do Norte e eliminando os vês ou com a pronúncia da sua Beira, com ceceios e abundância de xis, nem com o característico português cantado do Sul. Aquele cuidadoso escandir das palavras, aquele silabar ritmado das frases, que lhe parecia já ter ouvido noutro lugar, estaria próximo de um hipotético português-padrão que alguns homens das gerações anteriores, geralmente formados em Coimbra, caprichavam em manter como traço cultural distintivo do português eivado de simplificações fonéticas e de modismos que os jovens gostavam de utilizar pelas mesmas razões: fidelidade à tribo. O seu pai falava assim também, embora não de forma tão pronunciada. Ele próprio utilizava um português filtrado em Coimbra, dificilmente identificável do ponto de vista regional, ao contrário de Luciano que gostava de exibir, de assumir com exuberância e orgulho a sua condição de beirão, falando ostensivamente axim, como diziam os alfacinhas. Mas não conseguiu lembrar-se onde ouvira já aquela tão correcta como estranha maneira de usar o idioma.

Fez um gesto de assentimento com a cabeça:

– Lembro-me bastante bem dessa fala. E Shakespeare até, salvo erro, diz a seguir, também pela voz de Hamlet: «Isto começou muito mal, mas o pior ainda está para chegar!», qualquer coisa neste género – Jorge recuperara a serenidade e a aparente lhaneza do encapuchado pusera-o, de certo modo, mais à vontade. «Pelo menos»,  pensou tentando tranquilizar-se, «parece ter sido ultrapassada a fase das navalhas».

Uma gargalhada sonora e expontânea saiu por detrás do balandrau negro:

– Essa é boa!  Esperemos bem que não. Esperemos que o pior já tenha passado.

Após uma pausa, o mação começou por indagar sobre as suas preferências ideológicas. Jorge disse a verdade, que era um ferrenho, um convicto adepto da República embora o assassínio do rei e do herdeiro do trono tivesse sido, na sua opinião, um excesso desnecessário e cruel. O homem pareceu ficar satisfeito com a resposta. E depois de um breve silêncio,  desbobinou o seu discurso. Estava completamente ao corrente da sua relação com Margarida e sabia que ele se referira a uma reunião que tivera lugar em casa da jovem actriz e que tinha conhecimento do que se dissera nessa reunião. A bem da Revolução que estava iminente, aconselhava-o a não dar com a língua nos dentes, sob pena de ele e a rapariga virem a ter graves problemas. Até mesmo as suas vidas ficariam em perigo, pois havia questões em jogo que tornavam completamente  irrelevantes as vidas de um jovem bacharel de Celorico da Beira e de uma insignificante actrizita do teatro de revista. «Como o amigo calcula, de ambos os modelos há à venda no mercado a três o vintém!», disse tentando fazer humor para quebrar a tensão que o ambiente e as circunstâncias haviam criado, o que, obviamente, não conseguiu. Jorge esboçou um pálido sorriso, mas não achou graça nenhuma. Cogitou: «Mau, mau, lá voltamos nós novamente às ameaças».

Depois de uma breve pausa, o sujeito disse-lhe também que nunca estivera nos planos da Maçonaria matar o rei e o príncipe real. Nem tal coisa pensar! Que o alvo do atentado sempre fora o João Franco. A mudança do objectivo definido pelas instâncias superiores, fora decidida exclusivamente pelos elementos do grupo à última hora. Isto correspondia inteiramente à versão que os conspiradores tinham combinado tornar oficial. Jorge assentiu com repetidos acenos de cabeça, como se acreditasse.

– Uma surpreendente e desagradável questão de indisciplina que, de modo algum, é habitual na nossa organização. Nunca tinha acontecido uma coisa assim – concluiu, acrescentando com uma nota de dramático pesar na voz – Mas, coitados, também, na verdade, os nossos pobres companheiros pagaram com as suas vidas esse indesculpável e trágico acto de indisciplina.

Na reunião, tinham dito mais ou menos o mesmo. Só que, em vez de indisciplina tinham usado outra expressão, menos respeitosa, mas talvez mais sincera, mais objectiva: «tontice militante», era assim que tinham dito. A versão referida na reunião  da Rua do Ouro  e que ele escutara era a que ficara a valer para efeitos de consumo externo. Jorge continuava a assentir com a cabeça.

Em seguida, o polido cavalheiro ralhou-lhe pedagógica e mansamente, como quem critica uma pequena travessura infantil,  por andar envolvido com a protegida de um senhor deputado, tão respeitável e poderoso:

– Não é coisa que um rapaz decente como o senhor, com os seus princípios, com a educação familiar e a formação académica que recebeu, deva fazer. Não é nada bonito, mas eu compreendo; também já tive a sua idade. Os sentidos imperam sobre a razão, é biológico e natural – fez uma pequena pausa e prosseguiu – Mas isso está ainda no começo, é apenas um devaneio juvenil com pouco mais do que um dia de duração, é melhor terminar já, senão depois vai custar-lhe bastante mais. Digo-lho, meu amigo, por experiência própria – disse, parecendo deveras preocupado com a vida sentimental do rapaz.

A Sinfonia da Morte, de Carlos Loures

Aventar continua hoje a apresentação de vários excertos do livro “A Sinfonia da Morte”, de Carlos Loures. Eis a segunda parte:

Agora, parado nos degraus da estação do Rossio, Jorge, um pouco aturdido e indeciso, cismando sobre o caminho a tomar enquanto contemplava a limitada nesga do Rossio que lhe era dado ver, lembrou-se da metáfora das inocentes carpas e do sinistro congro invocada por Luciano na tal agradável tarde do Outono anterior. Tentou apreciar através dos olhos críticos e cinicamente irónicos do primo o fervilhar daquele formigueiro de gente que, com gestos precisos, como se soubesse  exactamente para onde ia, atravessava a praça, o entardecer e a vida em todas as direcções. Gente, trens, carruagens, faetontes, anacrónicas caleches, tipóias de praça, pesados e chiantes eléctricos amarelos, um ou outro, muito raro, e buzinante automóvel, na desordem supostamente ordenada do fim da tarde daquela sexta-feira invernal.

A viagem fora longa e incómoda, estava ainda com as pernas entorpecidas pelas muitas horas em que estivera sentado no compartimento.  Saído de Celorico da Beira de madrugada, mudara de comboio na Pampilhosa, tomando depois o «rápido» que vinha do Porto para Lisboa através da linha principal. Monotonamente, as estações sucediam-se, Alfarelos, Soure, Pombal, Lamarosa, Entroncamento…  Como se, por qualquer prodígio divino ou tecnológico, se deslocassem meteroricamente à frente do comboio, as mulheres que vendiam água em bilhas, frutas ou bolos, pareciam ser sempre as mesmas em todas as paragens, percorrendo lentamente as plataformas e apregoando as suas mercadorias com gritos estridentes.  No Entroncamento tivera tempo suficiente para descer, beber um café e comprar alguns  dos jornais do dia, todos eles enxameados de preocupantes notícias, como, aliás, passara a ser normal nos últimos tempos.

Olhou o céu donde, por entre as nuvens, desciam agora as primeiras sombras da tarde. Havia um ar frio e um vento que, encaminhado pelas ruas Augusta e do Ouro, vinha desde o Tejo fazer que os repuxos dos lagos salpicassem com gotas de água os apressados transeúntes. Felizmente não chovia nesta altura, embora o empedrado da praça estivesse ainda molhado de um aguaceiro recente. Este vento e os salpicos de água, bem como talvez as chuvadas breves, mas fortes, tinham enxotado dos bancos de pedra, agora encharcados, que rodeavam a placa ornada, com ondas alternadas pretas e brancas de calcário e basalto, os seus habituais clientes, pedintes, velhos reformados, poetas desocupados, uma ou outra prostituta, velhotas que traziam milho para os bandos de pombos que enxameavam a praça…

Um homem corpulento, com grandes bigodes, com uma chapa metálica no boné de pala rígida e envernizada, vestindo uma pesada samarra, leu, sob o seu sorriso evocador das palavras do primo Luciano, algum acanhamento provinciano, que não, evidentemente, as interrogações filosóficas, e ofereceu-lhe, num galego-português não muito diferente do acento beirão a que Jorge estava habituado, os serviços de um hotel, o «Americano» logo ali, junto à estação, na Rua do Príncipe, ao lado da «Brasserie Príncipe». Recusou distraidamente com um sorriso ao mesmo tempo que agarrava com firmeza a  mala de viagem a que o galego procurava a todo o transe deitar a mão, na sua ânsia de apresentar serviço. Desceu os escassos degraus e, atravessando o Largo Camões, entrou no «Café Gelo» pela porta da Rua do Príncipe. A propósito do Largo Camões, refira-se que na toponímia lisboeta abundavam as referências camonianas, sobretudo desde 1880, ano em que se tinha comemorado  o tricentenário da morte do poeta.  Além de uma rua Luís de Camões, uma dos Lusíadas e outra rua Jau, todas em Santo Amaro,  Alcântara, havia ainda o mencionado largo, junto da estação do Rossio e a Praça Camões, onde, no cimo da Rua Garrett, em 1867, fora inaugurado o monumento ao vate, da autoria do escultor Vítor Bastos.

Circunvagou o olhar pela horda pardacenta de funcionários públicos, militares, estudantes, ociosos, burgueses na sua maioria: colarinhos engomados e engravatados,  paletós e sobretudos escuros, impermeáveis cinzentos,  coloridos aqui e além por algum casaco alvadio e pelos capotes e dólmanes  azuis, de golas vermelhas e botões dourados, de um ou outro oficial. Sentou-se numa mesa junto da janela, pousando a grande mala de cabedal no chão,  junto de si. Na mesa ao lado, um rapaz de cabelo cortado curto,  bigode alourado, grandes olhos castanhos, com uma expressão séria e triste, ainda jovem, com talvez um pouco menos de trinta anos, dissertava acaloradamente sobre o caos orçamental, sobre os escândalos dos tabacos e dos adiantamentos à casa real. Os companheiros, outros três, também jovens, embora menos, assentiam grave e distraidamente, como se escutassem uma litania por todos sabida de cor. Em  quase todas as mesas se discutia política.

A suspensão pelo Governo de cinco jornais, a grande vaga de prisões, incluindo as dos chefes republicanos e a do líder monárquico dissidente,  a  ida do ministro  da Justiça, a Vila Viçosa com o decreto do presidente do Conselho, João Franco, que iria permitir o desterro dos políticos da oposição para as Colónias, e as múltiplas especulações sobre a decisão que o rei iria tomar (assinaria, não assinaria?), os violentos confrontos armados entre a polícia e grupos de populares da terça-feira anterior, eram os principais temas da generalidade das conversas. Parecia haver fortes descargas eléctricas no ar que ali se respirava, uma atmosfera densa, quase palpável,  olorosa a roupas molhadas pela chuva, a tabaco, a cerveja, a café.

Jorge recordou os receios e as ânsias de sua mãe, que temia que ele corresse algum perigo no ambiente, agora já não apenas boémio e dissoluto, como também tumultuosa e perigosamente revolucionário, da capital. Embora a situação vista da Aveleira-de-Cima e descrita na linguagem seca do telégrafo ou no estilo empolado dos jornais parecesse ainda mais catastrófica, sob a aparência de normalidade, de um dia igual a todos os outros, respirava-se em Lisboa, realmente, um carregado e denso clima de tensão. Na mesa ao lado, o jovem louro e magro vociferava agora, com um perceptível acento alentejano, contra a família real, a «cambada», como ele se lhe referia, mas sobretudo contra o chefe do gabinete de ditadura, o alvo principal de todos os ódios e paixões que percorriam o país de ponta a ponta: João Franco.

Falando de Democracia: Cultura e televisão

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Estes dois substantivos têm vindo a distanciar-se, como se pertencessem a idiomas diferentes. Cultura e televisão, será que ainda têm alguma coisa em comum? No começo da década de 90, Marlon Brando dizia numa entrevista que já não faltaria muito para que algum «génio criativo» se lembrasse de, num reality show, pôr pessoas a defecar perante as câmaras. Numa roda de amigos comentou-se esta profecia do grande actor e, embora reconhecendo que a qualidade da televisão generalista baixava de ano para ano, pareceu-nos exagerada. Não havia ainda aqui a moda dos reality shows. Quando a inefável TVI lançou o Big Brother, alguns dos mesmos amigos recordaram a entrevista de Brando e começaram a perceber onde ele queria chegar. O nível cultural dos participantes era tão básico, o léxico e o universo conceptual utilizados tão rasteiros, que não exigia grande esforço imaginar qualquer deles a concretizar perante as câmaras a profecia de Marlon, caso tal lhes fosse pedido pela «realização». (Conversando com Mr. Hugh House, director do departamento de cursos de inglês da BBC, queixava-me da má qualidade dos programas televisivos em Portugal. Resposta: – Então você não sabe que a função da televisão é ser de má qualidade?).

Falando dos programas actuais, alegou-se como desculpa a falta de cultura dos portugueses, o baixo índice médio de escolaridade. Alguém disse – «Mas o conceito do Big Brother não é português». E outro recordou – «Há trinta anos, com um índice de escolaridade mais baixo, as ruas das cidades ficavam desertas nas segundas-feiras à noite, pois estava quase toda a gente a ver o Zip-Zip, um programa que, apesar do bom nível do conteúdo era apreciado por uma larga faixa da população. Hoje em dia, as audiências aumentam na razão directa do número de telenovelas que um canal apresenta. Se às telenovelas, geralmente más, se somarem os tais reality shows e uns concursos idiotas, os índices de audiência sobem em flecha. A televisão generalista percorre uma espiral descendente – os canais na sua fúria de competirem na guerra das audiências, procuram colocar-se ao nível da incultura geral e, nesse esforço de «chegar às massas», com telenovelas tontas, talk shows inqualificáveis, concursos de pseudo cultura-geral, contribuem para o défice cultural dos telespectadores que terão tendência cada vez a preferir programações mais pobres. É sempre a descer.

Sobre este tema, encontramos palavras esclarecedoras num pequeno livro de Karl Popper, um grande filósofo britânico de origem austríaca (1902-1994) – Televisão Um Perigo Para a Democracia: "Por ocasião de uma conferência que dei há alguns anos na Alemanha tive o ensejo de conhecer o responsável de uma cadeia (de TV) que se deslocara para me ouvir juntamente com alguns colaboradores. (…) . Durante a nossa discussão fez afirmações inauditas, que se lhe afiguravam naturalmente indiscutíveis. «Devemos oferecer às pessoas o que elas esperam», afirmava, por exemplo, como se fosse possível saber o que as pessoas pretendem recorrendo simplesmente aos índices de audiência. Tudo o que é possível recolher, eventualmente, são indicações sobre as preferências dos telespectadores face aos programas que lhes são oferecidos. Esses números não nos dizem o que devemos ou podemos propor, e esse director de cadeia também não podia saber que escolhas fariam os telespectadores perante outras propostas. De facto, ele estava convencido de que a escolha só seria possível no quadro do que era oferecido e não perspectivava qualquer alternativa. Tivemos uma discussão realmente incrível. A sua posição afigurava- se-lhe conforme aos «princípios da democracia» e pensava dever seguir a única direcção compreensível para ele, a que considerava «a mais popular». Ora, em democracia nada justifica a tese deste director de cadeia (de TV), para quem o facto de apresentar programas cada vez mais medíocres corresponde aos princípios da democracia porque é o que as pessoas esperam. Nessas circunstâncias, só nos resta ir para o inferno!» Um inferno ao qual vamos descendo, abandonando toda a esperança, como preconizava Dante, sempre que accionamos o comando. Um inferno onde vale meter todo o lixo. Já para não falar nas manipulações…

Vem isto a propósito da entrevista de Manuela Moura Guedes ao bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, no dia 22 de Maio de 2009, no chamado «Jornal Nacional» da TVI. No seu habitual estilo truculento, o bastonário disse à pivô verdades duras como punhos, daquelas que muito raramente se escutam em televisão. Pode aceder-se a parte da entrevista em http://www.youtube.com/watch?v=5K_F53MXVrc – Aconselha-se vivamente.

De facto, a «informação» que naquela estação (e não só) se pratica deixa muito a desejar, misturando-se de maneira avulsa, opiniões com factos e não se fazendo a destrinça do que é uma e outra coisa. Isto, como muito bem disse Marinho Pinto não é jornalismo, mas sim «julgamentos sumários disfarçados de jornalismo». A televisão tem este poder de eliminar factos e de criar factos, de manipular a realidade e de a apresentar conforme melhor for servida a necrofagia e o sensacionalismo que parecem ter tomado conta do jornalismo em geral e, por outro, os interesses, políticos, económicos, dos grupos a que o canal seja afecto. «É uma vergonha», estou inteiramente de acordo com Marinho Pinto. Sobre o poder da televisão, dizia Karl Popper na sua obra já citada, que, nos nossos dias a, a televisão assumiu um poder colossal, potencialmente o maior de todos, «como se tivesse substituído a voz de Deus». Afirma ainda que em democracia não pode haver poderes incontrolados, pois a essência da democracia consiste precisamente em submeter o poder político a um controlo. O poder da televisão constitui, pois, um grave perigo para a democracia e esse perigo agudizar-se-á se não conseguirmos pôr cobro aos abusos dos canais televisivos – «Nenhuma democracia pode sobreviver se não controlarmos esta omnipotência», dizendo ainda: «A democracia, como expliquei algures, não é mais do que um sistema de protecção contra a ditadura, e nada no seio da democracia proíbe as pessoas mais instruídas de comunicarem o seu saber às que o são menos. Pelo contrário, a democracia sempre procurou elevar o nível de educação; é essa a sua autêntica aspiração. As ideias deste director de cadeia (de TV) não correspondem em nada ao espírito democrático, que sempre foi o de oferecer a todos as melhores oportunidades. Inversamente, os seus princípios conduzem a propor aos telespectadores emissões cada vez piores, que o público aceita desde que se lhes acrescente violência, sexo e sensacionalismo".

Não sei se Popper tem razão quando diz que a democracia «não é mais do que um sistema de protecção contra a ditadura». Esta definição parece-me redutora. Mas isso seria entrar numa outra discussão. Quanto a mim, Popper tem toda a razão quando nos alerta para os perigos de um meio que, tendo o poder de substituir a informação pela manipulação, pode destruir a democracia, instaurando em seu nome a ditadura dos media, por sua vez instrumentali
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dos por interesses políticos e económicos que nada têm de democrático. Os governantes, os actuais e os anteriores, só se preocupam com as manipulações quando elas os atingem, como fez Sócrates na entrevista de 21 de Abril, na RTP, concedida a José Alberto Carvalho e Judite de Sousa, em que denunciou o mesmo Jornal Nacional da TVI e aquilo que naquele canal passa por ser um serviço informativo, dizendo que o que ali se faz não é jornalismo, mas sim «caça ao homem» e que se trata de um «telejornal travestido». Isto, porque foi atacado a propósito do caso Freeport. E quando, ali e noutros espaços «informativos», outras pessoas, a verdade e a Democracia são atacados?

Todos sabemos que nenhum governo da «democracia» que temos, exercerá uma acção pedagógica, profilática e terapêutica sobre os órgãos de informação. Não estou a falar de censura política, de repressão ou de limitações impostas à liberdade de imprensa (como em resposta a Sócrates o director da TVI, vitimizando-se, se apressou a vir denunciar o que lhe parecia subjacente às palavras do primeiro-ministro). Estou a falar do inverso: a comunicação social não se transforme ela mesma num odioso instrumento de repressão. O que começa a acontecer. A liberdade de imprensa exige por parte dos profissionais um grande sentido de responsabilidade, o que raramente se verifica. Estou a falar de um cotejo sistemático e permanente entre o código deontológico que rege a profissão de jornalista e a prática exercida pelos respectivos profissionais. Nunca esquecendo que, a maior parte das vezes, muito bons jornalistas, submetidos a direcções ligadas a grupos político-económicos e não só, são obrigados a escolher entre a honestidade e o emprego, entre o pão e a verdade. Para se extirpar este tumor que não cessa de aumentar, tem de se ir bem fundo na incisão e não ficar pela solução fácil de punir ou diabolizar as «mouras guedes» que mais não são do que as pontas visíveis e emergentes de gigantescos icebergues submersos.

A Sinfonia da Morte, de Carlos Loures – I

Aventar inicia hoje a apresentação de vários excertos do livro “A Sinfonia da Morte”, de Carlos Loures. Eis a primeira parte:

 

Uma noite de Verão, na serenidade indestrutível da sua aldeia serrana,  Jorge viu no telejornal as imagens da demolição por implosão do edifício de um grande hotel na Florida. Com a sua idade e com tudo o que lhe fora dado observar durante a sua longa vida, embora amasse muito mais o futuro do que o passado,  as inovações e descobertas científicas, os prodígios tecnológicos,  já quase não o surpreendiam,  por mais fantásticos que se apresentassem. Digamos, estava saturado de prodígios – se visse, por hipótese,  astronautas a pousar na superfície de Marte, não abriria a boca de pasmo. Talvez se limitasse a beber mais um gole de aguardente velha e a puxar uma fumaça ao seu cachimbo de boa madeira de bruyère, a vulgaríssima torga ou urze portuguesa, mas que nas tabacarias insistiam em tratar pela designação francesa. O francesismo da nossa sociedade era, aliás,  uma fatalidade,  dir-se-ia que quase atávica. Como  Eça de Queirós dissera anos antes, o Portugal do século XIX era um país «traduzido do francês em vernáculo».  Na primeira metade do século XX, continuava a sê-lo. Depois, o inglês ganhou terreno e substituiu o francês como língua franca. Mas essa é outra história. Entretanto, a frase de Eça aparecera numa revista do Teatro do Príncipe Real levemente modificada – «Portugal é um país traduzido do francês em calão» – e foi assim, nesta versão mais popular, mais chula, que a frase pegou e passou a ser citada por quase toda a gente,  mesmo até por aqueles que não suspeitavam sequer da existência do autor.

O cachimbo fora  comprado há mais de sessenta anos na «Tabacaria Orge»,  da Rua do Ouro. Ali estabelecera, durante dias,  o seu posto de observação à porta da casa de Margarida, situada no lado poente da rua e, à falta de outros pretextos, fora comprando coisas a esmo, entre as quais diversos cachimbos que, durante muitos anos, apenas serviram de ornamentação à consola da lareira do salão. O hábito de fumar cachimbo era relativamente recente, posterior ao início da Segunda Guerra,  pois começara apenas quando deixara de conseguir facilmente no mercado os únicos cigarros que, não sendo um fumador inveterado, apreciava – os egípcios Abdulla – «Imperial Preference»,  que comprava em belas caixas de folha-de-flandres, ornamentadas e coloridas a verde e a dourado.

Fumar um Abdulla, não era bem um vício, era mais um ritual de comunhão com a imperecível memória de Luciano e com a recordação daqueles dias escaldantes, embora frios, do início de Fevereiro de 1908. Quando começara a usar os cachimbos, mais de trinta anos após os ter comprado,  tivera de lhes queimar devidamente os fornilhos, incendiando rum de boa qualidade no seu interior, como mandavam as regras. As boquilhas não serviam já, pois,  ou tinham-se dilatado e estavam demasiado apertadas ou, pelo contrário, haviam-se contraído e  caíam dos fornilhos,  e, deste modo, por uma razão ou por outra,  tiveram de ser todas substituídas.

Voltando à notícia da televisão. O que causara algum impacto no seu espírito fora que, ao descrever a demolição do grande edifício, o comentador tivesse utilizado aquele termo, implosão, numa acepção substantiva pertencente ao foro da Engenharia, ou, talvez  mais propriamente, ao da Física. Era um conceito novo para ele. Embora a sua formação académica fosse de raiz jurídica, as questões linguísticas sempre lhe tinham interessado muito.  Conhecia, sim, a palavra  como substantivo, mas da área específica da fonética e da fonologia. Era assim que o seu velho Morais e outros  bons dicionários o registavam – como sendo uma fase da articulação de uma consoante oclusiva, anterior à tensão, durante a qual os órgãos fonadores assumem a posição para o fechamento de que resulta a oclusão. Nesta nova acepção devia provir,  por certo, de uma americanice. Mais uma das muitas que tínhamos de suportar, pensou.  Por isso, procurou num dicionário de inglês, um Webster’s, e, os resultados foram nulos – implosion era também ali palavra afectada à área da fonética. Porém não desistiu e num dicionário enciclopédico ilustrado, de edição portuguesa muito recente que comprara sobretudo em intenção dos bisnetos, acabou por descobrir o significado que procurava – «fenómeno físico através do qual um meio sólido ou um corpo oco, submetido a uma pressão externa superior à sua resistência mecânica é esmagado violentamente e tende a concentrar-se num volume reduzido». Aí estava a resposta para o que vira no ecrã: um ruído seco e surdo e o que fora um grande e luxuoso hotel, sumira-se, como se o filme da sua construção estivesse a ser projectado de trás para diante, numa nuvem de fumo. Quando o fumo se dissipou, a imagem mostrava um concentrado monte de escombros,  reduzido face à enorme dimensão que o edifício tivera segundos antes.

Matutando em tudo o que vira acontecer ao longo da sua vida, concluiu que em Portugal, mais do que revoluções, tinham ocorrido implosões. Não ia ao ponto de afirmar que o domínio leonês, pressionado pela nobreza nativa que rodeava Afonso Henriques, implodira; nem que o mesmo acontecera às dinastias afonsina e de Avis, ou ao domínio castelhano sacudido em 1640. Era velho, mas não tanto que pudesse afirmar que o desaparecimento dos dinossáurios se devera a um fenómeno de implosão. Apenas passava agora em revista aquilo a que assistira desde que, quase setenta anos atrás, recém-formado em Direito, viera a Lisboa tratar de assuntos do pai, munido de procurações, atestados, de mil e uma recomendações da mãe, do pai e, sobretudo, das pícaras sugestões do seu primo Luciano. Pudera observar como o constitucionalismo monárquico, a ditadura franquista, a dinastia dos Braganças, a primeira República e agora a ditadura criada por Salazar e o domínio colonial tinham caído. Por implosão. Falta de resistência à pressão externa. Tal como o grande edifício do hotel de Miami, que sugado internamente quase desapareceu numa nuvem de pó. Também agora, quase sem tiros, um regime que durara meio século implodira e desaparecera numa nuvem de poeira, pairando no ar como um fantasma. Talvez também acontecesse assim noutros lugares. Em Portugal, pelo menos ultimamente,  as dinastias, os regimes, as ditaduras, implodiam. Oxalá não acontecesse agora o mesmo à democracia pela qual esperara tantos anos. Oxalá não se sumisse numa nuvem de preceitos constitucionais, de oratórias vazias, de «incontornáveis» alinhamentos internacionais… Oxalá os cravos, a onda fraterna que inundara as ruas e as praças do País não implodissem também.

Falando de democracia: Em defesa dos palhaços

No ano passado, o jornalista Daniel Oliveira, do Expresso, foi condenado a pagar uma indemnização a Alberto João Jardim por difamação. Em 10 de Junho de 2005, o colunista designava num artigo daquele semanário o presidente do Governo Regional da Madeira por «palhaço rico». Dizia em determinado passo do texto: «Alberto João Jardim é um palhaço. Envergonha, de cada vez que abre a boca, a nossa democracia. Não é politicamente incorrecto. É apenas um palhaço que manda numa ilha com mais de duzentas mil pessoas.» (…) «É um palhaço perigoso».
*
Porto Santo é o meu local de férias. Desde há quinze anos que ali passo uns dias no Verão. Durante este período, fiz também viagens à Madeira. Tenho, por isso, podido apreciar a evolução do arquipélago. Neste aspecto, não concordo com Daniel Oliveira – a Madeira não tem estradas a mais, equipamentos a mais, empregos a mais – é agradável verificar que no Porto Santo não há desemprego, não se vê mendicidade e as chagas da droga e da prostituição, pelo menos, não são visíveis. A Madeira não tem nada a mais, como diria o poeta cubano Nicolás Guillén – tiene lo que tenía que tener. Jardim apresenta obra feita, coisa de que nem todos os autarcas se podem gabar. A corrupção, o tráfico de influências, o nepotismo, existirão, mas não de forma tão gritante como em alguns concelhos do continente – embora haja a considerar que Jardim tem a comunicação social local domesticada.
O que se contesta não é o que Jardim fez, mas a maneira como fez e continua a fazer – o estilo arruaceiro com que ataca adversários, com que insulta os continentais que, afinal, contribuem com os seus impostos para que os Madeirenses tenham benefícios de que os insultados, em muitos, casos não usufruem; a permanente chantagem com a ameaça da independência. Mas, apesar desde espectáculo degradante, não é um palhaço – é apenas um mau português que, talvez, se encontrasse outro Estado que lhe pagasse as despesas, abdicaria da nacionalidade. Não encontra e prossegue com diatribes e ameaças que produzem efeito, pois a nossa classe política é como é. Um exemplo: é estranho que quando Jaime Gama, em 1992, lhe chamou «Bokassa Branco», comparando-o ao tirano da República Central Africana, Jean-Bédel Bokassa, Jardim não o tenha processado. É verdade que, passados dezasseis anos, o agora presidente da Assembleia da República, mudou de opinião e se referiu ao presidente da Região Autónoma e à sua obra nos termos mais encomiásticos. Isto sem que Jardim tenha modificado a sua maneira de estar na política, moderado a prepotência e a verborreia ordinária.

A verdade é que o tão falado «défice democrático» não começa nem acaba na Madeira. De Eanes a Cavaco Silva, passando por Guterres e por Sampaio – tudo gente que «oportunamente» o senhor Jardim insultou, a pretexto das boas relações «institucionais» entre órgãos de soberania, sempre que vão ao arquipélago, não deixam de ir cumprimentar o senhor Jardim que, borrifando-se para as tais relações, se reserva o direito de os ir ou não receber. Esta classe política merece o senhor Jardim. O povo português, particularmente o madeirense, é que não.
Quem é então este homem que provoca uma agitação que não é explicada senão pela incontinência verbal, por um sinuoso oportunismo e pela pacovice dos nossos media que servem de caixa de ressonância aos seus dislates. Dispenso-me de lhe referir a biografia. Dela, o único aspecto assinalável é o de que, quando se deu o 25 de Abril, Jardim tinha 31 anos, não sendo, portanto uma criança. Mas nunca ninguém ouvira falar dele. O gosto pela democracia, só lhe veio quando ela deixou de fazer doer, quando qualquer idiota ou qualquer ébrio passaram a poder dizer, impunemente, tudo o que lhes passar pelas cabeças. A coragem truculenta que agora manifesta a desafiar os poderes da República, teria sido bonito que a tivesse posto ao serviço da luta pelas liberdades democráticas antes de 1974 – mas não, isso «era perigoso»! Esteve na Câmara Corporativa, parece que andou pelas instâncias dirigentes da Mocidade Portuguesa, mas nunca militou em qualquer movimento democrático, por mais conservador que fosse. A «córagem» (como ele diz) só lhe chegou quando a liberdade, conquistada por «cubanos», «bastardos» e «f.d.p.», lho permitiu. Na minha modesta opinião, quem tem feito a celebridade da personagem são os jornalistas – fala-se demasiado de uma pessoa que não tem importância específica. Tem a importância que amigos e, sobretudo, adversários, lhe conferem. De certo modo, assumiu a espessura e a dimensão de um mito. Põem-no com insistência a opinar sobre os mais diversos temas – estava na Madeira quando, em Agosto de 1991, se deu o golpe de Estado contra Gorbatchov que desencadeou o desmantelamento da União Soviética que viria a consumar-se em Dezembro, logo apareceu a criatura a debitar sobre a transcendência do acontecimento, com o ar ridículo que compõe sempre que quer parecer um político convencional.
Porque é que, na minha opinião, o senhor Jardim não é um palhaço? Vou tentar explicar o que é, quanto a mim, um palhaço. O britânico Charlie Chaplin (1889-1977) foi talvez o mais colossal dos palhaços. Homem de grande cultura e inteligência, um dos maiores génios criativos do século XX – clown e actor por antonomásia, excepcional realizador, talentoso compositor musical; Oleg Popov (1930), o palhaço russo que foi considerado o «maior do mundo»; Charles Rivel (1896-1983), o inesquecível clown catalão – quem, tendo-o visto, poderá esquecer o seu épico conflito com uma simples cadeira; os Anhucas e Augustos portugueses, que deliciaram gerações de crianças e não só, no Coliseu dos Recreios, no Coliseu do Porto e por outros chapitôs do País… Estes, e muitos outros, são para mim os palhaços. Adoro os palhaços, pois só um artista com um grande coração e com uma grande sensibilidade escolhe uma tão difícil carreira. Como pôde Daniel Oliveira comparar gente tão excelente a uma criatura que só não envergonha a classe política, porque vergonha é coisa que tal classe não tem (salvo honrosas excepções)? Bem sei que o jornalista especificou que falava de um «palhaço rico» e os grandes palhaços são quase sempre palhaços pobres.
Mesmo assim, acho que os palhaços, os pobres e os ricos, deviam ter processado Daniel Oliveira por terem sido comparados a Jardim ou, pelo menos, como são gente bondosa, deviam ter exigido um pedido de desculpa.

G8-Min.Finanças de 13-06-2009: a crise continua

Hoje chegou a oportunidade de exprimir opiniões sobre a reunião e o documento emitido pelos Ministros das Finanças do G8, reunidos em Lecce, Itália, no passado dia 13 de Junho, http://www.g8.utoronto.ca/finance/fm090613.pdf.

O argumento central, usado no documento, é de que “há sinais de estabilização nas nossas economias, incluindo a recuperação das bolsas, um declínio dos ‘spreads’ das taxas de juro, melhoria nos negócios e na confiança dos consumidores”; porém, logo de seguida adverte: “mas permanece a incerteza e significativos riscos subsistem para a estabilidade económica e financeira”. Com estas palavras, e depois da leitura integral do texto, fico céptico quanto à possibilidade de se vencer a crise nos tempos mais próximos. Ainda mais porque, ao longo do documento, os Ministros de Finanças repetem uma série de intenções que já tinham sido manifestadas pelo G20 e as quais, ao que se percebe, ainda se encontram por concretizar. Sobretudo, as medidas de regulação a nível global, das quais é objectivo essencial a concretização de políticas de extinção ou, pelo menos, de rigoroso controlo dos fluxos financeiros de e para os paraísos fiscais.

Deixando, por ora, a tão debatida política nacional, é penoso saber pelo G8 que o desemprego poderá continuar a aumentar. Para mim, só se iniciará recuperação quando os populosos exércitos dos chamados ‘cadáveres da economia’ começarem a ser consistentemente ressuscitados, em vez de aumentados. Os sinais de estabilização referidos pelo G8 não me suscitam confiança nesse sentido. Sobretudo porque, em contrapartida às intenções, há realidades inquietantes: mais 532.000 desempregados em Maio nos EUA; o PIB do Reino Unido manter-se-á negativo durante 2009 (e de outros países também, segundo a OCDE); a GM vai mesmo falir e será a maior falência da história económica norte-americana; os lucros da banca em Espanha caíram mais de 20% no 1.º trimestre e houve nova subida no crédito mal parado. E fico por aqui.

À semelhança do que se diz dos chapéus, intenções há muitas e uma delas preocupa-me: confiar no FMI como actor crucial para vencer a crise. Se o Fundo Monetário Internacional prosseguir as políticas de sempre, baseadas em parte no pressuposto estafado de que os mercados, só por si, geram eficiência (Joseph Stiglitz), sentiremos na economia real que os resultados não reflectirão os presságios do texto dos Ministros das Finanças do G8. De facto, sem mudanças globais a nível das políticas e das acções do FMI, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio, a mera estabilização das economias, que se situa muito aquém da recuperação, não passará de uma miragem.

Por último uma observação: se a União Europeia continuar a falar – e a falhar – a diversas vozes, Portugal, já de si depauperado, não parará de se vergar à crise. Veremos os episódios seguintes. Oxalá esteja a ser pessimista.   

Falando de democracia: Sobre homofobia (II)

(primeira parte aqui)

Um par de pessoas do mesmo sexo deve ter os mesmos direitos perante a Lei que um casal heterossexual, o que não significa que seja igual. A diferença biológica é evidente e determinante – casamento é entre pessoas de sexos diferentes. A união entre pessoas do mesmo sexo, devendo, por razões óbvias, ser contemplada no plano jurídico, não é um matrimónio; será um acordo, um pacto social, o que se queira, desde que salvaguarde os legítimos interesses dessas duas pessoas. Sobretudo não concordo que casais de homossexuais tenham o direito de adoptar crianças. As crianças (cujos direitos devem estar acima de tudo), elas sim, têm direito a ter um pai e uma mãe, não dois pais ou duas mães ou, o que é mais grave e mais provável, duas pessoas que não são, em duplicado, nem uma coisa nem outra. As crianças devem ser protegidas e pô-las a viver sob a tutela de duas pessoas que, pese embora a pureza dos seus sentimentos e a bondade das suas intenções, têm uma orientação sexual que não é a que a Natureza impõe, é, perante seres que absorvem tudo o que apreendem do ambiente em seu redor, uma boa maneira de fazer proselitismo da homossexualidade, mesmo que não seja essa a intenção. E não me venham com sentimentos «maternais» ou «paternais». Se querem derramar o excedente de afecto que lhes fica da sua relação, adoptem um cão. Considero a questão do casamento entre gays de somenos importância, discordo, mas nada me incomoda que tal lei seja aprovada, no que diz respeito à adopção de crianças, penso que estes governos (PS ou PSD) podem aprovar o que entenderem. Não têm é o direito de brincar com o futuro das crianças, por mais votos que isso lhes traga.
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Em suma, não nos devemos nunca esquecer que gays e lésbicas, tal como as testemunhas de Jeová ou os democratas-cristãos, pertencendo a grupos minoritários, não são seres anómalos ou perversos e, por isso, não devem ser discriminados, muito menos perseguidos. O direito à diferença (em matéria de crença religiosa, de opção política ou de orientação sexual) é inalienável. Porém, não queiram impor às maiorias os interesses de uma minoria. Devemos respeitar sempre as minorias. A menos que essas minorias, considerando-se detentoras de verdades absolutas, se queiram transformar em líderes e condutoras das maiorias. E isso está errado e não pode aceitar-se, quer se esteja a falar de elites fascistas, de seitas fundamentalistas ou de lobies de gays. A democracia deve imperar sempre, em todas as circunstâncias, protegendo as minorias de maiorias despóticas e as maiorias de minorias iluminadas. A democracia, na versão em que a conhecemos, vem tolerando tudo, aceitando tudo, mesmo o que sendo anti-democrático constitui um perigo para a essência do sistema. Mais do que benevolência e tolerância, que são sentimentos louváveis, parece-me que se deve falar de laxismo.
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Do meu ponto de vista, a homossexualidade, não é um problema, mas apenas uma maneira de viver o sexo que tem de ser democraticamente respeitada. Gastar tempo e energia a discuti-la, parece-me ocioso, tanto mais que há problemas autênticos – a miséria, as doenças, o ensino deficiente que temos, as políticas de saúde e de cultura que não temos. É lamentável que haja movimentos políticos de esquerda que dediquem tanto dos seus pequenos caudais de energia a causas tão fúteis – será para obterem votos? Desiludam-se, na altura de votar, tirando os tais activistas, os homossexuais (como, aliás, é perfeitamente natural) dispersam-se, como os outros cidadãos, pelo leque eleitoral, votando maioritariamente nos partidos do chamado «bloco central». Porque insisto, e aqui, quanto a mim, reside o cerne da questão, os homossexuais são cidadãos de pleno direito, com os mesmos deveres e privilégios dos outros cidadãos – não faz sentido a criação de leis específicas para questões de orientação sexual, tal como não faria que as criassem para cada confissão religiosa (como algumas seitas reclamam). Orientações confessionais ou sexuais pertencem ao foro íntimo, não devendo ser alegadas para que um cidadão se exima de obrigações ou usufrua de um tratamento diferenciado. A beleza da Democracia reside precisamente na igualdade de todos perante a Lei, a par de um profundo respeito pelas diferenças de cada um.
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O que aqui fica dito não pretende ser uma abordagem profunda do tema – que já está abundantemente feita por clínicos, juristas, teólogos, sociólogos… – é um desabafo de um cidadão que se preza de nunca ter feito discriminações, fossem elas de género, étnicas, religiosas ou atinentes à sexualidade de cada um. Não sou, portanto, homofilofóbico. Recomendo aos activistas dos movimentos de gays e lésbicas que, por sua vez, não sejam homofóbicos – por favor, integrai-vos democraticamente na grande família do homo sapiens!

Falando de democracia: Sobre a homofobia (I)

Hoje em dia, uma das preocupações de quem quer estar politicamente correcto (e de bem com a «democracia» que temos) é a de não ser considerado homofóbico. O termo é relativamente recente, datando de 1971 e terá sido inventado pelo psiquiatra norte-americano George Weinberg, aparecendo pela primeira vez na sua obra Society and the Helthy Homosexual (1972). O raciocínio para a construção do neologismo foi linear = homo+fobia, homo de homossexual e fobia, do grego phobos (aversão, receio, nevrose obsessiva contra algo). Porém trata-se de uma construção apressada, feita com uma impaciência tipicamente ianque. Senão vejamos.
A palavra homo tem duas acepções principais: pode ser um prefixo e um elemento de composição de palavras científicas, indicando semelhança, igualdade, identidade, como por exemplo, no campo da botânica, se diz que um capítulo é homogâmico. O adjectivo significa que as flores que constituem o capítulo são hermafroditas e semelhantes. Numa acepção mais corrente, homo é um substantivo masculino da área da Antropologia e significa o género da família Hominidae, género representado pelo homem actual, ou seja, a espécie humana. Portanto, à letra, teríamos homofobia = aversão à espécie humana. Não era, por certo, esta a ideia de Weinberg. O que se quer dizer com homofóbico é que se trata de alguém que tem aversão a gays e lésbicas. Disseram-me que o termo correcto seria um complicado palavrão: homofilofóbico, ou seja, aversão ao que gosta do igual – Homofóbico é um disparate, embora eu tema que, tal como outros que por aí circulam, tenha vindo para ficar. Mas não é um erro muito importante, desde que saibamos do que estamos a falar. Porque mais do que analisar o termo filologicamente, importa abordar o seu conteúdo conceptual – ser ou não ser contra os homossexuais, eis a questão – isso, sim, é importante.
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Não sou contra (nem a favor) dos homossexuais enquanto tal. Desde cedo me habituei a não perguntar aos amigos ou às amigas qual a sua orientação sexual. Sempre me interessou o que as pessoas pensam, como pensam, como utilizam a sua inteligência e nunca a sua sexualidade serviu de base à avaliação que delas faço, isto embora tenha sido educado no pressuposto de que a homossexualidade é uma aberração, uma doença, uma perversão. Numa época em que os homossexuais viviam na clandestinidade, bati-me contra preconceitos estúpidos, nunca esperando viver até a um tempo em que, contra a muralha de betão erguida pelas convenções sociais, se erguesse uma outra, talvez feita de flores criptogâmicas, mas igualmente imbecil – aquela que os lobies da comunidade gay laboriosamente constroem, pretendendo criar novos preconceitos e instaurar uma nova ordem sexual dentro da qual é crime, ou pelo menos é censurável e démodé, ser hetero. Com a idade, deixei de ter paciência para fundamentalismos, venham eles de onde vierem.
Há mais vida para além do sexo, embora haja quem não aceite essa realidade – a orientação sexual não define totalmente a pessoa, sendo apenas uma pequena parcela do todo que ela constitui. Diz-se que Leonardo da Vinci era homossexual. Sandro Botticelli não o seria. Se eram uma coisa ou outra, o que tem mais importância, as suas opções sexuais ou a sua genialidade como artistas? O que nos ficou destes dois mestres florentinos do Quattrocento não foi o rasto da sua sexualidade, fosse ela homo ou hetero, mas sim as suas obras. Quando nos extasiamos ante A Virgem dos Rochedos, do Leonardo, ou perante A Primavera, do Sandro, o que nos interessa a sua orientação sexual?

Na realidade, existiu e ainda existe discriminação. É impossível negá-lo, sendo repugnante a boçalidade com que os homossexuais são muitas vezes tratados e igualmente odiosa a parafernália de termos, de anedotas, de ditos pretensamente espirituosos que lhes são dirigidos. Porém, alguns dos activistas e militantes dos movimentos de gays e lésbicas têm a sua quota de responsabilidade na discriminação de que são alvo ao construírem o negativo do molde em que tais boçalidades se vazam e forjam. Por exemplo, a «marcha de orgulho gay» é um espectáculo feito para incomodar e chocar o inimigo, a maioria hetero. O resultado., ao ser um espectáculo tão boçal e repugnante como as invectivas tradicionais, é justificar a continuação da injustificável discriminação. A mim incomoda-me não porque me choque, mas porque é, na minha opinião, uma exibição deprimente, um puro acto de provocação, vazio de conteúdo. Orgulho em quê? Ninguém deve ter orgulho em ser hetero ou homossexual – uma coisa ou outra são circunstâncias biológicas ou educacionais, não são privilégios ou estigmas e, muito menos, coisas com que as pessoas se devam orgulhar ou envergonhar. Movimentos de homossexuais? São tão necessários quanto movimentos de apreciadores de vinho tinto (e pensando bem, são ainda menos necessários). Falo por mim: adoro vinho tinto e limito-me a bebê-lo, sempre com moderação, por causa da idade, e se possível de boa qualidade – mas nunca perderia tempo a militar num movimento «pró-tintol» que pretendesse, por exemplo, que se pudesse conduzir sob o efeito do precioso néctar.
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Nem só os activistas gay são responsáveis – a má consciência de quem herdou uma cultura de discriminação violenta (a «democrática preocupação do politicamente correcto») leva gente honesta e sabedora a bater-se por causas sem sentido como a do casamento entre pessoas do mesmo sexo. O casamento é uma instituição que, fora os aspectos jurídicos, meramente contratuais, está em crise. Nunca houve tantos divórcios. Mas os homossexuais querem ter direito a casar e há quem gaste tempo e argumentação a discutir o tema. O casamento tem como objectivo primeiro a procriação. Essa é a fundamentação original, embora depois possam ter surgido outras razões, nomeadamente as de carácter afectivo1. Numa luta pela extinção do casamento alinho já, mas perder tempo a defender que um casal gay possa unir-se sob a bênção de um clérigo ou numa conservatória do registo civil, é coisa que nunca farei. Se querem que as fotografias da boda venham nas «revistas do coração», destinadas a débeis mentais (heteros e não), não precisam de nenhuma lei específica – o direito à idiotice está aí para ser «democraticamente» usufruído. O romantismo de uma união amorosa não pode ser reduzido a meia dúzia de clichés de gosto duvidoso, grinaldas, marchas nupciais, arroz… – ou é algo que vive nos corações de quem compartilha esse sentimento ou é mera e pirosa exibição. Para mim, isto é válido tanto para «heteros» como para «homos». Dou um exemplo pessoal: quando me casei, a minha mulher era ainda menor (tinha 20 anos) e a mãe exigiu que ela fosse «fardada» de noiva. Ou era assim ou só havia casamento quando a pequena atingisse a maioridade, disse ditatorialmente a senhora. Então (como bom democrata) coloquei duas hipóteses: ou eu vestia um pijama durante a cerimónia ou, em alternativa, não haveria fotografias. A minha sogra optou por que não houvesse fotografias. Recentemente, ao fazer investigação para escrever uma pequena biografia do grande filólogo Manuel Rodrigues Lapa, soube que, tendo casado cerca de quarenta anos antes, teve, em situação similar, uma atitude muito semelhante à minha.

Falando de democracia: Um eléctrico chamado socialismo (II)

(primeira parte aqui)

Esta cadeia de acasos da vida apontada por José Ricardo Costa que, por certo, não é exaustiva e se queda pela superfície, pela nata dos nomes conhecidos, este sistema endogâmico, como muito bem diz, a política de casamentos como a nobreza feudal praticava, faz que a elite governante, seja quais forem os resultados eleitorais, nunca mude no que é essencial – mudam e trocam-se alguns nomes, mas a nova aristocracia vai cimentando o seu poder. O «bloco central» não é uma figura de estilo, ou uma «invenção de esquerdalhos ressabiados», como já ouvi dizer. Existe, funciona, faz complicadas operações de engenharia financeira (trafulhices, simplifica o nosso bom povo); por exemplo quando um membro da tribo administra um banco vende acções a baixos preços, sabendo que o seu valor vai subir no dia seguinte, fazendo-o ganhar legalmente centenas de milhares de euros de um dia para o outro (favor que o beneficiado não deixará de pagar na primeira ocasião que se apresente, pois uma das regras do jogo é a não haver almoços grátis); os membros da tribo arranjam cargos e bons empregos uns aos outros, na vida académica amparam-se mutuamente, e quando algum deles ou um familiar tem problemas com a Justiça, logo aparecem os amigos a dar uma mão. É gentinha medíocre, de ideais rasteiros e patrimónios elevados, mas está aí para ficar. Governa, sobe aos mais altos lugares do Estado e desce às mais baixas alfurjas das negociatas obscuras. Não se chamam Bourbons, Habsburgos ou Braganças, têm nomes vulgares, iguais aos de toda a gente, são filhos, não de condes ou de duques, mas de gente comum, com profissões ou negócios comuns, mas usam as mesmas artimanhas dos condes e dos duques, incluindo a política de casamentos. Tráfico de influências? Nepotismo? Não, que ideia, apenas boas relações entre familiares e amigos, mesmo que pertençam a partidos rivais. O fair play prevalece.
A endogamia, termo que na acepção mais próxima da tese de José Ricardo Costa, significa casamento dentro da própria família, tribo, classe ou entre habitantes dum povoado ou região, foi amplamente praticada entre as famílias nobres não só na Idade Média, como na Idade Moderna, chegando mesmo até aos nossos dias nas relativamente numerosas monarquias que subsistem em nações europeias. Sem cair no pormenor, pode dizer-se que em várias épocas e situações, famílias, irmãos, primos, filhos e pais, ocuparam tronos, guerrearam-se entre si, provocaram milhares de mortos, terríveis devastações entre os súbditos. Muitas vezes, depois destas hecatombes horrorosas, passando por cima dos cadáveres e das ruínas, selavam a paz com beijos e abraços, tratando-se por «querido irmão», «amado primo», «meu bondoso pai». Bem sei que aqui em Portugal não estamos a falar de Bourbons ou de Habsburgos, mas sim de gente com linhagens menos ilustres. O que importa salientar é a técnica e a táctica, tão semelhantes. Perguntarão? E só em Portugal é assim? Claro que não. Veja-se o caso de Itália, país com uma democracia com mais de seis décadas, com um nível cultural e económico mais elevado do que o nosso, onde um mafioso truão é, em 2008, democraticamente eleito primeiro-ministro pela quarta vez. De origens humildes, imagem típica do self-made man, é dono de uma das quinze maiores fortunas do mundo. Só há uma diferença – ele não diz que é socialista nem que quer transformar a sociedade…
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«Sistema daqueles que querem transformar a sociedade pela incorporação dos meios de produção na comunidade» (…) «pela repartição, entre todos, do trabalho comum e dos objectos de consumo». O meu querido e saudoso amigo José Pedro Machado enganou-se rotundamente na sua definição ou então estava a falar de outro socialismo. O filólogo brasileiro, sendo menos ambicioso, aproximou-se mais da realidade «conjunto de doutrinas de fundo humanitário que visam reformar a sociedade capitalista para diminuir um pouco das suas desigualdades». Está mais próximo, embora a redução das desigualdades diminua muito pouco, tão pouco que às vezes nem se nota que haja alguma redução. As doutrinas de fundo humanitário são, de facto, um péssimo motor para o socialismo.
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Continuando a usar a metáfora inspirada na bela peça de Tennessee Williams, aonde nos levará este eléctrico chamado socialismo? Não há muitas dúvidas – o eléctrico cor-de-rosa do socialismo transportar-nos-á ao mesmo lugar onde nos levaria o machimbombo cor-de-laranja do PSD (levaria, não, levará, porque a viagem será feita por troços – eléctrico, machimbombo, eléctrico…) até à estação terminus – a entrega total da soberania, do direito de gerirmos os nossos recursos, a centros de poder e decisão «comunitários», localizados, por mero acaso, em Berlim e Francoforte, em Paris, Bruxelas ou Estrasburgo… A aristocracia indígena embolsará o produto da venda e os felás e felaínas (nós) mal nos aperceberemos do que se passou. Perda da independência? Não, que ideia. Eles abrirão e fecharão fábricas quando e como quiserem, dirão como devemos organizar a nossa economia, as nossas vidas, o que devemos comprar, quanto devemos pescar, o que poderemos semear… Mas a selecção nacional de futebol, a bandeira e o hino, símbolos maiores da independência nacional, talvez não nos estejam vedados.
Nem sei porque me preocupo.

Falando de democracia: Um eléctrico chamado socialismo (I)

Socialismo? Façamos no nosso tranvia de palavras construído, uma breve viagem pelo termo. É um vocábulo sobre o qual se podem escrever (e têm escrito) milhares de páginas, teses e tratados com numerosos volumes. Vamos tentar brevíssimas definições de dicionário – Peguei em dois, no de José Pedro Machado e no de Antônio Houaiss. O primeiro é muito sucinto: «substantivo masculino. Sistema daqueles que querem transformar a sociedade pela incorporação dos meios de produção na comunidade» (…) «pela repartição, entre todos, do trabalho comum e dos objectos de consumo». A definição de Houaiss é muito mais extensa, por isso vou ficar-me pela primeira acepção – «conjunto de doutrinas de fundo humanitário que visam reformar a sociedade capitalista para diminuir um pouco das suas desigualdades». A definição de José Pedro Machado reflecte mais a matriz marxista do termo e o seu longevo lugar na genealogia do socialismo utópico, enquanto a de Houaiss (aquela que eu perversamente escolhi), se aproxima mais da realidade, da praxis dos partidos socialistas actuais – gosto sobretudo da expressão «doutrinas de fundo humanitário», porque me faz lembrar as senhoras da Caritas a distribuir latas de leite condensado pelos pobrezinhos.
Nestas crónicas, a «memória das palavras», como diria o José Gomes Ferreira, assume papel relevante. Revisitando mais uma vez o passado, volto às «Questões e Alternativas», revista de que já vos falei. Publiquei no seu primeiro número, de Março de 1984, um artigo com o mesmo título que escolhi para a presente crónica. Naquela primeira metade da década de 80, a avançada socialista na Europa era impressionante: em 1981, François Miterrand vencia as eleições em França; Em 1983, Andreas Papandreu, Felipe González e Mário Soares ganhavam também as eleições nos seus países. Em Itália, o Partido Socialista Italiano ganhava posições. No que se refere a França, enquanto a União Soviética manifestava preocupação pela derrota de Giscard d’Estaing, Reagan endereçava calorosas felicitações a Miterrand… Nestes 25 anos decorridos, o eléctrico chamado socialismo, qual metro de superfície, percorreu rapidamente alguma da distância que ainda lhe faltava para se assumir como força do centro-direita e como campeão do neo-liberalismo económico. Os socialistas ficam sempre muito irritados quando os acusamos de, com o PSD, terem tecido uma sólida teia de interesses. Há pessoas que, quer o seu partido esteja no Governo ou na Oposição, têm os interesses, os cargos garantidos (os «tachos», como diz, simplificando, o nosso bom povo). Mas será isto uma calúnia?
*
Há dias recebi por e-mail uma mensagem muito interessante escrita pelo professor José Ricardo Costa. «A Idade das Trevas», foi o título dado. Com a devida vénia, transcrevo alguns excertos, resumindo o restante. Diz ele que ao ajudar o filho a preparar um teste de História e ao estudar a Idade Média, em que «a nobreza vivia fechada sobre si própria», usufruindo dos privilégios que criava, recordou que os nobres «relacionavam-se entre si, casavam-se entre si, frequentavam os mesmos castelos, participavam nas mesmas festas e banquetes». E José Ricardo Costa chega à conclusão, curiosa no mínimo, de que em Portugal, há décadas dominado pelo PS e pelo PSD, se verifica uma feudalização da sociedade, bem como uma organização cada vez mais endogâmica. E passa a explicar que um bom exemplo dessa endogamia «é o casamento entre a filha de Dias Loureiro, amigo íntimo de Jorge Coelho, e o filho de Ferro Rodrigues, amigo íntimo de Paulo Pedroso, irmão do advogado que realizou a estúpida investigação para o Ministério da Educação e amigo de Edite Estrela que é prima direita de António José Morais, o professor de José Sócrates na Independente, cuja biografia foi apresentada por Dias Loureiro, e que foi assessor de Armando Vara, licenciado pela Independente, administrador da Caixa Geral de Depósitos e do BCP, que é amigo íntimo de José Sócrates, líder do partido a que está ligada a magistrada Cândida Almeida, directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, que está a investigar o caso Freeport, caso onde se tem evidenciado um presidente da Eurojust de seu nome Lopes Mota que, por um acaso da vida, auxiliou essa indefectível democrata e defensora do poder local chamada Fátima Felgueiras. Felizmente que este país tem como ministro da Justiça um Alberto Costa que, a não se aquela questão das pressões sobre um juiz em Macau, há cerca de 20 anos, pouco ou nada tem feito.» (…) «Talvez isto ajude a explicar o que se passa com a Justiça, a Economia, a Educação» …(e eu acrescento e com a Saúde, e com a Cultura, etc.). José Ricardo Costa termina perguntando «se haverá gente em Portugal a beneficiar com a degradação da escola pública?» Uma pergunta retórica, claro. Perante esta densa teia de «coincidências», só me lembro do «lugar-comum» inventado pelo excelente poeta e jornalista que era Eduardo Guerra Carneiro – «isto anda tudo ligado».
(continua)

Falando de democracia: O iberismo

A ideia de uma Península Ibérica unida politicamente não é nova. Não falando nos episódios históricos remotos em que ora Portugal, ora Castela, se tentavam mutuamente devorar, através de artimanhas, como a política de casamentos entre descendentes das linhas dinásticas ou de acções militares, episódios que tiveram o seu auge quando, entre 1580 e 1640, três reis de Castela e Aragão juntaram à sua coroa dual a de Portugal, reportando-nos a tempos mais recentes, o ideal do Iberismo tem feito correr tinta e dado que falar. Vejamos.
Personalidades como Antero de Quental, Ana de Castro Osório, Latino Coelho, Sampaio Bruno, Teófilo Braga, entre os portugueses, manifestaram, de uma maneira ou de outra, a sua simpatia por essa união. Do lado castelhano, refere-se quase sempre o mesmo nome – Miguel de Unamuno, o grande escritor e pensador nascido no País Basco, mas indubitavelmente um homem da cultura castelhana, reitor da Universidade de Salamanca no conturbado ano de 1936 em que a Espanha iria mergulhar na maior tragédia da sua história. Na Catalunha, a ideia colheu mais adeptos, destacando-se o grande poeta e filósofo Joan Maragall, o lusófilo Ignasi Ribera i Rovira, Francesc Pi i Margall, presidente da Primeira República Espanhola, em 1873. Mais recentemente ainda, portugueses como Miguel Torga, Fernando Lopes-Graça, António Lobo Antunes, Eduardo Lourenço, José Saramago, entre outros, têm manifestado a sua simpatia por essa união que, olhando para o mapa da Europa, faz sentido. Falamos de uma união política, para concretização da qual seria necessário articular instrumentos constitucionais, limar arestas culturais, varrer preconceitos e desconfianças mútuos. Teófilo Braga chegou a planificar as bases de uma Federação Ibérica, dentro da qual a Espanha teria de aceitar condições sine qua non: passar a ser uma República, dividir-se em estados autónomos aos quais Portugal se juntaria. Lisboa seria a capital dessa Federação Ibérica. Ana de Castro Osório via a união a três – «Catalunha, Castela, Portugal…Quem pudesse dar-lhes a autonomia que ambicionam os catalães e sem a qual hão-de estar sempre vexados e com razão!» Esta ideia das três entidades – Portugal, Castela e Catalunha, esquecendo a Galiza e o País Basco, enformava quase todas as teses iberistas do princípio do século XX, incluindo as de Unamuno, Ribera i Rovira, Maragall, Antero e Teófilo Braga. A ideia prevalecente era a de uma Federação de estados autónomos em quase todos os aspectos, com centros de decisão comuns – a política externa, por exemplo. E a tinta começou a correr.
Em 1906, Joan Maragall, em artigo publicado no Diario de Barcelona, defendia o ideal do federalismo ibérico. Mais perto de nós, em 1963, o escritor catalão Agustì Calvet i Pasqual, que assinava os trabalhos jornalísticos como Gaziel, escrevia no La Vanguardia, também de Barcelona, que «Poucas vezes a insensatez humana terá estabelecido uma divisão mais falsa» (do que a das fronteiras peninsulares) «Nem a geografia, nem a etnografia nem a economia justificam esta brutal mutilação de um território único». Nestes mesmos anos 60 do século passado em que Gaziel publicava o seu texto, um grupo de jovens ibéricos criou um Círculo de Cultura Íbero-Americano, com objectivos confessadamente culturais e inconfessadamente políticos. Fiz parte desse grupo. Éramos meia dúzia de portugueses, gente de Lisboa, do Porto e de Vila Real, alguns catalães e maiorquinos, um escritor castelhano de Ciudad Real, um ou outro sul-americano. Elemento comum: todos vivíamos sob ditaduras e o ansiarmos pela Democracia fazia-nos aceitar uma solução em que o ideal democrático estivesse envolvido. Fizemos reuniões, publicámos livros, estávamos a preparar um boletim multilingue, quando a PIDE acabou com a festa, prendendo um de nós, o que centralizava os contactos. Em Barcelona, houve também pelo menos uma prisão, a de um escritor catalão que a nós estava ligado. Não digo nomes, pois não sei se os outros elementos do grupo querem, ou quereriam (alguns já não são vivos), que se saiba que foram iberistas. Eu assumo que o fui. Na época, as federações pareciam funcionar bem – Jugoslávia, Checoslováquia, União Soviética… – e se era bom para eles, com culturas, línguas e até com religiões diferentes, também não podia ser mau para nós . Depois desta sumária descrição do que tem sido o Iberismo e da confissão de que já fui um iberista convicto, vem a parte dramática deste texto e que se refere a um iberismo mais recente. Nestes casos, talvez seja melhor falarmos de iberismo integracionista.
Em entrevista concedida à agência Lusa , em Novembro do ano passado, Arturo Pérez-Reverte , escritor espanhol que muito admiro, defendeu a existência de uma Ibéria, um país único, sem fronteiras que separem Espanha e Portugal, porque, na sua opinião, é «um absurdo» que os dois países vivam «tão desconhecidos um do outro». Segundo ele, «há uma Ibéria indiscutível que está entre os Pirenéus e o estreito de Gibraltar, com comida, raça, costumes, história em comum e as fronteiras são completamente artificiais”, Para Pérez-Reverte, o maior erro histórico de Filipe II, no século XVI, foi não ter escolhido Lisboa como capital do império: “Teria sido mais justo haver uma Ibéria, e a história do mundo teria sido diferente”. O escritor disse ainda que essa Ibéria não existe hoje administrativamente, mas “qualquer espanhol que venha a Portugal sente-se em casa e qualquer português que vá a Espanha sente o mesmo”. “Houve dificuldades históricas que nos separaram, mas a Ibéria existe. Não é um mito de Saramago, nem dos historiadores romanos. É uma realidade incontestável” que precisa de um empurrão social e não político para concretizar o projecto, disse. O mundo de hoje “é um lugar de grandes mudanças sociais”. “Esse Ocidente pacífico, sereno, poderoso, com uma certa coerência cultural e social do século XX não poderá continuar. O Ocidente como o entendemos está na sua etapa final”, disse. Transcrevi aqui grande parte da entrevista cuja leitura, há uns meses atrás, me preocupou, pois julgava que o interesse dos nossos vizinhos em nos anexar fosse coisa do passado, morta e enterrada. Mas há pior.
Em entrevista concedida ao Diário de Notícias em Julho de 2007, o grande escritor José Saramago defendia, por outras palavras, a mesma coisa – a integração de Portugal em Espanha: «Não vale a pena armar-me em profeta, mas acho que acabaremos por integrar-nos», dizendo depois que não seria uma integração cultural e dando o exemplo da Catalunha: «A Catalunha tem a sua própria cultura, que é ao mesmo tempo comum ao resto de Espanha, tal como a dos bascos e a galega, nós não nos converteríamos em espanhóis.» Porém, mais adiante, o jornalista pergunta se Portugal seria mais uma província de Espanha e Saramago responde: «Seria isso. Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza, Castilla-La Mancha e tínhamos Portugal. Provavelmente (Espanha) teria de mudar de nome e passar a chamar-se Ibéria.» E os portugueses aceitariam a integração? – quis saber o jornalista: «Acho que sim, desde que isso fosse explicado». Porque sou um profundo admirador da obra de Saramago, não transcrevo toda a entrevista que, na minha modestíssima opinião, contem afirmações que, espelhando o sentimento do autor de A Jangada de Pedra, não reflectem o que sobre o assunto pensa a maioria dos portugueses.
Temos aqui duas opiniões coincidentes. Mais coerente a de Pérez-Reverte que gostaria de ver o estado espanhol aumentado do que a de Saramago, que tendo nascido em Portugal, quer ver o seu país desaparecer na panela em que há mais de cinco séculos Isabel e Fernando começaram a cozinhar as anexações das nações vizinhas. Misturados com a Andaluzia e com Castilla-La Mancha, territórios que obviamente têm a sua cultura própria, formas dialectais de se exprimir em castelhano, mas que nunca tiveram autonomia política e,
qu
e se saiba, nunca a quiseram ter – salvo bizarras reivindicações que já vi pintadas em graffiti pela Andaluzia e até em Madrid, exigindo estes a autonomia de Castela! – Naturalmente que estas reivindicações, aparentemente sem sentido, desacreditam aos olhos da opinião pública as que o têm. Os exemplos da Galiza, da Catalunha e do País Basco são obviamente diferentes, pois são nações submetidas e aculturadas. Tudo aquilo que nós, os Portugueses que amam o seu país, não queremos que nos aconteça. E este amor não é flor de retórica, requebro de sentimento fadista ou saudosismo de descobrimentos, de esplendores passados – é o genuíno orgulho de pertencer a um povo que desde há séculos está desfasado das vanguardas culturais da Europa, mas que, com todas as imperfeições que acompanham a sua história de nove séculos, tem logrado manter o seu território, a sua língua, os seus valores culturais e a sua independência. Somos um dos estados mais antigos do mundo – o estatuto autonómico de Castilla-La Mancha? Não, obrigado.
Ficou-nos, aos europeus do século XIX, talvez relacionada com a matriz do Romantismo, a ânsia dos grandes impérios, das grandes óperas, dos grandes amores, dos magnicídios e dos suicídios espectaculares. A unificação da Itália, a da Alemanha, sob a hegemonia prussiana, a cavalgada do Império Russo na conquista das nações circundantes, são exemplos dessa ânsia de grandeza que as elites contrapunham ao populismo das ideias igualitárias do socialismo nascente, para essas elites, redutoras da grandeza histórica a que julgavam ter direito. Il gattopardo, a grande obra de Lampedusa, dá-nos um magistral fresco desse contraste de mentalidades – o ruralismo áspero da Sicília sendo afogado pela refinada cultura aristocrática ou a ela se sobrepondo, enquanto em pano de fundo a gesta unificadora de Garibaldi corria ao som das óperas de Verdi. Os intelectuais portugueses e catalães não ficaram imunes a essa tentação de grandeza, vendo os últimos na unificação peninsular uma forma de serem autónomos sem grande esforço ou sacrifício – como diria Lampedusa, de mudar alguma coisa para que tudo ficasse na mesma.
Elucidativamente, a ideia federalista nunca colheu muitos adeptos em Castela e a única voz que, mais recentemente, na língua de Cervantes a apoiou, foi a de Unamuno, sendo que o autor de O Sentimento Trágico da Vida era um basco. Porém, como vimos, nunca se falou em integração, mas sim em federação. Pérez-Reverte e José Saramago, falam em integração, nem mais nem menos e Saramago, sublinha que Portugal teria o privilégio de obter um estatuto igual a Castilla-La Mancha e à Andaluzia. Durante estes seis ou sete meses que passaram sobre a entrevista a Pérez-Reverte, tenho andado a remoer esta mágoa – a de que dois escritores que admiro – um deles português e detentor do único Nobel que um país de língua portuguesa alguma vez ganhou – defendam a integração de Portugal num Estado estrangeiro, isto é, que desapareça enquanto entidade nacional. Nem Pérez-Reverte, nem Saramago explicam como é que essa tal Espanha aumentada ou Ibéria, seria governada – por uma monarquia? Por uma República? Adoro todos os países aglutinados no estado espanhol, estudei castelhano e um pouco de catalão, sobretudo com o objectivo de ler obras que na época não eram traduzidas em português. O galego não foi necessário estudar e para o basco não tive coragem. Pode dizer-se que tudo me encanta na chamada Espanha – as gentes, as paisagens, as cidades, os monumentos, as comidas, as literaturas, as artes, tudo. Tudo, menos a monarquia. Sou republicano convicto, penso que a maioria dos portugueses o é também, e teríamos aí já um problema de monta – esses Bourbons, que não quero qualificar (pode alguma criança vir a ler este texto) nem pensar em tê-los como chefes de Estado. Lembro apenas que Don Juan Carlos, enquanto o caudilho viveu, foi submissamente manipulado pela galaica criatura. Parece-me ridículo, no século XXI, haver quem se considere e seja considerado «ungido por Deus» e com o direito de estar à frente de uma Nação. E que seus filhos e netos, mesmo que sejam atrasados mentais, tenham o mesmo direito. Quando os vejo nas revistas «do coração» ao lado de play-boys, de jogadores de futebol e suas namoradas, de actrizes de telenovela, numa palavra, do chamado jet set, dá-me vontade de rir e espanto-me por Saramago e Pérez-Reverte aceitarem coisa tão risível como normal.
Estamos na União Europeia, com decisões importantes para as nossas vidas a serem tomadas, não nos nossos pseudo-centros de poder, mas nas instâncias comunitárias, em Bruxelas, em Estrasburgo. Perdemos a moeda nacional, somos obrigados a falar inglês, a língua franca dos nossos dias. Não nos faltava mais nada do que, a pouca independência que nos resta fosse alienada. Isto porque a Espanha continua a querer ser Una y grande, como pretendia o caudilho. Quer bater o pé à França, à Alemanha, à Itália e ao Reino Unido. Que faça tudo isso, mas sem os nossos onze milhões de pessoas e os cerca de noventa mil quilómetros quadrados do território (amputado da nossa Olivença, roubo que a cobardia da diplomacia portuguesa mantém fora da agenda política). Oxalá o murciano Pérez-Reverte e o português Saramago sejam tão maus profetas quanto são excelentes, extraordinários escritores. Só temos um prémio Nobel da Literatura e mesmo assim querem que fiquemos sem ele.

No pasarán!

Falando de democracia: Enquanto não somos deuses

Há 24 anos, em 1985, numa revista ligada a um grupo não-alinhado (relativamente aos partidos portugueses e também aos blocos político-militares), no nº. 4 das Questões e Alternativas, publiquei um texto com este título, do qual extraio excertos e a que fiz correcções de pormenor:
«Poderá dizer-se que a democracia começou mal, que já no seu berço da Antiga Grécia continha os estigmas que iria transportar ao longo de dois milénios e meio e que iriam chegar quase intactos até aos nossos dias. Com efeito, a democracia ateniense não abrangia nem os escravos nem as mulheres, não impondo também uma divisão equitativa da riqueza entre os cidadãos. No rescaldo da grande fogueira de 1789, a escravatura foi sendo abolida na maioria dos países europeus, embora quase nunca em obediência a um límpido sentimento de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. As mulheres, ainda que, sobretudo nas últimas décadas, tenham avançado muito na sua luta de libertação, continuam, mesmo quando a letra da lei lhes confere todas os direitos e garantias outorgados aos cidadãos em geral, a ser consideradas cidadãs de segunda. Sobre a divisão da riqueza no ocidental paraíso das democracias parlamentares, é melhor nem falarmos. Democracia – autoridade do povo; de que povo?
Nunca, em parte alguma, a não ser no território imaginário das utopias, se ouviu falar de democracia integral – sempre os governos supostamente democráticos se deixaram manchar por desigualdades sociais ou de género, por segregações étnicas, por marginalizações inomináveis. Quando mesmo, não serviram de capa ou ornamento a terríveis tiranias. Será que a verdadeira democracia é inatingível? Será que Jean-Jacques Rousseau tinha razão quando disse: «Se formos a considerar o termo na acepção mais rigorosa, nunca houve verdadeira democracia, nem nunca existirá.» (…) «Seria inconcebível estar o povo a reunir constantemente para tratar da coisa pública». (…) «Se houvesse um povo de deuses, ele se governaria democraticamente. Um governo tão aperfeiçoado não convém aos humanos».
Na realidade, a democracia directa, enquanto participação de todos os cidadãos nas tarefas do Governo, só era concebível dentro das exíguas dimensões geográficas das cidades gregas onde o estatuto de cidadão era atribuído com parcimónia. Ao querer transpor para espaços maiores, os senados, os parlamentos, foram a maneira que se encontrou para ultrapassar a impossibilidade de «estar o povo a reunir-se constantemente para tratar da coisa pública». Porém, também a respeito da solução do parlamentarismo, Jean-Jacques Rousseau se pronunciou cepticamente: «O povo inglês, crê-se livre e bem se engana; só o é enquanto dura a eleição dos membros do Parlamento; assim que estes são eleitos, é um escravo, não é coisa alguma» (…) «A ideia dos representantes é moderna; vem-nos do governo feudal» (…) «Nas antigas repúblicas, nunca o povo teve representantes; era uma palavra desconhecida» (…)» Logo que um povo se atribui representantes, deixa de ser livre; mais, deixa de ser.» (…)
Estas considerações de Rousseau sobre o parlamentarismo permanecem muito actuais . Terminado o período eleitoral em que todas as promessas se fazem, o deputado esquece-se que teoricamente só é Poder através do mandato dos seus eleitores, passando a ser um dócil peão que o secretário-geral do seu partido movimenta no tabuleiro político conforme melhor entende. E, no entanto, sente-se investido de uma indiscutível autoridade. (…) Tito de Morais, no seu discurso do 25 de Abril de 84, afirmava que se a engenharia é matéria de engenheiros, a saúde da competência dos médicos e a Igreja da responsabilidade dos sacerdotes, a política, por sua parte, é assunto de que só os políticos se devem ocupar.»
(…) «Máximo Gorki disse que o importante é que o homem se vá afastando do animal. Talvez que, num futuro certamente distante, mercê da engenharia genética ou do que em seguida vier nessa área, os seres humanos se demarquem e distanciem da cadeia evolucionária animal e constituam, de certo modo, o povo de deuses que Rousseau considerava como único destinatário de uma verdadeira democracia. O saber e a informação generalizados podem ajudar a essa mutação. Mas enquanto não somos deuses, estaremos condenados a totalitarismos assumidos ou à pobre alternativa de democracias onde os partidos e a classe política substituem com eficaz hipocrisia a despótica, inflexível e omnipresente autoridade do Grande Irmão?»

*
O restante do texto é muito datado e, fazendo algum sentido em 1985, seria hoje pouco mais do que irrelevante, pelo que optei por não o reproduzir (mas existe e pode ser consultado por quem tiver curiosidade de o conhecer na sua versão original). Os vinte e quatro anos que decorreram sobre a publicação destas palavras foram férteis em modificações: o socialismo real, como alternativa ao capitalismo, esfumou-se; o islamismo emergiu como mais uma ameaça a juntar-se à da guerra nuclear , a expansão das novas tecnologias – internet, telemóvel, CDs e DVDs, a controversa integração europeia, o fenómeno da globalização, positivo em princípio, mas com muitos efeitos perversos, não esquecendo a falência do não-alinhamento, ideal que enformava a revista e o grupo que a editava, e, finalmente, uma nova crise do capitalismo, transformaram o mundo em que vivemos em algo de impensável, mesmo para os futurologistas de há duas décadas e meia. Vivemos num mundo diferente, que, exceptuando um ou outro avanço e melhoria (por exemplo, no que se refere à condição feminina, deram-se passos importantes no sentido de acertar a realidade pela legislação), podemos considerar pior, mais degradado, sobretudo em termos éticos.
Pode dizer-se que vivemos numa versão empobrecida da democracia onde monstros do passado, tal como a miséria e a repressão, sobrevivem. Como diz Saramago, «não progredimos, retrocedemos». E, neste particular da repressão, nem sequer estou a falar de Guantánamo e das torturas infligidas aos alegados terroristas islâmicos, onde a criatividade norte-americana mais não fez do que ressuscitar velhos métodos da Inquisição. Por exemplo, a touca que se aplicava a judeus e a judaizantes, aparece ali com o nome de waterboarding. O que, ao assumir uma designação que nos leva a pensar num qualquer desporto radical, branqueia, de certo modo, a monstruosidade do procedimento.
Numa sociedade em que a Liberdade vai sendo devorada pelas «liberdades», a repressão é exercida pela permanente ameaça da marginalidade. O lado negro, ou seja, os monstros criados pela sociedade capitalista, pela exclusão social, pela xenofobia, pela intolerância religiosa, aí estão sob a forma de carjacking, na versão moderada, e de assassínio em massa, passando por assaltos, limpezas étnicas, sequestros, violações… Terroristas, islâmicos ou não, marginais vindos dos subterrâneos que subjazem sob as resplandecentes catedrais do consumo, tarados de todas as espécies, incluindo violadores e pedófilos, aí temos ao dispor um vasto e aterrador bestiário. Fugindo destes monstros criados pela sociedade capitalista, vamos refugiar-nos onde? Obviamente, nos braços salvadores do capitalismo. É com um cenário dantesco como fundo, que os parlamentos dos chamados «regimes democráticos» continuam a proceder como se tudo decorresse normalmente, um pouco como os dois jogadores de xadrez de que nos fala Fernando Pessoa, pela voz de Ricardo Reis, que continuavam a jogar «o seu jogo contínuo» enquanto a cidade ardia, as crianças eram assassinadas, as mulheres violadas… O sistema parlamentar é anacrónico e disfuncional, tal como o são os sindicatos e os partidos. Na era da informática, continuamos a usar instrumentos políticos que nos vêm da Revolução Francesa e do tempo da máquina a vapor. E neste labirinto de anacronismos e de aberrações, onde fica a Democracia? Percorrendo este dédalo criado pelos cérebros d
oe
ntes que nos dirigem desde há muito tempo, será a Democracia que nos espera? Não creio que os nossos filhos, os nossos netos estejam a caminhar para a Democracia. Levados nas asas do consumismo, o caminho que percorrem, com a ilusão de quem está a desbravar uma selva virgem, irão dar não ao prado resplandecente do Eden, mas sim ao velho sótão onde se arrumam todos os detritos que a História tem vindo a acumular.
Não estou, portanto, a falar de aprofundar o estudo da democracia que temos e que se perde na espiral descendente de corrupção, clientelas, contas em offshores, em exibições mediáticas, em tudo o que constitui o circo a que diariamente assistimos. Esta «democracia» não justifica o esforço de ser aprofundada. Falo de reinventar uma Democracia com que sonhamos há séculos, mas que não temos. Porque a democracia tem de ser permanentemente reinventada. Enquanto não somos deuses, teremos de percorrer, com a imaginação e a audácia de quem necessita de inventar o futuro, o caminho até uma Democracia luminosa, autêntica e que esteja, de facto, ao nosso alcance.

O caso Beltrónica

Há dois dias, publiquei um «post» com o título «O Banco Efisa, a Beltrónica e o ex-Secretário de Estado do PS». Ontem, no Blasfémias, Carlos Abreu Amorim perguntava-se se seria verdade.
Soube deste caso quando navegava pela net em busca das «ligações perigosas» de «figuras gradas» do PS com a Banca, nomeadamente o BPN e o BPP. A certa altura, deparei-me com o blogue «Mistura Grossa», escrito por Fernando Rocha, alguém que dá a cara e o nome e que é funcionário da Direcção-Geral das Contribuições e Impostos.

Testamento vital (II)

 

Com os votos favoráveis do PS (excepto de Matilde de Sousa Franco) e PCP, a AR aprovou ontem a lei do testamento vital.

O resultado foi o previsto, mas, dada a complexidade do assunto que ontem aqui foquei, subscrevo a posição do BE expressa por João Semedo, que, saliente-se, é médico. Com efeito, ele acusa o PS de ter fugido ao debate sobre a eutanásia.

A Dra. Maria de Belém e o PS usaram da arrogância da ‘maioria absoluta’, furtando o tema à discussão pública e ao parecer de agentes cruciais em matéria de cuidados de saúde. Pode ser legítimo, mas não deixa de ser lamentável e muito pouco democrático legislar desta forma sobre a escolha antecipada entre a vida e a morte – Parlamento aprova testamento vital – TSF.

Dia Um, Ano Primeiro

Aqui posto de comando
Do movimento das Forças Armadas

De súbito, a manhã ficou mais clara:
uma ave luminosa invadira o tempo,
rasgando com as asas a cortina brumosa,
a toalha de pus, a cirrose do medo.
De repente, tudo assumiu outro sentido
na poalha dourada da luz amanhecente
com os soldados, os tanques, os comunicados,
com as espingardas floridas e com a gente.
O silêncio derramou das suas feridas
um rio de fogo que destruiu as mordaças
e um grito colectivo de raiva e esperança
inundou as ruas, as praças e as avenidas.
Um hálito de futuro as percorreu;
uma inscrição floresceu vitoriosa
sobre a pedra musgosa de um velho muro
como um murro nos dentes da opressão.
A criminosa apatia que por tantos anos
nos enevoara o gesto e sufocara a voz
esfumava-se na rosa evanescente da alvorada
e surgia agora transformada em canção.

Um mundo de intermináveis corredores,
de cárceres, de tortura, exílio e morte
diluía-se no ácido subtil desta alegria,
que ocupara a cidade, o país e todos nós.
Pela noite, enquanto quase todos dormiam
eclodira a soleira, o limiar de um novo tempo:
o assassínio, a fome e a ignorância
pareciam já só uma recordação pungente.
Os milhões de cérebros violentados
por décadas de estupidez e crueldade
pareciam ser produto da nossa imaginação
ou ter existido apenas num pesadelo atroz.
Adormecêramos velhos, ciciantes e derrotados,
acordávamos jovens, iluminados e vitoriosos
e isso deixava-nos atónitos e boquiabertos,
cegados pela luz feroz da liberdade.
Falo do instante, do momento feito de horas
em que o tempo se suspendeu solene
enquanto se esvaía a noite da repressão
e a manhã clara nascia, incandescente.

Não falo do tempo em que, hesitantes,
procurávamos a bússola, o sextante, a vela
para navegar Abril, para sulcar o oceano
que o coração do povo abria generoso à Revolução.
Falo, sim, do momento em que o chacal
se escondeu, amedrontado, no fundo do covil,
espiando-nos a esperança, sonhando anoitecê-la
em setembros e marços de ódio e de vingança.
(Nas nossas mãos espreitavam já talvez
as garras de dilacerar revoluções e matar sonhos,
dentro de muitos de nós despontavam sementes
de outras novas e cinzentas servidões).
A luz atravessou o prisma de cristal da vida
e explodiu em mil cintilações de cor
perfumando o pulmão dos velhos medos
com um seta de amor, um estilhaço de sol…
Desse momento falo, do instante breve e puro
em que o Paraíso pareceu estar à mão dos nossos dedos;
não, não é do passado que vos falo – juro,
pois foi no futuro que Abril aconteceu.

(Do livro O Cárcere e o Prado Luminoso)

Crónica de um país cinzento


Era uma vez um país cinzento onde nada acontecia… Ou melhor, as coisas e as pessoas aconteciam e nasciam, mas logo que acabavam de acontecer e de nascer, a cor era-lhes retirada, tudo passava a ser cinzento como nos noticiários da televisão da época. Até que…
 
3.25: ALEA JACTA EST:
MÓNACO, MÉXICO E TÓQUIO SÃO OCUPADOS
 
Na Rua Rodrigo da Fonseca, em Lisboa, na esquina com a Sampaio Pina, perto do Liceu Maria Amália, há um café-restaurante chamado «Pisca-Pisca». É quase meia-noite do dia 24 de Abril de 1974. Uma noite fria e ventosa, apesar da Primavera. Um grupo de cinco clientes entra no estabelecimento onde as cadeiras estão já arrumadas sobre as mesas. Pedem cafés. Um deles pergunta a um empregado se vão fechar.
– Claro, diz o homem – amanhã é dia de trabalho!
– Se calhar não vai ser – responde o freguês. – E, olhe, no futuro até vai ser feriado!
O empregado olha surpreendido aqueles clientes tardios e com um sentido de humor tão estranho. Se reparasse que apesar dos casacos diferentes, todos vestem calças, meias e sapatos iguais, ainda ficaria mais surpreendido.
São jovens, pouco mais de trinta anos os mais velhos, e estão excitadamente alegres. Com alguns outros, estiveram até agora fechados nos seus automóveis desde as nove da noite, suportando o vento fresco do alto do Parque Eduardo VII. São o 10º Grupo de Comandos. Às 22.55, nos rádios dos carros, sintonizados para os Emissores Associados de Lisboa, a voz do locutor João Paulo Diniz anunciou o Paulo de Carvalho na canção do Eurofestival «E Depois do Adeus» e provocou-lhes esta excitação de felicidade. Preparam-se para assaltar o Rádio Clube Português, na Rua Sampaio Pina, e para o transformar no emissor do posto de comando do Movimento das Forças Armadas.
À meia-noite e vinte, na Rádio Renascença, a voz de Zeca Afonso irrompe com a «Grândola, Vila Morena». É o segundo sinal. O MFA está em marcha, já nada o pode travar.
Na EPA, Escola Prática de Artilharia, de Vendas Novas, o coronel que comanda a unidade é preso no seu gabinete por um grupo de capitães e tenentes. A central telefónica e a central rádio são ocupadas, as entradas do quartel colocadas sob controlo.
Na EPAM, Escola Prática de Administração Militar, no Lumiar, em Lisboa, os capitães e subalternos preparam-se, com as forças sob o seu comando, para se dirigirem para ali perto, para a Alameda das Linhas de Torres, e ocupar os estúdios da Radiotelevisão Portuguesa.
Do Batalhão de Caçadores 5, em Campolide, sai uma coluna apeada para reforçar o comando de assalto ao Rádio Clube Português, que os tardios clientes do «Pisca-Pisca» e os seus companheiros ocuparam já.
Do Campo de Tiro da Serra da Carregueira (CTSC), pouco depois das 2.00 sai uma coluna motorizada para ocupar a Emissora Nacional, na Rua do Quelhas, em Lisboa.
Entre as 3.15 e as 3.25 da madrugada de 25, ao posto de comando, instalado no Regimento de Engenharia 1, na Pontinha, onde o major Otelo Saraiva de Carvalho coordena as operações, chegam sucessivamente as mensagens de que Mónaco, México e Tóquio foram tomados. São os nomes de código para a Radiotelevisão Portuguesa, para o Rádio Clube Português e para a Emissora Nacional. Os capitães sabem que a guerra da informação é fundamental ser ganha. Por isso, deram prioridade aos objectivos que lhes irão permitir dominar as comunicações e ter o controlo da informação.
 
CAI NOVA IORQUE
 
Tudo está a correr de acordo com a ordem de operações. Todas as forças vão atingindo os seus objectivos. A coluna do Regimento de Infantaria 10, de Aveiro, chega junto dos portões do Regimento de Artilharia Pesada, da Figueira da Foz, às 3.40. O comandante é preso. Aguarda-se a chegada das forças do CICA 2, também da Figueira, e do Regimento de Infantaria 14, de Viseu. É o agrupamento Norte que, depois de concentrado, se dirigirá aos seus alvos, controlando um segmento da fronteira com Espanha, ocupando o Forte de Peniche, a Pide/DGS do Porto… Outras forças correm para outros objectivos: quartéis da Legião Portuguesa, unidades da GNR e da PSP, as fronteiras mais próximas, as antenas de rádio… Tudo corre bem. No posto de comando, na Pontinha, apenas uma preocupação: o aeroporto da Portela ainda não foi tomado. A Escola Prática de Infantaria (EPI), de Mafra, deveria ali ter chegado à hora H (às 3.00) para tomar a torre de controlo, ocupar as pistas, interditando a descolagem e aterragem de aviões. Terá corrido mal alguma coisa? Finalmente, às 4,20 recebe-se uma comunicação:
– Nova Iorque, conquistada e controlada!
O aeroporto de Lisboa está em poder da Revolução!
 
AQUI POSTO DE COMANDO…
 
Às 4,26 o Rádio Clube Português emite o primeiro comunicado. Joaquim Furtado lê pausada e solenemente:
«Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas.
As Forças Armadas portuguesas apelam a todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas, nas quais se devem conservar com a máxima calma. Esperamos sinceramente que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal, para o que apelamos para o bom senso dos comandos das forças militarizadas, no sentido de serem evitados quaisquer confrontos com as Forças Armadas. Tal confronto, além de desnecessário, só poderá conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os Portugueses, o que há que evitar a todo o custo. Não obstante a expressa preocupação de não fazer correr a mínima gota de sangue de qualquer português, apelamos para o espírito cívico e profissional da classe médica, esperando a sua acorrência aos hospitais, a fim de prestar a sua eventual colaboração, que se deseja, sinceramente, desnecessária».
Segue-se A Portuguesa e, depois, marchas militares.
 
SINAL VERMELHO É PARA AVANÇAR

Entretanto, às 3.30, a porta de armas da Escola Prática de Cavalaria (EPC), de Santarém, fora atravessada por dez viaturas blindadas, doze de transporte, duas ambulâncias, um jipe e uma viatura civil de exploração à frente da coluna comandada pelo capitão Salgueiro Maia. Objectivo principal: Toledo ou, descodificando, o Terreiro do Paço e os seus ministérios.
As viaturas atravessam a lezíria sem impedimento. Chegam à auto-estrada e, procurando recuperar o atraso com que tinham saído da unidade, vêm a grande velocidade. Chegam à portagem da auto-estrada do Norte às 5.30, saem da 2ª Circular para o Campo Grande. Em duas horas, a coluna percorreu 90 quilómetros, o que é uma grande velocidade para as autometralhadoras. Salgueiro Maia ouve num dos rádios um carro-patrulha da PSP a informar o seu Comando da passagem da coluna, impressionado com o número de autometralhadoras. Mas passemos a palavra ao comandante Maia: «Enquanto ouvia estas informações, o jipe trava de repente e dou comigo parado no sinal vermelho do cruzamento da Cidade Universitária. Olho para o lado e vejo um autocarro da Carris também parado. Achei que era de mais parar a Revolução ao sinal vermelho, quando o que distinguia os carros do MFA era um triângulo vermelho no lado esquerdo das viaturas ou tapando a matrícula. Mando avançar tocando as sirenes das autometralhadoras EBR até chegar ao Terreiro do Paço».
Às 6.00 a coluna atinge finalmente Toledo, o coração do regime! Os carros de combate cercam os ministérios, a divisão da PSP aquartelada no Governo Civil, a Câmara Municipal, a Marconi e o Banco de Portugal. No centro da praça uma Chaimite e uma autometralhadora EBR, com o jipe do comandante, constituem o posto de comando e a força de intervenção de Salgueiro Maia. A primeira parte da sua missão é cumprida com êxito – chega ao seu
o
bjectivo antes de ser dado o alarme geral. Charlie Oito, ou seja, Salgueiro Maia, comunica a Tigre, ou seja, a Otelo:
– Ocupámos Toledo e controlamos Bruxelas e Viena (Banco de Portugal e Rádio Marconi)!
Entretanto, os comunicados vão-se sucedendo na rádio. Às 4.45, aconselha-se às forças militarizadas e policiais que recolham aos seus quartéis e aí aguardem as ordens que o MFA lhes transmita. Às 5.15 sobe o tom e adverte-se as forças repressivas do regime que serão severamente responsabilizadas caso enveredem pela luta armada. Às 5.45, num comunicado mais extenso reforça-se o que foi dito nos anteriores, e apela-se para o civismo de todos os portugueses no sentido de ser evitado qualquer confronto armado. Nos intervalos, cantam José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Jorge Letria, Francisco Fanhais, Luís Cília, José Mário Branco. Os Portugueses adormeceram cinzentos e escravos num país cinzento onde nada acontecia. A madrugada vai-se enchendo de sons e de cores. Os Portugueses acordam noutro país. Um país onde tudo acontece.
 
UMA ESTRELA DO MFA VITORIOSO
 
A partir da chegada da coluna de Salgueiro Maia ao centro físico do poder político, a acção deste capitão confunde-se com a história do próprio 25 de Abril. É óbvio que ao mesmo tempo, em Lisboa e no País, ocorrem factos, o MFA cumpre objectivos, a Revolução assume o controlo. Porém ali, entre o nascer do dia e o meio da tarde, verificam-se os acontecimentos centrais do 25 de Abril. Se Otelo é o estratega, o cérebro da operação, Salgueiro Maia é o seu braço mais importante. Diz Otelo («Alvorada em Abril»): Salgueiro Maia iria ser o comandante das forças do Movimento mais sujeito a situações de perigo e de tensão ao longo do dia 25. O número de homens que tem sob o seu comando e o potencial bélico de que dispõe permitem-lhe, todavia, encarar com certo optimismo as situações de responsabilidade que se lhe vão deparando e sendo resolvidas e que farão concentrar sobre ele e as forças da EPC as preocupações do posto de comando e as atenções e o carinho das massas populares que, a partir do Terreiro do Paço, não mais deixarão de o acompanhar e aos seus homens, guindando desde logo o jovem capitão às culminâncias de primeira estrela do MFA vitorioso».
 
ALGUMAS NUVENS

Porém, sobre esta estrela rutilante algumas nuvens se vão acastelando.
Os guardiães do regime começam a acordar no meio daquilo que, para eles, é um verdadeiro pesadelo. Desde as 3.30 que, no Porto, o comandante da PSP local telefona para o Comando da GNR a informar sobre a tomada do Quartel General da Região Militar pelos revoltosos. A partir deste primeiro alarme, as comunicações sucedem-se por todo o País. Até que, pelas 5.00, Silva Pais, director-geral da PIDE, telefona a Marcelo Caetano:
– Senhor Presidente, a Revolução está na rua!
É então que se decide que o chefe do Governo se deve acolher ao quartel do Carmo.
É surpreendente que um regime ditatorial, com uma experiência de repressão de quase cinco décadas e em cujas estruturas os militares tinham um peso tão significativo, estivesse afinal tão mal preparado para resistir a um golpe militar. Em todo o caso, algumas medidas foram sendo tomadas. Assim, pouco depois das 6.00 chega ao Terreiro do Paço um pelotão de AML/Chaimites pertencente ao Regimento de Cavalaria 7, comandado por um alferes miliciano que às primeiras palavras de Salgueiro Maia adere ao Movimento. O mesmo acontece a dois pelotões de Lanceiros 2. No Ministério do Exército, o ministro e outros elementos do Governo estão reunidos de emergência para fazer face à rebelião. Ao verem que as forças que vão sendo enviadas para os proteger vão aderindo à Revolução, os valorosos cabos de guerra encontram uma única saída para a situação: abrem à picareta um buraco na parede e, passando para a biblioteca do Ministério da Marinha, dão às de vila-diogo!
No Atlântico, a fragata Almirante Gago Coutinho, integrada numa esquadra da NATO, participa no exercício «Dawn Patrol». Recebe ordens para abandonar as manobras, entrar no Tejo e abrir fogo sobre as forças insurrectas que ocupam o Terreiro do Paço. Cerca das 9.00 a silhueta esguia da fragata surge diante do centro de Lisboa. Uma bateria da Escola Prática de Artilharia, de Torres Novas, segue em Londres , ou seja no morro do Cristo-Rei de Almada, os movimentos do navio. Porém sabe-se que o elevado poder de fogo do vaso de guerra pode causar grandes estragos. Tigre ordena a Charlie Oito que proteja o pessoal e os blindados, metendo o que for possível sob as arcadas da praça. O comandante Vítor Crespo consegue que seja anulada a ordem e que a fragata acabe por ir fundear, cerca do meio-dia, em frente ao Alfeite.
Quando Salgueiro Maia e o posto de comando ainda estão a suspirar de alívio por ter passado a ameaça da Gago Coutinho, surgem cinco carros de combate M/47 de Cavalaria 7 seguidos de atiradores do Regimento de Infantaria 1, da Amadora, e alguns soldados da PM de Lanceiros 2. Um brigadeiro comanda a coluna. Salgueiro Maia, de braços erguidos, agitando um lenço branco, tenta o diálogo, mas o brigadeiro não aceita encontrar-se com ele a meio caminho. Dá ordem a um alferes que abra fogo. O jovem não obedece. Irado, o brigadeiro, repete a ordem directamente aos apontadores dos carros e aos atiradores de infantaria. Salgueiro Maia está a descoberto debaixo da mira das torres dos blindados e das espingardas dos atiradores. Nem as tripulações dos carros nem os outros soldados obedecem. Dando vozes de prisão a torto e a direito, disparando para o ar, o brigadeiro salta do carro e desaparece. Toda a coluna fica sob as ordens do capitão Maia.
 
RUMO AO CARMO

Antes do meio-dia, pelo posto de comando, Salgueiro Maia é informado de que Marcelo Caetano está no Carmo. Deixando forças a guardar os ministérios, avança para lá. Quando entra no Rossio, aparece-lhe pela frente uma coluna militar com uma companhia de atiradores que o Governo enviara para fazer frente aos revoltosos. O Capitão salta do seu jipe e vai perguntar ao comandante da coluna o que está ali a fazer. É-lhe respondido que tem ordens para o prender, mas que está com a Revolução. E também esta coluna é integrada nas forças que avançam para o Carmo.
As edições especiais dos jornais começam a circular. O Rossio, a Rua do Carmo, todo o percurso, está cheio de populares que vitoriam os soldados. Os cravos vermelhos começam a ser enfiados nos canos das G-3. É cerca de 12,30. Diz o capitão: «No Carmo, ao chegar houve desde senhoras a abrir portas e janelas para colocar os homens nas posições dominantes sobre o Quartel, até ao simples espectador que enrouquecia a cantar o Hino Nacional. O ambiente que lá se viveu não tem descrição, pois foi de tal maneira belo que depois dele nada de mais digno pode acontecer na vida de uma pessoa».
Após a intimação para que a guarnição se renda e entregue Marcelo Caetano, não sendo obedecido, Maia recebe ordem do posto de comando para abrir fogo sobre o edifício. Porém, ele sabe que as granadas explosivas das autometralhadoras num largo apinhado de gente irão provocar centenas de mortes. Manda disparar armas automáticas para a parte superior do Quartel .
Entra uma primeira vez dentro do edifício, mas não consegue a rendição. Entra uma segunda vez e exige falar com o Presidente do Conselho. Numa antecâmara, Rui Patrício chora como uma criança e Moreira Baptista olha, ausente, o infinito. Deixemos que ele nos descreva o seu diálogo com Marcelo Caetano:
«Marcelo estava pálido, barba por fazer, gravata desapertada, mas digno.
Fiz-lhe a continência da praxe e disse-lhe que queria a rendição formal e imediata. Declarou-me já se ter rendido ao Sr. General Spínola, pelo telefone, e só aguardava a chegada deste para lhe transferir o Poder, para que o mesmo não caísse na rua! Estive para lhe dizer que estava lá fora o Poder no povo e que este estava na rua. Declarou es

perar que o tratassem com a dignidade com que sempre tinha vivido e perguntou o que ia ser feito dele. Declarei que certamente seria tratado com dignidade, mas não sabia para onde iria, pois isso não me competia a mim decidir. Perguntou a quem competia. Declarei que a «Óscar». Perguntou quem era «Óscar». Declarei ser a Comissão Coordenadora. Perguntou-me quem eram os chefes. Declarei serem vários oficiais, incluindo alguns generais, isto para que ele não ficasse mal impressionado por a Revolução ser feita essencialmente por capitães.
Perguntou-me ainda o que ia ser feito do Ultramar. Declarei-lhe que a solução para a guerra seria obtida por conversações. Toda esta conversa, tida a sós, teve por fundo o barulho do povo a cantar o Hino Nacional e o Está na hora».
Depois, pouco antes das 18.00, chega Spínola, que embora tenha dito a Marcelo nada ter a ver com o Movimento, rapidamente assume ares de «dono da guerra», no dizer de Salgueiro Maia. Às 19,30, Marcelo, Moreira Baptista e Rui Patrício entram numa viatura blindada que encostou a traseira à porta de armas do Quartel. Na confusão que se estabelece, com a multidão a gritar «assassinos!», e com os militares a proteger os homens do regime da ira popular, Henrique Tenreiro que deveria também seguir preso no transporte blindado, mistura-se com os populares e escapa-se, gozando mais umas horas de liberdade.
Após a rendição de Marcelo Caetano e a sua saída do Quartel, pode dizer-se que a Revolução estava ganha, embora, ali perto, na Rua António Maria Cardoso, os agentes da PIDE, encurralados como feras dentro da sua sede, disparassem das janelas, matando cinco pessoas. As únicas mortes verificadas durante o 25 de Abril.
A noite iria ser longa. Muita coisa iria passar-se até que nos ecrãs da televisão os Portugueses tivessem ocasião de ver a Junta de Salvação Nacional, com uns senhores empertigados, com um vago ar de golpistas sul-americanos, viessem, armados em «donos da guerra», ditar as leis de uma Revolução para a qual nada tinham contribuído, deixando na sombra os jovens oficiais que, como Salgueiro Maia, tudo tinham feito, que tudo tinham arriscado.
 
E DEPOIS, O ADEUS

Naquele dia do princípio de Abril de 1992, no cemitério de Castelo de Vide, quatro presidentes da República (António de Spínola, Costa Gomes, Ramalho Eanes e Mário Soares), vêem descer à terra num modesto caixão o corpo de um dos homens que mais contribuiu para que tivessem podido ascender à mais alta magistratura da Nação. No dia 4, Fernando Salgueiro Maia fora vencido pela doença. «O gajo ganhou», dissera ele a um oficial da EPC, referindo-se ao cancro quando se convenceu do carácter terminal da sua doença.
Quem é este homem, vencedor de batalhas, de revoluções, que agora desce à terra, em campa rasa, ao som do «Grândola, Vila Morena»?
Nasce ali, em Castelo de Vide, em 1 de Julho de 1944. Muito novo, fica órfão de mãe. Faz os estudos primários em São Torcato, Coruche, e os secundários no Colégio Nun’Álvares de Tomar e no Liceu Nacional de Leiria. Em 1964, ingressa na Academia Militar.
«Filho de uma família de ferroviários, é a situação de guerra nas colónias que me permite o acesso à Academia Militar, pois o conflito fez perder as vocações habituais, e assim a instituição foi obrigada a abrir as suas portas», diz-nos ele em «Capitão de Abril». Dois anos depois, apresenta-se na Escola Prática de Cavalaria. Depois, a guerra.
Porém, tudo se pode resumir a uma breve legenda: Salgueiro Maia, soldado português que à frente de 240 homens e com dez carros de combate da EPC avançou em 25 de Abril de 1974 sobre Lisboa, ocupou o Terreiro do Paço levando os ministros de um regime ditatorial de quase 50 anos a fugir como coelhos assustados, cercou o Quartel do Carmo obrigando Marcelo Caetano a render-se e a demitir-se. Atingiu o posto de tenente-coronel, recusou cargos de poder. É o mais puro símbolo da coragem e da generosidade dos capitães de Abril.
E quase tudo terá ficado dito.
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Nota: Este texto foi elaborado com base em diversos depoimentos de intervenientes no 25 de Abril. Entre estes destacamos o livro de Salgueiro Maia «Capitão de Abril», editado pela Editorial de Notícias e a 4ª edição de «Alvorada em Abril», de Otelo Saraiva de Carvalho, também da mesma editora.