Nos 80 anos do nascimento do José Afonso (Fim)

(continuação daqui)

NÃO ME ARREPENDO DE NADA DO QUE FIZ

Em 1982 revelam-se os primeiros sintomas da doença degenerativa que o virá a vitimar. Em Janeiro de 1983 actua no Coliseu dos Recreios, num espectáculo em que colaboram, entre outros, Fausto, Júlio Pereira, Janita Salomé… Durante esta actuação, é já visível a dificuldade de Zeca em exibir plenamente os seus dotes de grande executante. Em Dezembro, sai o álbum Como Se Fora Seu Filho, em que colaboram Fausto, José Mário Branco, Janita Salomé e Júlio Pereira. Em Abril de 1984 presta um depoimento à revista Questões e Alternativas: «Penso que, após o 25 de Abril, devia ter havido uma prática pedagógica de exercício da democracia. As populações deveriam experimentar, directamente, quais são as possibilidades de inserção na realidade, de a transformar. Essa, para mim, é a forma mais sã de exercer a democracia. O voto de quando em quando, após 50 anos de obscurantismo, é uma coisa para especialistas em demagogia. Até porque os deputados não estão na Assembleia para resolver os problemas mais imediatos do povo, mas para cumprir desideratos políticos.»

Em 1985 Sai o álbum Galinhas do Mato. Já muito doente, apoia a campanha presidencial de Maria de Lourdes Pintasilgo em 1986. Em 1987, às três da madrugada de 23 de Fevereiro, no Hospital de São Bernardo, em Setúbal, José Afonso morre, vítima da esclerose lateral amiotrófica diagnosticada cinco anos antes. No funeral, realizado no dia seguinte, um longo cortejo de 30 mil pessoas, trabalhadores na sua maioria, segue-o até ao cemitério da Senhora da Piedade, em Setúbal.
Após a sua morte, o seu nome é dado a numerosas artérias por cidades, vilas e aldeias do País. Em Novembro, é criada a Associação José Afonso, que desde então promove sessões e iniciativas de divulgação da obra do grande músico, cantor e poeta. No ano de 1994, o Presidente da República, Mário Soares, procura condecorar postumamente José Afonso com a Ordem da Liberdade. Tal como Zeca fizera a igual proposta de Ramalho Eanes, sua esposa Zélia recusa a condecoração. Em 23 de Fevereiro de 1997, é inaugurado na Baixa da Banheira um monumento a José Afonso, da autoria do escultor Lagoa Henriques. Em Grândola, nas comemorações do 25º aniversário da Revolução, em 1999, foi também construído um monumento em sua homenagem da autoria do escultor António Trindade. Também nos anos 90, um outro monumento, este da autoria de Francisco Simões, foi edificado no Parque Central da cidade da Amadora. Este município instituiu um Prémio José Afonso da Música Popular, atribuído anualmente.

«Não me arrependo de nada do que fiz», escreve José Afonso, acrescentando «Mais, sou aquilo que fiz. Embora com reservas, acreditava suficientemente no que estava fazendo, e isso é que fica. Quando a gente pára, há uma espécie de pacto implícito com o inimigo, tanto no campo político, como no campo estético e cultural. E, às vezes, o inimigo é nós mesmos, a nossa própria consciência e as desculpas de que nos servimos para justificar a modorra e o abandono dos campos de luta».
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Nota
Na execução deste texto utilizei, além de notas de José Afonso, nomeadamente as de carácter autobiográfico e as que insere em Cantares, excertos do prefácio de Manuel Simões a este livro, do depoimento que Zeca deu aos cadernos Questões e Alternativas, e, finalmente, do texto de Miguel Mora, publicado no diário El País (edição de 9 de Agosto de 2007 – Grândola – faro del 25 de Abril). Em 1967, fui, com Manuel Simões e Júlio Estudante, um dos promotores das duas primeiras edições de Cantares, embora só depois do 25 de Abril tenhamos encetado uma relação pessoal de amizade. Sei que o Zeca detestaria que sobre ele se escrevessem textos demasiado formais, que se usasse a tal «prosa de notário». Por isso, dispensei o recurso às habituais notas de pé de página – as tais que Umberto Eco diz serem boas «para pagar dívidas». Com esta única nota, tento pagar a dívida de gratidão para com o Zeca e para com os autores aqui referidos.

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